                     At que a vida nos separe

Zbia gaspareto.


         Tudo estava pronto para a grande cerimnia daquela noite. Aps muitos anos de
dedicao e sacrifcio, Paulo ia, finalmente,ser
         reconhecido por seu trabalho. Seu pai, Hermnio, resolvera se aposentar e passara a
presidncia da empresa ao filho, e encomendara
         uma bonita festa para comemorar a ocasio.
         Hermnio, desde cedo, dedicara-se ao ramo dos transportes. Comeou fazendo
pequenas viagens com um caminho alugado e, aos
         poucos, foi progredindo, at que pde comprar seu prprio caminho. Com o tempo
e muita economia, foi juntando dinheiro
         e adquirindo outros veculos, at que conseguiu uma frota invejvel, transportando
cargas por todo o Pas. Os negcios prosperaram
         rapidamente, e Hermnio e a mulher, Dulce, viram sua vida mudar e logo passaram
a fazer parte da alta sociedade carioca.
         Quando os filhos nasceram, sua felicidade foi completa. Paulo, o mais velho, logo
se interessou pelos negcios do pai e
         formou-se em administrao de empresas, estando apto a seguir os passos paternos.
A filha, Mariana, cedo casou-se com Marcos,
         um dos diretores da empresa de Hermnio, e no tinha filhos.
         Paulo estava feliz. Seu pai enriqueceu por mrito prprio e pde proporcionar 
famlia todo o conforto que o dinheiro podia
         comprar. E tudo com honestidade, sem precisar lograr nem roubar ningum. Fazia
tempo que Paulo se preparava para ocupar
         o lugar do pai, e hoje estava prestes a realizar seu maior sonho, tornando-se
presidente da empresa.
         Estava em frente ao espelho ajeitando a gravata quando viu sua mulher entrar no
quarto. Flvia usava um bonito vestido cor
         de cereja, que contrastava COM sua tez morena clara e seus profundos olhos negros.
         Ela olhou para o marido pelo espelho e sorriu, instintivamente apalpando a barriga.
Fazia trs meses que estava grvida,
         e aquela gravidez era-lhe motivo de grande alegria. Desde que se casara, fazia quase
cinco anos, no conseguira ainda engravidar
         uma nica vez. Por isso, sentia-se realizada com a proximidade da maternidade.
         Flvia ia passando em direo ao guarda-roupas para apanhar um casaco, mas parou
subitamente e deu meia-volta, indo em
         direo  porta do quarto.
         - Aonde vai?- indagou Paulo, contrariado. - J est quase na hora. No quero me
atrasar.
         Ela deu uma meia parada da soleira da porta e respondeu displicente:
         - No se preocupe, querido. Vou apenas ao banheiro. Senti uma clica... Acho que
estou com dor de barriga. - Mas logo agora?
         Que azar!
         Flvia no respondeu e entrou no banheiro, fechando a porta atrs de si. De repente,
sentiu uma pontada no ventre e fez
        uma careta de dor, apertando a barriga e dobrando o corpo para a frente. No mesmo
instante, sentiu que algo quente escorria
        por suas pernas e olhou para baixo. Sobre o ladrilho branco do banheiro, o sangue
comeava a se espalhar. Apavorada, Flvia
        soltou um grito, chamando pelo marido:
        - Paulo! Socorro, Paulo, acuda!
        Ouvindo os gritos desesperados da mulher, Paulo largou o que estava fazendo e
correu em direo ao banheiro. Empurrou a
        porta e entrou, bem a tempo de segurar Flvia, antes que casse no cho, pois
desfalecera naquele exato instante. Rapidamente,
        ele ergueu-a no colo e levou-a para a cama, ajeitando-a sobre os travesseiros.
Apanhou o telefone e ligou para o mdico.
        - O Dr. Feliciano no est - respondeu uma voz do outro lado da linha.
        Paulo agradeceu e desligou o telefone. Feliciano, na certa, j havia ido para a festa.
Aturdido, apanhou a chave do carro
        e chamou a governanta, que apareceu logo em seguida, suando e esbaforida.
        - Chateou, Dr. Paulo?
        Olvia, pelo amor de Deus, ajude-me aqui. Dona Flvia no se sente bem...
        Ao ver o estado da patroa, Olvia soltou um grito assustado. Ela estava deitada,
plida, o vermelho do vestido se misturando
        ao vermelho de seu sangue.
        -Doutor! - exclamou atnita. - O que aconteceu?
        - No sei, Olvia, e no  hora de perguntas. Ajude-me a levla at o automvel.
        Em silncio, Olvia ajudou o patro a levantar Flvia e conduzi-la at o carro. Paulo
entrou apressado no automvel, sem
        dizer nada. Deu partida no motor e saiu em disparada, cantando os pneus. Estava
apavorado. Ia perder a cerimnia, mas temia
        muito mais a perda da mulher amada.
        Com os solavancos, Flvia despertou, sentindo muitas dores no ventre.
        - Paulo... - balbuciou angustiada. - O que houve? O beb...
        -No fale, querida. No h de ser nada.
        - Aonde est me levando?
        - Ao hospital.
        - Hospital? No quero. Quero meu mdico.
        Feliciano no estava em casa. No tive alternativa, seno traz-la para o hospital. -
Vendo o ar de apreenso da mulher,
        tentou tranqiliz-la: - Sossegue, meu bem. Vai dar tudo certo.
        Flvia no disse nada. Esperou at que chegassem ao hospital e fosse atendida.
Depois que Flvia foi levada para a sala
        de emergncia, Paulo saiu em busca de um telefone. Precisava avisar algum. Ligou
para o clube onde a solenidade se realizaria
        e pediu para falar com o pai. Demorou um pouco at que ele atendesse.
        - Al? Paulo,  voc? O que est acontecendo? Onde est? Estamos todos
preocupados...
        - Sossegue, papai. Vou me atrasar, talvez nem possa ir.
        - No pode vir? Por qu? Onde est?
        - Estou no hospital.
        - Hospital? O que aconteceu?-Obtendo o silncio como resposta, indagou: - Foi
Flvia? Aconteceu algo com o beb?
        Tentando conter as lgrimas, Paulo retrucou:
        - No sabemos ainda...
        Desligou. No podia mais continuar. Do outro lado da linha,
        Hermnio, preocupado, continuava falando com o aparelho mudo: - Al? Paulo,
responda! Em que hospital est? Al! Al! Depois
        de colocar o fone no gancho, Paulo olhou com tristeza
        para a atendente que lhe havia cedido o telefone e balbuciou: - Obrigado...
        Desabou num banco de madeira encostado na parede do corredor, chorando
copiosamente. Tantas esperanas depositadas naquele
        filho! A famlia inteira j comemorava sua chegada. Haviam comprado mveis,
pintado o quarto de amarelo, preparado um enxoval
        lindo e rico. E para qu? Para nada.
        Quando Flvia anunciou que estava grvida, depois de quase cinco anos de
casamento, foi uma surpresa para todos os familiares.
        Finalmente, o herdeiro que tanto esperavam iria nascer. Paulo preferia um menino,
para continuar seu nome e os negcios,
        mas uma menina tambm seria bem-vinda. Ainda que Flvia no pudesse ter outros
filhos, essa criana, independentemente de
        sexo, seria bem recebida em sua casa e em seu corao.
        Paulo estava to absorto nesses pensamentos que nem ouviu a enfermeira se
aproximar. Ela parou diante dele, tocou levemente
        seu ombro e indagou:
        - O senhor  o marido de Dona Flvia?
        Paulo ergueu os olhos para ela, como que tentando entender o
        que estava acontecendo. Finalmente respondeu: - Sim, sou eu. Como ela est?
        - Sua mulher passa bem, senhor. Infelizmente, porm, lamento inform-lo que ela
perdeu o beb.
        Ele fechou os olhos por uns segundos, remoendo toda a sua dor, at que reuniu
foras para falar:
        - Posso v-la?
        A enfermeira balanou a cabea e indicou uma porta no fim do corredor, dizendo
com voz compreensiva:
        - Por aqui.
        Paulo seguiu-a em silncio at o quarto onde Flvia estava adormecida, plida feito
um boneco de cera. Vendo-a to frgil,
        to insegura, sentiu um aperto no corao e uma vontade louca de estreit-la em
seus braos. Amava-a profundamente, e seu
        sofrimento
        era-lhe motivo de grande pesar. Ele sabia quantas expectativas ela havia depositado
naquele filho, infelizmente em vo.
        Vagarosamente, ele se aproximou da cama e ficou a olh-la. No queria acord-la;
achava melhor deix-la dormir. Ia se afastando
        para no perturb-la quando ouviu uma voz atrs de si:
        - Paulo...
        Ele se voltou com lgrimas nos olhos e encarou-a. Flvia, no mesmo instante, ps-
se a chorar, balbuciando:
        - Perdoe-me, querido... Foi minha culpa... No devia ter feito tanto esforo, no
devia!
        - Acalme-se, meu amor. No foi nada. Teremos outros filhos, voc vai ver.
        - No, no! Sinto que no terei outra chance.
        - No fale assim. Voc no pode saber. E jovem ainda, tem apenas vinte e trs anos.
        - Mas eu sei! Eu sinto!
        Naquele instante, a porta se abriu e um homem vestido de branco entrou. Paulo
deduziu ser o mdico.
        J era um senhor, e aproximou-se da cama com ar bondoso, pegando no pulso de
Flvia.
        - Como se sente?
        - Bem... mais ou menos...
        - Era seu primeiro filho?
        - Sim...
        - No se deixe impressionar pelo que aconteceu. H mulheres que perdem a
primeira gravidez, mas depois engravidam e tm
        muitos filhos.
        Flvia no disse nada. Pensou em responder, mas achou melhor ficar calada. Ele era
apenas um mdico de emergncia e nunca
        mais voltaria a v-la. O que sabia de sua vida?
        - Doutor, quando poderei lev-la?-quis saber Paulo.
        - Creio que amanh pela manh, se tudo correr bem.
        - Isso  que no! - contestou Flvia. - Vou-me embora agora mesmo.
        - Mas a senhora no deve... - protestou o mdico. - Perdeu muito sangue.  melhor
que fique em observao.
        - O doutor tem razo, querida - interrompeu Paulo. - E melhor que fique e descanse.
        - Mas, Paulo, e sua festa? No quero estragar tudo. Esta noite deveria ser sua.
        -No se preocupe com isso. Papai entender...
        - No! - cortou ela rispidamente e olhou para o mdico, encabulada.
        Percebendo que o casal tinha assuntos ntimos a tratar, o mdico pediu licena e
retirou-se.
        - Bem, tenho alguns pacientes para ver. Se precisar de alguma coisa, aperte a
campainha e uma enfermeira vir atend-la.
        Boa noite.
        - Boa noite - respondeu o casal em unssono.
        Depois que ele saiu e fechou a porta, Flvia apertou a mo de
        Paulo e, olhando-o fundo nos olhos, declarou:
        - Por favor, prometa-me que no vai contar nada ainda. - Mas por qu? Todos tero
de ficar sabendo, um dia.
        - Eu sei. Mas no agora. D-me um tempo at eu me acostumar.
        Depois, eu mesma lhes darei a notcia.
        - No sei. Talvez seja pior.
        - Por favor,  s o que lhe peo. No diga nada. Principalmen
        te  minha me. Voc sabe quanto ela queria esse neto.
        Paulo olhou-a em dvida e considerou:
         - Mas j disse a meu pai que voc estava no hospital. - Ah, no, Paulo... Disse a ele
que perdi o beb? - No disse nada.
         Disse que no sabia ainda. Um sorriso de esperana iluminou o rosto dela.
         - Ento no conte. Por favor, eu lhe suplico. No tenho foras
         para encar-los agora.
         - Mas o que lhes direi?
         - Diga apenas que passei mal mas que j est tudo bem.
         - Para que isso? Vo ficar sabendo, mais cedo ou mais tarde. - Que seja mais tarde.
         Embora a contragosto, Paulo fez como ela lhe pediu. A muito custo Flvia
conseguiu convenc-lo a deix-la no hospital durante
         a noite e ir para o clube, sem dizer nada.
         Quando ele chegouao salo, j passava das dez horas e muitos dos convidados j
haviam ido embora. Hermnio tencionava passar a
         suas mos uma placa simblica, representando a transferncia da presidncia, mas
apenas fez um breve discurso, desculpando-se
         com os presentes pela ausncia do filho. Dissera apenas que a nora passara mal e ele
tivera de lev-la a um hospital.
         Quando Paulo chegou, Feliciano foi o primeiro que o viu. Correu a seu encontro,
exclamando assustado:
         - Paulo! Graas a Deus! Morramos de preocupao. Como est Flvia?
         - Ela est bem agora.
         - Por que no mandou me chamar?
         - Eu liguei para sua casa, mas voc no estava.
         - Paulo, meu filho! - Era Dulce, que chegava apressada. - O que houve? Onde est
Flvia?
         Em pouco tempo, Paulo viu-se cercado de parentes e amigos, todos querendo saber
o que havia acontecido. Em poucas palavras,
         ele lhes disse que Flvia sentira um ligeiro mal-estar e tivera de ser socorrida s
pressas, mas j estava bem, em casa,
         descansando. O mdico do hospital, apesar de liber-la, aconselhara-a a guardar o
leito, sob pena de pr em risco a vida
         do beb.
         - Irei v-la imediatamente - falou Feliciano, decidido.
         Paulo segurou-o pelo brao e gaguejou:
         No... No ser preciso... Ela est bem... Pediu para no ser perturbada.
         - Ora essa, Paulo - indignou-se Dulce. - Onde j se viu uma coisa dessas? Feliciano
 seu mdico!
         - Eu sei, mas ela pediu para avisar a todos que j est bem e que gostaria de
descansar. Amanh iremos a seu consultrio,
         doutor.
         Feliciano deu de ombros e acrescentou:
         - Vocs  que sabem.
         - Mas eu irei v-la - disse Ins, me de Flvia. - Onde j se viu uma filha recusar a
companhia da me?
         - Dona Ins, entenda: Flvia s est descansando. Fique sossegada que, amanh, irei
pessoalmente lev-la em sua casa.
         A muito custo conseguiu convenc-la.
        Paulo permaneceu no clube mais duas horas. O jantar j havia sido servido, e ele foi
com o pai assinar os papis que o legitimavam
        como o novo presidente da companhia. Via Lctea Transportes era o nome da
empresa. Uma sociedade annima bem constituda,
        com aes em alta no mercado, sendo que sessenta por cento continuavam em poder
da famlia Lopes Mandarino. Sua famlia.
        No dia seguinte, Flvia saiu bem cedo do hospital, em companhia de Paulo. Iam
silenciosos, remoendo a frustrao, tentando
        acreditar nas palavras do mdico: ela era jovem, poderia ter outros filhos.
        Quando chegaram em casa, Olvia ainda dormia. Mais meia hora e estaria de p.
Paulo seguiu com Flvia para o quarto e acomodoua
        na cama, deitando-se a seu lado e adormecendo logo em seguida. Estava exausto e
no dormira a noite inteira.
        Por volta das oito horas, acordou e olhou para o relgio. j era tarde, mas no se
sentia com disposio para levantar.
        Ficou deitado na cama, ouvindo a respirao suave da mulher, que dormia
placidamente, at que escutou batidas leves na porta.
        Ele suspirou, levantou-se e foi atender. Era Olvia, que vinha saber dos patres.
Quando fora se deitar, j era tarde e
        eles ainda no haviam voltado.
        - Graas ao Pai que chegaram! - exclamou, as mos postas em sinal de orao. -
Rezei tanto a Deus por Dona Flvia!
        - Obrigado, Olvia.
        - Como est a patroa?
        - Bem. Est dormindo.
        - E o beb?
        - O beb est timo.
        - Bendito seja! - acrescentou, erguendo as mos para o cu. - Chegaram agora?
        - No, ontem a noite. Voc estava dormindo e no quisemos acord-la.
        Olvia balanou a cabea e indagou solcita: - Quer que lhe traga o desjejum?
        - Obrigado. Apenas uma xcara de caf.
        Depois que ela saiu, Paulo apanhou o telefone na mesinha de ca
        beceira e pediu uma ligao para o consultrio de Feliciano. - Al? Feliciano?
        - Paulo? Como vai, meu amigo? E Flvia? - Est bem. O pior j passou.
        - Vai traz-la aqui hoje?
        - Creio que no ser necessrio. Ela j est melhor e no sente nada. Como disse, foi
apenas uma indisposio.
        - No acha melhor que eu a examine? Para a segurana dela e do beb.
        - Agradeo a preocupao, mas ela no est disposta a sair. Est
        um pouco cansada.
        - Se quiser, posso passar em sua casa mais tarde.
        Ouvindo a voz do marido, Flvia despertou, esfregou os olhos e
        recostou-se na cama, lanando para ele um olhar splice.
        - Est bem, ento. Agradeo.
        Paulo desligou o telefone e olhou para Flvia, que perguntou: - Era Feliciano? O
que disse a ele? -Nada. Mas quer v-la.
        - No consentirei!
         - Flvia, deixe de loucura. Logo todos ficaro sabendo. Pensa
         que poder esconder isso justo de seu mdico?
         - Por isso mesmo no quero v-lo. - Mas ele vir aqui mais tarde.
         - Arranje um jeito de dispens-lo.
         - No posso fazer isso. Deixe que venha, que a examine. - Ficou louco?
         - Flvia, por favor...
         -j disse que no! - Ela fez uma pausa e considerou: - Est
         bem. Vou deixar que me examine... superficialmente. Nada de exame ginecolgico.
         Paulo inspirou profundamente e no disse nada. Olvia chegou
         com a bandeja e colocou-a sobre a mesa, feliz por ver a patroa j
         acordada.
         - E ento, Dona Flvia, sente-se bem? - Muito bem, Olvia, obrigada.
         - Se precisar de alguma coisa,  s chamar. Estarei na cozinha. - Obrigada, Olvia.
         Mais tarde, quando Feliciano chegou, Flvia disfarou a fraqueza e o cansao,
empoou o rosto e mostrou-se alegre e bem-disposta,
         fazendo de tudo para que ele no percebesse que havia perdido o beb.
         Deixou que ele medisse a presso e a temperatura, mas, quando ele
         quis examinar-lhe o ventre, Flvia deu um salto da cama e correu para
         o banheiro. Trancou a porta e fez que estava vomitando. Em segui
         da, voltou para o quarto com a mo sobre a barriga, enxugando a boca
         e dizendo num gracejo:
         - Coisas de mulher grvida...
         Feliciano ainda tentou fazer com que ela retornasse ao exame,
         mas Flvia disfarou e foi para a cozinha.
         - Voc se preocupa demais - disse ela em tom brincalho. - Coisas de mdico...
         Paulo no ousava sustentar-lhe o olhar. Feliciano deu de ombros e seguiu Paulo at
a sala, onde Olvia lhes serviu um caf.
         Conversou durante mais alguns minutos e partiu. Logo que ele saiu, Flvia correu
de volta ao quarto e atirou-se na cama,
         chorando sem parar. Por mais que tentasse, Paulo no conseguia anim-la.
         Os dias foram passando e Flvia foi se sentindo cada vez mais triste. No saa, no
se alimentava direito, no falava com
         ningum, s com a me. Apesar de tudo, no tivera coragem de contarlhe a verdade,
e Ins no conseguia entender o porqu
         de todo aquele abatimento.
         At que um dia, Paulo, no agentando mais, teve uma idia. - Estive pensando.
Acho que seria bom fazermos uma viagem.
         - Viagem? Agora? E a empresa?Voc acabou de assumir a presidncia. No pode se
afastar.
         - J falei com papai. H anos no tiro frias. Disse-lhe que
         ando muito cansado e que preciso de descanso.
         - Mas... mas... E a presidncia da companhia?
         - Marcos pode assumir meu lugar e tomar conta de tudo at que
         eu volte. Sabe quanto confio nele.
         - E Marcos concordou?
         - Sim. E meu cunhado, pessoa de inteira confiana. - E seu pai?
         - No princpio relutou. Mas acabou concordando tambm.
        - Uma viagem... Talvez seja uma boa idia afastar-me de tudo e de todos.
        - Foi o que pensei. E, depois, voc poder escrever, contando que perdeu o beb na
viagem. Creio que assim ser menos penoso.
        - Acha que me faria bem?
        Ele fez que sim. Ela indagou:
        -E para onde iremos?
        - Pensei em visitarmos a Europa.
        - Europa? No sei, no. Andam falando em guerra por l.
        - No acredito nisso. So apenas boatos. Por favor, Flvia, vamos. No agento
mais v-la nessa depresso.
        Ela considerou a hiptese por alguns instantes. Embora no se encontrasse com
nimo para nada, uma viagem at que serviria bem
        a seus propsitos. Escreveria uma carta para a famlia logo que partissem, contndo
a perda do beb, e no precisaria estar
        em casa para presenciar a frustrao dos parentes. Ao voltar, muito tempo j teria
passado, e no lhe cobrariam mais nada.
        - Est certo - disse por fim. - Faremos a viagem. Quanto mais tempo ficarmos fora,
melhor.
        Excelente, querida! Vou agora mesmo providenciar os passaportes e as passagens.
Quero visitar tudo!
        - Quanto tempo ficaremos fora?
        - No sei. Dois meses, trs... O tempo que julgarmos necessrio.
        Quinze dias depois, partiram rumo  Europa. Iniciaram a viagem por Londres. De
l, atravessariam o canal Dela Mancha e iriam
        para a Frana, onde tomariam o trem e seguiriam rumo  Espanha e Portugal,
retornando novamente em direo  Itlia e Sua.
        E, dependendo da situao, visitariam ainda a ustria, a Alemanha e a Holanda, e
s ento retornariam. Seria uma viagem
        maravilhosa. E inesquecvel tambm.
        Flvia j estava em Londres havia uma semana e ainda no se decidira a escrever 
famlia. Por diversas vezes, segurara a
        caneta e ficara a olhar a alvura do papel, pensando por onde comear. Pensava,
pensava e acabava desistindo, distrada com
        qualquer coisa que Paulo lhe mostrasse.
        Outras vezes, decidida, rabiscava as primeiras linhas, mas nunca ia alm do Como
vo vocs ou Por aqui tudo est maravilhoso...
        Por mais que se esforasse, no tinha coragem de acabar com os sonhos da famlia.
Era filha nica, e a me sempre sonhara
        com um neto. Da famlia de Paulo, era a maior esperana. O marido de sua cunhada,
Marcos, tivera caxumba quando criana,
        e era pouco provvel que pudesse ter filhos. Mariana at ento no engravidara, e
todos estavam conformados com a esterilidade
        do rapaz.
        A mesma hesitao se repetiu em Paris, Madri, Lisboa e em todos os lugares por
onde passavam. Paulo sempre lhe perguntava
        por que ainda no havia escrito  famlia, ameaando escrever-lhes ele mesmo, mas
Flvia implorava que no o fizesse. Paulo
        no entendia aquela relutncia. Nem mesmo Flvia entendia. S o que sabia, ou
melhor, que sentia, era que ainda no estava
        pronta para destruir assim seus sonhos.
        Os meses foram se passando, e eles continuavam a viajar pelo Velho Continente,
sem que ela se decidisse a contar. Estavam
        em Stuttgart, na Alemanha, e Flvia j comeava a sentir saudade de casa, bem
como Paulo, que ansiava por retomar os negcios
        frente  empresa.
        Naquela poca, a situao na Europa no era das mais animadoras.
        A Alemanha, sob a presidncia de Adolf Hitler, fora tomada pelo Partido Nazista,
que estabeleceu um governo totalitrio,
        espalhando o terror poltico e controlando o Exrcito. Instaurou-se o dio aos
judeus, ao socialismo e ao capitalismo, que
        os alemes culpavam por sua rendio na Grande Guerra e pelos pesados nus
institudos pelo Tratado de Versalhes.
        Havia muito j se iniciara a perseguio aos judeus e comunistas, e inmeras
pessoas eram levadas para os campos de concentrao
        e depois exterminadas. Em sua escalada internacional, Hitler j havia anexado ao
Terceiro Reich a ustria, a Checoslovquia
        e a Albnia, voltando-se agora para a Polnia.
        Foi nesse clima de instabilidade que Paulo e Flvia chegaram  Alemanha. As
ameaas de guerra ecoavam cada vez mais alto,
        e a perseguio aos judeus se intensificava ainda mais. Fora tudo isso, Flvia no
queria mais ficar no Velho Mundo.
        - Paulo, meu bem- disse ela. -No quero mais continuar esta viagem. J faz quase
seis meses que samos do Brasil...
        - Faz quase seis meses que voc deveria ter contado a verdade e no o fez. Como
espera chegar agora? Pelos meus clculos,
        o beb j deveria at ter nascido.
        - Eu sei, querido, perdoe-me...
        Ela comeou a chorar, e Paulo se acalmou.
        -No chore. No quero mago-la. Mas me preocupo. Em todas as cartas de mame,
ela pergunta por voc e pelo beb, e sou obrigado
        a dizer que esto bem.
        - E o que vamos fazer agora?
        - Vamos contar a verdade. Vou escrever para eles e dizer que voc perdeu o beb e
que no teve coragem de falar. No h
        outro meio. - No, por favor, no faa isso!
        -No adianta. Sinto muito, mas  para seu prprio bem.
        Apesar dos protestos da mulher, Paulo sentou-se  escrivaninha e escreveu longa
carta ao pai, contando-lhe tudo que sucedera
        desde aquele dia em que Flvia havia sido internada no hospital e ele chegara
atrasado  cerimnia de posse em seu novo
        cargo na empresa. Contou-lhe dos temores da mulher, de sua profunda tristeza, de
suas esperanas de engravidar novamente.
        Isso no acontecera, como era de se esperar, e agora estava na hora de voltar. Pedia
que ele desse a notcia ao restante
        da famlia e implorava a compreenso de
        todos. Que no cobrassem de Flvia nem a acusassem de nada. Ela havia sido a
maior vtima e j sofrera demais.
        Terminou de escrever a carta, lacrou o envelope e guardou-o no bolso do sobretudo.
Mais tarde, quando sassem para almoar,
        postaria a carta e tudo estaria terminado. Em seguida, arrumariam as malas e
voltariam para o Brasil. J haviam se demorado
        demais naquela viagem e era hora de retomarem suas atividades.
        Vendo o olhar de desgosto da mulher, Paulo sentou-se a seu lado na cama, apanhou
sua mo e falou com delicadeza:
        - No fique triste, querida.  melhor assim...
        Segurou seu queixo com a ponta dos dedos e preparou-se para beij-la, quando um
enorme alarido se ergueu, vindo do meio
        da rua. Paulo e Flvia levantaram-se assustados e correram para a janela. Estavam
num quarto no terceiro andar e, l embaixo,
        as pessoas corriam de um lado para o outro, gritando e agitando as mos, como que
perdidas.
        - O que esto dizendo? - indagou Flvia, apreensiva. - No compreendo uma
palavra.
        - No sei... - tornou Paulo, inseguro. - No entendo bem.
        Ele ficou prestando ateno, tentando entender o que estava se passando. No falava
direito o alemo e tinha dificuldade
        para compreender o que aquelas pessoas estavam falando.
        - E ento?- tornou Flvia, ansiosa.
        - No tenho certeza. Mas parece que Hitler invadiu a Polnia.
        Flvia encarou-o com espanto. Estavam em primeiro de setembro, dia da invaso da
Polnia pela Alemanha, data em que foi
        deflagrada a Segunda Guerra Mundial.
        - Meu Deus! - exclamou Flvia assustada, sufocando um grito de terror. - E agora?
        - No sei. Mas o melhor que temos a fazer  ir embora daqui o mais cedo possvel.
Vamos pegar o primeiro trem para a Sua.
        Mais que depressa, correram a arrumar as malas. No eram alemes nem judeus,
mas no sabiam o que lhes poderia acontecer.
        Eram estrangeiros, e o dio de Hitler poderia se voltar contra eles tambm.
        Chegaram  estao de trem duas horas depois e estavam parados na gare,
esperando a chegada do trem que os levaria de volta
         Sua. A carta, esquecida no bolso do sobretudo de Paulo, no chegara a ser
postada, e ele se esquecera dela por completo.
        Estava com
        medo, porque aquelas aes blicas representavam uma ameaa desconhecida, e ele
no tinha a menor inteno de padecer em
        um pas estranho.
        O trem j estava chegando, e centenas de pessoas se preparavam para embarcar.
Flvia levantou-se do banco em que estava
        sentada, apanhou a frasqueira e segurou o brao do marido.
        Estavam esperando que o comboio parasse para subirem a bordo quando ouviram
novo alarido. Olharam assustados e viram uma
        mulher correndo em direo a eles, trazendo nos braos o que parecia ser uma
trouxinha de roupa. Atrs dela, ouviam-se os
        apitos dos guardas, dela separados pela multido de pessoas que se apinhavam na
estao.
        Eles estavam um pouco afastados da multido, mais prximos dos ltimos vages.
Ao v-los, a mulher correu para eles e comeou
        a falar alguma coisa em alemo, estendendo para Flvia a pequena trouxa de panos.
        Paulo, sem entender o que aquela mulher queria e com medo de que ela pudesse
causar-lhes algum tipo de encrenca, empurrou-a
        com violncia, mas ela se voltou para Flvia com os olhos cheios de lgrimas,
falando apressadamente e estendendo-lhe novamente
        a trouxinha. A mulher parecia fora de si. Chorava e falava com profunda angstia,
como que a implorar alguma coisa. Seu
        desespero era ntido, e Flvia podia entender a splica em seu tom de voz.
        Flvia estava confusa e aturdida. No entendia uma palavra do que a mulher dizia,
mas ela estava visivelmente desesperada,
        apavorada com alguma coisa. Paulo j ia empurr-la de novo quando ouviram um
choro abafado. Instintivamente, Flvia segurou
        o brao do marido e afastou os panos, descobrindo a face de um recm-nascido,
rosado e de olhos azuis como duas contas.
        Aquilo a assustou sobremaneira, e seu primeiro gesto foi de estender os braos para
recolher a criana. Sem entender o que
        a mulher lhe dizia, compreendera tudo. Ela era judia e estava fugindo dos guardas,
com o filho no colo, e queria d-lo a
        ela. Dar-lhe o filho para salv-lo da morte. Rapidamente, Flvia apanhou a criana e
estreitou-a contra o peito, mas ouviu
        a voz de Paulo, que falava com um misto de rispidez e desespero:
        - Ficou louca? Quer que sejamos presos?
        Com certa brutalidade, tentou arrancar a criana dos braos de
        Flvia, mas a mulher judia, completamente desesperada, lanou para ela um olhar
de splica to profundo que Flvia apertou
        ainda mais o beb, e Paulo, com medo de machuc-lo, afrouxou as mos e olhou por
cima de seu ombro. Do outro lado da plataforma,
        os apitos se faziam ouvir mais estridentes, e logo os guardas apareceram, correndo
feito loucos por entre a multido. Paulo
        encarou a judia e soltou a criana, voltando os olhos para Flvia, que chorava de
mansinho. A mulher falou alguma coisa
        bem baixinho, e Flvia deduziu o agradecimento. Podia perceber o alvio e a
gratido em seu olhar.
        Os policiais, naquele instante, avistaram-na e correram em sua direo. Paulo
acompanhou todos os seus movimentos, com medo
        de que o interpelassem, mas eles passaram direto por eles e no os notaram. Flvia
nem tinha coragem de levantar os olhos.
        Apertava o beb de encontro ao peito, cobrindo-o com o casaco e rogando a Deus
que no chorasse. A criana, talvez sentindo
        a proteo que os seios de Flvia lhe transmitiam, silenciou e voltou a dormir, e
ningum a notou sob o casaco de Flvia.
        Pouco depois, os guardas seguraram a mulher pelo brao, um de cada lado, e saram
arrastando-a pela estao. Ao passar por
        eles novamente, a mulher no disse nada nem os encarou, mas Flvia pde perceber
o alvio que sentia ao ver salvo o filhinho
        recm-nascido.
        Em silncio, Paulo e Flvia embarcaram no trem, levando consigo o pequeno
presente que receberam. Sentaram-se em um banco
        e seguiram viagem, temendo seus destinos dali para a frente. E se o beb chorasse?
E se sentisse fome? Como aliment-lo?
        Era apenas um recm-nascido e precisava de leite materno. O que fariam?
        Mas a viagem no era longa, e, quando alcanaram a fronteira com a Sua, todos os
passageiros tiveram de desembarcar para
        se apresentar na alfndega, do lado alemo. Em companhia de Flvia, que no
soltava o beb, Paulo desceu a pequena escada
        do trem, apreensivo. No posto alfandegrio, apresentou os passaportes ao oficial de
planto e aguardou. O homem apanhou
        os documentos e conferiu as fotos. Percebendo, porm, o nenm no colo de Flvia,
indagou algo com patente m vontade.
        Paulo compreendia com muita dificuldade o que ele dizia, mas sabia a que ele
estava se referindo. O homem apontava para
        o beb e exigia que apresentassem seus documentos. Flvia, intimamente, orava a
Deus pedindo ajuda e proteo, rogando que
        no os desamparasse.
        Se aquela criana chegara a suas mos do modo como chegara, certamente era
porque era da vontade de Deus que permanecesse
        com ela. Estava assim orando, de olhos baixos, quando ouviu a voz do marido,
falando alguma coisa em ingls com o oficial.
        O guarda parecia haver entendido e balanou a cabea. Voltou os olhos para os
passaportes, olhou novamente para o beb e
        encarou Paulo. Em que estaria pensando? Ser que desconfiava de algo?
        O oficial estava em dvida. Recebera ordens para no deixar ningum atravessar
sem passaporte, ainda que fosse um beb.
        Mas, atendendo s oraes de Flvia, um esprito iluminado se aproximou do oficial
e soprou-lhe ao ouvido, em alemo:
        - Deixe-os passar. So apenas brasileiros inofensivos... Hitler no tem interesse no
Brasil.
        Recebendo a sugesto do esprito protetor, o oficial deu de ombros, carimbou os
passaportes e entregou-os a Paulo, que os
        apanhou rapidamente e os colocou de volta no bolso interno do sobretudo. Ele deu
um sorriso ao guarda, fez um leve aceno
        com a cabea e saiu puxando Flvia, que chorava agradecida.
        - O que disse a ele? - cochichou Flvia ao ouvido do marido, logo que se viram
acomodados no trem.
        Sem encar-la, Paulo respondeu em tom de confidncia:
        - Que o menino nasceu apenas h alguns dias e que no tivemos tempo de registr-
lo no consulado brasileiro. Que faramos
        isso na Sua.
        Flvia balanou a cabea, e ambos percorreram o resto do trajeto em silncio. J em
solo suo, Paulo comprou algumas fraldas,
        roupinhas, mantas e mamadeiras para o beb. Ao despi-lo, uma surpresa. Preso a
seu pescoo, um cordo de ouro com uma medalhinha
        pendurada. Flvia apertou o fecho, e a medalha se abriu em duas partes. De um
lado, uma mulher loura, que ela reconheceu
        como sendo a mesma que lhe entregara a criana. Do outro lado, um homem claro,
mas de cabelos castanho-escuros, que ela
        deduziu ser o pai.
        Ela ergueu para Paulo os olhos midos. Sem dizer nada, retirou o cordozinho do
pescoo da criana e apertou-o na mo.
        - O que vai fazer com isso? - indagou Paulo, curioso.
        - Jogar fora - respondeu ela, decidida.
        Foi at a janela do quarto, que dava para um bosque, ergueu o brao e o esticou para
fora. Mas no abriu a mo. Na hora,
        uma es
        tranha fora a dominou, e ela no conseguiu atirar para longe aquela correntinha.
        Sem que Paulo percebesse, guardou-a dentro do corpete, voltou para junto do beb e
comeou a trocar-lhe a fralda. Era mesmo
        um menino, muito bonito e saudvel, com expressivos olhinhos azuis. Flvia estava
encantada. Recebera de volta o filho que
        o infortnio lhe tomara. Vendo sua mulher, que acabara de aliment-lo e o embalava
para dormir, Paulo sentiu um aperto no
        corao. No era sua inteno ficar com aquele beb. Nem sabia por que o fizera.
Mas a felicidade de Flvia era tanta que
        ele no ousava destru-la.
        Depois que o menino adormeceu, Flvia fechou a porta do quarto e foi para a saleta
da sute no hotel, onde Paulo se encontrava
        sentado, ouvindo o rdio. Ela se aproximou e sentou-se a seu lado, dizendo com
entusiasmo:
        -Foi Deus quem nos colocou no caminho daquela pobre mulher. No fosse por ns,
o filhinho teria sido preso com ela, e sabe-se
        l o que lhe teria acontecido. - Paulo no disse nada, e ela continuou: - Devemos
providenciar-lhe a documentao. O menino
        no pode viajar sem passaporte.
        No podendo mais segurar a contrariedade, Paulo argumentou:
        - Oua: acho que fizemos bem em salvar o beb.  um inocente, que nada sabe
sobre as atrocidades da guerra. Mas no podemos
        ficar com ele.
        Flvia fitou-o com ar de espanto e retrucou com mgoa:
        - No podemos? Por qu?
        - Porque no  nosso filho.
        - Agora .
        - No , no.  filho de outras pessoas. Provavelmente de um casal de judeus.
        - E da? O que tem isso de mais? A criana no conhece ningum. No deve ter nem
um ms. Quem poder dizer que no  nosso
        filho?
        Paulo olhou-a com angstia.
        -Pense bem. Ao chegarmos ao Brasil, o que diremos  nossa famlia?
        - Muito simples: que estvamos viajando e a criana nasceu na Sua. Iremos agora
 embaixada brasileira, faremos o registro
        e ningum ir duvidar.
        - No, no podemos fazer isso. Esse menino  um estranho.
        - E apenas uma criana que veio ao mundo h poucos dias. Como pode ser um
estranho? J o amo como filho.
        - Mas ele no  nosso filho! Pelo amor de Deus, entenda de uma vez! Vamos
entreg-lo s autoridades suas. Com certeza,
        acharo um lar para ele.
        - No! Mil vezes no! Ele nos foi dado por Deus. No v que Deus quis que ele
fosse nosso? Pense bem. Por que outro motivo
        estaramos ali naquela estao, justamente na poca em que nosso filho deveria
nascer, no exato momento em que uma mulher
        desconhecida aparece, fugindo com seu filho?
        - Foi coincidncia...
        -Coincidncia demais. No acredito nisso. Minha me diz que o acaso no existe...
        - Sua me  uma tola. Vive envolvida com essas bobagens de espiritismo.
        - Sero mesmo bobagens? Tambm pensava assim, mas hoje tenho minhas dvidas.
- Ela se aproximou dele e segurou-lhe as mos,
        olhando fundo em seus olhos. - Paulo, seja razovel. Se eu no tivesse sofrido
aquele aborto, nosso filho estaria nascendo
        por estes dias. No nasceu, mas outra criana veio ao mundo na mesma poca, e
veio ao mundo exatamente perto de ns. Foi
        colocada em nossas mos, na certa para que a crissemos. No volte as costas para o
destino, porque pode estar voltando
        as costas para si mesmo.
        - Deixe dessas bobagens...
        - No, Paulo. Escute-me. Aceite o menino em seu corao, como eu j o aceitei no
meu.
        - No posso. Sei que no  meu filho.
        - No pense assim. Pense que este  o filho que perdemos naquele dia, seis meses
atrs. Se voc disser que , todos vo
        acreditar. No tm por que duvidar. O tempo coincide... Por favor, faa isso. Por
mim, por ns. No me tire a chance de
        ser feliz...
        Ouvindo as palavras da mulher, Paulo foi se deixando convencer. Um filho era o
que ela mais queria. Perdera a criana ainda
        em seu ventre e agora lhe aparecia aquele menino recm-nascido, que bem poderia
mesmo ser seu filho. E, depois, Flvia estava
        feliz. Sentia que ela seria capaz de amar aquela criana com toda a intensidade e
comeou a pensar se teria o direito de
        impedir aquele amor. No,
        no tinha. Se Flvia j o amava como filho, se j o recebera em seu corao, caberia
a ele fazer o mesmo. Ser que conseguiria?
        - Est bem -disse por fim. - Para todos os efeitos, o menino  nosso filho, nasceu
aqui na Sua. Deixe comigo. Vou providenciarlhe
        os documentos.
        Flvia no cabia em si de contentamento.
        No dia seguinte, Paulo saiu em direo  embaixada brasileira para registrar a
criana como sua. Disse que ela havia nascido
        em casa, no meio da noite, e que no tiveram tempo de chamar o mdico.
        O homem do consulado ouviu aquela histria com ar ctico, mas no disse nada.
Novamente, o esprito de luz estava a seu
        lado, providenciando para que no fizesse muitas perguntas. Pouco depois, Paulo
deixou o consulado levando no bolso o registro
        do filho: Fabrcio Lopes Mandarino. Junto, a carta que no chegara a enviar. Parou
em frente a uma cesta de lixo na calada,
        tirou a carta do bolso, rasgou-a em vrios pedacinhos e atirou-a no lixo. Seu filho
no estava morto; acabara de nascer.
        De volta ao Brasil, Flvia e Paulo organizaram uma festa de boas-vindas para o
pequeno Fabrcio. Queriam apresent-lo a famlia,
        que estava toda reunida em casa.
        - Eu bem que desconfiava que isso poderia acontecer - suspirou Dulce. - Onde j se
viu, viajar por a com a barriga crescendo?
        O mundo est mesmo perdido...
        - No diga isso, mame - censurou Paulo. - Trouxemos seu neto, no foi?
        - Mas ele deveria ter nascido aqui. Deveria ser brasileiro, como todos ns.
        - Mas ele . Foi registrado na embaixada brasileira.
        - Isso no importa. O que vale  que nasceu em solo estrangeiro.
        - No se aborrea com isso, Dona Dulce - interrompeu Flvia. - Paulo vai se
informar direitinho sobre o que  preciso fazer
        para que no pairem dvidas sobre sua nacionalidade brasileira. No , Paulo?
        O marido sorriu meio sem jeito. Sabia por que a mulher falava aquilo. Ela tinha
medo de que, por um motivo ou por outro,
        a verdadeira me do menino aparecesse e quisesse lev-lo. Precisava assegurar-lhe a
nacionalidade brasileira quanto antes,
        para que Fabrcio no pudesse ser levado do Brasil.
        Embora racionalmente Flvia soubesse que aquilo era praticamente impossvel, pois
a mulher no os conhecia nem sabia que
        eram brasileiros, Paulo tranqilizou-a dizendo que j havia contratado um advogado
para providenciar tudo, contando-lhe
        que a criana havia
        nascido na Sua, mas no revelando que no era seu filho legtimo. Para todos os
efeitos, aquela era a criana que estava
        no ventre de Flvia quando todos a viram partir do Brasil.
        Havia as pessoas do hospital, mas Flvia tencionava nunca mais aparecer por l.
Quem iria saber? Quem iria investigar? Naquela
        noite, ela fora apenas mais uma moa atendida na emergncia, uma desconhecida de
quem ningum jamais ouvira falar.
        Olhando para a mulher com ar amistoso, Paulo respondeu:
        - Sim, querida. Nosso advogado j est cuidando disso.
        - E voc, Flvia? - indagou Feliciano. - Como est passando? No quer que a
examine?
        - No, no, Feliciano, no  necessrio. Sem querer desmerec-lo, h timos
mdicos na Sua, e fui muito bem atendida.
        Nesse momento, a bab entrou, trazendo no colo o pequeno Fabrcio, vestido com
uma roupinha toda azul, que lhe acentuava
        ainda mais a cor dos olhinhos.
        -Que coisinha mais linda! - admirou-se Dulce, pegando-o no colo.
        -  mesmo muito bonito - concordou Hermnio.
        - Ora, vamos, Dulce - objetou Ins -, agora  minha vez de segurar essa riqueza.
        Dulce passou o menino para o colo de Ins, que o segurou embevecida.
        - De quem ser que puxou esses olhos? - perguntou Mariana, curiosa. - Ningum na
famlia tem olhos azuis.
        Flvia olhou para Paulo apreensiva, mas ele, calmamente, respondeu:
        - Nosso av tinha olhos azuis, Mariana. Voc no se lembra porque era muito jovem
quando ele morreu.
        - , sim - concordou Hermnio. - Era louro e de olhos azuis.
        - Mas isso no basta - interveio Feliciano. - Olhos azuis so recessivos, e  preciso
que algum na famlia de Flvia tambm
        tenha olhos azuis, algum que pudesse haver-lhe transferido o gene.
        - Hmm... deixe-me ver -fez Flvia, pensativa. - Deve ser de meu bisav. Ele
tambm tinha olhos azuis, no  verdade, mame?
        E no era meio alourado?
        Ins fitou-a com espanto. Seu av, apesar de louro, no tinha olhos claros. Nem
ningum de quem pudesse se lembrar. Naquele
        mo mento, encarando a filha, Ins percebeu que alguma coisa estranha havia
acontecido naquela viagem, algum segredo que ningum
        poderia saber.
        Embora no lhe agradasse mentir, percebeu a splica no olhar de Flvia e
respondeu:
        -  verdade, minha filha. Seu bisav era um homem muito bonito.
        `Bonito ele era, s que no tinha olhos azuis", pensou Ins.
        Estava espantada, fitando a filha, quando a voz de Feliciano se fez ouvir novamente:
        - Nesse caso,  possvel. Raro, mas possvel.
        - Pois - continuou Flvia. - Para vocs verem que coisa. At eu me espantei.
        A conversa mudou de rumo, mas Ins no se convenceu. Ficou estudando o rosto do
menino durante muito tempo, mas no percebeu
        nada de anormal alm dos olhos. Ele era ainda muito pequeno para se parecer com
algum. No fundo, Uma desconfiana comeou
        a tomar conta de seu peito, mas ela no disse nada. Estava seriamente desconfiada
de que a filha e o genro haviam ido buscar
        aquela criana no estrangeiro para substituir a verdadeira. Mas por qu?
        Como que respondendo  sua pergunta, a lembrana da cerimnia de posse de Paulo
veio  sua mente, e ela se lembrou de que
        a filha havia passado mal e fora levada ao hospital. Depois, quando Paulo chegou ao
clube, atrasado e sozinho, ela pensou
        que algo de muito grave havia acontecido, mas o genro lhe dissera que Flvia havia
ficado em casa repousando e que no deveria
        ser incomodada. No dia seguinte, quando foi visit-la, ela lhe pareceu meio abatida,
mas disse que no havia acontecido
        nada. Na poca, acreditou. No tinha por que duvidar. Mas agora... no sabia. Tudo
lhe parecia estranho demais. Aquela mentira
        no lhe saa da cabea, e ela estava quase certa de que aquele menino lindo no era
seu neto.
        Pensou em falar com Flvia e pedir-lhe explicaes, mas achou melhor no dizer
nada. Se a filha quisesse, ela mesma a
        procuraria e contaria tudo. Do contrrio, no diria nada. Fosse o que fosse que
tivesse acontecido, no era problema dela,
        e ela iria respeitar a vontade dos dois. Ins conhecia Flvia muito bem para saber
que ela seria incapaz de fazer alguma
        coisa errada, como roubar a criana ou compr-la. Na certa a adotara. Sim, s podia
ser isso. Deve ter
        abortado seu prprio filho e assumira o filho de outra mulher, talvez alguma
mocinha solteira mexida em encrencas. Quem poderia
        saber?
        De qualquer jeito, o menino estava ali e era lindo. Sentia que j o amava. Ainda que
no fosse seu neto de verdade, iria
        am-lo como se o fosse. Que importavam os laos de sangue? O que
verdadeiramente importava eram os laos do corao, o amor,
        a afinidade. Ela j lera e estudara o suficiente para saber que a famlia espiritual era
uma s e que as pessoas deveriam
        se amar indistintamente, possuindo ou no o mesmo sangue.
        Com esses pensamentos, calou a dvida dentro do peito e no disse nada. Segurou o
netinho no colo e sentiu quanto o amava.
        Seria uma criana especial, ela podia perceber.
        Naquela noite, aps a festa, sonhou com um homem. Ele se aproximara dela
enquanto dormia e tocara gentilmente em seu corpo,
        despertando-a em esprito e saindo com ela. Imediatamente reconheceu seu marido,
Ismael, que desencarnara quando Flvia
        contava apenas doze anos. Foram para um jardim imenso, florido, de onde podia
admirar as incontveis estrelas que pontilhavam
        o firmamento, e Ismael falou:
        - Ins, receba o menino como seu neto. Ele e Flvia vo precisar muito de seu apoio.
        - Quem  ele, Ismael?
        - Isso no importa agora.
        - Foi voc quem o trouxe?
        - Eu ajudei. Tive de inspirar algumas pessoas, mas era preciso. - No se preocupe.
Seja o que for que tenha acontecido,
        estarei ao lado de ambos.
        Ismael sorriu e beijou-a suavemente no rosto. Em seguida, retornou com ela para o
quarto e ajudou-a a voltar para o corpo,
        e Ins continuou a dormir tranqilamente. No dia seguinte, ao despertar, lembrou-se
de que havia sonhado com o marido e
        sentiu imensa saudade dele. Lembrava-se de que ele lhe tinha dito algo sobre o neto,
mas no sabia precisamente o qu.
        Ins morava sozinha em um casaro no bairro do Engenho Velho e se recusava a
mudar-se. A filha, aps o casamento, mudara-se
        com o marido para um amplo e bonito apartamento em Copacabana, chamando-a
para viver em outro dos luxuosos edifcios de
        apartamentos que comeavam a se erguer. Mas ela no quis.
        Gostava de sua casa, de suas plantas, de seu jardim. Ainda mais agora, que o neto
nascera, era importante que fosse criado
        junto  natureza e aprendesse a saborear os frutos tirados do p. Em seu quintal,
tinha ps de banana, goiaba, abacate,
        laranja, limo,
        manga e at um coqueiro. No entendia por que deveria abrir mo daquela vida
saudvel para se enfurnar em um apartamento e ficar
        pendurada l no alto, sem poder simplesmente abrir a porta e sair sem ter de se
enfiar naqueles cubculos que eles chamavam
        de elevador, correndo o risco de despencar ou ficar presa. No, decididamente,
aquilo no era vida. Preferia suas frutas
        e suas flores quele concreto frio e sem vida.
        Alm do mais, o marido a deixara muito bem. Quando morreu, havia acabado de ser
investido no cargo de ministro do Supremo
        Tribunal Federal e deixara a ela uma penso invejvel. Era tambm proprietrio de
vrios imveis espalhados pela cidade,
        o que lhe garantia ainda uma boa renda complementar. Ins era feliz assim e no
pretendia mudar.
        O pequeno Fabrcio ia se transformando mim lindo beb louro, o que no deixou de
causar um certo espanto a todos. A medida
        que o tempo ia passando, seus cabelos foram escurecendo um pouco, at alcanarem
a tonalidade de um castanho bem claro,
        com mesclas douradas. Os olhos, de um azul lmpido, continuaram como dois
pedacinhos do cu, e sua pele, antes rosada, foi
        se revelando da alvura prpria dos povos europeus.
        Embora todos o achassem diferente do resto da famlia, ningum suspeitou de nada.
Feliciano, com suas explicaes sobre
        gentica, decretou que aquilo seria possvel, j que os genes podem ser transferidos
aos descendentes por geraes e geraes,
        indo se manifestar, casualmente, numa descendncia bem remota. A explicao
sobre esse fenmeno, chamado atavismo, satisfez
        a todos, e Fabrcio logo passou a ser motivo de admirao de toda a famlia.
        Flvia estava encantada com o beb. Sentia um amor profundo por ele, algo que no
sabia explicar. Embora no fosse seu filho
        legtimo, sentia como se o fosse e, s vezes, at esquecia que no havia sido gerado
por ela. Mas nada daquilo tinha importncia.
        S importava o fato de que ela conseguira de volta seu beb, o filho que Deus, por
um motivo que ela desconhecia, lhe havia
        tomado um dia.
        Paulo, por sua vez, lutava contra os prprios sentimentos para poder aceirar Fabrcio
em seu corao e em sua vida. O fato
        de o menino no ser seu filho tornou-se um empecilho praticamente intransponvel
para o amor. Olhava para o beb e via nele
        um estranho, algum em quem jamais poderia confiar. O que sentia era um misto de
cime e repulsa, e ele chegava a se culpar
        por aqueles sentimentos.
        No dizia nada, porm. Amava Flvia profundamente e no queria mago-la. Se ela
estava feliz com aquele filho, ele tambm
        iria se esforar para conseguir conviver com ele da melhor forma possvel.
        As coisas corriam aparentemente bem. Flvia, satisfeita com o filhinho, j no
pensava mais em engravidar. Julgava-se estril
        e no se importava mais com isso. Tinha tudo que desejava na pessoa de Fabrcio.
Paulo, embora silenciasse, nutria ainda
        esperana de ser pai de um filho seu e vivia ansioso,  espera de que Flvia lhe
anunciasse a chegada de seu herdeiro legtimo.
        At que um dia, quando Fabrcio j estava com quase um ano, o inesperado
aconteceu. Era ainda bem cedinho, e Flvia estava
        dormindo. Paulo, a seu lado, comeou a se remexer na cama, despertando para um
novo dia de trabalho. J ia se levantar quando
        ouviu a mulher gemer.
        - Flvia?- indagou preocupado. - Est tudo bem? Por que esta gemendo?
        -No sei respondeu ela com voz indecisa. -Sinto-me estranha, com um enjo
esquisito. Parece que vou vomitar...
        Saiu correndo para o banheiro, e Paulo foi atrs, preocupado.
        - Meu amor -disse ele, abaixando-se a seu lado para auxilila -, o que houve? Foi
algo que comeu?
        Antes mesmo de o marido perguntar, ela j sabia a resposta e retrucou com uma
indizvel sensao de pesar: - Acho que estou
        grvida!
        Paulo ficou olhando-a com um sorriso nos lbios e abraou-a, acrescentando com
entusiasmo:
        - Querida! Isso  maravilhoso!
        - Ser mesmo? No se lembra da ltima vez?
        - Nem pense nisso. Algo me diz que, desta vez, tudo dar certo. Voc vai ver.
Vamos, tente se levantar. Vou lev-la agora
        mesmo a Feliciano.
        Algumas horas depois, no consultrio, Feliciano examinou-a emdadosamente. Ao
final, deu o diagnstico, que ambos j conheciam:
        - Flvia, meus parabns! Voc vai ter outro filho!
        Sem entender por qu, Flvia comeou a chorar. Em seu ntimo, no queria aceitar.
No que no quisesse o filho. Mas sentia
        como se aquela criana fosse lhes levar algum tipo de infelicidade, e teve medo. O
que seria de Fabrcio?
        Vendo seu estado, Feliciano retrucou surpreso:
        - O que h? No est feliz?
        - No  isso-respondeu ela ao final de alguns segundos. -Foi apenas a surpresa, s
isso. No esperava engravidar de novo.
        Pensei que nem pudesse mais...
        - Ora, e por que no? Voc  uma mulher jovem, saudvel, que j teve um filho.
Posso saber por que motivo no poderia ter
        outro?
        Flvia olhou para ele em silncio. Paulo sabia que nunca tivera um filho. Para todos
os efeitos, Fabrcio era fruto de
        seu ventre, e no havia por que duvidar da possibilidade de uma nova gestao.
        A famlia toda se alegrou com a notcia. Para Paulo, ento, parecia que seria o
primeiro filho. Nem se lembrava mais de
        que possua outro.
        - Paulo, querido - alertava Flvia. - No acha que ainda  cedo para tanta felicidade?
E se eu perder este beb tambm?
        - Voc no vai perd-lo. Sinto isso.
        - E quanto a Fabrcio?
        - O que tem ele?
        - Parece que voc no se importa mais com ele. Lembre-se de que  seu filho
tambm, tanto quanto este que est para nascer.
        Ouvindo as palavras de Flvia, Paulo quedou pensativo. Ela tinha razo. Se antes j
era difcil aceitar Fabrcio como parte
        da famlia, o que dizer agora, que seu herdeiro legtimo estava chegando? Seria
muito mais difcil. Ah, se pudesse retroceder
        no tempo... Jamais teria permitido que Flvia o convencesse a tomar parte daquela
loucura. Se soubesse que seu filho viria
        ao mundo em data to prmina, teria arrancado dos braos de Flvia aquele intruso
que viera para roubar o lugar de seu verdadeiro
        filho.
        Mas agora era tarde demais. Flvia afeioara-se ao menino. E Paulo? No poderia
atirar Fabrcio na rua nem devolv-lo 
        prpria
        me. Nada sabia sobre ela: no sabia seu nome, onde morava, nem se estava viva ou
morta. Provavelmente, j no vivia mais.
        Lembrou-se daquela medalhinha, mas Flvia a havia atirado para longe e, alm do
mais, nada revelava sobre os pais do menino.
        De qualquer sorte, no poderia mandar Fabrcio para a morte. Podia no o amar ou
querer, mas jamais se perdoaria se ele
        acabasse morto ao voltar para um pas em guerra.
        Tentando dissimular a repulsa que a idia de comparar Fabrcio a seu filho legtimo
lhe causava, Paulo considerou:
        - Pense nisso voc tambm, Flvia. De agora em diante, teremos dois filhos. Dois.
        A exceo de Ins, ningum suspeitou de nada. Mas Ins tambm era me, e algo no
corao lhe dizia que a filha estava sofrendo.
        Flvia estava tendo uma gravidez bastante difcil, com freqentes enjos e
desmaios, e parecia a Ins que Flvia rejeitava
        o filho ainda no ventre, desmaiando para fugir  realidade.
        Estavam ambas sentadas, balouando num banco do jardim da casa de Ins, quando
esta perguntou:
        - Minha filha, ser impresso minha ou voc no est feliz com essa gravidez?
        Flvia assustou-se e colocou a mo na barriga, j bem avolumada em quase seis
meses de gestao.
        - Por que diz isso, mame?
        - No sei explicar. No acompanhei a gravidez de Fabrcio, porque voc passou o
tempo todo viajando. Mas no noto nenhum
        entusiasmo seu por essa criana que vai nascer. Estou errada?
        Flvia no sabia o que dizer. A me conhecia-a muito bem e sabia que algo estava
acontecendo. Mas o que seria? Nem Flvia
        sabia. O novo beb seria irmo ou irm de Fabrcio, e no havia nenhum problema
nisso. Seriam criados juntos, da mesma forma,
        com o mesmo amor. Racionalmente, Flvia sabia que no havia motivos para se
preocupar. Mas, em seu ntimo, sentia-se inquieta,
        preocupada, temerosa.
        Ela considerou as palavras da me por alguns instantes e acabou por confessar:
        - Sabe, me, no sei dizer o que realmente sinto Mas a verdade  que este filho 
diferente de Fabrcio.
        - Diferente? Como assim?
        - No sei explicar. Mas no sinto por ele o mesmo que sinto por Fabrcio.
        - Como no, minha filha? No o ama tambm?
        - Amo... Creio que amo. Mas  um afeto confuso, amedrontado, no sei definir.
        - Mas por qu?
        - No sei, me, e  isso o que me angustia.
        Ins fincou o p no cho, parando o balano, virou-se para Flvia e, encarando-a
bem fundo nos olhos, considerou:
        - Flvia, sou sua me e a amo, e voc sabe disso. E minha nica filha, e no h nada
no mundo que voc tenha feito, absolutamente
        nada, que eu no possa compreender.
        Flvia fitou-a emocionada. Contudo, desviou os olhos e perguntou, a voz trmula
acusando o receio que sentia:
        - O que quer dizer? O que posso ter feito de errado?
        - De errado, acredito que nada. Mas secreto, escondido...
        - Me! No que est pensando?
        Quer que seja sincera?
        Flvia hesitou. Sabia que a me falaria o que estava pensando. Ins sempre fora
mulher discreta, nunca se intrometera na
        vida de ningum nem dera opinio quando no solicitada. Mas, se algum lhe
perguntava algo, dizia o que achava, com a maior
        sinceridade. Naquele momento, porm, Flvia sentia que no podia mais recuar. A
me, provavelmente, desconfiava da verdade.
        Por que outro motivo teria mentido sobre a cor dos olhos do bisav?
        Sem encar-la, Flvia respondeu:
        - Quero, me. Quero que fale francamente.
        - Pois bem. Foi voc quem pediu. Posso estar enganada, mas o corao me diz que
Fabrcio no  seu filho de verdade.
        Vendo que Flvia comeava a chorar, Ins abraou-a e alisou seus cabelos,
deixando que ela desse livre curso s lgrimas
        e desabafasse toda a sua angstia. Ao final de alguns minutos, Flvia se recomps,
enxugou os olhos e disse com emoo:
        - Se eu lhe contar a verdade, promete no falar nada a ningum?
        - Voc sabe que pode confiar em mim.
        - Eu sei, mame. Por isso, quero lhe contar tudo. Mas, por favor, no me julgue ou
condene. Se fiz o que fiz, foi por piedade
        e, sobretudo, amor.
        Detalhadamente Flvia contou  me tudo que acontecera, desde o dia em que
perdeu o beb at o encontro casual com a alem
        na estao de trem, quando ela lhe entregara uma trouxinha com o filho dentro. Ins
escutou tudo em silncio, permitindo
        que as lgrimas escorressem de seus olhos em abundncia. Quando a filha terminou,
Ins apanhou sua mo, acariciou-a com
        ternura e ponderou:
        - Flvia, minha filha, vocs foram muito corajosos. E, creia-me, nada acontece por
acaso. Se Fabrcio veio parar em suas
        mos dessa maneira, foi porque assim tinha de ser. Estava no caminho de vocs,
talvez at de todos ns, como forma de aprendizado
        e crescimento.
        - Mas por qu, me? Por que dessa forma? Eu estava enganada ao pensar que no
poderia engravidar. Tanto que estou grvida
        agora. Por que as coisas tiveram de acontecer desse jeito?
        - No sei, minha filha. Mas confio em Deus o suficiente para saber que nada
acontece se no for para nosso bem. Por mais
        difcil que seja a situao, h sempre um motivo, e esse motivo  sempre nosso
crescimento.
        - Mas como vou crescer com isso? Estou sofrendo. Paulo no gosta muito de
Fabrcio, e eu temo no poder amar meu filho legtimo
        tanto quanto o amo. Como pode ser isso?
        - O amor no escolhe laos nem parentesco. Simplesmente acontece. Mas, se voc,
Paulo, Fabrcio e essa nova criana foram
        reunidos em uma mesma famlia, com certeza  para que desenvolvam esse amor. O
amor, minha filha, existe dentro de todos
        ns, embora algumas vezes no esteja visvel ou aparente. Basta que lhe demos
chance para se desenvolver, e ele florescer
        em sua plenitude. Acredite em mim: todos vocs tm muitas chances de se
harmonizar. S o que tm a fazer  se permitir.
        - Mas como? Permitir o qu?
        - Permitir viver as emoes, em primeiro lugar. No neguem nada, no finjam que
essas emoes no existem. Se voc sente
        raiva, sinta a raiva. Se est frustrada, assuma a frustrao. Se tem medo, reconhea o
medo. O primeiro passo para lidarmos
        bem com as emoes  o reconhecimento; em seguida, a aceitao. Por ltimo, a
transformao, caso a emoo nos incomode.
         Assim, se voc no ama ainda esse filho, no tente mentir para si mesma, fazendo-
se crer que o ama. Reconhea que o sentimento,
         em vez de amor camuflado,  de
         medo, frustrao, raiva, seja l o que for. Depois, reflita no que poder fazer para
modificar esse sentimento e faa-o.
         - Como se fosse fcil...
         - Sei que no . Por isso precisamos estar dispostos a mudar. E preciso que voc
entenda que no vai passar a amar seu filho
         s porque acha que deve, por obrigao ou culpa. Isso poder torna-la extremamente
infeliz, porque voc vai acabar caindo
         na depresso ou na passividade. Voc vai acabar deixando seu filho fazer o que
quiser, enchendo-o de presentes s para compensar
         sua falta de amor. E no se iluda, Flvia, porque ele perceber. Pode at ser que no
perceba conscientemente, mas algo
         dentro dele far com que sinta sua falta de amor, sua mentira. E a, dependendo da
ndole dele, poder se transformar numa
         pessoa amarga, ftil, agressiva... Como poder tambm no se transformar em nada
disso e ainda ajuda-la, caso j tenha alcanado
         alguma compreenso.
         Flvia chorava baixinho e retrucou angustiada:
         - Mame, ajude-me! No sei o que fazer.
         - No faa nada. Apenas reze e pea a Deus que a ilumine. Voc tem uma grande
vantagem a seu favor: a maternidade. Quando
         seu filho nascer, ter uma grande chance de ama-lo s pelo fato de ser sua me.
Voc no sabe disso ainda porque Fabrcio
         no nasceu de voc. No estou dizendo que o amor seja diferente. No. Sei que voc
ama Fabrcio como seu verdadeiro filho.
         Mas voc no sofreu ainda as dores do parto e no sabe como  maravilhoso ver
surgir diante de voc um pequeno ser que 
         fruto de seu amor e de seu corpo tambm. Tenho certeza de que, quando vir essa
criana, seu corao saber reconhecer todo
         o esforo mtuo que tiveram de fazer para superar as diferenas e se aceitarem. E a
voc o aceitar.
         - Por que diz esforo mtuo?
         - Porque, assim como  difcil para voc, pode ser que tambm o seja para ele.
Talvez esse esprito tenha escolhido nascer
         nestas circunstncias para que ambos possam se entender e se perdoar, alcanando
assim o verdadeiro amor.
         - Acredita mesmo nisso, me? Acredita que meu filho escolheu nascer em nossa
famlia?
         -  claro que acredito. Ningum vai a uma famlia por acaso. Pode ser por afinidade
ou para vencer dificuldades e ressentimentos.
         - Voc quer dizer com isso que todos ns j nos conhecamos anteriormente? Que
s nascemos na mesma famlia porque estamos
         ligados de alguma forma, seja pelo amor, seja pelo dio?
         - No necessariamente, embora isso seja o mais comum. Mas h casos em que o
esprito que vai reencarnar no teve nenhuma
        outra relao com seus novos familiares. Isso acontece por vrios motivos. Pode ser
porque aquele esprito precise passar
        por determinadas experincias sozinho, longe dos seus. Pode ser porque no haja
mais ningum disposto ou disponvel para
        receb-lo como filho, e ele aproveita a oportunidade de nascer em outra famlia.
Pode at ser por mero oportunismo mesmo:
        o esprito quer nascer de qualquer jeito e aceita as nicas pessoas que esto
dispostas a receb-lo. Mas tudo isso  feito
        com muito respeito ao livre-arbtrio. No se impe nada a ningum. Os espritos,
tanto dos pais quanto dos filhos, devem
        estar de comum acordo. Do contrrio, nada lhes ser imposto. Receber um esprito
estranho, muitas vezes, pode ser bem difcil,
        porque os laos de sentimentos estaro se iniciando naquele momento. Mas pode
tambm ser muito fcil, porque a ausncia
        de pendncias anteriores, aliada a uma afinidade de pensamentos e propsitos, pode
tornar a convivncia muito harmoniosa
        e prazerosa. Seria mais ou menos como fazer uma nova amizade.
        - Acha que este filho  um estranho, mame?
        - Absolutamente no. Sinto que sua ligao com ele  das mais fortes. Por isso, no
desperdice a oportunidade de harmonizar-se
        com ele.  para isso que nascemos. Para vivermos em paz e sermos felizes.
        Flvia saiu mais tranqila da casa da me. Embora no estivesse propriamente feliz
com o nascimento do filho, passou a aceit-lo
        com mais naturalidade, como algo que seria bom para ela e para todos. Os enjos
passaram e ela deixou de desmaiar, sentindo,
        em seu corao, que j no o rejeitava mais.
        Quando Adriano veio ao mundo, foi uma alegria geral. Era o segundo filho de Paulo
e Flvia, forte e robusto, muito parecido
        com os demais membros da famlia. A tez morena e os olhos castanho-escuros
demonstravam bem que era um tpico Lopes Mandarino.
        Mas, ao mesmo tempo em que Paulo exultava com a vinda de seu herdeiro legtimo,
Flvia sentia o corao apertado, com medo
        do que poderia acontecer a Fabrcio.
        Mas as previses de Ins haviam se concretizado. Depois de um parto mais ou
menos longo, Adriano foi colocado nos braos
        da me, ainda sujo, todo retorcido e inchado, e ela sentiu uma forte emoo.
Segurando suas mozinhas delicadas, suas perninhas
        macias, seu rostinho gorducho, o corao dela imediatamente se enterneceu, e ela
sentiu o poder da maternidade com toda
        a sua intensidade. No que achasse que fosse amar mais um do que o outro. No.
Em sentimento, sabia que ambos eram iguais.
        Mas havia algo em Adriano que mexia com ela; a certeza de que era responsvel
no apenas pelo crescimento de um novo ser
        mas tambm por sua prpria existncia. Biologicamente, Fabrcio no dependera
dela para nascer. Adriano, ao contrrio, era
        fruto de seus genes, alimentara-se de seu sangue, abrigara-se em seu tero. Sim,
pensou, seria muito fcil am-lo tambm.
        Ele era parte dela, assim como Fabrcio, com a nica diferena de que o lao que os
unia no era apenas afetivo, mas fsico
        tambm. E serlhe-ia impossvel ignorar ou menosprezar um ser que trazia dentro de
si metade do que ela era.
        Flvia entrou em casa carregando Adriano no colo, e Fabrcio correu ao seu
encontro. Esperava ansioso pela chegada do
        irmozinho ou da irmzinha, como costumavam lhe dizer. Embora fosse ainda
muito pequeno e pouco entendesse do que lhe diziam,
        tinha conscincia do novo habitante da casa, e seu esprito, de forma inconsciente,
sentiu medo, e ele estendeu as mos
        para Flvia e balbuciou:
        - Mam... mam...
        Hermnio, que vinha logo atrs, deu um sorriso maroto e acrescentou com
jovialidade
        - Ora, vejam s. O pequeno Fabrcio j est com cime do irmozinho.
        Flvia olhou para o menino, que lhe puxava a barra da saia, estendeu-lhe a mo e foi
conduzindo-o para o sof, onde se sentou
        com Adriano ainda ao colo e pediu  bab que auxiliasse Fabrcio a subir e sentar-se
a seu lado. A bab colocou Fabrcio
        bem juntinho da me, que o abraou e beijou repetidas vezes, falando com doura:
        - Meu filhinho querido, este  seu irmozinho. A mame vai tratar e amar os dois
igualzinho. Est bem?
        Embora no entendesse bem as palavras da me, Fabrcio compreendia seus gestos
de carinho e sentiu-se seguro ao lado dela.
        Abraou-a bem apertado e olhou com ar de dvida para o irmo, que dormia
placidamente.
        Ins, adivinhando os temores da filha, dizia-lhe para no se preocupar. Os meninos
cresceriam fortes e saudveis, e nada
        aconteceria que j no estivesse escrito no livro da vida. Fosse o que fosse que
tivesse de acontecer, seria para o bem
        e para o crescimento de todos, e no havia com o que se preocupar.
        Enquanto a famlia admirava o recm-chegado, Flvia entregou Fabrcio  bab e
saiu puxando Ins discretamente pela mo.
        Levoua para seu quarto e trancou a porta. Preocupada, Ins indagou:
        - O que foi, minha filha? O que houve?
        Flvia abriu a ltima gaveta da cmoda e enfiou a mo no fundo, puxando uma
caixinha de papelo. Sentou-se ao lado da me
        e falou baixinho, com medo de que algum a escutasse:
        - Me, quero que guarde isto para mim.
        Ela abriu a caixinha e retirou a corrente de ouro com a medalhinha e estendeu-a para
a me. Ins apanhou o cordozinho,
        virouode um lado para outro em sua mo e, notando o fecho na medalha, puxou-o, e
as fotografias apareceram.
        - Isto estava preso ao pescocinho de Fabrcio-continuou
        Flvia -Gostaria que o guardasse para mim. Paulo pensa que o jogara, mas no tive
coragem.
        - Por qu?- indagou Ins, emocionada .
        -No sei dizer. S o que sei  que uma estranha fora me impediu de abrir a mo e
atir-la longe.
        Ins fechou a mo com a correntinha dentro e prometeu:
        Pode deixar, minha filha. Estar bem guardada comigo.
        Daquele dia em diante, nunca mais tocaram naquela correntinha. Era o nico elo
que ligava Fabrcio a seus verdadeiros pais.
        E era, por isso mesmo, um grande segredo.
        Os dois meninos foram criados juntos, iguais em cuidados e ateno. Tinham os
mesmos brinquedos, dormiam em quartos semelhantes,
        faziam os mesmos passeios. No havia nada que um possusse que no tivesse
tambm sido dado ao outro. Apenas os carinhos
        eram diferentes. Enquanto Flvia os atuava sem distino, Paulo nitidamente
demonstrava sua preferncia por Adriano, o que
        deixava Flvia deveras amargurada.
        O tempo foi passando, e os meninos, crescendo com ele. Fabrcio adorava a casa da
av, seu pomar, suas flores, seu ar de
        mistrio. O casaro em que ela vivia j estava envelhecido, mas guardava ainda
muito da dignidade de outros tempos. Por
        mais que Flvia insistisse, Ins no se mudava, e Fabrcio ficava muito feliz com
isso. Se ela se mudasse, onde poderia
        buscar refgio e paz em meio  cidade que crescia sem parar?
        Naquele dia, Fabrcio saiu da escola e tomou o lotao rumo  casa da av. J estava
com catorze anos e orgulhava-se de
        poder sair sozinho. O pai colocara um motorista  sua disposio, mas ele gostava
da liberdade de poder andar s, sem ningum
        para tomar conta dele.
        Seu irmo, Adriano, no era como ele. Por mais que gostasse da av, tinha horror a
mato, como chamava seu jardim, e no
        gostava do cheiro de mofo de casas velhas. Por isso, ficava feliz quando a av ia
visit-lo, mas, sempre que podia, esquivava-se
        de ir  sua casa.
        Fabrcio fez sinal para o lotao e entrou. Estava vazio, e ele se sentou atrs, em um
banco perto da porta. Como havia
        vrios lugares vagos, pousou os cadernos a seu lado e abriu um livro de histrias. A
viagem era relativamente longa, e teria
        ainda meia hora para ler.
        Passados alguns minutos, o lotao parou no ponto e um casal entrou, seguido de
uma moa muito loura, olhos azuis, cabelos
        ondulados e curtos. Fabrcio no lhes deu importncia e voltou a ateno para o
livro. Logo a moa estava a seu lado e disse,
        com um forte sotaque que lhe pareceu alemo:
        - Com licena, lourinho. H algum sentado aqui?
        Fabrcio encarou-a surpreso e olhou em volta. Havia muitos lugares vagos na frente,
bancos inteiros sem ningum sentado.
        Por que aquela mulher resolvera sentar-se justo a seu lado? Educadamente, porm,
Fabrcio recolheu os livros e respondeu:
        - No, senhora, pode sentar.
        A moa sentou-se ao lado dele, mas Fabrcio, pouco depois, apanhou livros e
cadernos e, pedindo licena, passou para o banco
        de trs, colocando novamente o material a seu lado. A moa tambm se levantou e
foi para o mesmo banco, falando com doura:
        - Posso sentar-me aqui, lourinho?
        Ele a fitou espantado. Ser que era maluca? Novamente, recolheu seu material e
passou para outro banco. Ser que ela no
        compreendia que ele queria sentar-se sozinho para no ter de ficar segurando o
material no colo? J havia se acomodado e
        voltara a abrir o livro quando a mulher apareceu novamente.
        Dessa vez, Fabrcio no lhe deu chance de falar. Levantou-se apressado, passou a
mo nos livros e, fuzilando-a com os olhos,
        perguntou cheio de indignao:
        - O que h com voc, moa? Por acaso  maluca ou o qu?
        A moa no respondeu, e ele, sob o olhar assustado do trocador
        e dos demais passageiros, passou pela roleta e foi sentar-se na parte
        da frente, num banco ao lado do motorista.
        - O que houve, rapaz? - perguntou o condutor, olhando-o de
        soslaio, procurando no desviar a ateno do trnsito. De mau humor, Fabrcio
respondeu:
        - Veja s, moo. Aquela mulher l atrs cismou comigo. Parado num sinal, o
motorista virou o corpo, procurando com os
        olhos a tal mulher. No vendo ningum, alm do casal e de um senhor
        que dormia com a cabea encostada na janela, tornou a indagar: - Que mulher?
        - Aquela l atrs... loura, olhos azuis, muito branca. - Mas que mulher, meu filho?
No h ningum ali.
        Fabrcio voltou-se confuso. Olhou em todas as direes, mas no via mais a mulher.
Assustado, levantou-se e correu para
        a parte de trs do nibus, procurando-a, mas no havia mais ningum ali. Aturdido,
olhou para o homem que dormia e para
        o casal, que o fitava com ar de zombaria. Ele se aproximou do casal e questionou:
        - Vocs no viram aquela mulher que falou comigo?
        - Que mulher? - retrucou o rapaz.
        - Aquela loura, que entrou com vocs.
        - No entrou ningum conosco - continuou ele.
        - Mas no  possvel. Eu a vi entrar. Loura, olhos azuis. Falou comigo, pediu para
sentar ao meu lado.
        - Tem certeza de que no bebeu, rapaz? - interrompeu o trocador. -No entrou
ningum alm do casal. Acha que eu no a teria
        visto passar pela roleta?
        Fabrcio sentiu o rosto arder. Aquele homem pensava que ele estava bbado! Era
um disparate. No entanto, tinha de concordar
        que era estranho. Vira a mulher, falara com ela, mas ela desaparecera. Como seria
possvel?
        - S se foi um esprito - sugeriu a moa ao lado do rapaz, e ambos comearam a rir.
        O trocador acompanhou-os nas risadas, e o senhor com a cabea encostada na janela
acordou e olhou para eles com cara de
        quem acabara de chegar. Vendo que ele despertara, Fabrcio dirigiu-se a ele:
        - Senhor, desculpe-me, sei que estava dormindo. Mas por acaso no viu uma moa
loura entrar no lotao atrs deste casal
        aqui?
        O homem olhou-o como se ele fosse louco e respondeu:
        - Meu filho, se tivesse visto uma mulher assim, garanto a voc que no teria
adormecido.
        Todos riram novamente. Fabrcio, cada vez mais confuso, voltou a seu lugar e no
disse mais nada. Ser que estava ficando
        louco? Mas no, ele sabia o que tinha visto, e ouvira distintamente a mulher falar
com ele. Ela dissera at alguma coisa
        que ele no entendera. Parecia que falava alemo. Mas como pudera aparecer e
desaparecer sem que ningum a visse? Ser que
        vira mesmo um fantasma?
        Quando chegou  casa da av, Fabrcio estava plido e acabrunhado, e ela no pde
deixar de perguntar:
        - O que houve, Fabrcio? Est estranho hoje. Por acaso viu algum fantasma?
        Ele encarou a av e deu um sorriso amarelo, respondendo sem muita convico:
        - Para falar a verdade, vov, acho que vi, sim.
        Ins assustou-se com aquelas palavras e f-lo sentar-se no sof,
        pedindo a Bibiana, sua criada de muitos anos, que trouxesse a ele um
        copo de gua. Esperou at que ele bebesse tudo e continuou:
        - Que histria  essa? Est querendo brincar comigo, ?
        - No, v. Eu juro. Estava vindo para c quando uma moa en
        trou no lotao e falou comigo. S que ningum a viu; apenas eu. - Conte-me essa
histria direito. No estou entendendo
        nada. Em mincias, Fabrcio narrou-lhe o que havia sucedido. A medida que ele
falava, o corao de Ins ia disparando. Aquela histria
        tinha tudo a ver com o que acontecera no passado. Uma mulher loura, falando
alemo... era muito significativo. Ins sabia que a ver
        dadeira me de Fabrcio, provavelmente, havia morrido em algum
        campo de concentrao, para onde deveria ter sido levada quando
        capturada. Ser que agora resolveu voltar em busca do filho? Mas por
        qu? Com que finalidade?
        Quando ele terminou de falar, apertou a mo da av e perguntou confuso:
        - O que acha que aconteceu, vov? Acha que foi mesmo algum esprito?
        Ins no sabia o que dizer. No poderia simplesmente revelarlhe a verdade. Nem
sabia se fora mesmo sua me que vira. Ela
        s sabia de uma coisa: Fabrcio era mdium e, provavelmente, tivera contato com
um esprito. S o que ela no sabia era
        quem e por qu.
        Percebendo seu nervosismo, ela beijou sua mo e considerou:
        - Fabrcio, voc tem ouvido algumas de nossas conversas, no tem? Minha e de sua
me?
        - Tenho, sim. Por qu?
        - Bem, voc j nos escutou falar de mediunidade, no escutou? - Acha que sou
mdium?
        - Estou quase certa. Penso que voc, realmente, viu o esprito dessa mulher e falou
com ele.
        - Mas por qu? O que ela queria comigo? - No sei.
        - E se ela aparecer de novo?
        - Tente conversar com ela. Explique-lhe que ela j no faz mais parte deste mundo.
        - Eu? Deus me livre! Agora que sei que  um esprito, morrerei de medo.
        - Os espritos no fazem mal a ningum. Voc deve temer os vivos, no os mortos.
        - Falar  fcil, porque no foi voc quem a viu.
        -Pode ser. - Ela ficou um tempo pensativa e retrucou: - Quer ir comigo ao centro
esprita?
        - No sei. Sabe que papai no gosta dessas coisas.
        - Sua me s vezes vai.
        - Eu bem que desconfiava. Mas no sei se quero ir.
        - Est bem, voc  quem sabe. No quero for-lo a nada. Mas no fale sobre isso
com ningum. Nem com sua me. Deixe que
        eu mesma contarei a ela.
        Quando ele se foi, Ins ficou pensativa. Estava quase certa de que tinha sido mesmo
a me de Fabrcio que ele vira. Mas
        por que ela apareceu? Precisava descobrir. Por outro lado, a mediunidade de
Fabrcio poderia representar um perigo. E se
        ele tambm descobrisse a verdade? E se a mulher lhe contasse? Teriam coragem de
desmentir o esprito e fazer com que Fabrcio
        se julgasse louco?
        Em silncio, Ins foi para seu quarto e orou, pedindo a Deus clareza e discernimento
para que ela e Flvia fizessem o que
        tivesse de ser feito, agissem conforme o melhor para cada um.
        Era noite de quarta-feira, dia de sesso no centro esprita que Ins freqentava, e a
filha estava com ela. Na porta do centro,
        Flvia segurou a mo da me e disse hesitante:
        - Me, estou com medo.
        - No tenha medo, minha filha. Tenho certeza de que vai acontecer o melhor.
        - E se ela no vier?
        - Se no vier,  porque no  chegada ainda a hora de se comunicar conosco. De
qualquer forma, poderemos rezar por ela.
        Entraram. A sesso ainda no havia comeado, e Flvia sentou-se numa cadeira na
primeira fila da assistncia, enquanto a
        me se dirigia  mesa e tomava seu lugar, de frente para ela. Fazia parte do corpo
medinico havia bastante tempo.
        Cumprimentou a todos, e logo a sesso teve incio. Feitas as palestras e as oraes,
o dirigente passou aos trabalhos de
        desobsesso e doutrina, invocando os espritos necessitados que quisessem se
apresentar. Dois espritos se manifestaram.
        O primeiro, um homem, vinha angustiado, assustado, sem saber o que havia
acontecido e por que se encontrava em completa
        escurido. Depois, uma mulher se apresentou. A princpio, ficou calada, s falando
aps escutar as palavras de conforto
        que o dirigente, Antnio, lhe endereava.
        - No sei o que estou fazendo aqui - disse ela de m vontade. - No pedi para vir.
        - Veio porque, em seu ntimo, sabe que ser bom para voc - respondeu Antnio
com bondade.
        - O melhor para mim  que aquela mulher morra!
        - Por favor, no fale assim. Desejando o mal para o prximo, ele acabar se
voltando contra voc, porque seu corao vai
        se envenenando com seus prprios pensamentos de dio.
        - No me interessa! Ela tomou o que  meu!
        - Ningum toma nada de ningum. S temos aquilo que merecemos.
        De sua cadeira, Flvia no perdia uma palavra sequer daquela conversa. Seria
mesmo a me de Fabrcio? Ser que voltara
        para lhe cobrar o filho que ela mesma lhe dera?
        - No acredito nisso. Quero que ela me devolva o que  meu. - Perceba: nada
levamos desta vida alm dos bons e maus pen
        samentos que cultivamos. Por que se prende ainda a coisas que dei
        xou no mundo? Elas no servem mais para voc.
        - No interessa. Quero o que  meu. Ela no pode me tomar tudo. - Se ela tomou, foi
porque voc permitiu. - No tive escolha...
        Flvia pensou que ia desmaiar. Estava quase certa de que era mesmo a me de
Fabrcio. S podia ser. Mas por que tanto dio?
        Ser que no teve mesmo escolha ao fazer o que fez? No, claro que no. Ia ser
presa, morta. Quis salvar o filho, fez o
        que achou certo.
        A voz de Antnio continuava a se fazer ouvir:
        - Todos temos escolhas na vida. Nosso livre-arbtrio  que nos leva para esta ou
aquela direo.
        - No quando se morre! Que escolha tive ao morrer?
        - Teve a prpria escolha da morte, que, como v, no existe de
        verdade. Se seu corpo de carne deixou o mundo, foi porque seu es prito resolveu
que
        j era chegada a hora e desistiu de viver aqui. A mulher comeou a rir e retrucou
com desdm:
        - Isso que diz no faz sentido algum. No pedi para ter cncer... Flvia quase caiu da
cadeira. Cncer? Mas do que ela estava
        falando? Discretamente, olhou para a me, que permanecia de olhos
        fechados, em orao.
        - Se teve cncer, foi porque alguma coisa em seu comportamento, em seu corao,
lhe trouxe conflitos internos que voc no
        soube resolver - continuou Antnio. - No estou certo?
        O esprito calou-se por alguns instantes e, de repente, comeou a chorar, como se
comeasse a compreender o que lhe acontecera.
        Ainda chorando, retrucou:
        - No sei... Foi to difcil... Ela me tomou o homem amado... Fiquei com raiva...
        Decididamente, aquela no era a mulher que Flvia esperava, e ela riu de si mesma,
de sua tolice. Antnio continuava a conversar
        com o esprito:
        - E o que fez com sua raiva?
        - O que fiz? Nada. O que poderia fazer? Minha irm casou-se com o nico homem a
quem amei em toda a minha vida, e eu passei
        a viver s. Tive vontade de tomar-lhe satisfaes, mas fui covarde e me calei. Vivi a
vida inteira com esse dio a me corroer.
        - De fato, o dio a corroeu. Diga-me: de que foi seu cncer? De fgado?
        - Sim... - balbuciou ela, aturdida. - Como sabe?
        - O fgado  um rgo que absorve toda a raiva mal trabalhada em ns. Voc viveu
muitos anos com sua raiva, sem express-la,
        e isso lhe causou imenso conflito interno.
        - O que queria que fizesse? Que a matasse? Que brigasse com ela?
        - Mat-la? No. Brigar com ela? No, mas colocar-se por meio de uma conversa
sincera. Quando nos confrontamos com nossos
        semelhantes, exteriorizando nossos sentimentos, eles se diluem e no nos
consomem. Se, ao contrrio, ns os guardamos, eles
        vo somatizando e transformando-se em problemas de sade.
        - Tem razo... - Ela soltou um suspiro sentido. - Deveria ter falado com ela. Deveria
ter-lhe dito que ficara magoada, que
        o amava. E ela chegou a me perguntar... eu disse que no, fui orgulhosa, porque
percebi que ele tambm se apaixonara. Eles
        se casaram e eu fiquei com raiva. Depois, quando desencarnei, minha raiva
aumentou porque, como no tinha mais pais e nunca
        tive filhos, ela acabou ficando com todos os meus bens. Bens que eu conquistara
com o suor do meu trabalho. Mas eu j lhe
        tinha dado o homem que amava. Por que teria de lhe dar tambm meu patrimnio?
        - Ningum precisa de bens materiais no mundo espiritual, e os espritos plasmam
tudo aquilo de que necessitam.
        - Sim, tem razo. De nada me valeriam aqui...
        A mulher voltou a chorar, deixando Flvia penalizada, e Antnio, de forma
amorosa, prosseguiu:
        - Muito bem. Creio que chegou a hora de prosseguir em sua viagem. V esses
bondosos amigos a seu lado? Vieram ajud-la a
        se libertar dessas amarras que ainda a prendem ao mundo carnal. Solte-se e v com
eles, e eles a levaro a um lugar de repouso
        e serenidade, onde voc poder encontrar a paz h tanto perdida.
        - Obrigada.
        A mdium que recebera o esprito inspirou profundamente e abriu os olhos.
        - Tudo bem? - indagou Antnio.
        Ela fez que sim com a cabea. Um outro senhor fez uma prece de agradecimento e
os trabalhos foram encerrados.
        No caminho para casa, Flvia disse  me:
        - Pensei que aquela mulher fosse a me de Fabrcio. Que susto, hein?
        - Por que foi um susto?
        - Porque ela estava com muita raiva. No quero um obsessor desses atrs de mim.
        - No diga isso, minha filha. O que comumente se chama de obsessores so, em
geral, espritos confusos ou ignorantes, muitas
        vezes atrados pelas prprias vibraes de dio, vingana e tantas outras que os
encarnados a eles endeream.
        - Desculpe-me. No quis ser rude nem desrespeitosa.
        - Voc no foi. Mas esses espritos, muitas vezes, sabem que so assim chamados e
no ficam satisfeitos. Ao invs de ouvirem
        as preces que fazemos por eles, ficam com mais raiva, porque se sentem
discriminados e estigmatizados, como se obsessor
        fosse sinnimo do prprio diabo.
        - Mame, que horror!
        -  verdade. Ningum gosta de ser discriminado, nem os espritos. Eles se ressentem
com as idias e os nomes que lhes damos. - Tem razo. No havia pensado nisso
        - Flvia fez uma
        pausa
        enquanto caminhavam e depois falou: - Por que ser que ela no veio? Ins deu de
ombros e retrucou:
        - No sei. Talvez no seja ainda a hora. - Confesso que fiquei decepcionada.
        - Pois no devia. No comeo, voc estava at com medo.
        - Eu sei. Mas fiquei ansiosa por saber...
        - No tempo certo, saber. Nem antes nem depois.
        - Voc fala as coisas de um jeito! O que lhe d essa segurana? - A vida. Conheo a
vida.
        - Aquela mulher no est mais viva.
        - Est, sim. Estou falando de vida, no no sentido corpreo ou carnal, mas no
sentido de existir. Essa mulher existe tanto
        quanto ns, e ningum desaparece, simplesmente. Esteja onde estiver, deve pensar
em voc, em Paulo e, principalmente, em
        Fabrcio.
        - Ser que ela est to revoltada quanto aquele esprito que apareceu na mesa?
        - No creio. Sabe, Flvia, aquele esprito me fez pensar. Ns passamos todos estes
anos sem nem falar sobre ela, como se
        ela nunca tivesse existido. Mas ela existe, ainda que s em esprito, e deve estar
querendo alguma coisa.
        - O qu?
        - No sei. Mas, provavelmente, no  Fabrcio.
        - Como pode saber?
        - Eu sinto. Ela lhe deu Fabrcio para salvar-lhe a vida. Escolheu voc, no por acaso.
Voc o salvou, fez a vontade dela.
        Por que agora se voltaria contra voc, contra a mulher que lhe salvou o filho? No
faz sentido.
        - Mas por que voltou justo agora? Por que no antes, logo que desencarnou?
        - Tambm no posso responder a essa pergunta. Muitas vezes, ns nem nos damos
conta de que algum esprito pode estar sofrendo
        em algum lugar. Ns simplesmente o apagamos de nossa mente e nem pensamos
mais nele, mas ele pode muito bem continuar a
        pensar em ns, sem que com isso queira nos prejudicar. Muitas vezes, s o que ele
quer  um pouco de amor...
        Flvia ficou pensativa. A me estava certa.
        - E o que acha que devemos fazer?
        - Por enquanto, nada. Vamos esperar at que ela aparea novamente.
        - E se ela contar alguma coisa a Fabrcio?
        - Teremos de correr esse risco. Fabrcio tem sensibilidade, e no h como
impedirmos o desenvolvimento de sua mediunidade.
        S o que podemos fazer  rezar para que tudo acontea da melhor forma para todos.
        - No quero que Fabrcio descubra. Ele  meu filho. Meu filho, no dela!
        - Cuidado para no cair no apego, Flvia. Entendo seu sentimento. Voc tem sido a
me dele durante todos estes anos e vai continuarsendo por muitos outros mais.
        Contudo, o fato de
        Fabrcio descobrir a verdade no vai diminuir o amor que sente por ele nem o que
ele sente por voc.
        - No sei. E se ele se revoltar?
        - Se ele se revoltar,  porque tem ainda muito que aprender. - No posso concordar
com isso. Se Fabrcio me rejeitar, creio
        que no poderei suportar.
        Haviam alcanado o porto da casa de Ins e pararam antes de entrar. Ins apanhou
as mos da filha e, acariciando-as, falou
        com doura:
        - Vamos rezar e confiar. Deus sempre faz o que  melhor para ns.
        Entraram em casa e Flvia mandou chamar o motorista, que estava conversando
com Bibiana na cozinha.
        Enquanto o automvel rodava pelas ruas da cidade, Flvia ia pensando. A me
estava certa em tudo que lhe dissera. Mas ela
        faria de tudo para evitar que Fabrcio descobrisse a verdade. Tinha medo de perd-
lo, de perder seu corao.
        Todas as quartas-feiras, Flvia ia em companhia da me ao centro de Antnio. No
entanto, por mais que ansiasse, o esprito
        da me de Fabrcio nunca se manifestou. Tampouco o filho vira novamente aquela
mulher, e Flvia pensou que ela houvesse
        desistido.
        At que um dia, quando menos esperava, aconteceu com ela. Flvia estava recostada
no sof, lendo uma revista, quando sentiu
        uma forte sonolncia, que no pde dominar. Olhos pesados, cerrou as plpebras, e
a revista escorregou de suas mos, indo
        pousar levemente em seu colo. Pouco depois, estava sonhando.
        Em seu sonho, o pai estava parado junto a ela, tendo a seu lado a mulher que ela
imaginou fosse a me de Fabrcio.
        - Papai! - exclamou surpresa. - Que faz aqui? E quem  essa a com voc? O que ela
quer de mim?
        - No se assuste, minha filha - tranqilizou o homem. - Helga no est aqui para lhe
cobrar nada.
        - Helga?
        - Sim, a me de Fabrcio.
        Flvia recuou aterrada.
        - A me de Fabrcio sou eu!
        Seu pai j ia responder, mas Hela adiantou-se e falou com forte sotaque alemo:
        - Deixe, Ismael. Creio que devo uma explicao a Flvia.
        - Pois deve mesmo! - retrucou Flvia, de m vontade. - An
        dou assustando meu filho. Ele pensa que viu um fantasma.
        - E viu. Afinal, estou morta, no estou?
        - Voc sabe to bem quanto eu que no est morta. Apenas tro
        cou de dimenso.
        - No pretendia assust-lo...
        - No? E o que voc queria? Depois de tantos anos, por que resolveu aparecer? Quer
confundir a cabea do menino?
        Nesse momento, Ismael interviu:
        - Minha filha, desarme-se. Helga veio aqui em paz. Flvia olhou-a desconfiada.
        - Por qu? O que quer? Veio tomar-me Fabrcio de volta?
        - Se pensar um pouquinho-respondeu Helga paciente-, ver
        que isso  impossvel. Estamos em planos diferentes, e no  minha
        inteno fazer com que ele desencarne. Tampouco pretendo contar
        a verdade a ele, se  o que est pensando.
        Flvia respirou mais aliviada. - Para que veio, ento?
        - Primeiro, para v-lo. Voc o tem criado com muito amor, mas
        lembre-se de que fui eu que o gerei e s me separei dele para que fosse salvo.
Depois, porque pretendo proteg-lo.
        - Proteg-lo? De qu? - Dos perigos da vida.
        - Mas que perigos? - Flvia encarou o pai e tornou com voz
        splice: - Por favor, diga-me: vai acontecer algo com meu filho? Ismael sorriu e
respondeu:
        - No, minha filha, nada acontecer a ele. O que Helga quer
        dizer  que pretende acompanhar seu crescimento, inspirando-lhe
        bons conselhos no decorrer de sua vida. No  isso, Helga?
        Helga balanou a cabea e acrescentou com voz suave:
        - No me tome por inimiga, Flvia. Ao contrrio, estou do seu
        lado. Quando lhe dei meu filho, fruto de meu amor, foi porque sabia
        que poderia cuidar dele para mim. E voc o tem feito de forma amorosa e
consciente. Sou-lhe muito grata por isso. No tenho inteno
        de revelar a ele nada da verdade...
        - Ento, por que se mostrou para ele? Por que falou com ele? - Fabrcio  mdium e,
naquele momento, manipulei seus fluidos
        e me tornei visvel a seus olhos.
        - Por qu?
        - Porque estava com saudade. Desde que desencarnei e me reequilibrei, venho
acompanhando seu crescimento de forma invisvel.
        Naquele dia, porm, no resisti e me aproximei. Materializei-me, utilizando sua
prpria energia.
        - Para qu? Voc o assustou.
        - j disse que no foi essa a minha inteno - tornou Helga com uma pontada de
tristeza. - Sei que no deveria ter feito
        aquilo, que j estou desencarnada e no deveria me aproximar mais de Fabrcio.
Mas entenda: o fato de haver desencarnado
        no apaga os sentimentos de ningum, e continuo amando Fabrcio como no dia em
que ele nasceu.
        - Ainda assim, no deveria ter feito aquilo. Ele no a conhece, no sabe quem 
voc.
        - Tem razo, perdoe-me. No gostaria que me visse como inimiga. Prometo que
nunca mais me apresentarei a Fabrcio dessa
        forma. Permanecerei invisvel a seu lado, ajudando-o e protegendo-o naquilo que
for possvel.
        Flvia estava com medo e no escondia isso.
        - No se zangue, Flvia - intercedeu Ismael. - Helga jamais faria algo que pudesse
prejudicar Fabrcio. Ela agiu movida
        por um impulso do corao. No teve inteno de preocupar nem assustar ningum.
Ela ama o menino tanto quanto voc. Por
        que outro motivo o teria dado a voc?
        Confusa, Flvia no sabia o que dizer ou pensar. Contudo, suas palavras e as do pai
faziam sentido. Ela estava desencarnada,
        mas seus sentimentos no haviam morrido com o corpo. Como pretender que ela
deixasse de amar o filho s pelo fato de no
        possuir mais um corpo material?
        Depois de breves segundos, Flvia inspirou fundo e, com olhos midos, retrucou:
        - Est bem. Confiarei em voc. Mas prometa-me que nunca vai contar nada a ele.
        - Prometo, Flvia.
        Efetivamente, desse dia em diante, Helga nunca mais falou com
        Fabrcio, embora no deixasse de acompanhar seu desenvolvimen
        to. Aquele episdio passou a ser um fato isolado e nunca mais se repetiu. Esprito j
bastante esclarecido, Helga jamais se deixou levar
        pelo cime ou despeito, sentindo-se verdadeiramente grata a Flvia
        pela oportunidade que lhe dera.
        Alguns dias depois, vendo Fabrcio e Adriano se aprontando para
        ir  escola, Flvia entrou no quarto de Fabrcio e perguntou:
        - E ento, meu filho? Tudo bem? - Tudo, me, por qu.
        Ela fingiu ajeitar os livros na estante e retrucou em tom casual: - Teve de novo
aquela viso?
        - Que viso?
        - Aquela, do nibus. Viu aquela mulher novamente? -No, nunca mais. Por qu? -
Curiosidade.
        Fabrcio ia perguntar mais alguma coisa, mas a entrada sbita
        de Adriano fez com que mudasse de idia. O irmo era muito ctico e, sem dvida,
cairia na pele dele se descobrisse que ele andava
        vendo fantasmas.
        - Oi, me - disse Adriano, abraando Flvia e dando-lhe um beijo na testa.
        - Ol, meu filho. No o vi chegar ontem. A que horas voltou? Adriano baixou os
olhos e apertou os lbios, olhando discreta
        mente para o irmo, que no disse nada. Tentando aparentar naturalidade,
respondeu:
        - No sei ao certo. Estava sem relgio, e ficamos at tarde estudando. Nem vimos a
hora passar.
        - Voc ainda  muito jovem para ficar na rua at altas horas. - Prometo que no fao
mais - encerrou Adriano, estalando
        lhe um beijo na testa.
        Flvia suspirou e no respondeu. Apenas olhou para ele, que, parado na porta, falou
para o irmo:
        - E ento, seu tonto, vem ou no vem? O motorista j est esperando.
        Fabrcio fitou-o pelo espelho e respondeu com indiferena: - Pode ir, Adriano.
Prefiro ir de nibus. Adriano deu de ombros
        e revidou com desdm: - Voc  quem sabe.
        Saiu. No quarto, Flvia encarava o filho, tentando adivinhar por que eles no se
davam bem. Criara-os igualmente, dava-lhes
        ateno, carinho. Por que no se entendiam? Fabrcio at que no se metia com o
irmo. Mas Adriano, sempre que podia, arrumava
        um jeito de diminu-lo ou ofend-lo. Parecia sentir prazer em humilhar e agredir o
irmo. Por qu?
        Vrias vezes, levara o problema ao marido. Paulo, porm, nunca lhe dera razo.
Dizia que ela mimava demais os filhos e que,
        por isso, Adriano era um pouco voluntarioso, ao passo que Fabrcio era um tolo. Era
ntida sua preferncia por Adriano,
        e todos na famlia j haviam notado isso. At Hermnio, que no costumava reparar
nessas coisas, percebeu. Paulo, porm,
        dizia sempre que era impresso, mas admitia que Adriano possua um gnio mais
parecido com o seu.
        Fabrcio sentia essa diferena, e Adriano tambm. Por isso, Adriano sempre se
escudava na proteo do pai, que nunca o repreendeu
        severamente por suas travessuras. Ao contrrio, protegia-o quando podia, muitas
vezes colocando toda a culpa em Fabrcio
        por qualquer arte ou brincadeira mais perigosa. Ele era o mais velho e cabia-lhe
tomar conta do irmo, no o incentivar
        a fazer o errado. Fabrcio no dizia nada, mas guardava aquela mgoa dentro do
peito, ao passo que Adriano, cada vez mais,
        tornava-se arrogante e provocador.
        Flvia no fazia nenhuma distino entre os dois. Sentia, em seu corao, que os
amava igualmente, mas tudo fazia para proteger
        Fabrcio. Enquanto Paulo o acusava de tudo, ela sempre arranjava uma justificativa,
no para inocent-lo, mas para que cada
        um dos filhos fosse penalizado na medida de suas responsabilidades. Flvia no
aprovava os castigos de Paulo, embora s
        vezes reconhecesse que eram necessrios. Mas no podia permitir que apenas
Fabrcio fosse castigado, perdendo passeios,
        indo para o quarto, muitas vezes sem jantar, sendo obrigado a estudar alm do
necessrio.
        Quando Adriano fazia alguma coisa que era descoberta e no se podia colocar a
culpa em Fabrcio, Paulo  que o justificava
        e, quando no via sada, dava-lhe castigos leves, como ficar apenas uma hora no
quarto, no tomar sorvete por um dia e coisas
        do gnero. Mas nunca o castigara severamente como fazia com Fabrcio.
        E assim foi durante o passar dos anos, at que o destino houve por bem coloc-los
frente a frente com as articulaes da
        vida.
        Adriano terminou de ajeitar a gravata, passou a mo pelos cabelos e sorriu satisfeito.
Estava muito elegante para sua festa
        de formatura. Seguindo os passos do pai, conclura o curso de administrao de
empresas e estava apto a ser seu sucessor.
        Mais alguns anos e ocuparia a cadeira que hoje Paulo ocupava e que antes fora
ocupada por seu av.
        Toda a boa sociedade carioca fora convidada, e ningum queria perder a
oportunidade de comparecer  festa de formatura de
        um dos melhores partidos da cidade. Ele e o irmo eram comentadssimos nas rodas
sociais, sendo apontados como os favoritos
        no corao das jovens casadouras do Rio de Janeiro.
        Fabrcio formara-se advogado, mas no aceitara trabalhar nas empresas do pai.
Queria ter seu prprio escritrio e passou
        a dedicarse s causas de famlia. Sentia-se atrado pelos problemas familiares, em
especial pela situao das crianas,
        muitas vezes atiradas de um lado para outro, servindo de joguete para os interesses
dos pais.
        Adriano fechou a porta do quarto e desceu para a sala, onde os pais e o irmo j o
aguardavam.
        - Meu filho! - exclamou Flvia, ajeitando-lhe a gravata. - Pensei que no viesse
mais.
        - Estou bem?- indagou ele  me, dando uma volta para mostrar o terno novo.
        - Est muito elegante. Vai ser um sucesso.
        - E voc, Fabrcio, o que acha?
        - Voc est muito bem, Adriano, como sempre.
        Adriano sorriu com satisfao, e o pai, acariciando sua nuca, acrescentou:
        - Muito bem, meu filho. No quer chegar atrasado  cerimnia, quer?
        Os quatro saram animados e tomaram o automvel que os conduziria at a sede do
clube onde se realizaria a festa de formatura.
        Quando chegaram, j havia uma enorme quantidade de jovens andando de um lado
para outro, todos imponentes em suas becas
        de formatura.
        Ficaram parados na porta, olhando o movimento e procurando ver se j havia
chegado algum conhecido.
        - Vejam- falou Paulo, apontando para um lugar na terceira fila. - L esto mame e
papai. Vamos at l.
        Seguiram em direo quela fileira e sentaram-se ao lado deles. Flvia indagou:
        - No viram minha me por a?
        - Vimos, sim - respondeu Dulce. - Foi at o toalete, mas j volta. Estamos
guardando o lugar dela.
        - Ol! Como vai nosso formando?-era Feliciano, que acabara de chegar.
        - Muito bem, doutor - respondeu Adriano, com um sorriso. - Posso sentar-me aqui?
        - Estamos guardando esse lugar para Ins-desculpou-se Dulce. - No faz mal. Sento-
me aqui atrs.
        Uma forte microfonia se fez ouvir no salo, e muitos levaram as mos aos ouvidos
para no escutar aquele rudo ensurdecedor.
        Olharam em direo ao palanque que fora instalado para a realizao da cerimnia e
viram que um homem tentava ajeitar o
        microfone, enquanto vrias autoridades tomavam assento  enorme mesa que fora
cuidadosamente arrumada logo atrs.
        - Acho que j vai comear-falou Fabrcio.
        - Tem razo - concordou Adriano. - Melhor tomar meu lugar. Adriano foi em
direo ao local reservado aos
        formandos, e todos os convidados se acomodaram em seus lugares. O mestre-de
        cerimnias j ia iniciar a solenidade quando Ins chegou esbaforida. - Nossa, Ins -
disse Dulce apressada. - J estava
        ficando
        preocupada. Demorou tanto!
        - Encontrei Mariana e Marcos l atrs e parei para conversar.
        - Eles esto a? Onde?
        Ins apontou para os dois, que estavam sentados do outro lado. Dulce sorriu e
acenou para eles, que acenaram de volta. Ao
        sentarse, Ins sentiu que algum a cutucava no ombro e olhou para trs.
        - Feliciano! No o havia visto a.
        Ele chegou o corpo para a frente e sussurrou bem-humorado:
        - Estou precisando aparecer mais, no ?
        - , sim. Voc sumiu do centro.
        - o trabalho... O consultrio e o hospital andam tomando todo o meu tempo. Mas
no se preocupe. Quando tiver um tempinho,
        aparecerei, com certeza.
        Ela sorriu e virou-se para a frente. A orquestra comeava a tocar o Hino Nacional, e
todos se puseram de p. Em seguida,
        algum fez um discurso inflamado, foram apresentados patrono, paraninfo e
homenageados, seguindo-se a entrega dos diplomas.
        A solenidade no foi demorada, e Adriano foi dos primeiros a receber o canudo.
        Terminada a solenidade e encerrados os cumprimentos, as pessoas foram se
retirando. Os alunos no quiseram dar nenhum baile,
        e cada um organizou sua prpria festa. Com Adriano, no foi diferente. Saindo dali,
alguns convidados foram se encaminhando
        para a casa de seus avs paternos, uma bonita manso no bairro de Ipanema, onde
fora preparada uma festa requintada e luxuosa.
        Adriano danava com Clarinha, sua namorada desde o primeiro ano da faculdade.
Era uma moa muito bonita e inteligente, apesar
        de um tanto quanto geniosa. A famlia aprovava aquele namoro, pois o pai de
Clarinha era um poderoso industrial carioca,
        membro de uma das mais respeitveis e tradicionais famlias do Rio de Janeiro.
Quando a msica terminou, Clarinha puxou
        Adriano pela mo e perguntou:
        - Voc viu Selena?
        Selena era prima de Clarinha, filha de uma irm de sua me, e estava tendo
problemas com o casamento. A famlia do marido
        de Selena no possua recursos, e ela agora fazia parte do que se denominava "o
ramo pobre da famlia". Ainda assim, um
        desquite jamais seria aceito. Casara-se porque quisera, ningum a obrigara. Ao
contrrio, no faltaram conselhos para que
        no o fizesse. Mas Selena no quis ouvir. Estava apaixonada e enfrentou a famlia
toda para se casar com Cassiano.
        - Deve estar por a - respondeu Adriano, sem interesse. - Deixe-a, que logo aparece.
        - No. Prometi apresent-la a seu irmo. Voc sabe que ela est tendo problemas
com o marido e quer se desquitar.
        - Desquitar... Onde j se viu, uma mulher querer se separar do marido? Vai  ficar
falada, isso sim. Voc no devia andar com ela.
         - Deixe de ser preconceituoso. Selena no fez nada de errado.
        O marido  que no presta: bate nela e no lhe d dinheiro para nada. - Ainda
assim...
        - No posso acreditar que voc pense que isso  certo. Acha que o homem tem
direito de bater na mulher?
        Adriano hesitou. Ela tinha razo, mas ele era radicalmente contra o desquite.
Considerava-o uma vergonha e, para ele, as
        mulheres desquitadas no passavam de ordinrias em busca de vida fcil.
        - Bom... - balbuciou - Certo no . Mas h outros meios de se resolver isso.
        - Ah! ? E que meios? Posso saber?
        - No sei. Eles podiam procurar ajuda...
        - De quem? De algum conselheiro sentimental? De um padre? Antes que Adriano
pudesse responder, Selena aproximou-se. - Onde
        esteve, Selena?- indagou Adriano, de m vontade. -
        Clarinha j estava quase tendo um chilique por sua causa.
        Selena ergueu as sobrancelhas em sinal de espanto e retrucou: - Fui at o toalete.
        Adriano, pouco  vontade com a presena da moa, pediu licena e afastou-se, indo
conversar com alguns parentes.
        - Venha - chamou Clarinha, depois que ele se foi. - Vamos procurar Fabrcio.
        Fabrcio conversava com dois amigos quando elas se aproximaram, e Clarinha foi
logo falando:
        - Com licena, Fabrcio. Ser que poderia falar com voc um minuto?
        -  claro - respondeu ele educadamente.
        Foram sentar-se num sof, e Clarinha fez as devidas apresentaes: - Fabrcio, creio
que ainda no conhece minha prima Selena.
        Ele estendeu a mo para ela, passando por cima do colo de Clarinha, e retrucou com
polidez:
        - Muito prazer, Selena.
        - O prazer  todo meu - respondeu ela com um sorriso que o encantou.
        Virando o rosto, desconcertado, ele acrescentou: - Bem, o que posso fazer pelas
senhoritas? - Selena no  senhorita, 
        senhora...
        Fabrcio sentiu um leve desapontamento, mas no deixou transparecer nada, e
Clarinha continuou a falar:
        - O marido dela, Cassiano, de uns tempos para c, deu para beber e, sabe como , s
vezes perde a cabea e...
        No terminou. Fabrcio podia sentir o constrangimento de Selena ao ouvir as
palavras da prima, expondo sua vida para um
        estranho de forma to despojada.
        - Bem, Fabrcio - retomou Clarinha -, sei que voc  advogado e que atua na rea de
famlia, e pensei se no poderia ajudar.
        Selena quer se separar, mas a famlia toda  contra, menos eu,  claro, e ela no
possui dinheiro
        para pagar um bom advogado. Fabrcio olhou Selena com interesse. Era uma moa
extrema mente jovem,
        no devia ter mais que vinte e cinco anos.
        - Tem certeza de que quer se separar? - tornou ele.
        - Tenho, sim. Cassiano mudou muito desde que nos casamos. - E quando foi isso?
        - H quatro anos. Eu tinha dezoito anos.
        - Dezoito? Quer dizer que tem apenas vinte e dois anos? Ela balanou a cabea e
acrescentou: - E tenho dois filhos.
        - Isso no  tudo - prosseguiu Clarinha. - Como assim?
        - Bem... Cassiano tem provas que podem, digamos, incriminar Selena, e ela pode vir
a perder a guarda dos filhos.
        - Que provas? O que ela fez?
        Selena respirou fundo, encheu-se de coragem e, fazendo um gesto para Clarinha,
atalhou:
        - Cassiano tem fotos minhas na cama com seu irmo, Anbal. Fabrcio abriu a boca,
estupefato. - Mas isso no 
        o pior - prosseguiu Clarinha.
        - As fotos foram tiradas em nossa cama, tendo ao lado o bero de meu filho mais
novo, de apenas seis meses.
        Aquilo era uma bomba. Fabrcio sabia que, se Cassiano apresen tasse
        aquelas fotos, qualquer juiz lhe daria a guarda das crianas, por entender que Selena
era uma mulher sem moral nenhuma,
        que no s traa o marido como o fazia com o prprio irmo dele e, o que era pior,
em sua cama, ao lado do filhinho adormecido.
        - Mas Carlinhos no estava no bero.
        -No?
        - No. Estranhamente, Cassiano levara as crianas para a casa de sua me naquele
dia...
        Fabrcio, muito interessado, queria saber mais a respeito daquela histria, mas a
chegada de Adriano fez com que Selena
        se calasse, e ele no perguntou mais nada.
        - Ah, vocs esto a!
        Clarinha estendeu a mo para Adriano, que se abaixou a seu lado e deu-lhe um
discreto beijo na face. Em seguida, sentou-se
        no sof e comeou a puxar conversa, falando sobre a festa, a formatura, os
convidados... Fabrcio olhou discretamente para
        Selena, que olhava atentamente para Adriano. Aps alguns minutos, o pai apareceu
e o chamou e, antes de se afastar, Fabrcio
        chegou o rosto perto do ouvido de Selena e sussurrou:
        - Espero-a amanh em meu escritrio s dez horas. No falte.
        No dia seguinte, quando Clarinha e Selena chegaram ao escritrio de Fabrcio,
foram introduzidas em seu gabinete pela secretria,
        uma simptica senhora de uns cinqenta anos que ele empregara logo aps ela ter se
desquitado.
        - Obrigado, Dona Oflia-disse ele com delicadeza. -Pode ir. As moas entraram e
ele as acomodou em duas poltronas de veludo
        em frente  sua mesa.
        - Muito bem - prosseguiu. - Agora que estamos mais  vontade, gostaria de
conhecer o resto de sua histria, Selena.
        Com olhos midos, Selena tomou a palavra e continuou a narrativa que fora
obrigada a interromper na noite anterior.
        - Bem, como estava lhe contando, na noite em que Cassiano nos flagrou na cama,
ele havia levado as crianas para a casa
        de sua me. Eu achei estranho, porque ele nunca fez isso. Mas eu no disse nada.
Pensei que, porque as coisas entre ns
        j no iam bem, ele quisesse ficar um pouco a ss com os filhos, sem minha
presena. Fui muito ingnua. Hoje sei que ele
        armou tudo aquilo.
        - Armou o qu?
        -Naquela noite, depois que ele saiu, eu estava na cozinha, lavando a loua do jantar,
quando a campainha tocou. Fui atender,
        e era Anbal, meu cunhado, que entrou perguntando por Cassiano. Disse-lhe que ele
no estava, que havia ido  casa de sua
        me. Ele pediu para falar-me. Disse que fazia tempo que ele vinha observando o
comportamento de Cassiano e que no aprovava
        nada do que ele fazia. Sabia que ele me batia e achava que eu devia deixa-lo.
Comecei a chorar. Eu estava desolada, desiludida,
        sem apoio. Ningum de minha famlia queria ou quer aceitar o desquite, e Anbal
parecia ser a nica pessoa a me compreender.
        - Na poca - interveio Clarinha - eu no sabia o que estava acontecendo. Talvez, por
ser solteira, ningum me disse nada.
        E olhe que at sou mais velha!
        Selena sorriu agradecida para Clarinha e continuou:
        - Anbal falava com tanta doura que me emocionei e me deixei envolver. No
conseguia parar de chorar, e ele me abraou
        e comeou a me acariciar. Eu estava carente, sentindo-me abandonada, e logo
estvamos nos beijando. Ele ento me levou para
        o quarto. Como disse, Carlinhos dorme conosco, e o bero estava l, bem ao lado da
cama. Na hora, no pensei em nada. S
        o que queria era me sentir amada, viva, e me deixei envolver cada vez mais...
        Nesse ponto, ela parou e comeou a chorar baixinho, e Clarinha segurou sua mo,
tentando transmitir-lhe foras. Fabrcio,
        comovido, apertou um boto e chamou a secretria.
        - Dona Oflia, por favor, traga um copo de gua para Dona Selena.
        - Sim, senhor.
        Quando Oflia voltou, Selena bebeu sofregamente e pousou o copo na bandeja,
agradecida. A secretria devolveu-lhe o sorriso
        e deu meia-volta, fechando a porta em silncio.
        - Sente-se bem para continuar?-quis saber Fabrcio. - Se quiser, podemos deixar
para outro dia.
        Ela sacudiu a cabea com veemncia e objetou:
        - Absolutamente no. Vim aqui porque quero me desquitar, e  o que farei.
        - Isso, Selena- encorajou Clarinha. - Voc  uma mulher forte e corajosa. Vai
conseguir.
        Selena respirou fundo e continuou:
        - Quero que saiba que no  nada fcil para mim narrar-lhe esses acontecimentos.
        - Entendo - falou Fabrcio compreensivo. - Mas, se quer que
        eu a defenda, tenho de conhecer toda a verdade. Se no quiser con
        tinuar hoje, entenderei. Volto a dizer que podemos marcar outro dia. -No, no.
Quero acertar tudo hoje. j estou melhor.
        Fabrcio ficou esperando, e ela continuou, a face j se cobrindo de rubor:
        - Estvamos... estvamos... - calou-se novamente, tentando ganhar coragem. -
Estvamos, bem, nos amando... voc entende...
        Fabrcio tranqilizou-a:
        - No precisa ter medo ou vergonha de mim, Selena. Antes de tudo, sou um
profissional e no estou aqui para julgar ningum.
        Minha funo  ajud-la, no recrimin-la ou critic-la.
        Mais confortada, Selena continuou:
        - A verdade, Fabrcio,  que estvamos... no auge da relao. Eu estava to
envolvida com Anbal que nem ouvi quando a porta
        se abriu. Mas o fato  que Cassiano entrou com uma mquina fotogrfica na mo, e
s percebi sua presena quando as luzes
        do flash estouraram em meu rosto. Abri os olhos, confusa, tentando entender o que
estava acontecendo. Anbal estava em cima
        de mim, mas parecia nem ligar e continuava a se movimentar... -Nova pausa, novo
choro. - Tentei desesperadamente empurr-lo,
        mas ele no saa. Prendendo minhas mos acima de minha cabea, continuava a
investir contra mim, enquanto os flashes continuavam
        espocando. Oh, cus, foi horrvel!
        Selena chorava descontrolada, e Clarinha levantou-se para abraara prima.
        - Acalme-se, Selena, est tudo bem.
        Aos poucos, Selena foi se acalmando. Nunca passara por uma situao to difcil e
constrangedora em toda a sua vida. Depois
        que os soluos cessaram, continuou:
        - Quando tudo terminou, Anbal saiu de cima de mim e olhou para Cassiano, que
nos fitava com dio. "Cassiano", ele disse,
        "o que est fazendo aqui?" "Seus cachorros!", berrou Cassiano. "Deveria mat-los!"
Eu estava apavorada. Anbal, mais que
        depressa, apanhou suas roupas e fugiu pela porta aberta.
        - E o que Cassiano fez depois disso?- inquiriu Fabrcio, j per
        cebendo o que acontecera.
        - Comeou a me xingar e me acusar de ordinria, prostituta e coisas do gnero. Eu
queria morrer!
        - As crianas estavam com ele?
        - No. Haviam ficado na casa de sua me. - Por qu?
        - No sei. Ou melhor, desconfio. Ele disse que, se eu o deixasse, ele cuidaria
direitinho para que o juiz lhe desse a guarda das
        crianas, e eu sairia daquele desquite escarnecida e humilhada.
        - Por que ele no quer se desquitar?
        Selena olhou para Clarinha, e agora foi a vez de esta falar: - Porque no quer perder
a herana. - Herana?
        - Sim- concordou Selena. - Ele sabe que meus pais tm muito dinheiro e que eu s
tenho uma irm. Cassiano espera colocar a
        mo em minha herana quando os sogros morrerem.
        - E est disposto a esperar sua morte?
        - Est. Meus pais j so meio idosos. Quase no nos ajudam, mas eu ainda sou
herdeira. Ele consultou um advogado e sabe que meu
        pai no pode me deserdar s porque me casei com algum que ele no aprovava.
Isso  verdade?
        - , sim. Os casos de deserdao so muito poucos e esto todos descritos na lei.
        - Por isso Cassiano no quer se separar. Tem medo de no receber nada e usa as
fotos para me amedrontar.
        Disse que, se eu o largar, vai mostrar tudo ao juiz, e eu perderei meus filhos. Oh,
Fabrcio,
        no posso abrir mo de meus filhos!
        - Acha que foi tudo armao?
        - Estou certa de que sim. Anbal estava mancomunado com ele e com a me. Eles
armaram tudo isso direitinho para me apanhar, e
        eu ca feito um patinho. E agora vejo-me de ps e mos atados.
        - H quanto tempo isso aconteceu? - H um ms. - E, de l para c, como seu
marido a tem tratado?
        - Muito mal. Quase no nos falamos mais. Ele est sempre de mau humor e grita por
qualquer coisa. Bate em mim s vezes,
        e Selena, minha filha mais velha, morre de medo dele. E s tem trs aninhos!
        - E seus pais? Contou a eles?
        - De jeito nenhum! Meus pais so muito rgidos e jamais me apoiariam numa
situao dessas. Fariam de tudo para continuar
        mantendo as aparncias.
        - Mesmo sabendo que Cassiano e Anbal armaram tudo?
        - Mesmo assim. E, ainda que me apoiassem, iriam querer me dominar, e eu seria
obrigada a fazer o que eles quisessem.
        Fabrcio ficou pensativo por alguns instantes. A situao no era nada boa, mas ele
no podia deixar de ajudar aquela pobre moa. Ela
        era to jovem, to inexperiente... Acabou caindo numa armadilha. - Ser que pode
ajud-la, Fabrcio? - perguntou Clarinha.
        - Selena est sem um tosto. E o que tenho no  muito. Encarando-a com olhar
significativo, Fabrcio considerou:
        -  isso o que quer?- ela assentiu. - Ento, est acertado. Defenderei sua causa e no
lhe cobrarei nada. Mais tarde, se
        puder pagar, pague. Se no puder, no faz mal.
        - Ah, Fabrcio, obrigada! Nem sei como lhe agradecer.
        - Mas. quero que saiba que no ser fcil. Cassiano tem provas robustas contra voc,
e ser muito difcil retirar-lhes a
        credibilidade. Alm disso, Anbal ir testemunhar a favor dele.
        - No faz mal. Estou pronta para o que der e vier. Entrei nesta briga porque preciso
recuperar minha dignidade e auto-estima
        sem abrir mo de meu maior tesouro, que so meus filhos.
        J passava do meio-dia quando a entrevista se encerrou. Fabrcio cogitou convid-
las para almoar, mas mudou de idia. Selena
        precisava pensar. Era um grande passo que estava dando, e ele no queria que ela
imaginasse que ele a estava ajudando porque
        tinha algum interesse nela.
        Adriano tocou a campainha da casa de Clarinha e esperou at que a criada viesse
atender. Clarinha morava num apartamento
        muito bonito, na avenida Atlntica, de frente para o mar. A criada introduziu-o na
sala e mandou que aguardasse. Adriano
        foi para a janela admirar a paisagem. Era sbado, e a praia j estava cheia quela
hora da manh.
        - Bom dia, meu querido - cumprimentou Clarinha, abraando-o por trs.
        Ele se virou e abraou-a tambm, pousando-lhe um beijo carinhoso nos lbios.
        - Ol, meu bem. Ento? Tudo pronto? Podemos ir?
        - Podemos, sim.
        A me de Clarinha apareceu na porta da sala e cumprimentou Adriano com um
aceno de cabea, indagando  filha:
        - Vai sair?
        - Vou  praia, mame. At logo.
        - At logo, Dona Elisete - repetiu Adriano.
        Elisete respondeu com um sorriso e foi sentar-se no sof.
        No corredor do prdio, Clarinha desabafou:
        - Minha me no muda mesmo...
        - Como assim?
        - S quer saber de ir s compras, ao cabeleireiro, fuxicar sobre a vida dos outros...
        - Ora, Clarinha, deixe-a.  de outra gerao.
        Alcanaram a calada e atravessaram a rua, descendo para a areia. Escolheram um
lugar perto da gua e Adriano montou a
        barraca, enquanto Clarinha estendia as toalhas no cho. Depois que se acomodaram,
ele comentou:
        - E sua prima, como vai?
        - Selena? Vai bem.
        - Soube que meu irmo aceitou o caso. - Ele foi muito compreensivo.
        - Fabrcio  um tolo sentimental.
        - Como pode falar uma coisa dessas de seu irmo, Adriano? Ele  um excelente
rapaz, muito digno e respeitador. - Est se
        interessando por ele, ?
        - Eu? - fez Clarinha, surpresa. - Imagine! Era s o que me faltava.
        - Hmm... No sei, no. Do jeito que o defende...
        - Pare com isso. Est me ofendendo. Quem pensa que sou? Arrependido, Adriano
deu-lhe um beijo na testa e desculpou-se: -
        Tem razo, querida, perdoe-me. Mas fiquei com cime. - Pois no precisa. Gosto de
voc, e voc sabe disso. Seu irmo
         um bom moo, reconheo, mas no tenho nenhum outro interesse nele que no
seja uma pura amizade.
        Embora enciumado, Adriano tentou disfarar e falou em tom de confidncia:
        - Clarinha, ser que posso lhe contar um segredo?
        Ela o olhou preocupada e respondeu:
        -  claro que sim. Sabe que pode confiar em mim para qualquer coisa.
        - O que vou lhe dizer, jamais tive coragem de contar a ningum. - O que ? - 
sobre Fabrcio.
        - O que tem ele?
        - No sei explicar, mas no consigo gostar dele.
        Clarinha balanou a cabea e respondeu compreensiva:
        - No precisa se culpar, Adriano. Isso acontece em muitas famlias. No vou dizer
que  natural, mas tambm no  nenhum
        bicho-de-sete-cabeas.
        - No, Clarinha, voc no est entendendo. Sei que h muitos irmos que no se
do, mas no  esse o caso. Sinto algo
        estranho com relao a Fabrcio, como se ele no fosse meu irmo e tivesse vindo
para me tomar alguma coisa. No sei definir.
        - Deve ser impresso, porque no gosta muito dele.
        - No, no . No consigo nem explicar direito o que sinto, mas a vida inteira senti
em Fabrcio uma ameaa.
        - Como assim?
        - No sei definir.  uma sensao estranha, angustiante. No  apenas uma antipatia.
 algo que vem de dentro, uma quase
        inimizade.
        -  to srio assim?
        - . Ainda mais porque sinto que minha me o prefere a mim.
        - Adriano...
        -  verdade. Mame sempre tentou disfarar. No  que no goste de mim. Sei que
me ama, mas Fabrcio parece ser especial.
        - A est.  cime.
        - No! No  cime.  algo mais. No sei dizer, e isso me atormenta. Por outro lado,
papai sempre torceu tudo a meu favor.
        Desde crianas, papai sempre ralhava com ele por qualquer bobagem, ao passo que
vivia justificando tudo que eu fazia.
        - Adriano, acho que voc est fazendo tempestade num copo d'gua. Sua me tem
preferncia por Fabrcio, e seu pai, por voc.
        Pode no ser a famlia perfeita, mas considero isso extremamente natural. E, depois,
o que importa  que, ainda assim, vocs
        se do bem, no ?
        - Mais ou menos. Ns no brigamos,  verdade, mas nunca fomos ligados. Sinto-o
um estranho.
        Clarinha encerrou o assunto com um beijo, e Adriano no insistiu. Ela no entendia.
Nem mesmo ele entendia, e talvez fosse
        melhor mesmo no se preocupar com aquilo.
        Dois dias depois, quando Adriano viu Fabrcio em companhia de Selena, tomando
um refrigerante num caf no centro da cidade,
        sentiu que uma raiva incontrolvel tomava conta dele. Ser que aqueles dois
estavam tendo um caso?
        No caf, Fabrcio e Selena acertavam alguns detalhes para a separao. Era preciso
juntar documentos, arranjar testemunhas,
        estudar bem o caso. Fabrcio no queria que o juiz visse Selena como uma mulher
sem moral, que no tinha condio de criar
        os filhos. Reconhecia que as fotos seriam comprometedoras, ainda mais mostrando
o bero do nenm bem ao lado da cama onde
        o casal tivera relaes. E se o juiz pensasse que, alm de tudo, o beb estava
dormindo ali? Seria o fim.
        - Teremos de pensar antes de agir - disse Fabrcio, preocupado. - No quero dar
nenhum passo em falso.
        - Muito menos eu. Meus filhos so a coisa mais importante no mundo para mim. Se
os perder, acho at que seria capaz de me
        matar.
        - Deus me livre! Nem me diga uma coisa dessas.
        -  verdade. Abro mo de tudo para ficar com meus filhos. Se tivesse dinheiro
agora, daria-o todo a Cassiano, desde que
        ele me entregasse aquelas fotos e sumisse.
        - No  assim que se resolvem as coisas, Selena.
        -Com Cassiano, , sim. Ele s entende a linguagem do dinheiro. No est
preocupado com as crianas. S o que quer  us-las
        para enriquecer. Temo s de pensar no que ele poderia fazer se ficasse com elas.
        - Onde esto neste momento?
        - Com a bab. Tenho uma mocinha que cuida deles para mim enquanto estou fora.
        A conversa mudou de rumo e, como era natural, acabou se voltando para o lado
pessoal. Selena fazia perguntas sobre as preferncias
        literrias e musicais de Fabrcio, seu time de futebol, sua religio...
        - Sou espiritualista, Selena. Vou sempre a um centro com minha me e minha av.
        - Vai?!
        - Por que o espanto? No acredita?
        - No  isso... acredito...
        - Acredita? Mesmo?
        Selena j ia responder quando a chegada sbita de Adriano os interrompeu.
Percebendo o olhar de Fabrcio, a moa achou que
        no deveria comentar mais nada e calou-se.
        - Bom dia, irmozinho - cumprimentou Adriano, com certo
        tom de ironia na voz. - J de prosa to cedo numa segunda-feira? Fabrcio encarou-o
com ar recriminador e redargiu: - No
        cumprimenta Selena, Adriano? - Ah, sim, minha boa educao... Como est,
Selena? - Muito bem, obrigada.
        - No vai trabalhar, Adriano?
        - Vou. Estava de passagem e resolvi parar para cumpriment-los. Voc saiu to cedo
hoje de manh que nem tive tempo de lhe dar bom-dia.
        Fabrcio sorriu para ele, chamou o garom e pediu a conta.
        - Tudo bem, Adriano, mas j estvamos de sada.
        Pagou a conta, apanhou os documentos que estavam sobre a mesa, puxou a cadeira
de Selena e, segurando-lhe o brao, saiu
        com ela do caf.
        - At logo, Adriano - atalhou Fabrcio.
        - Adeus.
        Vendo-os afastar-se, Adriano sentiu a raiva crescer dentro dele. O pai no iria gostar
nada de saber que o irmo estava
        se envolvendo com uma mulher casada. Entrou no prdio em que funcionava a
empresa do pai, tomou o elevador e foi direto
        at a sala da presidncia. Entrou sem bater, e Paulo, que ditava uma carta para a
secretria,
        levou tremendo susto quando o viu.
        - Meu filho! O que houve?
        - Papai, precisamos conversar.
        - Agora?
        - Agora.
        Paulo pediu licena  secretria, olhou Adriano nos olhos e disse:
        - Muito bem. Fale. O que aconteceu?
        -  Fabrcio. Creio que est se envolvendo com aquela mulher. Onde j se viu? Uma
mulher que  casada, que quer se desquitar
        do marido... Como pode? Ser que Fabrcio perdeu a vergonha? Podia ao menos
tentar disfarar.
        - Ei, ei, v com calma - pediu Paulo. - Do que est falando?
        Adriano desabou na cadeira e respirou fundo, tentando manter a calma.
        - Estou Lhe dizendo que acho que Fabrcio est tendo um caso com Selena, prima
de Clarinha.
        O pai ficou encarando-o com ar de dvida, at que considerou:
        - Por que diz isso?
        Encontrei-os agora mesmo num caf. Em plena rua do Ou
        vidor!
        - Meu filho - tornou Paulo em tom moderado-, seu irmo est cuidando do desquite
dela, e isso no significa que eles estejam
        tendo um caso.
        - Mas, pai, voc no v? Isso ainda pode acabar prejudicando minha relao com
Clarinha.
        - Voc est exagerando, Adriano.
        - Ser que estou? Pense bem.  seu nome que ele quer desmoralizar.
        Paulo parou para refletir no que o filho lhe dissera. Embora achasse aquela
preocupao um exagero, o fato  que tambm
        no simpatizara com a moa. Havia algo nela que no lhe agradava, e saber que ela
e o filho poderiam se relacionar causou-lhe
        uma estranha sensao de mal-estar, um desconforto, um quase cime.
        Sentindo que um estranho dio comeava a crescer dentro dele, Paulo acabou por
concordar:
        - No se preocupe, Adriano. Se vai ficar mais tranqilo, falarei com Fabrcio.
        Adriano saiu satisfeito do gabinete do pai, e Paulo ficou pensativo. Conhecera
Selena na festa de formatura do filho e no
        tivera nenhum contato com ela. Por que ento no gostava dela? Sem saber explicar,
atribuiu aquela antipatia ao fato de
        que ela estava se desquitando, o que ele considerava uma vergonha. Mas seria isso
mesmo? Nem ele poderia dizer.
        Enquanto tomava seu caf, Fabrcio lia calmamente o jornal da
        manh e nem se mexeu quando Adriano entrou e passou por ele. - Bom dia,
Fabrcio-falou Adriano, com mal disfarada ironia.
        - Bom dia, Adriano-respondeu o irmo, sem desviar os olhos do jornal.
        Adriano sentou-se em frente a ele, ajeitou o guardanapo no colo e, enquanto se
servia de caf, perguntou
        - Vai encontrar Selena hoje?
        - No sei. Talvez.
        - No acha que est exagerando?
        Fabrcio soltou o jornal e encarou o irmo com ar grave. - Exagerando em qu?
        - Em seu interesse por esse caso.
        Calmamente, Fabrcio pousou o jornal sobre a mesa, sorveu um ltimo gole do caf,
limpou os lbios com o guardanapo e levantou-se
        para sair. Ao passar pelo irmo, deu-lhe um tapinha no ombro, aproximou a cabea
de seu ouvido e respondeu baixinho:
        - Voc no tem nada com isso.
        Adriano soltou a xcara, furioso, e deu um salto da cadeira.
        -Voc  muito atrevido!
        - Atrevido  voc, que vem me interpelar sobre coisas que no lhe dizem respeito.
        Fuzilando de dio, Adriano disparou:
        - Escute aqui, se quer defender aquela ordinria,  problema seu. Embora no
concorde, entendo que  sua profisso. Mas
        envolver-se com ela, no!  uma vergonha!
        - No se meta com a minha vida. No lhe dou esse direito.
        Virou-lhe as costas e saiu, sem nem se dar ao trabalho de desmentir o que ele
dissera sobre ter um envolvimento com Selena.
        Adriano no tinha nada com sua vida, e ele no lhe devia nenhuma satisfao.
        aquela noite, em casa, Selena tinha mais uma de suas violentas discusses com o
marido.
        -Quem  o sujeito?-gritava Cassiano, o rosto transfigurado pelo dio.
        - No sei de que sujeito est falando.
        - Sabe, sim! - berrava. - Anbal viu!
        - Anbal... Desde quando voltou a confiar em seu irmo?
        - No se faa de sonsa comigo, Selena, ou acabo com voc!
        Cassiano deu um murro na parede, e ambos ouviram um choro de criana.
        - Fale mais baixo - falou Selena angustiada. - Vai acordar as crianas.
        - Que se danem! Detesto choro de criana!
        Os choros aumentaram, e Selena correu para seu quarto, segurando Carlinhos no
colo e tentando acalm-lo:
        - Est tudo bem, amorzinho, mame est aqui.
        Escutou um barulho na porta e viu a filha parada, chorando tambm. Selena
estendeu o brao livre para ela e sentou-se na
        cama, ajeitando Selma a seu lado e envolvendo-a num abrao amigo e protetor.
        - Papai t bravo - falou ela com sua vozinha infantil.
        -No se preocupe, meu bem, j vai passar.
        Selena ficou ninando Carlinhos, tentando fazer com que dormisse novamente, e
deitou a cabecinha de Selma em seu colo. As
        crianas j haviam pegado no sono quando Cassiano apareceu.
        - No tente se esconder atrs das crianas. Solte-os e volte para a sala. Ainda no
terminamos nossa conversa.
        - Psiu! No v que consegui faz-los dormir novamente?
        - Eu mandei solt-los!
        Cassiano arrancou Carlinhos do colo de Selena, e o menino ps-se a berrar,
enquanto Selma, apavorada, deu um pulo da cama
        e abraou-se  me, que tentava retirar o filho do colo do marido. Mais que
depressa, Cassiano colocou o menino no bero
        e segurou Selma pelo brao, empurrando-a para cima da cama.
        - Solte-os, seu animal! - berrava Selena, dando-lhe tapas na mo para proteger a
filha.
        Fora de si, Cassiano desferiu-lhe violenta bofetada no rosto, e Selena tombou sobre
a cama, ao lado de Selma, que chorava
        apavorada, com medo da fria do pai.
        - Sua cadela! Ordinria!
        Apanhou pelos cabelos a mulher, que lutava desesperadamente para se soltar, e saiu
        arrastando-a porta afora. Selma e Carlinhos gritavam apavorados, mas Cassiano
fechou a porta e ordenou:
        - Fique a, Selma. Se sair, vai apanhar tambm. E cale essa boca!
        A menina engoliu o choro e ficou ouvindo o pai arrastar a me pelo corredor.
Chegou perto do bero do irmo e, pelas grades,
        acariciou suas perninhas, tentando fazer com que se calasse tambm.
        Do lado de fora, Selena pedia a Cassiano que a soltasse, mas ele nem escutava.
Cheirava a lcool e dio. Com brutalidade,
        jogou a mulher sobre o sof e desferiu-lhe diversos murros, e Selena sentiu o sangue
escorrendo da boca. J ia espanc-la
        novamente quando ouviu fortes batidas na porta:
        - Abra! E a polcia!
        Algum ouvira a gritaria e chamara a patrulha. Aturdido, Cassiano olhou para
Selena, como que a ameaando. Fechou a mo
        e foi abrir.
        - Sim? - perguntou com a porta entreaberta, impedindo que os policiais vissem o
interior do apartamento.
        - Algum nos telefonou informando de uma briga.
        - Briga? Aqui? Deve haver algum engano.
        Sentada no sof, Selena no ousava se mexer. Tinha vontade de correr e contar aos
guardas que Cassiano era um monstro, que
        a espancava e aterrorizava os filhos. Contudo, tinha medo de sua reao.
        Ele seria preso, mas logo estaria solto de novo. E o que lhes aconteeria ento?
        - Est sozinho?
        O policial tentava, a todo custo, olhar por cima do ombro de Cassiano, mas este no
lhe dava chance, movendo o corpo para tapar-lhe a viso.
        - Sozinho? - repetiu Cassiano. - No. Minha mulher e meus filhos esto em casa.
        Sabia que no adiantava mentir. Se o fizesse, eles poderiam tentar invadir a casa, e
a seria muito pior.
        - Gostaramos de falar com sua senhora, se no se importa.
        Cassiano chegou para o lado, dando passagem para os policiais,
        que entraram na sala e avistaram Selena, agora mais recomposta, sentada no sof
com o rosto inchado e ainda sangrando. Um dos
        guardas olhou para ela e encarou Cassiano, indagando com rispidez: -O que
aconteceu aqui?
        - Nada. Minha mulher caiu e bateu com o rosto na quina da mesa. No foi, Selena?
        Sempre a mesma desculpa. Um tombo da escada, a quina de um mvel, um buraco
no caminho. Os policiais encararam Selena
        seriamente e continuaram:
        - Isso  verdade, senhora?
        Selena teve de se controlar para no se atirar nos braos daquele homem que lhe
fazia perguntas com tanto interesse, mas
        conteve-se. Pelo bem dos filhos, era melhor que no reagisse. Sem coragem para
encar-los, ela simplesmente balanou a cabea em
        sinal afirmativo.
        - E seus filhos, onde esto? - prosseguiu o policial. - Dormindo - apressou-se
Cassiano a responder. - Sei.
        O policial acercou-se de Selena, examinou seu rosto e falou com um misto de
autoridade e compreenso:
        - Minha senhora, recebemos uma denncia de que estava havendo agresses nesta
casa. Contudo, nada vimos e no podemos dar
        nenhum flagrante. Somente com sua palavra  que poderemos tomar alguma atitude.
Por isso, responda-nos, com sinceridade e sem medo:
        seu marido a espancou?
        Selena chorava baixinho, apertando as mos nervosamente. Sa bia que os olhos de
Cassiano estavam cravados
        nela e nem ousava encar-lo. Ainda sem levantar a cabea, respondeu
        convencida:
        - No. Deve ter havido algum engano. Como meu marido disse, eu ca...
        O policial suspirou e balanou a cabea, resignado. J vira aquilo muitas vezes, e
no havia nada que pudesse fazer. As
        mulheres sentiam medo de denunciar os maridos, e isso s servia para aumentar
ainda mais a violncia deles. Sem ter mais
        o que fazer, virou-se para o companheiro e chamou:
        - Vamos embora, Sousa, no h nada que possamos fazer. Obrigado, senhor, e
desculpe. - E, virando-se para Selena, finalisou:
        - Pense bem no que est fazendo. Um dia, pode ser tarde demais para se defender...
        Sob o olharfurioso de Cassiano, os policiais saram. Ele se aproximou novamente de
Selena, sentou-se a seu lado e, dando-lhe
        tapinhas no joelho, elogiou:
        - Muito bem, Selena. Portou-se como uma verdadeira mulher... E, agora, vamos ao
que interessa. Quem era aquele sujeito?
        Ela no respondeu e ele levantou a mo novamente, fazendo com que ela se
encolhesse toda no sof. No entanto, a visita dos
        policiais o intimidara, e ele fechou a mo, apertando os dedos.
        - No quero bater em voc, mas voc me obriga. Por que no me diz logo quem  o
sujeito e acaba com essa agonia?
        Ela o fitou com desgosto. Sabia que ele estava falando de Fabrcio. Na certa, Anbal
os vira no caf no dia anterior e contara
        tudo a Cassiano. Mas ela no podia contar-lhe nada. Se lhe revelasse a verdade, ele
era bem capaz de mat-la.
        - J disse que no havia sujeito algum - insistiu. - Anbal se enganou. No era eu.
        Ele balanou a cabea, ajoelhou-se a seu lado e, segurando-lhe o queixo com
violncia, ameaou:
        - Vou lhe dar um conselho, Selena. Seja quem for esse sujeito, afaste-se dele. Caso
contrrio, das duas uma: ou eu acabo
        com voc, ou sumo com nossos filhos.
        Apavorada, Selena se levantou e correu para o quarto, trancando a porta. Carlinhos,
cansado de tanto chorar, acabara por
        adormecer novamente, e Selma, deitada no cho ao lado do bero, tambm pegara
no sono. Vendo os filhos ali jogados, sufocou
        um grito de angstia e correu para eles. Ergueu a menina no colo e levou-a para a
cama, ajeitando-a entre os lenis. Alisou seus cabelos,
        molhando-os com suas lgrimas, deu-lhe um beijo amoroso e foi ver Carlinhos.
Apalpou seu bumbum. Sentindo a fraldinha cheia,
        trocou-o cuidadosamente, estreitou-o contra o peito e deitou-o novamente no bero.
E orou. Deus havia de ajud-los.
        Quando Oflia lhe passou a ligao, Fabrcio mal podia crer no que estava ouvindo.
        -  verdade, Fabrcio -dizia Selena. -No quero mais o desquite. Agradeo seu
empenho em me ajudar, mas no ser mais necessrio.
        - Mas, Selena, ns mal comeamos. Por que desistiu assim to depressa?
        - No quero me separar.
        - Mas... mas... como pode continuar casada com um homem como Cassiano?
        - O amor tem dessas coisas...
        - Amor? No acredito. O que houve? Conte-me, vamos. O que ele lhe fez? Ele a
ameaou?
        Selena emudeceu do outro lado da linha, e pareceu a Fabrcio que ela estava
chorando.
        - Ele... no fez nada... - balbuciou entre disfarados soluos. - Obrigada, Fabrcio.
        Desligou. O que estaria acontecendo? Fabrcio pensou em ligar de volta, mas tinha
medo de que Cassiano atendesse e batesse
        nela. Preocupado, retirou o fone do gancho novamente e pensou em ligar para
Clarinha, mas ela estava no trabalho, e ele
        no sabia o telefone da empresa onde trabalhava.
        Chamou Oflia a seu escritrio, e ela, vendo seu abatimento, indagou preocupada:
        - O que houve?
        - A senhora nem imagina o que aconteceu.
        - O que foi?
        - Selena dispensou meus servios.
        - O qu? Mas por qu?
        - o que gostaria de saber. Ela veio com uma histria de que amava o marido e que
havia desistido da separao.
        - No ser verdade?
        - No creio. Ela estava decidida a deix-lo. Alguma coisa deve
        ter acontecido para ela mudar de idia. - Ser que o marido a ameaou? - 
possvel...
        - E agora? O que pretende fazer?
        - No sei. Queria falar com a prima dela, Clarinha, mas ela est no trabalho, e eu
no sei o nmero de l.
        - Por que no liga para a casa dela  noite?
        - Ela  noiva de meu irmo, e tenho medo de que ele esteja com ela e perceba que
sou eu ao telefone. Isso poderia lhe causar
        algum tipo de problema, j que Adriano no gosta nem um pouquinho de Selena.
        - Posso ligar para ela mais tarde, se o senhor quiser.
        - A senhora? , talvez seja uma sada. Assim, Adriano no vai desconfiar de nada.
        Mais tarde, naquele mesmo dia, Oflia ligou para a casa de Clarinha. Quando ela
atendeu, a secretria falou:
        - Al, Dona Clarinha? Como vai? Aqui quem fala  Oflia, secretria do Dr.
Fabrcio... Bem... O Dr. Adriano est a com
        a senhora? ... No?... Sei... Escute, o Dr. Fabrcio est aqui e precisa falar-lhe... , 
sobre Dona Selena, sim... Pode
        encontr-lo?... Hoje?... A que horas?... Sei... Sei onde fica... At logo.
        - E ento? - perguntou Fabrcio ansioso.
        - Ela vai encontr-lo num bar no Leblon.
        Momentos mais tarde, Fabrcio tomou o automvel e dirigiu-se para o local
indicado. Clarinha j havia chegado e estava sentada
        a uma mesa, tomando um refrigerante. Cumprimentou-o, e ele se sentou em frente a
ela. Pediu um suco de laranja, esperou
        at que o garom o servisse, e foi s ento que Clarinha indagou:
        - Muito bem. O que houve?
        -  o que gostaria de saber.
        - Como assim?
        - Sabe o que aconteceu com Selena?
        - No, o qu?
        - No sei. Estou tentando descobrir. Ela me telefonou hoje cedo dispensando meus
servios.
        - O qu? Ela fez isso?
        - Fez, sim. E sem dar maiores explicaes.
        Fabrcio contou tudo que acontecera, e Clarinha ficou alarmada. Conhecia Cassiano
o suficiente para saber que ele deveria
        ter aprontado alguma. Era preciso tomar alguma atitude, e ela trataria de ajudar.
        - No se preocupe. Amanh mesmo falarei com ela. Ela no me disse nada, mas
tenho certeza de que no mentir para mim.
        Combinaram tudo e foram embora. Clarinha ainda tentou ligar para Selena quando
chegou em casa, mas Cassiano atendera e dissera
        que ela j estava dormindo. Desligou preocupada. Teria mesmo de esperar.
        No dia seguinte, sentada diante da prima, Selena no dizia nada. O marido tirara
frias no servio e passava quase todos
        os dias em casa, seguindo todos os seus passos.
        - Aceita mais uma xcara de caf? - perguntou Selena polidamente.
        - No, obrigada. J tomei o bastante.
        Cassiano estava sentado em frente  televiso, fingindo prestar ateno ao seriado O
Gordo e o Magro, rindo das tolices e
        bebendo seu dcimo copo de cerveja. Carlinhos, sentado no cercadinho, levava seus
mordedores  boca, enquanto Selma brincava
        com uma boneca que Clarinha acabara de trazer.
        - Por que no me ligou mais?- sondou Clarinha, tentando parecer casual.
        Selena olhou discretamente para Cassiano, que no tirava os olhos do aparelho de
TV. Embora ele disfarasse, ela sabia que
        ele estava prestando ateno a tudo que ela dizia.
        - Bem, Clarinha, estou sem tempo. Tenho de olhar as crianas, e Cassiano est de
frias.
        - O que houve com seu rosto?- indagou de estalo, no conseguindo mais conter a
curiosidade e a revolta diante da mancha
        roxa que se estendia desde o olho esquerdo at a ma do rosto, alm dos
        lbios inchados e feridos.
        Selena levou um susto e ajeitou-se na cadeira. Olhou novamen
        te para Cassiano, que ria abertamente, dando tapinhas no peito para
        no sufocar de tanto riso.
        - Eu ca... - respondeu insegura.
        - Caiu? Onde?
        - Na quina da mesa - atalhou Cassiano, mais que depressa. - Que Mesa?
        - A mesa da sala.
        Clarinha olhou e balanou a cabea, tornando com estudada displicncia:
        - Sabe, Selena, vim aqui convid-la para dar um passeio. Voc e as crianas.
        - Selena no pode sair- repreendeu Cassiano de onde estava. - Ainda no terminou o
servio de casa.
        - Ora, mas ela pode terminar depois.
        - No pode, no. Tem de arrumar a casa, dar banho nas crianas, preparar o jantar...
        - Desculpe-me, Cassiano, mas quer me parecer que voc pretende manter sua
mulher prisioneira aqui. Ser que  isso mesmo?
        Cassiano lanou tamanho olhar de dio para Clarinha que ela estremeceu. No
entanto, no podia perder a compostura com ela,
        ou ela seria bem capaz de dar parte dele  polcia. Se aqueles guardas batessem ali
novamente, seria difcil convenc-los
        de que no havia nada.
        -  claro que no, Clarinha - respondeu com um sorriso sem graa. - Mas que idia!
        - Ento no vejo por que ela no possa ir.
        - Nem eu. Ela pode ir, se quiser. Mas falo isso porque sei que ela no quer. No ,
Selena?
        Antes que ela pudesse responder, Clarinha se adiantou: -Quer, sim. Est um dia
bonito e podemos dar uma volta. Ir
         praia, quem sabe? Alm do mais, as crianas precisam de sol. Ouvindo a
referncia feita a elas, a pequena Selma animou-se
        e comeou a bater palminhas, pedindo com inocncia:
        - Quero ir! Quero ir com a tia Clarinha... Vamos, mame?
        O olhar que Cassiano lhe lanou j dizia tudo. Selena queria ir,
        mas, ao mesmo tempo, achava que devia recusar.
        - Obrigada, Clarinha, mas no posso mesmo... - Ah, mame, por qu?
        Selena olhava da filha para o marido, tentando no olhar para a prima, que no se
deu por vencida.
        - Pois eu digo que pode. E no aceito um "no" como resposta. Vamos, Selena,
levante-se da e v se aprontar. Eu a ajudarei
        com as crianas. Precisamos preparara bolsa de Carlinhos, levar algumas roupinhas
para Selma tambm.
        - Mas... mas...
        - Nada de "mas". Mais tarde eu a trarei de volta. E, depois, no vejo por que ficar
aqui. Cassiano est to entretido com
        seus programas na TV que nem vai dar por sua falta.
        Ele espumava seu dio, mas no disse nada e teve de concordar. Selena levantou-se,
apanhou Carlinhos e chamou Selma para
        irem se arrumar. No quarto das crianas, Clarinha colocou tudo que pde dentro da
bolsinha do beb: fraldas e roupas para
        os dois.
        - No, Clarinha - objetou Selena -, no precisamos levar tantas roupas para Selma.
Ela j no se suja tanto assim. Mas tenho
        de levar mamadeiras, chupetas, o talquinho, a pomada...
        Clarinha fez um gesto com a mo para que ela deixasse aquelas coisas ali e fizesse
como ela estava lhe ordenando. Embora
        sem entender, Selena obedeceu. Depois, foram para seu quarto, e Clarinha preparou-
lhe a bolsa de praia. Mandou que ela apanhasse
        roupas de baixo e mais um vestido, que ela enfiou na bolsa de qualquer jeito. Selena
j comeava a compreender o que estava
        acontecendo e quis retroceder. No podia fugir. No daquela maneira.
        - No tenha medo - falou Clarinha, com tanta convico que ela retrocedeu. - Nada
ir lhes acontecer.
        Aprontaram tudo, pegaram as crianas e saram. Selena deu um at-logo para
Cassiano, j da porta da rua, que ele mal respondeu.
        Apenas quando ela j estava fechando a porta foi que ele falou:
        - Olhe l o que vai fazer, hein? No quero encrencas.
        Mais que depressa, Clarinha conduziu-os para seu automvel. Acomodou Selma no
banco de trs e Selena na frente, com Carlinhos
        no colo. Tomou a direo e deu partida no motor.
        - Clarinha, para onde vamos?
        - No se preocupe, Selena, vai dar tudo certo. Estou levando-a embora. Isso no
pode continuar assim.
        - Mas Cassiano...
        - Cassiano no vai fazer nada contra voc. Nem saber onde est. Ficaro em
segurana, voc e as crianas.
        Selena olhou pela janela do carro, sentindo um alvio no peito. Sabia que podia
confiar em Clarinha. Sem saber por qu,
        tambm sabia que podia confiar em seu destino. Uma voz ntima lhe dizia que
        atravessaria uma tempestade, mas que o sol brilharia com muito mais intensidade
depois.
        O carro estacionou na garagem da casa de Ins, e Selena saltou, ajudada por
Clarinha, trazendo nos braos Carlinhos, adormecido,
        e Selma, que olhava tudo maravilhada. L de dentro, Ins e Fabrcio vieram
correndo e se espantaram com os ferimentos no
        rosto de
        Selena. Ela estava muito machucada, cheia de hematomas e arranhes, mas
ningum fez nenhum comentrio.
        Fabrcio foi o primeiro a falar:
        - E a, Clarinha, deu tudo certo?
        - Deu. Cassiano ficou meio contrariado, mas no teve como impedir.
        - S quero ver a cara dele quando Selena e as crianas no voltarem  noite.
        -  verdade.
        Vendo o olhar de espanto de Selena, Fabrcio se adiantou:
        - Selena, deixe-me apresent-la. Esta  minha av Ins, e 
        aqui, na casa dela, que voc e as crianas vo ficar.
        - Muito prazer, Selena -falou Ins, estendendo-lhe a mo, que
        ela pegou meio sem jeito.
        - Prazer...
        - Deixe-me ajud-la com o beb. - Pegou Carlinhos no colo, descobriu seu rostinho
e falou embevecida: -Oh! Mas que coisinha
        linda!
        Sem que ela percebesse, o esprito de Helga se aproximara, e Ins, captando-lhe a
emoo de muitos anos atrs, teve uma
        sensao estranha, uma espcie de dj vu, que a emocionou sobremaneira.
Imediatamente, lgrimas vieram-lhe aos olhos, e
        ela encarou Fabrcio, que nada percebera, imaginando uma cena semelhante, h
mais de vinte anos, quando sua filha, atnita,
        retirava dos braos da desconhecida o inocente bebezinho.
        Ins sentiu que lhe puxavam a barra da saia e olhou para baixo, dando de cara com o
rostinho ingnuo de Selma, que lhe endereou
        um sorriso meigo e cativante.
        - Oi, vov. Eu sou a Selma...
        - Menina! -censurou a me. -Que intimidades so essas com Dona Ins?
        - Ora, deixe, Selena - contemporizou Ins. - Gostaria mesmo de ser a vov dessas
lindas crianas. E agora vamos entrando.
        Vov Ins vai preparar um lanche bem gostoso para voc, Selma
        finalizou, dando um leve belisco na bochecha da menina. Enquanto ela se afastava
com Carlinhos no colo e Selma a
        seu lado, os jovens se dirigiram para a sala de estar e, depois de
        acomodados, Selena, que at ento no havia entendido nada, ar
       gumentou:
       - Ser que vocs agora podiam me explicar o que est acontecendo? Clarinha
medisse que estava
       nos levando embora. Mas como? - Selena - tranqilizou Fabrcio -, no se preocupe.
Est
       entre amigos. Cassiano jamais pensar em procur-la aqui.
       - Mas voc sabe que no posso fugir. - Voc j fugiu - corrigiu Clarinha.
       - No! Vocs no podem me obrigar! No sabem o que passei. - Oua - revidou
Clarinha. - No estamos querendo obrig
       la a nada. Voc  to livre para partir quanto o foi para vir. Mas pen
       se bem. Seu marido a espancou na frente de seus filhos, no foi? Selena aquiesceu,
sufocando um soluo.
       - Ento?-continuou Clarinha. -O que est esperando? Que
       ele comece a espanca-los tambm?
       -No, isso no!
       - Pois, ento, o que voc tem a fazer  afastar seus filhos dele.
       No vamos obrig-la a ficar e, se quiser partir, eu mesma a levarei de
       volta. Mas pense que poder no ter essa chance novamente.
       - Mas eu nem trouxe roupas suficientes.
       - Isso no  problema - acrescentou Fabrcio. - Clarinha arranjar algumas roupas
para voc e as crianas.
       - Ouam... Entendo o que esto querendo fazer por mim. Mas
       no vai dar certo. Ainda que Cassiano no me encontre, no posso
       viver fugida pelo resto da vida. No posso me esconder, esconder meus
       filhos. Eles precisam sair, ser livres, ir  escola, passear...
       - Se ns os trouxemos para c - rebateu Fabrcio -, foi exa
       tamente para lhes assegurar essa liberdade. A vocs trs. Amanh
       mesmo entraremos com a ao de desquite.
       - No, Fabrcio, no posso. Se bem me lembro, disse-lhe ao telefone que no queria
mais me desquitar.
       - Disse. Mas no acredito. Duvido muito que voc ame Cassia no.
        Ainda mais depois do que ele lhe fez-concluiu, apontando para as faces da moa,
que desatou a chorar.
       - Oh! Que vergonha! - lamentou, ocultando o rosto entre as mos.
       - Vergonha  um homem bater na mulher- retrucou Clarinha, revoltada. -Onde j se
viu? E ele ainda teve o desplante de me
       dizer que ela caiu e bateu com o rosto na quina do mvel. Que desfaatez!
       - Canalha! - exclamou Fabrcio, mal contendo a raiva. - Vai ter o que merece.
       - No, por favor! - implorava Selena. - Vocs no sabem do que ele  capaz.
       - Bem se v do que  capaz.  capaz de espancar mulheres e aterrorizar criancinhas.
Mas quero ver o que far diante de
       um homem de verdade.
       - Fabrcio tem razo. Homens assim so extremamente covardes e s enfrentam os
mais fracos. Mas, diante de um igual, tratam
       logo de dar o fora.
       - E agora? - indagou Selena. - O que vai fazer?
       - Bom, eu no esperava encontr-la nesse estado, mas, j que
        voc foi espancada, podemos tirar proveito disso. - Como?
        - Voc vai comigo agora mesmo  delegacia registrar a ocorrncia.
        Selena levou a mo  boca, sussurrando aterrorizada: - No posso...
        - Pode, sim. Antes, porm, vai nos contar tudinho exatamente como aconteceu.
        Selena hesitou. Sentia vergonha de ter apanhado do marido, ainda mais sem reagir.
        - E as fotos? - tornou ela, tentando arranjar uma desculpa para no enfrentar o
problema.
        - Deixe isso comigo - declarou Fabrcio.
        - Vamos, Selena, conte-nos o que aconteceu - estimulou Clarinha. - S o que
queremos  ajud-la.
        Ins entrou na sala sozinha, e Selena deu um salto, perguntando alarmada:
        - Onde esto as crianas?
        - No se preocupe. Esto bem. Carlinhos dormiu e eu o coloquei em minha cama,
cercado
        por milhes de travesseiros e almofadas. E Selma est com Bibiana no quarto que
foi de Flavia,
        vendo suas antigas bonecas.
        - Fique tranqila - asseverou Fabrcio. - Bibiana  empregada de vov h sculos,
no , vov?
        , sim. Est comigo desde antes da guerra.
        - Muito bem, Selena - insistiu Clarinha. - Por que no nos conta agora o que
realmente aconteceu?
        Selena olhou cada um daqueles rostos que a fitavam com um misto de piedade e
revolta, mordeu os lbios, respirou fundo
        e comeou a narrar o que lhe havia acontecido. Disse-lhes que Anbal a havia
surpreendido no caf, em companhia de Fabrcio,
        e que contara isso a Cassiano, que ficara furioso. Como ela negara tudo, dizendo
que Anbal se enganara, Cassiano bateu-lhe
        com violncia fora do comum, trancando as crianas dentro do quarto. Contou-lhes
da chegada da polcia e de seu medo de
        falar a verdade, terminando com as ameaas do marido de lhe tomar os filhos.
        - Ah, Fabrcio! -finalizou em lgrimas. -Sinto muito se sou covarde, mas no posso
ficar sem meus filhos, no posso! Ainda
        mais porque tenho medo do que Cassiano  capaz de fazer a eles-.
        Fabrcio balanou a cabea, compreensivo. Ningum se atrevia a dizer nada.
Estavam todos emocionados com o drama daquela
        jovem me, que lutava desesperadamente para manter os filhos a seu lado.
        Ins sabia quanto devia ser difcil a dor da separao, ainda mais naquelas
circunstncias, em que nada a justificava. Pensou
        em quanto a me natural de Fabrcio devia ter sofrido ao entreg-lo s mos de sua
filha. No entanto, fizera-o por uma causa
        nobre. Abrira mo daquele a quem mais amava para salvar-lhe a vida.
        - Selena - comeou ela a dizer -, sou a mais velha aqui e posso dizer com certeza
que sou a mais experiente tambm. J vi
        e ouvi muitas coisas, algumas das quais me cortaram o corao, como isso que se
passou com voc. Contudo, em todos estes
        anos, aprendi uma coisa muito importante: aprendi a confiar. Deus existe e nos ama
a todos, e est em toda parte, zelando
        por nosso bem-estar. Por isso, confie. Confie que a justia est do seu lado e no se
preocupe com o que seu marido tem
        contra voc nem com suas ameaas. Ele no vai lhe tirar os filhos, tenha certeza.
        - Como pode saber, Dona Ins?
        - Acredite no que ela diz-aconselhou Fabrcio.-Minha av  esprita e mdium, e, se
fala com tanta certeza,  porque algum
        amigo de planos mais elevados a est inspirando. Voc mesma me disse que
acreditava na espiritualidade. Por que duvidar?
        Selena baixou a cabea e comeou a chorar. Estava morrendo de medo de perder os
filhos, mas, por outro lado, sentia que precisava
        fazer alguma coisa ou Cassiano seria bem capaz de maltrat-los tambm. Mas
Fabrcio estava certo, e ela retrucou:
        -Acredito que exista uma fora que nos guia a todos e creio tambm na presena dos
espritos em nossas vidas. Est bem.
        Vou confiar em vocs e farei o que for preciso para salvar meus filhos das mos
daquele monstro.
        - Confie primeiro em voc - corrigiu Ins. - Confie em sua capacidade, em sua
coragem, em sua determinao. Sinta-se merecedora
        da felicidade, no tenha medo de desejar ser feliz.
        - No sei se mereo ser feliz...
        - Voc merece, todos merecemos. Nosso Pai colocou a felicidade no mundo para
que a alcanssemos, sem medos ou culpas. No
         errado querer ser feliz. Errado  aceitar a tristeza como parte da vida, porque a
vida comea num momento de alegria,
        que  o que toda me sente ao ver o filho nascer. Voc, que j  me, pense nisso.
Lembrese da felicidade que sentiu ao
        ver seus filhos pela primeira vez e busque reencontr-la e traz-la para dentro de
voc. Ento, poder irradi-la para eles
        tambm.
        -No posso fazer isso, Dona Ins. Sinto que, neste momento, nada tenho a lhes
oferecer alm de meu amor.
        - E quem precisa de mais do que o amor?
        Selena calou-se pensativa. Aquela mulher lhe dizia palavras muito sbias e
encorajadoras, e ela, de repente, passou a se
        sentir forte, capaz de enfrentar a tudo e a todos para salvar no apenas os filhos mas
a si mesma. Estranhamente, sua insegurana
        comeou a ceder lugar a uma sensao de confiana, uma certeza de que estava
entre pessoas que tudo fariam para ajud-la.
        Calmamente, enxugou as lgrimas, assoou o nariz e, encarando Fabrcio bem fundo
nos olhos, afirmou:
        - Tm razo. Vou lutar por nossa felicidade: a minha e a de meus filhos. Cassiano
no tem o direito de me tratar como se
        eu fosse propriedade sua. - Levantou-se decidida e, ainda olhando para Fabrcio,
chamou: - Vamos? Quero ir agora mesmo contar
        tudo ao delegado.
        O nome de Fabrcio j era bastante conhecido no meio jurdico, at mesmo nas
delegacias, talvez por influncia de seu pai
        e de seu av. Alm disso, era um advogado honesto, dedicado, profundo conhecedor
das leis e da jurisprudncia e, o que era
        mais importante, sabia se impor pela dignidade e pelo respeito.
        Assim, no teve problemas na delegacia. O delegado prontamente chamou o
escrivo, que tomou nota do depoimento de Selena
        e, em seguida, encaminhou-a para o exame de corpo de delito. O mdico perito
examinou Selena com ateno e constatou diversos
        hematomas, escoriaes e equimoses. Mesmo com seus muitos anos de prtica e
experincia, ficou impressionado com a violncia
        dos golpes, imaginando que obra do destino havia impedido que o homem a
Inalasse.
        Selena submeteu-se a tudo com enorme constrangimento, mas a presena de
Fabrcio a seu lado transmitia-lhe segurana e a
        certeza de que estava fazendo o que era certo. A todo instante, pensava
        nos filhos e em como seria bom poder conviver com eles sem medo, assegurando-
lhes um futuro decente e livre do terror
        e da tortura mental que o pai lhes infligia.
        De posse do boletim de ocorrncia, no qual constavam as declaraes de Selena, do
laudo pericial e do relatrio dos policiais
        que haviam atendido ao chamado dos vizinhos, Fabrcio ajuizou a ao de desquite
judicial, narrando detalhadamente as humilhaes
        e
        maus-tratos a que ela fora submetida. Despachada a petio inicial, Fabrcio orou e
pediu a Deus que fosse distribuda a
        um juiz justo e
        livre de preconceitos, que pesasse bem as provas e os argumentos contra Cassiano, e
que no se deixasse levar
        pela impresso que aquelas fotografias nefastas iriam causar.
        Cassiano ficou louco. Desde o dia em que Selena se fora
        e no reaparecera, quase desesperou. Pensou em procurar a polcia,
        mas mudou de idia, lembrando-se da visita que os policiais lhe ha
        viam feito no outro dia. Na certa, lembrar-se-iam dele e entenderiam
        por que Selena havia fugido com os filhos. Pediu ajuda ao irmo.
        Foi aquela cadela! - vociferou Cassiano, j alterado pelo
        lcool.
        - Quem? - indagou Anbal com curiosidade.
        - Aquela prima dela, Clarinha. Lembra-se dela?
        - Clarinha? Lembro, sim. Estava em seu casamento, no estava? Aquela gostosa, de
cinturinha fina.
        - Essa mesma. Tenho certeza de que foi ela. - Por qu?
        - Porque foi ela quem levou Selena e as crianas. Rapidamente, Cassiano narrou ao
irmo a visita de Clarinha
        e como esta havia sado com a mulher e os filhos, embora contra sua
        vontade.
        - E agora? O que vamos fazer?
        - No sei. Mas preciso reaver as crianas. - Tem alguma idia de onde ela possa
estar? - Nem imagino.
        - Podemos apertar a tal Clarinha, se voc quiser.
        - Ficou louco? Quer parar na cadeia, ? No, nada disso. No
        podemos fazer nada que seja contra a lei.
        Anbal soltou uma gargalhada e tornou zombeteiro:
        - Desde quando voc respeita a lei?
        - Desde que me interessei por uma certa herana.
        - Ah, agora sim. E o que pretende fazer?
        - Posso procurar Clarinha e fazer um escndalo. Estou no meu
        direito. Ela sumiu com meus filhos e tem de me dar conta deles.
        -  assim que quer ficar dentro da lei?
        - Qual o problema? No vou bater em ningum. S vou exigir
        satisfaes.
        - Sabe onde ela mora?
        - Sei.
        - Ento, vamos at l.
        No dia seguinte, bem cedo, saram rumo  casa de Clarinha. Como o edifcio era
muito elegante, o porteiro no os deixou
        entrar, o que s serviu para aumentar ainda mais sua raiva. Ocultaram-se atrs de
uma rvore e ficaram  espreita. Cerca
        de meia hora depois, Clarinha apareceu. Desceu as escadas da portaria e foi
caminhando em direo  rua. Como era costume,
        Adriano passava por ali todas as manhs e lhe dava uma carona at o trabalho, que
ficava perto do seu.
        Quando ela se aproximou da rvore em que estavam escondidos, os dois saltaram 
sua frente:
        - Ol, Clarinha, como vai? - perguntou Cassiano com ar debochado.
        - Est bbado a essa hora da manh, Cassiano? - observou ela com desdm.
        - Isso no  de sua conta. Assim como minha famlia tambm no .
        Ela sentiu um leve tremor e olhou para a portaria, mas o porteiro, sentado  sua
mesa, conferia a correspondncia e nem
        a vira passar.
        - O que quer de mim, Cassiano?
        - Escute aqui, gostosa - interveio Anbal com ar ameaador -, s o que queremos 
saber onde eles esto. Por que no pra
        de dar uma de difcil e entrega logo o jogo?
        Clarinha sustentou o olhar de Anbal e respondeu com desdm: - Anda
acompanhado de capangas agora, Cassiano?
        Anbal cerrou os punhos, mas Cassiano o conteve. Tomando a
        dianteira, esclareceu:
        - Anbal  meu irmo. Devia lembrar-se dele.
        - No, no lembro. Nem fao questo. E agora, se me do licena, preciso ir
trabalhar, se  que sabem o que  isso.
        - Escute aqui, sua ordinria! - esbravejou Anbal. -No pense que s porque 
riquinha pode fazer o que bem entende. Trate
         logo de devolver Selena e as crianas. Cassiano  o pai, tem o direito de saber onde
esto.
        - No sei do que est falando.
        - No se faa de cnica - objetou Cassiano. - Voc os levou de casa e no os trouxe
de volta.
        - Quer dizer que sumiram?
        - Vai dizer que no sabe?
        - No, no sei. Deixei Selena com as crianas na porta do prdio s seis horas. Se
ela resolveu fugir depois, no  problema
        meu. Alis,  bem-feito para voc.
        Nesse momento, Adriano parou o carro junto ao meio-fio, e Clarinha suspirou
aliviada.
        - Clarinha - chamou ele. - O que est acontecendo a?
        - At logo-disse Clarinha para os dois, dando a volta no carro e entrando no lugar do
carona, branca feito rena cera. -
        Vamos embora.
        Enquanto Adriano colocava o automvel em movimento, ainda ouviram a voz de
Cassiano, que, furioso, gritava e gesticulava
        com as mos:
        - Clarinha, diga onde est Selena! Isso no vai ficar assim. Quero...
        Com a distncia, no puderam ouvir as ltimas palavras. Clarinha tremia feito um
bambu, e Adriano passou o brao ao redor
        de seus ombros, puxando-a para perto de si e perguntando assustado:
        - O que foi aquilo? Quem eram aqueles homens?
        Ela quis disfarar, mas ele se adiantou:
        - Por que estavam perguntando por Selena?
        Vendo que no tinha como mentir, viu-se obrigada a contar-lhe a verdade. Ao
menos parte dela.
        -  Cassiano, marido de Selena, e o outro  seu irmo. Vieram em busca de minha
prima.
        - Por qu? Ela est hospedada em sua casa?
        - No. Pelo que pude compreender, ela sumiu.
        - Sumiu? Por qu?
        Clarinha sentiu-se tentada a contar-lhe a verdade. Afinal, Cassiano quase matara a
mulher, estava aterrorizando e traumatizando
        os filhos, e ela acreditava que agora Adriano deveria dar-lhe razo. Contudo, a voz
dele se fez ouvir novamente:
        - Bom, seja o que for que tenha acontecido, no  problema seu. E, depois, se ela
sumiu mesmo, ele est coberto de razo
        em querer saber onde ela est.
        - Adriano! Ele deve ter feito alguma coisa muito grave para que isso acontecesse.
Conheo Selena e sei que ela no tomaria
        uma atitude dessas se no fosse por um motivo muito forte.
        - Que motivo? O que pode justificar uma mulher que abandona o marido e o lar?
        - No sei. Ele pode ter batido nela, por exemplo. Vai me dizer que acha isso certo?
        Adriano considerou. E claro que aquilo no era certo, mas muito menos certo era
uma mulher querer se desquitar.
        - Bem, certo no . Claro que no. Homem que bate em mulher  covarde. Contudo,
volto a dizer que no creio que isso seja
        motivo para separao.
        - Como pode dizer uma coisa dessas? O que espera que ela faa? Que se deixe
matar?
        - No... claro que no... - ele estava confuso e comeava a ceder. - Tudo bem, voc
tem razo...
        - At que enfim!
        - Mas isso  mais um motivo para voc se afastar dela. - Como  que ?
        -  isso mesmo. Cassiano maltrata Selena? Que ela ento se desquite, tudo bem.
Mas, ento, que arque com as conseqncias
        de seu ato.
        - Como assim?
        - Sabe que as mulheres desquitadas so malvistas, assim como fica malvisto quem
anda com elas. Por isso, no quero que voc
        se aproxime mais de Selena.
        - Pare com isso! No vou permitir! Selena  minha prima e minha amiga, e no vou
abandona-la num momento difcil s por
        causa de seu preconceito.
        - Mas voc viu aqueles dois. Eram marginais. Quer se envolver com gente desse
tipo?
        - Selena no tem nada a ver com eles.  uma moa honesta e
        direita. No tem culpa se o marido bebe e bate nela.
        - Mesmo assim, no quero voc envolvida com ela. E para seu
        prprio bem.
        -Absolutamente no! No vou permitir que mande em mim
        e decida o que  ou no para meu bem. Gosto de Selena. Ela  mi
        nha amiga e no pretendo deixar de falar com ela, quer voc goste,
        quer no.
        - Prefere ela a mim?
        - No se trata disso. Voc  meu noivo e eu o amo. Mas gosto
        tambem de Selena e pretendo fazer tudo que estiver a meu alcance
        para ajuda-la.
        - Mesmo que isso me aborrea?
        - Mesmo assim. No estou fazendo nada para aborrec-lo. Pelo
        contrrio. Gosto de voc e quero que vivamos bem. Mas, se quer se
        aborrecer, o problema  seu, no meu.
        - Vai brigar comigo por causa dela?
        - No estou brigando com voc. Voc  que parece querer brigar
        comigo. Pare de implicar com Selena e tudo ficar bem.
        - No estou implicando com ela, mas acho que no fica bem. - Por que tem de ser
to preconceituoso? Por que no  como
        seu irmo?
        - Ah, eu devia imaginar! Quer dizer agora que Fabrcio  que
         legal e eu sou um idiota, no  mesmo? Se  assim, por que no ter
        mina tudo comigo e fica logo com ele?
        - Pare com isso! No ponha palavras em minha boca! - Pelo visto, Fabrcio
conquistou sua admirao, no ? Ela no respondeu.
        - No ? - insistiu ele.
        - Se quer mesmo saber, eu o admiro, sim! Ao menos no 
        preconceituoso e mesquinho como voc!
        Adriano silenciou. Estava com tanto dio que seria capaz de uma
        loucura se continuasse. Onde j se viu, Clarinha agora querer passar
        para o lado do irmo? Ser que se enganara sobre ele e Selena, e aqueles dois  que
andavam de namorico? No, no podia ser. Ele e o
        ir mo podiam no se dar muito bem, mas Fabrcio no se atreveria. Ou se
atreveria?
        Clarinha tambm se calou. Estava furiosa com Adriano, decepcionada com seu
preconceito. Como podia am-lo apesar disso?
        Tinha esperana de que ele mudasse, de que abrisse os olhos para o mundo e
passasse a enxergar um pouco alm de seus problemas
        cotidianos. Mas ele parecia resistir. Preferia se manter apegado queles conceitos
distorcidos e distanciados dos verdadeiros
        valores do esprito.
        Ela o amava muito e pretendia casar-se com ele. Por isso, no gostava quando
brigavam. Mas tambm no podia abandonar Selena.
        A prima contava com ela, com seu apoio. Contudo, se Adriano descobrisse onde ela
estava, era bem capaz de entreg-la a Cassiano.
        Precisava tomar cuidado. Em hiptese alguma ele poderia sequer desconfiar do
lugar onde ela estava escondida.
        Ainda bem que no visitava muito a av. Alias, fazia quase um ano que no
aparecia, desde a festa do ltimo aniversrio
        de Ins. No seria agora que iria resolver aparecer.
        O domingo amanheceu com chuva, e Adriano, que havia programado ir  praia com
Clarinha, apanhou o telefone e discou o nmero
        de sua casa:
        - Al? Clarinha est, por favor:'... No? ... Sabe aonde foi?... , sou eu mesmo...
No, no precisa, obrigado... At logo.
        Colocou o fone no gancho e foi para a janela, preocupado. Clarinha andava muito
esquisita. Havia uma semana que no falava
        direito com ele e quase no parava em casa. Tentou saber o que estava acontecendo,
mas ela respondia sempre com uma evasiva.
        E, agora, esquecia por completo o compromisso que tinha com ele.
        Foi juntar-se aos pais na copa, para o desjejum.
        - Onde est Fabrcio?- perguntou.
        - Saiu cedo - respondeu Flvia, servindo ao filho uma xcara de caf. - Quer uma
torrada?
        Adriano sentiu uma pontada de cime. Ser que sara com Clarinha?
        - Sabe aonde foi?
        - No tenho certeza - respondeu Paulo -, mas acho que foi visitar sua av. Ouvi-o
falando alguma coisa a ela ao telefone.
        - Vov Dulce?
        - No, sua av Ins.
        Flvia olhou-os discretamente. Nem tivera tempo de intervir. Fabrcio escondera
aquela moa na casa da me, pedira-lhe
        segredo e ela jurara no falar nada a ningum. Paulo no aprovaria e, na certa,
Adriano tambm no. Mas agora o marido,
        sem saber de nada, acabara de colocar a moa em risco, e ela estremeceu.
        - Acho que vou dar um pulo l - falou Adriano.
        No estava com a menor vontade de visitar a av. Contudo, precisava saber se
Fabrcio estava mesmo l. E, se estivesse,
        iria fazer-lhe companhia at que fosse embora. S assim no lhe daria chance de
        ir se encontrar com Clarinha pelas suas costas.
        - Por qu?- indagou Flvia, surpresa. - Voc quase no visita sua av.
        - Clarinha saiu, e est chovendo. No vai dar praia mesmo, ento pensei em fazer
uma visita a vov.
        -No! No deve ir.
        Paulo olhou-a surpreso e retrucou:
        - Por que no, Flvia? O que tem de mais Adriano ir visitar a av?
        - Nada... isto ... mame no est bem... acho que  gripe...
        - E da, mame? Fabrcio no foi? Por que no posso ir tambm? Por acaso no sou
seu neto tambm? Ou s Fabrcio pode ir
        visit-la?
        - No  nada disso, meu filho. Sabe quanto sua av gosta de voc.
        - Ento, no sei qual  o problema. Assim o tempo passa mais depressa.
        Adriano terminou de tomar o caf e foi trocar de roupa, voltando logo em seguida
com as chaves do carro na mo. Beijou a
        me e o pai e saiu.
        Flvia ficou apreensiva. Esperou at que Paulo terminasse tambm e dirigiu-se para
seu quarto. Apanhou o telefone e discou
        o nmero da casa da me. Precisava avisar que Adriano ia para l.
        Na casa de Ins, a notcia causou um alvoroo. Selena, sem saber o que fazer, queria
se trancar no quarto e ficar bem quietinha,
        mas seria difcil conter as crianas, que logo delatariam sua presena. Fabrcio ficou
preocupado e pensou em ir embora.
        Talvez assim ele mudasse de idia e fosse embora tambm. Clarinha, por sua vez,
estava bastante preocupada:
        - Se Adriano souber que estou aqui, vai querer me matar.
        - No exagere, Clarinha - objetou Fabrcio. - O que tem de mais?
        - Ficamos de ir  praia hoje.
        - Mas est chovendo!
        - Mesmo assim. Na certa, ele ligou para minha casa e no me encontrou. Deve ter
ficado chateado. Afinal, eu deveria ter
        avisado que faltaria ao nosso compromisso.
        - Ele  que deveria ter suposto que voc no iria  praia com chuva- tornou Fabrcio,
indignado. - No  nada difcil de
        adivinhar.
        - No. Eu  que no deveria ter vindo. Mas tinha de saber como estavam as coisas.
Devia ter telefonado para ele...
        - Agora no adianta se lamentar- ponderou Ins. - O melhor que temos a fazer  sair.
        - Todos ns?
        -No. Apenas Clarinha, Selena e as crianas.
        - Mas, Dona Ins - objetou Selena -, para onde vamos? Est
        chovendo, no podemos ficar andando por a com duas criancas. - Vamos dar uma
volta de carro at que ele v embora- Como
        saberemos que ele j se foi?
        - Deixarei a luz da varanda acesa enquanto ele ainda estiver
        aqui- sugeriu Ins. - Depois que ele se for, apagarei a luz, e Clarinha
        poder voltar sem problemas. Enquanto isso, ficam rodando por
        a. Sei que no  nada agradvel, mas no temos escolha.
        - Est certo. Vamos, Selena, apanhe as crianas. Rapidamente, colocaram as
crianas no carro, abriram o enor
        me porto de ferro e saram para a rua.
        Cerca de dez minutos depois, o automvel de Adriano dobrava a esquina, parando
em frente ao casaro da av. Ele buzinou,
        e Fabrcio, fingindo surpresa, veio abrir, para alvio de Adriano. Fabrcio escancarou
o porto para que o irmo passasse
        com o carro e fechouo novamente, deixando de trancar o cadeado, certo de que o
irmo logo iria embora.
        - Adriano, que surpresa! - exclamou ele, logo que o irmo estacionou atrs, na
garagem - O que faz aqui?
        - Estava em casa entediado. Vim papear um pouquinho. - Coisa rara, hein? Voc vir
aqui...
        Fabrcio passou na frente, enxugou os ps no carpete e entrou, com Adriano logo
atrs. Ao passar pela porta, porm, notando
        a luz
        da varanda acesa e, julgando que a av havia se esquecido de apagla pela manh,
deslizou a mo pela parede ao lado da porta
        e, encontrando o interruptor, desligou-o rapidamente, num gesto to mecnico que
nem ele se deu conta, nem ningum percebeu
        o que
        fizera.
        O tempo foi passando, e nada de Adriano ir embora. Fora at ali para vigiar
Fabrcio, e era o que faria. Sentou-se na sala
        comodamente, pediu um refresco e ps-se a conversar sobre o sucesso dos
        Beatles, os filmes de Alfred Hitchcock, o ltimo romance de Jorge Amado.
Ningum agentava mais aquela conversa. Todos estavam
        preocupados com Clarinha, obrigada a dirigir por aquelas ruas molhadas. S o que
os tranqilizava era a luz acesa na varanda,
        sinal de que ainda no podiam voltar. E estavam to certos de que ela estaria acesa
que nem sequer pensaram em ir se certificar.
        Depois de duas horas de papo, Adriano pediu  av para telefonar. A chuva tinha
aumentado, e ele precisava saber se Clarinha
        j havia voltado. Apanhou o telefone e ligou para a casa dela, mas ela no estava.
        - Que coisa! - disse ele aborrecido.
        - Algum problema, meu filho? - quis saber Ins.
        - No, v, est tudo bem. Clarinha resolveu desaparecer.
        Fabrcio e Ins se entreolharam, e a av procurou confort-lo:
        - Tenho certeza de que nada de mau lhe aconteceu.
        Do lado de fora, Clarinha vinha chegando. Haviam ido tomar um sorvete e vinham
de volta para ver se Adriano j se fora.
        Chovia forte, e ela passou devagarzinho pela porta do casaro de Ins e olhou.
        - A luz est apagada! - gritou Selena.
        -Ufa! Graas a Deus! Ele j foi. Podemos entrar agora.
        Clarinha parou o automvel em frente ao porto e desceu. No estava trancado, e ela
puxou a corrente, escancarando-o. Voltou
        para o carro correndo, j toda molhada, engatou a marcha e entrou. Foi guiando
devagar, at que parou em frente  porta
        de entrada.
        - Vou ajud-la com as crianas. Depois coloco o carro l atrs e volto para fechar o
porto.
        Saltou novamente e abriu a porta do carona, dando passagem para Selena, que
correu para a varanda com Carlinhos no colo,
        todo enrolado na manta para no se molhar. Depois, abriu a porta de trs e ergueu
Selma, correndo com ela escada acima.
        Rapidamente, metia a mo na porta, entrando esbaforida com a menina.
        Estacaram abismadas. Fabrcio e Ins, surpresos, ficaram sem reao, e Adriano,
        erguendo-se do sof, olhava-as com estupor.
        - Mas o que significa isso?-perguntou Adriano, apalermado.
        Mais que depressa, Fabrcio recuperou-se do susto, colocou-se entre o irmo e
Clarinha e tratou logo de ir justificando:
        - Adriano, Clarinha no tens culpa de nada. Foi tudo idia minha...
        Adriano no lhe deu ouvidos. Furioso, passou por Clarinha como uma bala,
correndo em direo ao carro. A moa, ainda atnita,
        colocou Selma no cho e saiu atrs dele, seguida por Fabrcio
        e por Ins, que implorava:
        - Adriano! Escute aqui, Adriano. Venha c, meu filho, no v embora assim!
        - Vocs so todos uns fingidos, traindo-me pelas costas! - rosnou, enquanto se
sentava ao volante.
        Clarinha chegou logo depois e colocou a mo no vidro, tentando falar com ele:
        - No faa isso, Adriano, vamos conversar.
        Vendo Clarinha parada ao lado de Fabrcio, seu corao disparou. De repente, tudo
se esclareceu. O irmo aceitara ajudar
        a vadia Selma s por causa de Clarinha. Por isso ela no lhe contara onde a prima
estava escondida, mentindo para ele, fingindo
        que nada sabia. Como no pensara nisso antes? Na certa, estavam traindo-o. E sua
av era a alcoviteira! Seno, no se prestaria
        ao papel de acobertar aquela pouca-vergonha!
        No conseguindo conter o dio, entreabriu o vidro do carro e vociferou:
        - Vocs devem ter se divertido muito  minha custa, no  mesmo?
        - Como assim?- indagou Clarinha, atnita.
        - Pensa que no sei que so amantes?
        Ligou o carro e saiu em disparada, passando rente ao carro da noiva, ainda parado
em frente  varanda. Clarinha, magoada,
        fitou
        Fabrcio com os olhos cheios de lgrimas. Como Adriano podia pen
        sar uma coisa daquelas? No sabia que o amava?
        Sem dizer nada, Fabrcio correu para seu carro e entrou, seguido por Clarinha, que
entrou do outro lado. Mais que depressa,
        virou a chave,
        engatou a primeira e arrancou, derrapando pela chuva.
        - Meu Deus! -gritou Ins. -Tenham cuidado!
        Chovia torrencialmente. Adriano, fora de si, tomou o caminho que conduzia ao Alto
da
        Boa Vista. No pensava era nada. No
        podia ir para casa, s o que queria era fugir. Mais atrs, Fabrcio seguiao de perto. O
irmo estava equivocado, fazendo
        uma idia errada a seu respeito, e ele no podia deixar que as coisas ficassem
daquele jeito. E, depois, estava transtornado.
        No devia sair dirigindo daquele jeito. Precisava faz-lo parar para conversarem.
Depois de tudo esclarecido, Clarinha podia
        voltar dirigindo seu carro, at que ele se acalmasse.
        - Oh, Fabrcio! - choramingou Clarinha. - Como ele pde pensar uma coisa dessas?
        - O cime  mau conselheiro, Clarinha. Mas no se preocupe: vamos esclarecer
tudo.
        Comeavam agora a subir. A toda velocidade, Adriano ia fazendo as curvas
sinuosas,
        sem diminuir ou reduzir, e Fabrcio comeou a se alarmar.
        - Seria melhor que fosse com calma. A estrada aqui  perigosa. Ainda mais com um
tempo destes.
        Clarinha nem ousava respirar. Com cautela, Fabrcio tentava segui-lo de perto, mas
era obrigado a diminuir nas curvas para
        no derrapar. O carro de Adriano foi seguindo em disparada, at que alcanou o
cume da montanha e passou pela pracinha do
        Alto, comeando ento a descer.
        - Aonde ele vai?-indagou Fabrcio, cada vez mais preocupado.
        Pensaram que ele iria parar na pracinha, mas no. Adriano nem diminura. Descia a
montanha feito um louco, tirando finos
        de rvores e do meio-fio. Ladeando a estrada, a Floresta da Tijuca se estendia
imponente, semi-oculta pela neblina que comeava
        a descer.
        Adriano nem se dava conta do que fazia. Continuava correndo, acelerando cada vez
mais, sem se importar com as derrapagens,
        que causavam assombro a Fabrcio e Clarinha. Descia alucinado, dando guinadas
com o volante para no sair da estrada sinuosa.
        At que, depois de uma curva mais fechada, o cho molhado, aliado ao leo
derramado pelos demais veculos, funcionou como
        um sabo, e o carro derrapou e rodou duas vezes, deslizando para a pista do outro
lado.
        Adriano, apavorado, ainda pisou no freio. Mas no adiantava. O carro no obedecia
mais a seu comando, e o volante pareceu
         travado em suas mos. Rapidamente, foi vendo o fim da pista se aproximar, at que
o carro deu um solavanco e subiu o meio-fio,
         indo despencar, de frente, no precipcio e para a morte.
         Mais atrs, Fabrcio e Clarinha assistiam a tudo aterrados. Sem nada poder fazer
para impedir a tragdia, o rapaz parou
         o carro logo aps a curva, e ambos ficaram olhando, como que vidrados, sem poder
tirar os olhos daquela cena que mais parecia
         sada de um filme de terror. Ouviram o barulho da batida, quando o carro arrastou o
fundo no meio-fio, e ficaram impotentes,
         cobertos de horror, vendo o automvel sumir por entre o capim que encobria a beira
do precipcio, at que escutaram um rudo
         seco, depois outro e, por fim apenas o barulho da chuva.
         Nada mais havia que pudesse ser feito. Adriano perdera a vida naquele acidente
trgico, e toda a famlia chorava sua dor.
         Flvia teve de ser hospitalizada, vtima de uma crise de nervos que nem a permitiu
comparecer ao enterro. Embora acreditasse
         na sobrevivncia do esprito, perder o filho ainda to jovem fora para ela um golpe
duro demais.
         O choque foi imenso para todos, e, poucos dias depois do funeral, a famlia parecia
haver se desestruturado. Paulo, intimamente,
         acusava Fabrcio pelo acidente. Quando soube o que realmente havia acontecido,
passou a culpar o filho pela tragdia, julgando-o
         o nico responsvel pelo desatino de Adriano.
         Quando finalmente voltou ao trabalho, estava cabisbaixo, triste, endurecido. Suas
feies, marcadas pela dor, ocultavam
         uma revolta que j no conseguia mais esconder de si mesmo. Tudo fora culpa de
Fabrcio. Maldita hora em que o adotara!
         Sentado sozinho em seu escritrio, olhando pelo vidro da janela os carros
pequenininhos na rua l embaixo, escutou batidas
         na porta e disse sem interesse:
         - Entre.
         Era Marcos, o cunhado, que vinha com alguns papis na mo. Ele puxou a poltrona
defronte a ele, acomodou-se, pousou os documentos
         sobre a mesa e, encarando-o com compreenso, falou:
         - Paulo, se j estiver se sentindo melhor, preciso discutir algumas clusulas
contratuais com voc.
         Marcos era diretor financeiro da empresa, um homem muito dedicado e competente,
e Paulo estava satisfeito com seu trabalho.
         Contudo, olhou-o como se no o conhecesse e respondeu sem muito interesse
         - Est bem. Vamos l.
         Fazia as coisas maquinalmente. Perdera o filho a quem amava, e aquela perda era
irrecupervel. Entretanto, precisava continuar seus
         negcios e fez o possvel para que ningum percebesse a mgoa e o ressentimento
que lhe iam na alma.
         Em casa, Flvia, mais refeita, tentava entender o que havia acontecido. O apoio de
Fabrcio e da me fora fundamental em
        sua recuperao, e ela comeou a se sentir mais confortada, certa de que aquela
perda no fora casual, mas programada por
        Adriano por uma razo que ela desconhecia.
        Ela estava sentada na sala, conversando com Ins, quando Olvia veio avisar que
Clarinha estava ali para v-la. - Faa-a
        entrar.
        Clarinha entrou meio sem jeito, cumprimentou ambas, pediu licena e sentou-se,
olhos pregados no cho, sem coragem para
        dizer o que tinha programado havia tanto tempo.
        - Dona Flvia... - comeou aps alguns segundos de constrangedor silncio. - Vim
aqui para lhe prestar meu apoio... e para
        que me perdoe...
        - No precisa se desculpar, minha filha - cortou Flvia em tom compreensivo. - Sei
que no foi culpada de nada. As coisas
        aconteceram da forma como tinham de acontecer.
        - Mesmo assim. Se no tivesse ido  casa de Dona Ins naquele dia...
        Desatou a chorar. Quando sara de casa, jurara a si mesma que no iria chorar. Mas
no agentara. Tambm estava sofrendo
        muito e no conseguia esconder.
        - Tenha calma, menina - falou Ins bondosamente. -Se voc
        no tivesse ido  minha casa naquele dia, outro motivo levaria Adria no quele
acidente. Nada acontece por acaso. - Pensa mesmo assim?
        - Tenho certeza.
        Ela olhou discretamente para Flvia, abatida, jogada sobre o sof, e sentiu um
aperto no corao. Dirigindo-se a ela, prosseguiu:
        - Dona Flvia, quero que saiba que eu amava muito seu filho... - Ela parou de fitar,
embargada pelo pranto. -No sei de
        onde ele
        tirou a idia de que Fabrcio e eu... - Nova pausa, novos soluos... de que Fabrcio e
eu somos amantes... Isso no  verdade.
        No ! Eu sei, minha querida. E ningum est pensando isso. Adriano sempre teve
certa rivalidade com o irmo. E era ciumento.
        - Mas eu no fiz nada...
        - O cime no precisa de motivos. Basta a insegurana, o medo,
        o apego. Quando se tem certeza do verdadeiro autor, no h motivo para ser
ciumento.
        - Sou uma moa direita, Dona Flvia.
        -Ningum est dizendo o contrrio. Voc est se justificando  toa.
        -  isso mesmo - concordou Ins. - No precisa ficar se des
        culpando. No estamos zangadas nem magoadas com voc. Entendemos
perfeitamente seus sentimentos por Adriano.
        - Eu s queria ajudar... Queria ajudar minha prima. Ela est
        numa situao difcil.
        Sabemos disso tambm. Tanto que ela continua em minha
        casa at hoje. Se eu no estivesse certa de suas intenoes, ou das dela, jamais teria
permitido que ficasse comigo.
        - Obrigada... - disse Clarinha, a voz embargada pela emoo.
        - Esteja certa de que entendemos seu sofrimento - tornou Flvia. -E voc ser
sempre bem-vinda em nossa casa.
        - Obrigada novamente, Dona Flvia, mas no quero que as pessoas pensem que
venho aqui por causa de Fabrcio.
        - As pessoas no tm de pensar nada - rebateu Ins. - No  problema delas. E, se
pensam, no se importe. O que vale  a sua conscincia.
        Clarinha saiu da casa de Flvia mais tranqila e sentindo-se menos culpada. Embora
soubesse que no desejara nem causara o acidente, sentia remorsos por no haver
        colocado Adriano a par
        do que estava acontecendo. Se tivesse lhe contado a verdade, talvez nada daquilo
tivesse acontecido. Mas ele era contra,
        radicalmente contra sua aproximao com Selena. At que concordava com o
desquite, j que o marido batia nela. Mas achava
        que Selena no era companhia para ela e deveria assumir sozinha sua condio de
desquitada,
        isolando-se da sociedade, como se de repente, de uma hora para outra, fosse se
desquitar tambm de seus valores e princpios.

        rJo continuar Ihe dando o que ~i,iser. Pari qu sc u~fenorizau num eirrprclTumrho
qualquer?
        - Empreguu~ho? Me Trabalho numa grande emprese exporradora. Sou assessora
do diretor executivo. Como rocle chamar de empreguinho?
        - E apenas uma secretria de luxo, nadar mais. No fosse por seu rai, seria esse o
nome que dariam a seu cargo, e no o
        de assessora. -O qu? Como assim
        - Ora, vai dizer que no sabe? - Balanou a cabea. - Como pensa que conseguiu
esse emprego?
        - Deixei meu currculo no departamento pessoal...
        - E por que acha que a chamaram? Por sua competncia? Ora, vamos, Clarinha, caia
na realidade. Ningum a conhecia. Voc
        era uma moa recm-formada, mexpcriente. No achou estranho ocup~1r um cargo
to alto?
        Clarinha estava contusa e atordoada. O que a me lhe dizia era
        L"irar barbamdade- Mas seria verdade? Ela hem que estranhara ter sido
        chamada to rapidamente. Contudo, movida pelo entusiasmo, no questionara nada-
Pensava que a tivessem escolhido por haver
        frequentado uma boa faculdade, o que era indcio de uma boa base.
        Subitamente, porm, a verdade caiu sobre ela como um raio. Enquanto ia digerindo
aquela revelao, a me no parava de falar:
        - Pois foi seu pai quem lhe arrumou esse emprego. Quando soube que voc havia
enviado seu currculo para l, telefonou
        para o Dr. Aureliano, que  seu amigo, e conseguiu a colocao para voc. Mas
agora chega. Chega de brincar de mulher de
        negcios...
        Nem terminou a frase. Clarinha saiu correndo da sala e foi apanhar a bolsa,
ganhando a rua em desespero. Tirara a tarde de
        folga para poder ir  casa de Flvia e pensou em voltar  empresa para tirar
satisfaes- Mas de que adiamtaria? Se aquilo
        fosse verdade, seu chefe a trataria com frieza e telefonaria a seu pai, explicando o
ocorrido. No. Precisava pensar numa
        maneira de sair daquilo com dignidade. Pediria demisso.
        Mais tarde, naquele mesmo dia, foi bater  porta da casa de Ins. Quando esta viu a
moa entrar, admirou-se com seu ar abatido,
        mas pensou ainda ser conseqncia da conversa que haviam tido mais cedo.
        Clarinha! - surpreendeu-se Selena. - O que houve?
        Clarinha desabou na poltrona e contou tudo  prima e a Ins, confessando-se
decepcionada e seus esperai as. De uma s vez,
        perdera o noivo amado, o emprego e a confiana na famlia.
        - No se atormente - consolou Ins. - Na vida, no se perde nada; trocam-se
experincias. Quando alguma coisa se vai, 
        porque no precisamos mais dela, e uma outra melhor ir aparecer.
        - Queria mesmo acreditar nisso - respondeu Clarinha, desanimada. - Hoje cedo,
depois que conversamos, tentei ligar para
        Selena. Sei que tambm se tornou esprita e pensei em esclarecer algumas coisas.
Mas o telefone s dava ocupado, e eu desisti.
        E, depois, no acredito mesmo.
        -No acredita? Pois devia.
        - Como? Perdi Adriano, e no se pode dizer que no precisava mais dele. Precisava,
e minto.
        - Ser mesmo? Ser que vocs j no haviam terminado o tempo que haviam
programado juntos?
        - No estou entendendo. No programei nada.
        - Hoje, no. Mas ontem, no mundo espiritual, vocs devera ter traado as primeiras
linhas de suas encarnaes. E, aqui,
        somente aconteceu o que vocs determinaram.
        - Mas como pode dizer que eu no precisava mais dele? Preciso dele at hoje.
        - Depende de como encara as coisas- Voc pode pensar que precisa, porque ainda
est apegada a Adriano. Contudo, para seu
        cresc emento, para o desenvolvimento de seu esprito e do dele, esse envolvimento
no  mais necessrio. O que vocs precisam
        agora  de outras experincias. Ele, no mundo espiritual. Voc, aqui na Terra, seja
com outro namorado, seja enfrentando
        a vida sozinha, seja batalhando por seu trabalho.
        - No  to simples assim como diz.
        - Pode no ser. Eu tambm sofri, porque Adriano era meu neto e eu o amava. No
entanto, tenho conscincia de que ele cumpriu
        mais uma etapa em sua jornada evolutiva e vou rezar para que possa se desincumbir
da prxima. E isso sem deixar de am-lo
        ou de sentir saudade dele.
        - No acha que h um contra-senso no que diz? Como pode aceitar sua partida e
sentir saudade dele ao mesmo tempo?
        -Se voc tivesse um filho que fosse estudar na Europa, por exemplo, o que voc
faria? No deixaria que fosse, sabendo que
        era o melhor para ele naquele momento?
        -  claro que deixaria. Mas isso  diferente.
        - No , no. Voc aceitaria sua partida com naturalidade, embora sentisse saudade
dele. Mas no ficaria desesperada nem
        angustiada, porque teria a certeza de que ele estaria estudando para seu progresso,
no  mesmo?
        - Continuo achando que  diferente. Nesse caso, ele estaria vivo.
        - E quem disse que Adriano no est? Vive apenas em outro plano, mas continua to
vivo quanto ns, e chegar o dia em que
        tornaremos a nos reencontrar.
        Clarinha balanou a cabea, incrdula. Queria muito acreditar naquilo, mas no
conseguia. Parecia-lhe fantstico demais.
        - Dona Ins, o que me diz parece ser impossvel_ Concordo que seria extremamente
confortante saber que nossos entes queridos
        continuam vivos em algum lugar. Mas no acredito que seja essa a realidade.
        - No? E o que pensa, ento? Que morreu, acabou?
        -No... No sei o que dizer. Acho que camos numa espcie de sono, voltamos para
Deus, no sei.
        - Os espritos prosseguem como eram quando encarnados, e at se comunicam
conosco.
        -No sei se acredito nesse intercmbio. Para mim, os mortos no se comunicam.
        - Os mortos no se comunicara mesmo. Mas quem desencarna no morre. O corpo
se vai, a alma fica. Por isso a comunicao
         possvel. Os espritos so seres inteligentes como ns e conservam todas as
caractersticas que possuam quando encarnados.
        Por isso  que os podemos reconhecer.
        - Tambm acredita nisso? - tornou Clarinha, dirigindo-se a Selena.
        - Voc sabe que sim. Desde que aqui cheguei, Dona Ins e eu temos mantido
agradveis conversas sobre a espiritualidade,
        sobre as verdades da vida. J fui at a seu centro!
        - E onde ? Aqui perto?
        - Sim. Fica dois quarteires abaixo. No gostaria de ir? - No sei...
        -Fabrcio vai.
        - Quando ? Amanh?
        No. Costumamos nos reunir todas as quartas-feiras. Na semana que vem, se
desejar, poder ir conosco.
        A noite, quando Fabrcio chegou, ficou extremamente penali
        zado com a situao de Clarinha.
        - O que pretende fazer? - indagou interessado. - Amanh mesmo vou pedir
demisso. - Eu no faria isso, se fosse voc.
        - No? Por qu? Acha que posso me sujeitar a um emprego de favor?
        - Ao menos por enquanto, no faria nada. Voc, bem ou mal,
        est trabalhando. Se eles fizeram um favor a seu pai, e problema de
        les. Mas voc vai l, cumpre sua parte, d o melhor de voc. E eles lhe
        pagam por isso. Garanto que, se voc no fosse competente, eles j te
        teriam arranjado um jeito de no lhe dar nada de importante para fazer. Ela
considerou por alguns segundos e retrucou:
         - Bom, isso  verdade. S recebo elogios a meu trabalho. E sinto que, a cada dia,
vou assumindo novas responsabilidades.
         - Pois ento? Seu pai lhe arranjou o emprego. Mas voc s se mantm no trabalho
porque tem mritos prprios. Veja bem a diferena
         entre emprego e trabalho. O emprego, foi seu pai quem conseguiu. Mas o trabalho
que voc executa  algo pessoal, que s
         depende de sua capacidade.
         -  mesmo, Clarinha - concordou Selena. - Se voc no fosse competente, estaria
mesmo ocupando o lugar de secretria, datilografando
         cartas, atendendo ao telefone, recepcionando os clientes.
         Mas no  isso o que voc faz, ?
         - No. Fao projetos e trao diretrizes para a empresa, que so
         muito bem aceitos. Todos gostam de minhas idias.
         - Viu? Voc se mantm no trabalho porque  capaz.
         - Mas meu pai vai ficar jogando na minha cara que s estou no
         emprego por causa dele.
         - Deixe-o pensar assim- intercedeu Ins. - O que importa 
         que voc sabe que no o .
         - Mas no posso mais continuar naquela casa!
         - No discuta com seus pais, Clarinha, nem tome nenhuma atitude
         impensada. Trate de se firmar no emprego e faa seu nome, de forma que consiga
boas referncias se tiver de pedir demisso.
         Depois disso, alugue ou compre um apartamento e mude-se. Voc  maior, pode
muito bem morar sozinha.
         - Se quiser, poder ir morar comigo - acrescentou Selena. - Logo que o desquite
sair, tratarei de me arranjar. Isto ,
         se voc no se importar de ir morar com uma mulher descasada e com dois filhos.
         - Eu? Imagine, Selena. Sabe que no ligo para isso. E, depois, gosto de voc e das
crianas.
         - Ento? O que me diz?
         Clarinha ficou alguns instantes pensativa, at que retrucou:
         - No vai voltar a viver com seus pais, Selena? - No. Duvido que eles me queiram
de volta.
         - Talvez esteja enganada. Voc tem dois filhos maravilhosos, e
         isso muda a cabea de muita gente. Quais os avs que no gostariam de estar perto
dos netos?
         - Talvez voc tenha razo, e meus pais me aceitem s por causa das crianas. Mas
no quero. Durante a vida inteira fui dependente
         de algum. Primeiro, de meu pai. Depois, de meu marido. E, agora, de meu pai de
novo? Ele vai querer mandar em mim, dirigir
         minha vida. No quero. Pretendo  arrumar um emprego e me sustentar, a mim e a
meus filhos.
         - Ele no vai lhe dar penso?
         - Quem? Cassiano? Duvido muito. E at capaz de abandonar o emprego s para no
ter de me dar nada.
         - Isso  algo que veremos depois - falou Fabrcio. - Primeiro vamos tratar do
desquite e pedir a penso. Mas se ele vai
        dar ou no, quais os artifcios que usar para se esquivar de suas responsabilidades,
isso  outra histria.
        - Como vai o processo? - quis saber Clarinha.
        - A primeira audincia ser daqui a uma semana. O juiz tentar reconciliar os dois.
        - Impossvel! - exaltou-se Selena.
        - Mas a lei obriga. Faz de tudo para manter a famlia unida. Se der, no deu, mas o
juiz  obrigado a tentar uma reconciliao.
        - E as provas? Ele vai se utilizar das fotos? - Provavelmente, sim. Se a reconciliao
for impossvel, Caso
        seja citado para se defender, e a poder apresentar as provas (que quiser.
        - Mas eu tambm tenho provas contra ele Tenho provas de que fui maltratada, meus
filhos foram aterrorizados!
        - Acalme-se, Selena, isso  apenas o processo legal. E claro que voc tem provas
contra ele, e das mais slidas. Mas no
        se esquea de que ele tambm tem provas contra voc, e isso pode ser um problema.
Tudo vai depender da cabea do juiz, de
        como ele vai entender a culpa de cada um.
        - Por que no nos reunimos e pedimos proteo a Deus? - sugeriu Ins. -Todos ns
estamos passando por momentos difceis,
        e tenho certeza de que Sua ajuda ser o melhor remdio para nossos problemas.
        Naquela noite, quando Fabrcio chegou em casa, j era tarde, e ele pensou que os
pais estivessem dormindo. Abriu a porta
        da frente com cuidado e foi para seu quarto. Ao passar pela sala, notou a luz de um
abajur acesa e foi espiar. O pai estava
        l, sentado de pijamas, fitando o vazio.
        - Pai! - exclamou Fabrcio. - O que faz a sozinho? No vai dormir?
        Paulo encarou-o com raiva e no respondeu. Levantou-se bruscamente, apagou a luz
do abajur e saiu para o corredor em direo
        a seu quarto. E foi naquele momento, ao ver os olhos do pai sobre ele, que Fabrcio
percebeu quanto ele o odiava. No era
        uma raiva pela perda de Adriano, mas um dio que ele guardava havia muito tempo
e que agora encontrava motivo para sair.
        Quando Adriano despertou, cerca de um ms depois de seu desenlace, estava
confuso e transtornado. Lembrava-se vagamente do
        acidente, mas no se recordava de suas conseqncias. Olhou atentamente para o
lugar em que se encontrava, que lhe pareceu
        um quarto de hospital. Quase no havia mveis, apenas a cama onde ele estava
deitado e um jarro de gua sobre uma mesinha.
        Tentou se levantar, mas no conseguiu. Sentiu uma forte dor no trax e tornou a se
recostar nas almofadas, respirando com
        dificuldade e apalpando as faixas que enrolavam seu corpo. Pouco depois, a porta se
abriu e uma enfermeira entrou. Veio
        sorrindo, ajudou-o a se acomodar, colocou as mos suavemente sobre seu trax,
fechou os olhos e pareceu a Adriano que ela
        estava rezando. Em seguida, perguntou:
        - Di?
        Ele suspirou aliviado e respondeu confuso:
        -No. Estranho. H pouco, senti uma dor terrvel. Mas agora a dor passou sem mais
nem menos. Como  possvel? O que voc fez?
        Ainda sorrindo, a enfermeira cobriu-o com o lenol e respondeu:
        - Voc ainda est muito fraco para se levantar. Quebrou as costelas e est em
tratamento.
        Ela colocou um pouco de gua no copo e estendeu para ele, que o apanhou e
comeou a beber maquinalmente.
        - Que hospital  este? - perguntou, estudando o ambiente.
        - Voc est no Lar da Luz Divina.
        - Lar da Luz Divina? Nunca ouvi falar. Fica no Rio de janeiro mesmo?
        Ela sorriu novamente, acariciou seu rosto e lhe disse: - Descanse. Depois falaremos.
        Adriano pensou em protestar, mas foi acometido de um enorme cansao. Pousou a
cabea no travesseiro e imediatamente adormeceu.
        Quando tornou a despertar, parecia que havia passado dias. Tornou a apalpar o
trax, mas no sentiu aquela dor horrorosa
        e tentou se levantar. Dessa vez, conseguiu.
        Caminhando lentamente, foi em direo  janela e parou estupefato. O dia estava
nascendo, mas parecia que o sol tingia a
        terra de vermelho amarelo e um laranja, tanta era a intensidade de seus raios.
Adriano no pde deixar de admirar
        aquela beleza e quedou embevecido, deslumbrado com tanta majestade, at que
ouviu a porta se abrir e se virou, dando de
        cara com a mesma enfermeira que o atendera da primeira vez. Ela entrou sorridente,
trazendo nas mos uma bandeja com uma
        espcie de tina.
        - Vejo que est bem melhor - falou ela com entusiasmo. - Estou, sim, obrigado.
        - Quer comer alguma coisa?
        - No sei. Estou com fome, mas detesto comida de hospital. - Pois esta  diferente.
Garanto que vai gostar.
        Adriano recostou-se na cama, e ela pousou a bandeja sobre seucolo. Ele apanhou a
colher e experimentou o caldo. Estava uma delcia,
        e ele tomou tudo.
        - Viu? No falei? - perguntou ela animada. - Tem razo... Como  seu nome?
        - Ceclia. Mas pode me chamar de Cia.
        - Muito prazer, Cia. Meu nome  Adriano. - Eu sei.
        - Voc  enfermeira, no ?
        - Fui encarregada de cuidar de voc.
        - E onde est o mdico? E minha famlia?
        A porta se abriu novamente, e um homem j meio idoso entrou, cumprimentando-o
com um afetuoso abrao. Adriano, confuso,
        ficou parado, sem saber se retribua ou no aquele gesto to espontneo, mas sentiu
vergonha e ficou quieto.
        - Bom dia - falou o homem.
        - Bom dia. O senhor  o mdico?
        O homem sorriu e respondeu, balanando a cabea:
        No. Meu nome  Ismael. Vim ver como est passando.
        Olhe, agora estou me sentindo bem. Mas gostaria de falar com o mdico e, se
possvel, com minha famlia. Desde que aqui
        cheguei, no vi ningum.
        - Voc esteve dormindo por um longo tempo -esclareceu Cia.
        - Mas, agora que acordei, poderia cham-los para mim, por favor? Aposto que
tambm devem estar preocupados. - Fez uma pausa
        e prosseguiu: - Por acaso estive em coma?
        Ismael e Cia entreolharam-se e sorriram complacentes. Era sempre assim: os
recm-chegados, em sua maioria, nem desconfiavam
        que haviam desencarnado e queriam falar com o mdico, os familiares, voltar para
casa. Com Adriano, no estava sendo diferente.
        - Fique calmo, Adriano disse Cia. - Vou chamar o mdico para voc.
        Ela saiu e voltou cerca de cinco minutos depois, em companhia de poluem alto e
forte, meio calvo, com olhar extremamente bondoso.
        - Ora, ora! Nosso paciente parece bem melhor hoje.
        - Pois . No sinto mais nada. Ser que j estou bom para partir? O senhor pode me
dar alta e ligar para minha famlia?
        Gostaria que viessem me buscar.
        - Por que no espera mais um pouco, at que esteja inteiramente restabelecido?
        Adriano olhou-o desanimado. Esperava que j pudesse sair. Retrucou:
        - Eu podia ao menos ligar para meus pais? Preciso falar com eles, dizer que acordei.
        Vendo que ningum se mexia, Adriano comeou a se irritar:
        -O que est acontecendo aqui? Por acaso estou incomunicvel, ? Por que no
chamam meus pais?
        - Descanse. Amanh resolveremos isso.
        Tomado pelo cansao, Adriano adormeceu novamente, s despertando no dia
seguinte, quando Cia entrou com a bandeja.
        - Bom dia. Dormiu bem?
        - Dormi.
        Ele esperou at que ela ajeitasse a bandeja sobre seu colo e continuou:
        - Cia, por que ainda estou aqui? No estou bom?
        - Quase.
        Mas no pode ser. O mdico esteve aqui ontem e nem me examinou. Alias, no me
lembro de nenhum hrocedimento mdico.
        Alm dessa sopa que voc me traz, no tomei nada, nenhum remdio, injeo, nada.
O que est acontecendo?
        - Voc j esta bem melhor dos ferimentos, mas ainda precisa se fortalecer, seno
corre o risco de ter uma recada.
        - Mas por que no chamam minha famlia? Quero falar com meu pai. Todos devem
estar preocupados. Preciso avisa-los de que
        acordei do coma.
        - Tenha calma. Tudo a seu tempo.
        Novamente a porta se abriu, e Ismael entrou em companhia do mdico.
        - Doutor! O que esta acontecendo? Por que no posso ver minha famlia? Por acaso
estou sendo mantido prisioneiro aqui?-Ele
        se calou e levou a mo  cabea, retrucando horrorizado. - Meu Deus! Fui
sequestrado!  isso. Vocs me seqestraram e me
        mantm dopado aqui enquanto tratam das negociaes com meu pai.
        Ele jogou a bandeja no cho e levantou-se bruscamente, tentando correr para a
porta. Nesse momento, alguns homens apareceram
        e gentilmente o seguraram, conduzindo-o de volta  causa.
        - Larguem-me! Tirem essas mos de cima de mim! Vocs vo ver! Quando meu pai
descobrir, vai prender vocs para sempre!
        - Adriano, acalme-se - tornou Ismael, com doura. -No quer saber o que aconteceu
depois do acidente?
        - Acidente?- revidou confuso.
        - Sim, o acidente. No se lembra? Voc derrapou com o carro no Alto da Boa Vista
e caiu no precipcio...
        - Lembro-me do acidente, claro que me lembro. No com riqueza de detalhes, mas
sei que foi por causa de um acidente que
        vim parar aqui. E da? O que tem? j estou bom, no estou? No sinto mais nada. E
agora querem se aproveitar da situao
        e me aprisionar para pedir resgate. Pois no vo conseguir, ouviram? No vo.
        - Ningum o seqestrou, Adriano. Ns o resgatamos e cuidamos de voc Mas no o
mantemos prisioneiro aqui. Se quiser partir,
         livre para ir.
        - Ir para onde? Nem sei onde estou!
        Ismael apanhou sua mo e, olhando fundo em seus olhos, respondeu com firmeza:
        Voc est no Lar da Luz Divina, uma instituio de socorro
        s vtimas de acidente situada numa colnia espiritual no plano bem em cima da
cidade do Rio de janeiro.
        - O qu? Colnia espiritual? Mas que brincadeira  essa? - No  brincadeira...
        - S pode ser. Como pode haver uma colnia espiritual acima da cidade do Rio? Por
acaso estamos flutuando? E alguma nave espacial? Fui seqestrado por seres de outro
        planeta? Ora,
        francamente! O que pensa que sou? Algum rolo? V contar essa histria para as
crianas, no para mim.
        - Mas  verdade. Nossa colnia est acima da cidade, mas num
        outro plano, numa outra dimenso, invisvel aos olhos humanos dos encarnados.
        - Encarnados? Como assim? No estamos encarnados aqui? Vendo o olhar
revelador de Ismael, Adriano considerou:
        - Quer dizer que estamos desencarnados aqui? Sem carne?
        Mortos?
        - Sim.
        - Impossvel. Acha que sou idiota? No acredito nessas bobagens de esprito. Se
estou aqui falando com voc,  porque estou vivo.
        -  claro que est vivo. Mas, como disse, habita agora outro plano. Seu corpo
material padeceu naquele acidente, mas seu esprito
        ganhou liberdade e retornou  ptria espiritual.
        -No acredito. Vocs esto tentando me enganar. Quero sair
        daqui! Exijo que me levem de volta  minha famlia. Agora!
        - Fique calmo. Vamos voltar, mas no agora. - Quando?
        -Quando estiver mais preparado.
        - Sem essa! Quero sair daqui agora! Levem-me imediatamen te  minha casa! Quero
ir para casa! Me! Pai! Onde esto? Sentindo a angstia silenciosa do filho, Flvia
        pensou nele com
        saudade, e Paulo, na mesma hora, sentiu a revolta dominar-lhe o corao,
imaginando como seria bom se o filho estivesse ali a seu lado.
        Imediatamente, os pensamentos de ambos se conectaram s splicas
        de Adriano, e estabeleceu-se uma comunicao teleptica, sem palavras, mas de
inteno.
        Na mesma hora, Adriano sentiu o chamado dos pais e pensou neles com tanta fora,
com tanta vontade,
        que logo se viu transportado de volta a seu quarto, em sua cama, e abriu os olhos
assustado.
        Reconhecendo sua casa, pensou que tivesse tido um pesadelo. Tornou a fechar os
olhos, virou-se para o lado e dormiu.
        Adriano ouviu um barulho estranho no quarto e abriu os olhos. A empregada, alheia
 sua presena, passava o aspirador de
        p no tapete, despertando-o com aquele rudo infernal.
        - Atnito, ergueu-se na cama, espreguiou-se e, olhando para a moa, falou com
zanga:
        - O que h com voc, Maria? No respeita mais ningum, no? No v que ainda
estava dormindo?
        Sem se dar conta de suas palavras, Maria continuava a aspirar o
        tapete e nem percebeu quando Adriano se sentou na cama e pousou os ps no cho,
tentando encontrar os chinelos.
        - Ei: Cuidado! - gritou ele embasbacado. -No viu meu p?
        Maria acabara de passar o aspirador sobre seus ps, deixando-o furioso. Adriano
levantou-se, aproximou-se dela e postou-se
        bem  sua frente, pronto para lhe passar um sabo. Ela, porm, continuou avanando
com o aspirador, que atravessou seus
        ps. Mas Adriano, confuso, no se dera conta de que o aspirador o atravessara,
pensando que apenas houvesse esbarrado nele.
        Parado em frente a Maria, j pronto para lhe dar uma bronca, viu quando a moa
partiu para cima dele, aspirador em punho,
        disposta a atropela-lo, e pulou para o lado, cada vez mais abismado.
        - Voc est maluca? Est cega, ?
        Como Maria no respondesse, ele comeou a se enfurecer e a gritar com ela:
        - Pare j com essa bobeis e fale comigo! Estou mandando! Deixe de fingir que no
existo e fale comigo!
        Nada. Maria nem sequer se abalava.
        - Ah, no vai falar, no? Pois vai ver s! Vou agora mesmo contara mame o que
est acontecendo. Voc est ficando muito
        abusada. Onde j se viu?
        Virou as costas para sair e quase esbarrou em Olvia, a governanta, que metera a
cabea na porta e dissera:
        - Maria, no se esquea de limpar no alto das prateleiras. Da outra vez, dona Flvia
reclamou comigo que os livros estavam cheios de poeira. Sabe como ela . Ainda
        mais com o quarto do filho...
       Discretas lgrimas afloraram aos olhos de Olvia, e Adriano perguntou:
       O que houve, Olvia? Por que est chorando?
       Ao invs de responder, Olvia, mais sensvel, inconscientemente percebeu a
presena do rapaz e disse bem baixinho:
       - Pobre Adriano...
       Soluos a interromperam e ela saiu correndo, nem dando a Adriano tempo de lhe
perguntar o que estava acontecendo. E o mais
       estranho era que ela parecia no o haver visto tambm. O que estaria acontecendo?
Estavam todos loucos ou ele estava sonhando?
       Aturdido, saiu para o corredor e foi para a copa, onde a famlia tomava o caf da
manh. Ali estavam o pai, a me e o irmo,
       mas Olvia se esquecera de colocar uma xcara para ele. Indignado, sentou-se em
seu lugar, em frente a Fabrcio, e chamou
       Olvia, pedindo que lhe trouxesse a xcara. Mas nada. Olvia no atendera a seu
chamado, e todos ali pareciam ignora-lo.
       Ele encarou a me, o pai, o irmo... Estavam todos com ar triste. Ser que fizera
alguma coisa? Mas o qu? No se lembrava.
       Durante alguns minutos, permaneceu fitando os familiares,  espera de que algum
dissesse alguma coisa. Depois de um tempo,
       Paulo falou para Flavia:
       - Passe-me a manteiga, por favor.
       Flvia estendeu para ele a manteigueira, que ele apanhou sem dizer nada. Apenas
balanou a cabea em sinal de agradecimento
       e ps-se a passar manteiga na torrada. Adriano estava cada vez mais perplexo. Era
bvio que no queriam falar com ele. Estavam
       lhe dando um gelo. No queriam nem sua companhia para o caf.
       Depois de quase dez minutos, no suportando mais aquele silncio, deu um tapa na
mesa e falou zangado:
       - Muito bem! Chega de brincadeira. Algum pode me dizer o que esta acontecendo?
       Nada. Ningum se movia.
       - Mame, o que fiz?
       Silncio.
       - Papai, por favor, o que houve? Por que no me respondem? Fabrcio, diga voc. O
que est acontecendo aqui? Por que no
       falam comigo? Falem comigo, pelo amor de Deus! Vamos, falem comigo! Falem!
Falem!
       Ningum dizia nada. Apenas Fabrcio, dada sua forte mediunidade, sentiu uma
presena ali junto a eles. Seria Adriano? Captando-lhe
       os pensamentos, que, em sua confuso, julgava palavras, Adriano respondeu:
       - At que enfim algum me escuta. O que houve, Fabrcio?
       Adriano havia se levantado de seu lugar e se aproximado do irmo, que,
percebendo-lhe cada vez mais a presena, elevou uma
       breve orao a Deus, pedindo proteo para ele. Adriano no percebia que o que
escutava eram seus pensamentos e indagou
       atnito:
       - Por que est rezando por mim? Estou aqui do seu lado. Pare com essa besteira e
fale comigo. Essa brincadeira j est ficando
        sem graa.
        Fabrcio, compenetrado, no ouvia aquelas palavras, e Adriano comeou a se
enfurecer. Pensou em esbofete-lo, mas o pai
        chamaria sua ateno. Fosse o que fosse que estivesse acontecendo, ele estava
conivente. Aproximou-se da me e pediu sua
        ajuda:
        - Mame, por favor, no estou gostando nada disso. Diga-me: o que est
acontecendo?
        Flvia, olhar perdido, falou de repente: - Sinto saudade de Adriano...
        Calou-se, a voz embargada, enquanto o filho respondia:
        - Saudade? Por qu, me? Estou bem aqui do seu lado!
        Paulo pousou a torrada no prato, limpou os lbios no guardanapo e, olhando a
mulher com compreenso, respondeu: - Eu sei, querida. Tambm sinto.
        - Por que isso tinha de acontecer, por qu?
        - Acontecer o qu?- tornou Adriano, cada vez mais confuso. - Pergunte a seu filho -
retrucou Paulo de m vontade, apon
        tando com o queixo para Fabrcio.
        O rapaz, sentindo a insinuao do pai, respondeu calmamente: - Pai, sei que est
sofrendo... todos estamos. Mas no tive
        culpa de nada. Adriano estava correndo...
        - Estava correndo?- revidou Paulo. - E por qu? Porque voc o estava perseguindo!
        - Eu no estava perseguindo-o! Fui atrs dele para tentar detlo. Ele estava
transtornado, pensando um monte de bobagens.
        Adriano assistia a tudo, cada vez mais confuso.
        - Ah, estava transtornado? E por qu? Porque voc resolveu ajudar aquela
mulherzinha -toa!
        - No fale assim de Selena. Ela no tem nada com isso! Adriano criou uma fantasia
em sua cabea. Ou ser que o senhor
        tambm pensa que Clarinha e eu ...
        - No penso nada! -cortou rispidamente. -Mas Clarinha no devia ter contrariado
seu irmo. Ele no a queria envolvida com
        aquela mulher! Nem voc! Estava preocupado, veio me pedir ajuda.
        - Ajuda?- indagou Flvia curiosa. - Para qu?
        - Caso no saiba, Adriano veio me pedir para falar com Fabrcio sobre seu
envolvimento com Selena...
        - Envolvimento? Mas que envolvimento, meu Deus? Selena  minha cliente.
        - Adriano no pensava assim. Achava que havia algo mais entre vocs.
        Ele fantasiava demais. Nunca houve nada entre mim e Selena nem entre mim e
Clarinha. A primeira  minha cliente; a segunda,
        apenas uma amiga.
        Adriano sentiu vontade de perguntar por que todos se referiam a ele no pretrito,
mas no teve tempo. Paulo continuava suas
        acusaes contra Fabrcio:
        - Voc foi muito errado. No devia ter se metido com essa gente. E ainda foi
convencer sua av, uma senhora de idade, a
        acobertar essa loucura. Devia ter vergonha!
        - Vergonha de qu? De tentar ajudar uma pessoa?
        - No. De atrapalhar a vida de seu irmo.
        -No atrapalhei a vida de ningum. Ao contrrio, s tentei ajudar, a Adriano,
inclusive. Mas ele no quis me ouvir. Deixou-se
        dominar pelo cime e saiu em disparada, subindo e descendo o Alto da Boa Vista
feito um louco, derrapando na chuva... No
        tive culpa...
        Fabrcio sentiu que ia comear a chorar e calou-se, afundando o rosto entre as mos.
Adriano no sabia o que dizer. Subitamente,
        lembrou-se do acidente que, em sua confuso mental, havia apagado de seus
pensamentos, e olhou para a me, que chorava de
        mansinho.
        O acidente... Agora comeava a se lembrar. Algum o recolhera e cuidara dele.
Agora estava bom. S que o haviam prendido,
        ele nem sabia onde. Um seqestro! Fora isso. Haviam-no seqestrado.
        Mas ele conseguira fugir. Nau sabia como, mas logo Sara daquele lugar... Que
lugar? Era um lugar at que agradvel,
        muito bonito. Mas no sabia onde era nem como conseguira sair de l. E voltara.
Voltara para sua casa, para sua famlia.
        Eles no precisavam mais discutir daquele jeito.
        - Me! - exclamou Adriano, tentando abra-la. - Estou
        aqui. Eu voltei. Por que no fala comigo Me!
        Ainda soluando, Flvia ergueu a mo e disse transtornada:
        - Oh, meu Deus! Por que no param com isso? j no basta ter
        perdido um filho? Preciso agora que minha famlia se desintegre? Vendo que a
mulher chorava descontrolada, Paulo levantou-se
        da cadeira e correu para ela, abraando-a com ternura. - Sinto muito, querida...
        Fabrcio tambm, olhos pregados no cho, halbuciou com pesar:
        - Perdoe-nos, me. No queramos brigar.
        - Me! -tornou Adriano, perplexo. -Por que diz que perdeu um filho? Eu estou aqui.
No esta me vendo. Fabrcio! Voc me
        ouviu. Tenho certeza de que ouviu. Diga a ela, vamos! Diga!
        - No posso Suportar ver vocs brigando          tornou Flvia chorosa. - Vocs so
tudo que me resta!
        - E eu, me? - continuava Adriano. - Esqueceu-se de mim' Pelo amor de Deus, o que
esta acontecendo? Algum me conte: o que
        houve? Por que continuam falando de mim como se eu nao existisse?
        - Adriano morreu - prosseguiu Flvia. - No posso mudar isso. Eu o perdi. Mas
preciso de vocs para me ajudarem a continuar
        a viver.
        Adriano afastou-se estarrecido.
        - Morri!? Mas que histria  essa? Ficou louca, me? Olhe-me aqui! No morri, no.
Estou aqui!
        - Voc sabe que a morte no existe, me - acrescentou Fabrcio -, e o esprito de
Adriano prossegue vivo em algum lugar...
        - Besteiras! - rosnou Paulo. - Para que ficar iludindo sua me com essas tolices?
Adriano se foi e no vai mais voltar.
        No est em lugar nenhum. Est embaixo da terra. Embaixo da terra, ouviu?
        - Embaixo da terra, eu?! - espantou-se Adriano. - Como pode? Estou aqui. No
estou morto, estou vivo!
        -No, Paulo, no. Seu corpo morreu, mas Sua alma vive e pode at nos ouvir...
        Pare com isso, Flvia! Sei que  um conforto acreditar na sobrevivncia da alma,
mas no vai lhe fazer bem ficar a alimentando
        uma fantasia. Adriano morreu, acabou. Est morto! Morto!
        Adriano tapou os ouvidos para no ouvir, mas aquela palavra continuou ecoando
dentro de sua cabea: morto, morto, morto...
        No mesmo instante, viu-se dentro de um carro, descendo o Alto da Boa Vista a toda
velocidade. Em dado momento, sentiu que
        o mvel derrapava na pista molhada e comeava a rodar, at que alguns solavancos
o sacudiram, e ele atravessou uma espcie
        de matagal, despencando pelo precipcio e indo se chocar contra as pedras, l
embaixo. Aterrado, viu quando o carro ficou
        em p e depois virou, no chegando a capotar, imprensado que fora pelas uivares no
final do precipcio. Sentiu uma dor
        horrvel no trax e ouviu o rudo de vrios ossos se quebrando, e sentiu-se
bruscamente arrancado dali. Desmaiou.
        Sentiu que um lquido quente e viscoso lhe escoria pela testa e percebeu,
horrorizado, que ela estava coberta de sangue.
        O peito quase que explodia, tamanha era a dor da pontada que sentiu, e ele dobrou o
corpo sobre si mesmo, curvando-se at
        quase tocar o cho.
        Chorando convulsivamente, ajoelhado ao lado da me e do pai, viu uma claridade
vinda da direo da porta e olhou. Dois espritos
        estavam ali parados, e ele os reconheceu imediatamente. Vira-os no hospital em que
fora tratado. Eram Cia e Ismael. Agora
        entendia tudo com clareza. O acidente... perdera a vida naquele acidente.
        Cia aproximou-se e estendeu-lhe a mo, dizendo com doura:
        - Venha, Adriano. No precisa mais ficar aqui.
        Ele a fitou com desgosto e retrucou:
        - Estou morto, no estou? Vocs estavam falando a verdade.
        - Voc no est morto. Vive agora uma outra vida, livre da matria.
        - Por qu?
        - No tempo certo, saber.
        - Mas eu era jovem. Tinha tanto para viver. Minha profisso, Clarinha...
        - Ter outras coisas para viver agora. Coisas que tambm o mudaro a crescer.
        Adriano chorava desconsolado. No queria morrer. Deus fora injusto com ele. Por
que o levara to jovem?
        Venha conosco, Adriano - convidou lsmael. - Ns o ajudaremos a superar e a
entender o que lhe aconteceu.
        Adriano olhava para eles com profunda tristeza. Sabia que devia partir. Estava
morto, no pertencia mais quele mundo. No
        entanto, quantas coisas deixara para trs! No podia simplesmente abandonar tudo e
seguir para outro lugar, como se nada
        tivesse acontecido em sua vida. E, depois, havia Clarinha. No poderia deixar
Clarinha livre para Fabrcio.
       - Por favor, Adriano - suplicou Cia -, no pense mais nessas coisas. Aceite a ajuda
que estamos lhe oferecendo. Venha.
       Ele estava tentado a aceitar. Contudo, a lembrana de Clarinha era ainda muito viva
dentro dele, e Adriano sentiu um dio
       incontrolvel ao pensar que Fabrcio pudesse t-la agora em seus braos. Ele deixara
o caminho livre, e era bem capaz de
       o irmo a cortejar. Mas ele no iria permitir. Jamais permitiria!
       Adriano respirou fundo, enxugou os olhos e levantou-se do cho. Fitou os espritos
com raiva, voltou-lhes as costas e, sem
       dizer nada, sumiu no interior da casa. Cia fez meno de ir atrs dele, mas Ismael,
segurando-a pelo brao, finalizou com
       certa tristeza na voz:
       - Deixe, Cia. Ele aprender por si mesmo.
       Em silncio, deram-se as mos, elevaram o pensamento ao Criador e partiram.
       finalmente, o dia da primeira audincia havia chegado. Fabrcio havia marcado com
Selena de se encontrarem na porta do frum
       e estava parado, esperando-a, quando viu Cassiano chegar em companhia de seu
advogado. Quando o viu, o Dr. Aderbal cochichou
       algo ao ouvido de seu cliente, e ambos se dirigiram para Fabrcio.
       - Bom dia, doutor - cumprimentou Aderbal, com fingida simpatia.
       Bom dia. Como esto?
       - O que acha? - respondeu Cassiano entre dentes.
       Fabrcio j ia lhe dar uma resposta a altura, mas Aderbal, cutucando Cassiano,
adiantou-se e indagou:
       - Dona Selena ainda no chegou?
       - No deve demorar.
       Com efeito, assim que terminou de falar, viu Selena atravessando a rua. Ao dar de
cara com o marido ao lado de Fabrcio,
       comeou a diminuir o passo, com medo at de se aproximar. Mas o olhar confiante
de Fabrcio transmitiu-lhe coragem, e ela,
       apertando as mos nervosamente, caminhou para eles a passos firmes.
       Ela chegou junto a eles e cumprimentou-os laconicamente, no disfarando o mal-
estar.
       - Podemos entrar? - perguntou ela, pouco  vontade.
       - E claro, Selena. Vamos indo.
       Assim que comearam a subir as escadas do frum, mais algum notou sua
presena. Em p, um pouco mais alm, Paulo conversava
       com um conhecido. Tivera uma reunio no escritrio de um cliente ali perto
       e, por acaso, encontrara um antigo companheiro da poca de faculdade.
       Ao v-los, Paulo parou abismado. Reconheceu imediatamente o filho e Selena. Um
pouco mais atrs, carregando uma pasta,
       um homem de terno, que ele deduziu ser o advogado do marido dela. A seu lado,
um sujeito forte e mal-encarado fitava as
       costas da moa com olhar de desdm. S podia ser o marido. Como se chamava
mesmo? No se lembrava direito. Era Cssio...
       No. Cassiano! Era esse o nome que ouvira Fabrcio falar. Ento fora por causa
daquelas pessoas que Adriano perdera a vida,
        porque Fabrcio resolvera se envolver com gente da pior espcie.
        Pensou em interpel-los, mas o que poderia dizer? Fabrcio, afinal de contas, era
advogado e estava ali a trabalho. No
        ficava bem envolver-se nos negcios profissionais do filho. Daria a impresso ele
que era um pai autoritrio e retrgrado,
        o que poderia comprometer a imagem de modernidade que procurava imprimir 
sua empresa.
        Curioso, Paulo pediu desculpas ao homem, alegando compromissos urgentes, e
despediu-se. Subiu as escadas do frum apressadamente,
        procurando por Fabrcio. Em meio aos corredores tumultuados, conseguiu ainda v-
lo entrando em uma sala do primeiro andar.
        Correu em sua direo e viu quando ele e o outro advogado foram consultar uma
lista pendurada perto de uma porta. Provavelmente,
        a pauta das audincias.
        Enquanto os dois conversavam, Paulo reparou melhor no casal de clientes. A moa,
apesar de bonita, tinha algo de vulgar
        que o irritou. E o homem era o que se podia chamar de marginal. Sem o conhecer,
Paulo sabia que ele no prestava. Podia
        ler em seus olhos, em seus gestos, que ele no era flor que se cheirasse. Mas no
disse nada. Sufocou a raiva dentro do
        peito, virou as costas e saiu.
        Na audincia de conciliao, Selena foi peremptria. No queria mais continuar
casada com Cassiano. Ele maltratava a ela
        e aos filhos, e a convivncia entre ambos tornara-se insuportvel. O marido,
orientado pelo advogado, armara um teatro particular.
        Chorou, pediu perdo, disse que amava Selena e os filhos, prometeu mudar. Mas
Selena no queria. O amor havia acabado no
        meio de tantas surras, e s o que lhe interessava agora era o bem-estar dos filhos.
        O juiz Otvio deu por encerrada a audincia, e as partes foram dispensadas, sendo
concedido a Cassiano prazo para apresentar
        defesa. Enquanto saam da sala de audincias, Cassiano chegou perto de Selena e,
fuzilando-a de dio, disparou:
        - Vai se arrepender, Selena. Vou acabar com voc!
        - O que disse, Seu Cassiano?- perguntou Fabrcio, chegando-se mais para perto
deles.
        - Nada, doutorzinho... No disse nada.
        Saiu em companhia de seu advogado. O juiz no lhe ouvira as palavras, mas
percebera seu olhar de dio e deduziu a ameaa.
        Tinha muitos anos de frum para conhecer aquele comportamento. Quantos homens
j no vira que se fingiam de bonzinhos, de
        arrependidos, s para terem as mulheres de volta e continuarem a maltratlas?
Quantas ameaas veladas j no presenciara,
        ameaas que se impunham, na maioria das vezes, s pelo olhar? Seus longos anos
de experincia lhe diziam que estava diante
        de um caso difcil, e aquele Cassiano lhe parecia um mau-carter, disposto a tudo
para no perder sua vidinha de prazeres
        e conforto.
        Mas, enfim, era um juiz imparcial e estava ali para julgar de acordo com as provas
dos autos. No podia se deixar levar
        por antipatias ou suposies. Era um homem muito intuitivo, embora no agisse
apenas baseado na intuio. Analisava os
        casos com ateno e decidia baseado em provas concretas. E raramente falhava. Era
um homem justo e honesto, e nunca se
        enganara com um caso. E aquele, estava certo, dar-lhe-ia muito trabalho.
        Encerrado o expediente, apanhou suas coisas e foi para casa. Estava cansado, louco
por um banho e uma cama. Mas sabia que,
        ao chegar, teria de dar ateno a Aninha, sua nica filha. Ana Leticia estiva com
sete anos. Era uma menina meiga e inteligente,
        e era tudo que ele tinha no mundo.
        Otvio casara-se tarde, e sua mulher, aos trinta e cinco anos, engravidara. Teve uma
gravidez difcil e complicada e, quando
        a filha nasceu, no resistiu ao ataque de eclmpsia e faleceu logo aps o parto,
deixando-o s e com uma filhinha para criar.
        Otvio tinha ento trinta e sete anos e hoje, aos quarenta e quatro, guardava ainda no
rosto os traos da juventude. Era
        atraente, alto, moreno, com cabelos e olhos castanhos.
        Era um homem vivido e aberto as novas idias, e logo se interessou pela literatura
espiritualista. No seguia nenhuma religio.
        Nunca havia frequentado um centro esprita em toda a sua vida nem
        conversara com ningum a respeito. Mas estudara o suficiente para compreender
que a alma sobrevivia ao corpo e que os acasos
        da vida nada tinham de casuais.
        Era quarta-feira, dia de sesso no centro esprita de Ins, e eira, pronta para sair,
conversava com Selena, enquanto aguardava
        a chegada de Fabrcio e de Flvia.
        - Ser que Clarinha tambm vem?- perguntou Selena, pregando um botozinho na
blusa de Selma.
        - Acho que sim. Da ltima vez que esteve aqui, pareceu muito interessada.
        -Tomara que ela goste. Vai se sentir mais confortada. - E verdade.
        Pena que no poderei ir.
        - Pois . A irm de Bibiana tinha de passar mal justo hoje? Mas, enfim, o que
podemos fazer, no  mesmo?
        Ouviram uma buzina do lado de fora e Selena soltando a costura, exclamou
animada:
        -Chegaram! Deixe que vou abrir.
        Apanhou a chave do porto e correu para abri-lo. O carro passou, com Fabrcio ao
volante, tendo ao lado a me e, no banco
        de trs, Clarinha. Ao lado dela, sem que ningum visse, o esprito de Adriano,
carrancudo e mal-humorado.
        Ins ficou muito feliz ao ver que Clarinha os havia acompanhado, embora a moa se
mostrasse um pouco inquieta.
        - Que bom que veio, Clarinha - falou Ins.
        - Foi um custo traz-la - disse Fabrcio. - Na hora de sair, ela quase mudou de idia.
        - Lgico - rosnou Adriano entre dentes. - Eu estava l e tentei impedir...
        - Pois  - cortou Clarinha, sem nem se aperceber da presena e das palavras de
Adriano. - No sei o que me deu. E que,
        de uns dias para c, tenho sentido um cansao, um esmorecimento...
        - Mais um motivo para ir - alertou Ins. - Quando estamos mal  que devemos
procurar a ajuda dos amigos espirituais, e
        no ceder ao apelo daqueles que lutam para nos af astar da espiritualidade.
        - Como assim, v?
        - Bem, os espritos menos esclarecidos, muitas vezes, no querem que nos
modifiquemos, pois s assim podem continuar a nos influenciar. Por isso, quando
pensamos
        em ar ao centro esprita,
        eles reagem ferozmente, tirando nossa vontade, fazendo-nos passar mal, sentir sono
e, s vezes, nos incutindo a idia de
        que tudo no passa de uma grande bobagem, que no adianta nada ir ao centro nem
a lugar nenhum.
        Adriano olhou-a admirado. Sem saber, ela relatara exatamente o que ele havia
sugerido a Clarinha. Ser que, como dissera,
        ele era um esprito menos esclarecido? No, no era isso. Ele no era nenhum
ignorante. A av, na certa, se referia aos
        espritos do tipo "alma penada , o que no era seu caso.
        - So os obsessores, no , Dona Ins? - tornou Selena.
        - No gosto de cham-los assim. A obsesso d uma idia ruim, de perseguio, e os
espritos ditos obsessores so apenas
        seres ignorantes, por vezes at presos aos sentimentos que ns, encarnados,
nutrimos por eles. Contudo, se os tratamos com
        amor e compreenso, logo tomam conscincia de seus atos e vo embora. E, ento,
vemos que eles so espritos movidos pelos
        mesmos sentimentos que os encarnados alimentamos por ns e pelo nosso prximo.
No so demnios, nem maus, nem perversos,
        nem cruis. So apenas ignorantes e imaturos.
        - E isso a- aquiesceu Adriano, do astral. -No sou nenhum Obsessor, no, esto
ouvindo? Mas tambm no sou ignorante. Estou
        aqui para ajudar. S o que quero  estar junto de Clarinha e impedir que Fabrcio a
iluda.
        - Bem, ento vamos? - convidou Flvia. - J est na hora.
        Ins apanhou a bolsa e o casaco, e foram saindo. Vendo que Selena no os
acompanhava, Fabrcio indagou surpreso:
        - E voc, Selena? No vem?
        - No posso. Tenho de tomar conta das crianas.
        - Bibiana teve de cuidar da irm, que est doente - esclareceu Ins.
        - Que pena! -lamentou Clarinha. -Justo hoje que resolvi ir!
        - Ora, no tem importncia. No faltaro oportunidades de acompanh-la. Agora
vo. No querem se atrasar, querem?
        J iam se retirando, mas Fabrcio, indeciso, ficou parado no meio da escada,
olhando para Selena. Quando os outros chegaram
        l embaixo, Flvia se virou para ele e chamou:
        - Como , Fabrcio? Vem ou no vem:'
        Ele no queria ir. Gostava muito do centro, mas se acostumara  companhia de
Selena e se agora compreendia que estava
        apaixonado por ela. Quantas vezes quisera negar para si mesmo? Mas agora no
podia. Entre ir ao centro e ficar com ela,
        seu corao pendia para o lado da moa, e ele indagou, sem tirar os olhos dela:
        - Posso fazer-lhe companhia, Selena?
        O corao dela disparou. Amava-o tambm em silncio, com medo at de pensar
naquele sentimento. Tentando no demonstrar
        o que sentia, respondeu timidamente
        - Se voc quiser...
        Sorrindo satisfeito, Fabrcio voltou-se para o grupo e anunciou: - Vo vocs. Vou
ficar e ajudar Selena com as crianas.
        Ela pode precisar de alguma coisa.
        Ins, Flvia e Clarinha se entreolharam significativamente, mas no disseram nada.
At torciam para que Selena e Fabrcio
        se entendessem, afinal ela era uma boa moa, excelente me, muito ajuizada e
correta. No era certo que, por se separar
        do marido, tivesse de ser condenada  solido.
        Depois que elas se foram, Adriano ficou parado, confuso, sem saber o que pensar.
Achara que Clarinha concordara em ir ao
        centro esprita s por causa de Fabrcio, mas estava enganado. O irmo no tinha
interesse nela; parecia mesmo interessar-se
        por Selena, como pensara a princpio. E Clarinha no parecera desgostosa. Ao
contrrio, parecia at que ficara satisfeita.
        No entendia.
        Em dvida sobre o que fazer, resolveu entrar atrs do irmo para se certificar.
Fabrcio e Selena subiram at o quarto para
        ver as crianas e voltaram logo em seguida, sorrindo satisfeitos.
        -Eles so lindos- elogiou Fabrcio.
        - So, sim. E so tudo que tenho.
        - E seus pais, Selena? Como esto reagindo a tudo isso?
        Ela deu um sorriso amarelo e respondeu:
        - Conforme era previsto, ofereceram-se para ajudar... desde que eu concordasse em
viver com eles e permitisse que assumissem
        pessoalmente a educao das crianas. Querem me controlar para poder ficar com
meus filhos.
        -No  bem assim. Eles querem ajudar voc tambm.
        - , mas s por causa das crianas. Querem me dar casa e comida para me comprar,
para que eu me submeta e no as tire de perto deles.
        - E voc? Vai aceitar?
        - J recusei. Sou adulta, posso cuidar de mim mesma.
        - O que pretende fazer?
        - No sei ainda. Arranjar um emprego, no sei de qu. Meus pais nunca me
prepararam para nada. Criaram-me como se eu fosse
        um bibel, no me deram muita instruo. Conclu o curso secundrio por
insistncia, mas eles nunca deram importncia ao
        estudo, no para mulheres. E eu, por minha vez, logo me casei e perdi mesmo o
interesse. No sou como Clarinha, que bateu
        p e fez faculdade.
        -No se lamente. Voc fez o que julgou melhor.
        - Mas hoje poderia ter uma profisso, ser algum na vida. No estaria nesta situao.
        - Em compensao, no teria dois filhos maravilhosos.
        - Isso ! Meus filhos compensam qualquer sacrifcio.
        Fabrcio fez uma pausa, tentando encontrar as palavras certas para dizer o que ia em
seu corao, e Selena, nervosa, levantou-se
        e indagou:
        - Por que no vamos fazer um lanche? Bibiana fez um bolo de fub delicioso!
        Foram juntos para a cozinha, e Adriano atrs, j enjoado daquela conversa.
Sentaram-se  mesa e Selena apanhou o bolo, cortou
        duas fatias e foi buscar uma jarra de refresco na geladeira. Enquanto enchia o copo
de Fabrcio, notou os olhos dele pousados
        sobre ela e sentiu o rubor cobrindo-lhe a face. Instintivamente, ele tocou de leve sua
mo, e ela, nervosa, puxou-a rapidamente,
        entornando sobre ele o refresco.
        - Ah, meu Deus, como sou desastrada! - exclamou envergonhada, correndo para
apanhar um pano na pia.
        Fabrcio levantou-se e, sem dar importncia s calas sujas de refresco, aproximou-
sedela por trs, virou-a para ele e,
        segurando-lhe o queixo, declarou:
        - Selena... No posso mais esconder. Estou apaixonado...
        Pousou-lhe um beijo suave nos lbios, mas ela, assustada, afastou-se dele e ps-se a
chorar baixinho, balbuciando:
        - No... no, Fabrcio... Ns no podemos. Sou uma mulher casada.
        - Por pouco tempo. Em breve, estar desquitada.
        - Mesmo assim. Sabe o que todo mundo pensa das nwlheres desquitadas.
        - No sou todo mundo. Amo voc e no me importo com o que os outros pensam.
        Ela o fitou emocionada e perguntou:
        - Voc me quer?
        - Mais do que tudo no mundo
        - Por qu?
        - J disse. Porque a amo.
        - Tem certeza? No  porque sou uma mulher... experiente? - Como pode pensar
uma coisa dessas? Logo de mim? Ser que
        no percebe a sinceridade de meus sentimentos?
        Confusa, Selena virou-lhe as costas e prosseguiu:
        - Tenho medo. Tenho medo de alimentar uma iluso.
        - Que iluso? Do amor? Voc no me ama? Diga-me, Selena, preciso saber.
        Ela se voltou para ele e, com os olhos que as lgrimas abrilhantavam, sussurrou:
        - Amo...
        Ele se aproximou dela outra vez, tentando segurar-lhe as mos, mas ela se esquivou
novamente.
        - Por que foge de mim? No disse que ene ama tambm?
        - Disse. Contudo, sou uma mulher direita. Por mais que o ame, no posso me
esquecer de que ainda sou casada com Cassiano.
        E no quero tra-lo novamente. Cassiano  desprezvel, mas ainda  meu marido, e
no quero incorrer no mesmo erro duas vezes.
        - Tem razo - concordou Fabrcio, s ento se dando conta da situao que viviam. -
E eu sou seu advogado, devia respeit-la.
        Desculpe-me., mas eu a amo.
        - Se me ama de verdade, ento poder esperar.
        - Voc est certa. E, depois, um envolvimento entre ns, neste momento, poder
complicar seu processo de desquite. Posso
        esperar. Quando voc estiver desquitada, estaremos livres para assumir nosso amor,
sem medos nem culpas.
        No se beijaram novamente, mas se abraaram com ternura e afeto. Ao lado deles,
Adriano, indignado, no entendia o que acontecia.
        Tinha certeza de que Fabrcio estava interessado em Clarinha.
        Como pudera se enganar? Mas... e Clarinha? Pensara que ela tambm estivesse
interessada nele, mas no era o que parecia.
        Onde estaria? Precisava encontr-la.
        Quando Adriano finalmente encontrou o centro esprita, a sesso j tinha comeado
havia algum tempo. Clarinha, sentada na
        assistncia, ao lado de Feliciano, permanecia de olhos bem abertos, atenta a tudo
que se passava. Antnio, o dirigente,
        falava sobre a importncia da famlia e dos laos de afeto.
        Vendo Clarinha sentada, Adriano aproximou-se. A medida que ia caminhando,
notou que havia, alm dos encarnados, vrios espritos
        que para ali haviam sido conduzidos para tratamento, ao lado de outros, que
pareciam seus mentores.
        Ele chegou perto de Clarinha e sentou-se a seu lado, e qual no foi seu espanto ao
olhar para a mesa e ver Ismael parado
        atrs de sua av. No entendeu nada.
        Procurou ver se havia mais algum conhecido e encontrou Cia, que sorriu para ele,
ao lado de uma moa muito branca e loura,
        olhos a-uis, tipo estrangeiro. Cia acenou para ele, e ele correspondeu. Estava
confuso. Quisera fugir deles, mas acabara
        encontrando-os ali, onde menos esperava. Bom, at que no era to estranho assim.
Afinal, ali era um centro esprita, no
        era?
        Terminada a sesso, Ismael se aproximou.
        - Ora, ora, se no  nosso querido Adriano quem est aqui! Que hom que veio.
        Adriano encarou-o desconfiado e retrucou:
        - O que voc faz aqui?
        - Eu? Trabalho aqui. Bem como Cia e os demais.
        - Aqui? Mas por qu? Que coincidncia!
        - Acha mesmo coincidncia? Isso  porque voc nunca se interessou pelos lbuns de
fotografias de sua av.
        - lbuns de fotografias? Que conversa  essa? Quem  voc? De onde conhece
minha av?
        Ismael chegou o rosto bem perto do dele e, com ar bondoso e jovial, declarou:
        - Fui casado com ela.
        Adriano deu um salto para trs, tapando a boca com a mo.
        - Como ? O que disse?
        - Disse que fui casado com ela. Portanto, sou seu av. - Mas como?
        - Desencarnei faz tempo, meu filho.
        - Eu sei... S que jamais esperava encontr-lo aqui. - Por qu?
        - Porque voc... voc... morreu...
        - Assim como voc. E voc tambm est aqui, no est? Logo, no estamos mortos.
Nem eu nem voc. Ou ser que ainda no aprendeu nada?
        Adriano no sabia o que dizer.  claro que fazia sentido. O av
        desencarnara muitos anos antes e voltara para ajudar a mulher. Assim como ele
voltara para ajudar Clarinha. No, no queria
        propriamente ajudar. Tambm no queria prejudicar. Queria apenas tomar conta
dela.
        Olhando ao redor, Adriano notou que as pessoas comeavam a se retirar. Disse para
Ismael
        - Olhe, gostei muito de encontrar voc. De verdade. E muito
        bom saber que no estou sozinho aqui.
        - Sou seu av e me interesso por voc. Por que no aproveita e me acompanha de
volta  colnia?
        - Acompanh-lo? No posso. Sinto muito, mas no posso. No quero.
        Vendo que Clarinha j se fora, Adriano deu as costas a ela.
        - Ele ainda no aceitou a perda da matria. Mas sua alma sabe, seu corao
reconhece isso. D-lhe uma chance e ele lhe mostrar a verdade.
        At parece...
        - Mas  verdade. Voc poderia at ter alterado seu destino, se quisesse.
        - Poderia? Ora, essa  boa. Se eu tivesse tido escolha, teria escolhido viver.
        - Mas voc no quis. Escolhas, ns sempre temos. A vida sempre nos d diversas
oportunidades, e ns optamos por aquela que
        entendemos ser a melhor. Com voc, no foi diferente. Se sua alma entendesse que
seria melhor, no para seu prazer ou sua
        satisfao material, mas para sua evoluo espiritual, teria mudado seu destino e o
acidente teria sido evitado. Mas acontece
        que no quis. Sua alma, embora voc no pudesse e no possa aceitar isso, quis
partir. Quis porque no encontrou outra soluo.
        No encontrou outro meio de evoluir, de aprender.
        - Cale essa boca! Cale a boca! No quero ouvir mais nada! V embora daqui,
Ismael, e no me procure mais! No quero sua
        ajuda e no preciso de voc.
        Ismael inspirou profundamente e, penalizado, acrescentou:
        - Adriano, todos temos nosso livre-arbtrio, e voc no  diferente. Por isso, se no
quiser mais me ver, respeitarei sua escolha... - timo. Agora v embora. J
        estou cheio de voc.
        - Est bem, irei. Se  o que quer...
        -  o que quero.
        - No entanto, se precisar de mim, se quiser ajuda, basta me chamar e eu virei em seu
auxlio.
        - Obrigado, mas no preciso de voc para nada.
        Ismael partiu entristecido. No adianta nada tentar ajudar a quem no quer ajuda. S
o que poderia fazer agora era esperar
        que Adriano despertasse, compreendesse e aceitasse o caminho que o levaria ao
amadurecimento.
        Fabrcio abriu a porta de seu apartamento depois de mais um dia exaustivo de
trabalho. Graas a Deus, possua muitos clientes,
        mas as sucessivas audincias, alm das peties iniciais, contestaes e demais
peas que precisava preparar para os processos
        lhe absorviam muito tempo, e ele quase no se distraa mais.
        Naquela noite, ao chegar em casa, j passava das nove horas, e os pais, havia muito,
j tinham terminado o jantar e estavam
        na sala assistindo a um filme na TV. Assim que ele entrou, cumprimentouos com ar
cansado:
        - Oi! Puxa, at que enfim chego em casa!
        - Onde esteve? - indagou Paulo, de m vontade.
        Fabrcio estranhou a pergunta e olhou para a me, que ficara to surpresa quanto ele.
Era a primeira vez que Paulo perguntava
        ao filho onde estivera. Alm de j ser adulto, Paulo nunca se interessara muito por
seus assuntos, limitando suas perguntas
        ao mecnico e costumeiro "tudo bem?"
        Acontece que, naquele dia, Paulo no estava sozinho. Adriano, colado a ele,
transmitia a seu corao uma nuvem cinza de
        dio, que Paulo absorvia com extrema facilidade. Encontrando na alma do pai a
revolta silenciosa por sua morte, Adriano
        pde trocar com ele todo o seu despeito, a sua inveja, o seu dio.
        Assim como Adriano, Paulo tambm se ressentia. Em seu ntimo, culpava Fabrcio
pela morte de Adriano e se perguntava por
        que Deus fora to injusto, ceifando a vida de seu filho legtimo, to jovem, to
inteligente, to promissor, e deixando
        em seu lugar aquele bastardo.
        Fabrcio, porm, desconhecia esses sentimentos. No que no sentisse a rejeio de
Paulo. No fundo, no fundo, sabia que
        o pai o culpava e que preferia que tivesse sido ele a vtima do acidente, em vez do
irmo, mas nem de longe imaginava que
        Paulo passara a alimentar por ele um dio indizvel e cada vez mais crescente.
        Procurando no dar muita importncia  pergunta do pai, Fabrcio respondeu
educada e rapidamente:
        - Estava trabalhando.
        - At esta hora?
        Fabrcio surpreendeu-se ainda mais. Contudo, fez que no estava ligando e
continuou:
        - E. Tinha muito trabalho. E agora, se me do licena, vou tomar um banho, jantar e
cair na cama. Estou exausto.
        - Deve estar mesmo-retrucou Paulo com ironia. -A vida dissoluta sempre foi
desgastante.
        Fabrcio levou um choque, e Flvia, indignada, levantou-se de um salto e exclamou:
        - Paulo! O que deu em voc? Isso  jeito de falar com seu filho? Paulo teve vontade
de gritar: "Ele no  meu filho! ",
        mas se conteve e falou com rancor:
        - Pensa que pode nos enganar, Fabrcio? Pensa que no sei com quem anda se
encontrando?
        Parado no umbral da porta, Fabrcio revidou com perplexidade: - Pai, no sei a que
est se referindo e, embora no lhe deva
        satisfaes, posso lhe afirmar que estava apenas trabalhando.
        - Duvido. Para mim, voc estava com aquela mulherzinha.
        - No conheo nenhuma "mulherzinha". Minhas clientes so
        todas pessoas honestas e dignas.
        - At parece! Ento no sei com que tipo de gente anda se metendo?
        - Pai, por favor, pare com isso. No sei por que est me provocando, mas no quero
brigar com voc.
        - Brigar? No, voc no vai brigar. Vai me respeitar!
        - Eu o respeito muito. Mas no vou tolerar essas insinuaes. E acho que voc
tambm me deve respeito.
        - Paulo - interveio Flvia. - No estou entendendo o porqu dessas insinuaes.
Fabrcio sempre foi um rapaz honesto e trabalhador.
        No devia falar com ele assim.
        - No digo o contrrio. Mas sei que anda se metendo com gente da pior espcie.
        Fabrcio j estava comeando a perder a pacincia. Por que o pai no colocava logo
para fora o que estava realmente pensando?
        - Oua, pai, j disse que no quero brigar com voc. Mas no vou admitir que me
desrespeite. Fala em respeito, mas parece
        haverse esquecido do que  isso. Sou um homem adulto e responsvel, e no preciso
que ningum faa observaes maldosas
        sobre as pessoas com quem me relaciono.
        Virou as costas e j ia saindo, mas ouviu novamente a voz do pai, que exprimia com
raiva:
        - Quer enxovalhar o nome de nossa famlia envolvendo-se com mulheres casadas?
        Ele estacou no meio do corredor, virou-se para Paulo e respondeu com aparente
calma:
        - No estou envolvido com mulher alguma e, mesmo que estivesse, no seria
problema seu.
        - A  que voc se engana! - esbravejou Paulo, indo a seu encontro. - Sou seu pai e
voc me deve satisfaes.
        - No lhe devo nada. Sou adulto, j disse...
        - Deve-me tudo que tem! Um bom nome, uma boa casa, uma profisso. Acha que
teria conseguido isso sem mim?
        - Pai, no quero parecer ingrato, mas, se nasci seu filho, foi porque voc escolheu ou
aceitou me receber e cuidar de mim.
        A responsabilidade era sua, como  a de todo pai. Voc fez o que todo bom pai deve
fazer por seus filhos, mas isso no lhe
        d o direito de se julgar dono de minha vida.
        Temendo o rumo que a conversa estava tomando, Flvia chegou para perto deles,
ps a mo no brao de Paulo e falou splice:
        - Paulo, por favor, chega dessa discusso. Isso no vai levar a nada.
        - Chega? - tornou Paulo, j quase fora de si. - Isso  que no. Esse menino est
ficando muito atrevido e precisa ouvir
        algumas verdades!
        - Queverdades? - retrucou Flvia, atnita.
        - E, pai, que verdades? Que voc me deu tudo? Que me cobriu de brinquedos caros,
roupas bonitas, me deu instruo? E verdade,
        reconheo. E agradeo. Mas no me sinto devedor de nada. Voc no
        fez mais do que deveria, assim como eu tambm farei por meu filho, sem lhe cobrar
nada depois.
        - Voc  um ingrato! Pensa que isso foi tudo que lhe dei?
        - Paulo, pelo amor de Deus! -Flvia estava apavorada, tentando encerrar aquela
discusso.
        - Deixe, me, deixe que exponha suas mgoas. Sei que nunca fui seu filho preferido,
que preferia que eu tivesse morrido
        em lugar de Adriano. Lamento, pai, mas a vida no quis assim. E no pense que eu
me sinto culpado por causa disso. Amava
        Adriano tanto quanto vocs e senti muito sua perda. Mas no pense que vou me
sentir culpado porque ele morreu e eu estou
        vivo, porque cada um tem aquilo que merece.
        - Cachorro! - vociferou Adriano, invisvel aos olhos dos demais.
        - Voc no sabe o que est dizendo - prosseguiu Paulo. - Adriano era meu filho!
        - E era meu irmo...
        - Irmo?
        - Paulo, cale-se! - cortou Flvia em desespero. -Chega, Paulo, por Deus! Encerre
essa discusso antes que se arrependa do
        que possa dizer!
        Paulo encarou o filho com raiva. No fosse pela mulher, terlhe-ia contado tudo ali
mesmo e acabado com aquela sua pose arrogante.
        Mas sabia que, se falasse, Flvia sofreria muito e acabaria se voltando contra ele.
        Foi nesse momento que a sintonia com Adriano foi rompida. O amor falou mais alto
do que a revolta, e o corao de Paulo
        foi sendo dominado pela ternura que sentia por Flvia, o que fez com que o dio do
filho fosse perdendo terreno no ntimo
        do pai. Ele fitou a mulher com amor e acrescentou:
        - No se preocupe, Flvia. No pretendo dizer nada de que possa me arrepender
depois.
        Ela suspirou aliviada, mas no se deu por vencida e comeou a chorar:
        - Oh, Deus, por que vocs no param com isso? So tudo que tenho. Ser que no
podem ao menos respeitar minha dor? Ser
        que no entendem que perdi um filho e que no quero perder o restante da famlia?
Por que meu marido e meu filho, meu nico
        filho, no
        podem mais se entender? Ou ser que no percebe, Paulo, que Fabrcio passou
agora a ser nosso nico filho?
        Paulo baixou os olhos, envergonhado, e no respondeu. Foi Fabrcio quem tornou a
iniciativa de dizer alguma coisa:
        - No chore, me. Sei que papai tambm deve estar sofrendo muito e, por isso, no
vou levar em considerao suas palavras.
        Tenho certeza de que ele no queria dizer nada do que disse, no , pai?
        Olhando-o meio sem jeito, Paulo respondeu:
        - No, claro que no.
        - Ento, d c um abrao.
        Paulo hesitou. O filho estava ali, parado diante dele, braos estendidos, esperando
que ele fosse a seu encontro. Mas ele
        no queria. No sentia nenhuma vontade de abraar aquele rapaz que criara como
filho mas que agora lhe parecia pior do que
        um estranho. Contudo, Flvia esperava que eles se reconciliassem. Pelo bem da
mulher, tinha de vencer a repulsa e abra-lo.
        Pouco  vontade, Paulo deu um passo em direo a Fabrcio e abraou-o, dando-lhe
um tapinha de leve nas costas. Aquele abrao
        causou-lhe imenso mal-estar, e ele teve de fechar os olhos para conseguir suport-
lo.
        Fabrcio, por sua vez, sensvel como era, captou-lhe a contrariedade. Podia sentir, de
uma maneira quase que palpvel, a
        rejeio do pai. Sabia que ele s o estava abraando por causa da me, mas ele
tambm levaria adiante aquela farsa. Ao menos
        por enquanto. Tambm amava muito a me e no queria faz-la sofrer mais do que
j estava sofrendo. Engoliu a vontade de
        sair correndo dali e recebeu o pai em seu abrao.
        Em seguida, Paulo se retirou. Sem dizer mais nada, tomou o rumo do quarto e
fechou a porta, enquanto Flvia olhava para
        o filho com profundo desgosto.
        - Ele no gosta de mim, no , me? - perguntou Fabrcio, quase sem perceber o que
dizia.
        Refreando as lgrimas, Flvia respondeu:
        - D-lhe tempo, meu filho. Ele est sentido. Mas vai passar.
        - Sei que ele sempre gostou mais de Adriano, mame, e no o culpo por isso.
Ningum pode ir contra seus sentimentos, e voc
        sabe disso to bem quanto eu. Adriano e papai sempre se afinaram mais, assim
como eu tenho mais afinidade com voc.
        - Meu filho, no  bem assim.
        E assim, sim, me. Mas isso no me entristece. Respeito os sentimentos dele. S que
isso no lhe d o direito de me tratar
        como se eu fosse um intruso. Sou to seu filho quanto Adriano.
        - Intruso? Mas o que  isso, Fabrcio?
        - E isso mesmo, me. Papai sempre me tratou como se eu fosse um estranho, um
intruso. Nunca me deu intimidade, nunca conversou
        comigo, sempre me excluindo de tudo. Por qu?
        Flvia engoliu em seco. Ele estava bem prximo da verdade, mas ela no podia
permitir que descobrisse nada. Era seu filho
        e o amava.
        - Voc est imaginando coisas. Seu pai sempre teve um jeito meio esquisito. E,
depois, voc mesmo disse que ele tinha mais
        afinidade com Adriano, o que no significa que no goste de voc. A sua maneira,
ele o ama, e muito.
        Fabrcio silenciou. No adiantava discutir com a me. Ela era me e jamais iria
admitir que o pai o rejeitara a vida inteira
        e que agora parecia at que passara a odi-lo.
        - Deixe isso para l - finalizou. - J passou. E agora, se no se importa, vou para
meu quarto. Estou cansado e quero dormir.
        Fabrcio beijou a me e foi para seu dormitrio. Tudo que queria era um bom banho
e cair na cama. Nem queria mais jantar.
        Aquela discusso lhe tirara a fome. Apanhou o roupo, entrou no banheiro e ligou o
chuveiro. Enquanto se despia, sentiu
        que algum o observava e olhou espantado para a porta. No havia ningum. Ou
fora impresso ou o esprito de Adriano se
        aproximara. Ele podia sentir.
        Adriano, corao carregado de dio, aproximou seu rosto do irmo e rosnou:
        -No acabou ainda, Fabrcio. Eu vou voltar.
        Flvia apagou a luz do quarto e deitou-se na cama, ao lado do marido, que fingia
dormir.
        - Paulo...
        - Hmm? O qu?
        - Est dormindo?
        Ele fez alguns segundos de silncio e respondeu: - No.
        - Por que fez aquilo?
        - Por que fiz o qu?
        - Voc sabe, aquela discusso com Fabrcio.
        Ele se recostou na cama e acendeu a luz do abajur.
        Ele est de caso com aquela Selena.
        No  verdade. Selena  apenas sua cliente.
        Vai querer enganar a mim, Flvia? Sou um homem vivido, sei das coisas.
        - Mas est enganado, Paulo. No h nada entre Fabrcio e Selena, posso lhe
assegurar. E, depois, ela  uma boa moa...
        - Mas  casada.
        - Est se desquitando.
        - Pior ainda. Mulher desquitada no presta. Se prestasse, no largaria o marido para
ficar por a, levando vida fcil.
        - Isso  uma injustia, Paulo. Selena  uma moa direita. No tem culpa se o marido
a maltrata.
        - No vamos comear com essa histria de novo E, depois, se quer mesmo saber,
acho que ela est exagerando, s para dar
        uma de coitadinha e conseguir o desquite.
        - As coisas no so como pensa, Paulo. E, se quer mesmo saber, acho que voc usou
Selena para poder justificar seu dio.
        A moa veio bem a calhar, no foi? Sua entrada na vida de Fabrcio foi providencial
e serviu bem a seus propsitos. Voc
        sempre poder agredi-lo sem assumir seu prprio dio, colocando Selena na frente
como desculpa.
        Paulo engoliu em seco e baixou os olhos, envergonhado.
        - Olhe, no sei o que me deu. Mas voc sabe como sempre me senti em relao a
Fabrcio.
        - Sei. Ainda assim, isso jamais havia acontecido. Voc quase falou mais do que
devia.
        - Eu no ia falar nada.
        - No sei, tenho minhas dvidas - Flvia pousou a cabea em seu ombro e, com
lgrimas nos olhos, implorou: - Por favor,
        querido, prometa-me que, acontea o que acontecer, nunca dir nada a Fabrcio.
        - Voc sabe que no falarei nada.
        - Ento prometa.
        - Para que isso? No acredita em mim?
        - Custa prometer?
        - Est bem. Se  to importante assim para voc, eu prometo. Prometo que jamais
falarei nada a Fabrcio sobre sisa verdadeira origem.
        Agradecida, Flvia pousou-lhe amoroso beijo nos lbios, aconchegou-se em seu
colo e acabou adormecendo, deixando Paulo entregue
        a seus prprios pensamentos. Ele lhe fizera uma promessa porque a amava, mas, em
seu ntimo, tinha medo de que no pudesse
        manter a palavra. No que pretendesse revelar a verdade, mas ele sabia que, num
momento de raiva, acabaria por contar tudo.
        E a, alm de haver perdido o filho amado num acidente, perderia tambm a mulher,
que o deixaria para seguir aquele a quem
        ela considerava seu filho.
        O dia da segunda audincia de Selena e Cassiano chegou, e ambos estavam
nervosos. Iriam prestar depoimento pessoal, e Cassiano,
        mais do que Selena, tinha muitos motivos para se preocupar. Iria mentir o tempo
todo, e a mentira era algo difcil de sustentar.
        Selena foi a primeira a ser interrogada. Cassiano foi convidado a esperar do lado de
fora. No podia ouvir o depoimento.
        Depois que ele saiu, o juiz Otvio tomou a palavra e comeou a dizer:
        - Muito bem, Dona Selena. A senhora moveu a ao de desquite litigioso porque seu
marido a maltrata. Isso  verdade?
        - Sim, senhor.
        -O que ele faz, exatamente?
        - Ele costuma me bater - disse, emocionada.
        - E a senhora j foi  polcia?
        - Apenas uma vez, orientada por meu advogado.
        Selena comeou a chorar. Estava muito nervosa, e Otvio se condoeu. Esperou at
que ela se acalmasse e perguntou tudo sobre
        aquele dia em que, segundo ela afirmava, Cassiano a espancara. Depois disso, quis
saber das fotos.
        - Foi tudo armao de meu marido - desabafou.
         Otvio ergueu uma sobrancelha e voltou a indagar:
         - Como assim?
         Ela lhe contou sobre suas suspeitas, e o juiz ficou estarrecido. Em seus muitos anos
de prtica, jamais havia visto algo
         semelhante. No entanto, tudo era possvel, e ela tambm podia estar inventando
aquela histria s para se justificar. Cabia
         a ele descobrir a verdade.
         Depois que ela terminou, o juiz pediu que se retirasse e fez com
         que Cassiano entrasse. Ele veio com ar debochado e riu quando a mulher passou por
ele- Sentou-se em seu lugar e esperou
         at que o juiz comeasse a lhe fazer as perguntas.
         - Sr. Cassiano - comeou Otvio -, sua mulher diz que o senhor bateu nela. O senhor
confirma essa histria?
         Absolutamente no. Jamais lhe encostei um dedo.
         - Mas ela afirma que vrias pessoas, inclusive na delegacia, viram-na com
hematomas.
         E verdade. Mas ningum pde provar nada.
         - O senhor est respondendo a um processo criminal? - Processo? Estou, creio que
sim.
         - Perdo, excelncia - interrompeu Aderbal. - Meu cliente  leigo e no entende de
procedimentos legais. Mas, se me permitir,
         gostaria de esclarecer.
         - Pois no, doutor.
         - O Sr. Cassiano no foi acusado de nada. A polcia abriu inqurito e ainda est
investigando o fato.
         - Entendo. Obrigado pelo esclarecimento, doutor. E agora, Sr. Cassiano,
continuemos. O senhor afirma que nunca bateu eu1
         sua mulher. No entanto, os ferimentos foram comprovados por mdico perito
oficial. No foi o senhor quem os provocou?
         Cassiano deu de ombros e respondeu:
         - De jeito nenhum. E no fao a menor idia de quem possa ter sido. Eu nunca
encostei um dedo em minha mulher. Se algum
         bateu nela, no fui eu. Quem sabe, seu amante?
         Fabrcio fuzilou-o com o olhar. Queria mat-lo, mas procurou se conter. Se perdesse
a calma, poderia comprometer todo o
         processo, e Selena acabaria prejudicada.
         - Obrigado pela sugesto, Sr. Cassiano, mas opinies pessoais
         so desnecessrias aqui. Limite-se a responder o que lhe pergunto. - Sim, senhor-
respondeu Cassiano, rubro de dio.
         - E quanto a seus filhos? Sua mulher o acusa de aterroriz-los. - Selena est
delirando. Jamais maltratei meus filhos. -Sei...
         E agora, Sr. Cassiano, vamos falar sobre a noite do
         suposto adultrio.
         - Suposto? As fotos comprovam tudo e dispensam maiores comentrios.
         Quem resolve isto aqui sou eu. Vi as fotos, mas quero saber do senhor.
         Novamente rubro, Cassiano sentiu ganas de xingar o juiz, mas no disse nada.
         - Quero que me diga, Sr. Cassiano, o que o levou a desconfiar de sua mulher?
        - Seu comportamento e o de meu irmo.
        - Que comportamento?
        - Ela andava estranha, fria. E meu irmo vivia a rond-la, lanando-lhe olhares
significativos. Fiquei desconfiado.
        - E como sabia que sua mulher estava, naquele exato momento, mantendo relaes
com seu irmo?
        - Fingi que ia sair, mas fiquei  espreita, escondido no final do corredor, esperando
que ele aparecesse.
        - E como teve a idia de fotograf-los?
        - Vi isso num filme e resolvi imitar.
        - Entendo... Quando entrou, o que, exatamente, sua mulher estava fazendo?
        Cassiano, novamente, baixou os olhos, fingindo-se envergonhado, e respondeu bem
baixinho:
        - Preferia no dizer.
        Pois estou mandando que diga.
        - Bem, doutor, no quero que pense que estou lhe faltando com o respeito.
        - No penso nada. Faltar cora o respeito  Justia recusandose a responder.
        Aps profundo suspiro, ele desabafou:
        - Ela estava nua, deitada sob o corpo tambm nu de meu irmo.
        - E qual foi sua reao quando os viu?
        - Fiquei chocado. Pensei que ia morrer.
        - E, ainda assim, teve foras para fotograf-los.
        - E verdade. S Deus sabe o que um homem ferido e humilhado  capaz de fazer.
        - Sei... E quanto a seu irmo? Cortou relaes com ele?
        - No. Anbal se mostrou muito arrependido. Disse que Selena vivia a seduzi-lo, at
que ele no agentou mais. Um dia, acabou
        perdendo a cabea.
        - Quer dizer, ento, que seu irmo confirmou que era amante de sua mulher?
        - Sim.
        - H quanto tempo?
        - H bastante tempo.
        Fabrcio estava enojado. Aquele Cassiano era um descarado. Quando ele terminou o
depoimento, o juiz perguntou s partes
        se gostariam de interrog-lo tambm, mas ningum se habilitou. O juiz era muito
experiente e no deixava escapar nada.
        Tudo terminado, Selena foi novamente introduzida no recinto para o encerramento
da audincia, e uma outra foi marcada, para
        dali a quinze dias.
        j na rua, Selena virou-se para Fabrcio e perguntou ansiosa: - Ento? Como me sa?
        - Muito bem. Tenho certeza de que o juiz est pendendo para nosso lado.
        - E as fotos? Qual foi a reao dele diante daquelas fotos?
        - Ele ficou em dvida e fez perguntas. Cassiano  um homem arrogante e atrevido, e
o juiz chegou a se irritar com ele em
        alguns momentos.
        Selena sorriu. De braos dados com Fabrcio, foi andando pela rua, sentindo em seu
peito que podia ter esperanas. A causa
        era difcil, mas ela foi acometida de uma confiana, uma certeza de que iria vencer,
e relaxou. Estavam no caminho correto,
        ela sabia. Deus existia e, na certa, no deixaria que Cassiano levasse a melhor.
        O telefone no escritrio de Fabrcio tocou insistentemente, e Oflia correu para
atender. Acabara de chegar do almoo, e
        Fabrcio ainda no voltara.
        - Al?
        - Al - repetiu uma voz do outro lado da linha. - Por favor, o Dr. Fabrcio est?
        - Ainda no voltou do almoo. Gostaria de deixar recado?
        - Diga a ele que  o Dr. Aderbal, advogado do Sr. Cassiano Flores. Poderia pedir a
ele que me telefonasse?
        - Pois no. Um momentinho que vou anotar o nmero. Enquanto Oflia procurava a
caneta no meio da papelada, a porta se abriu
        e Fabrcio entrou em companhia de um cliente antigo.
        - Ah! Dr. Fabrcio - falou ela, tapando o fone com a mo -, quem est ao telefone 
o Dr. Aderbal, advogado do Sr. Cassiano.
        Vai atend-lo?
        Fabrcio fez um ar surpreso e respondeu apressadamente:
        - Sim. Passe para meu escritrio.
        Pediu ao cliente que aguardasse na sala de espera e foi atender em sua sala. Fechou
a porta, sentou-se  sua mesa e retirou
        o fone do gancho.
        - Pode passar, Dona Oflia.
        Poucos segundos depois, a voz do outro advogado se fez ouvir:
        - Al? E o Dr. Fabrcio quem fala?
        - Ele mesmo. Em que posso lhe ser til?
        - Bem, doutor, estou ligando em nome de meu cliente, o Sr. Cassiano Flores, e
gostaria de saber se podemos marcar um encontro.
        - Um encontro? Para qu?
        - Meu cliente est disposto a tentar um acordo.
        Aquilo surpreendeu Fabrcio sobremaneira. jamais poderia esperar que Cassiano
fosse lhe propor um acordo. Embora desconfiado,
        aquiesceu:
        - Estou  sua disposio. Onde gostaria que nos encontrssemos?
        No exato instante em que perguntou, uma voz interior lhe dizia que o melhor lugar
seria em seu prprio escritrio, pois
        Cassiano poderia estar aprontando alguma.
        - Estive pensando. H um restaurante aqui na Lapa...
        Seguindo a voz da intuio, ou melhor de Helga, que sempre o alertava dos perigos,
Fabrcio cortou a palavra de Aderbal
        e decretou:
        - Em meu escritrio. Segunda-feira, s dez horas em ponto. No faltem.
        Nem deu tempo de Aderbal contestar. Desligou o telefone e ficou pensando. Aquele
Cassiano devia estar aprontando alguma.
        Mas o que poderia ser? Ser que pensava em fazer-lhe algum mal? No acreditava.
No que ele no fosse capaz. No tinha era
        coragem. Contudo, algo lhe dizia que devia tomar alguma providncia. Fosse o que
fosse, o melhor que tinha a fazer era
        se resguardar.
        Foi quando uma idia lhe ocorreu. E se Cassiano fosse ali para lhe fazer algum tipo
de ameaa? Aquilo, com certeza, seria
        uma tima prova contra ele. Contudo, como faria para provar? Dona Oflia poderia
ouvir e servir de testemunha, mas o Dr.
        Aderbal trataria
        logo de arranjar-lhe uma contradita, e seu depoimento seria ouvido, no mximo,
como de mero informante. Precisava de uma
        prova mais robusta. Mas o qu? Uma gravao. A melhor coisa seria uma gravao.
Isso mesmo. Daria um jeito de gravar toda
        a conversa. Se Cassiano fosse ali para lhe fazer alguma ameaa, estaria colocando a
corda em seu prprio pescoo.
        Estavam na quinta-feira. Teria ainda bastante tempo para arranjar tudo. Precisava
comprar um gravador, instal-lo em local
        seguro, fazer um teste. Tudo tinha de estar funcionando perfeitamente, para que no
houvesse nenhuma surpresa na hora.
        Atendeu ao cliente que chegara com ele e foi para o frum. Tinha duas audincias s
quais no poderia faltar. Depois que
        terminou, apanhou o carro e tomou a direo da casa da av. Quando chegou, foi
recebido com o entusiasmo e a alegria de
        sempre. Sentou-se no sof, brincou com as crianas e contou tudo que tinha
acontecido, deixando Selena deveras preocupada.
        E se Cassiano estivesse aprontando alguma armadilha?
        - No tenha medo, Selena. Ele no poder fazer nada contra mim em meu escritrio.
        - Terei de estar presente?
        - No ser necessrio. Eu mesmo cuidarei de tudo.
        - E o que pretende fazer se ele o ameaar?- perguntou Ins interessada. - Ir 
polcia?
        - A  que est. Pensei em gravar toda a conversa. S assim poderemos provar sua
ameaa.
        - Boa idia! - elogiou Selena.
        - Quero deixar tudo pronto com antecedncia. Amanh mesmo comprarei o
gravador e arranjarei um lugar para instal-lo. Na
        segunda-feira, tratarei de chegar bem cedinho. Precisarei de tempo para testar tudo.
No quero surpresas na hora da entrevista.
        Depois de tudo acertado, Fabrcio voltou para casa mais confiante. Achava que
Cassiano iria tentar alguma coisa, e aquela
        gravao seria de suma importncia para o processo.
        No dia seguinte, logo pela manh, foi comprar o gravador. Escolheu um modelo
moderno, dos mais caros e de maior alcance,
        mas pequeno o suficiente para ser escondido. Comprou fitas, fios, tomadas, e foi
para o escritrio. Queria montar tudo pessoalmente.
        Oflia, como sempre, j estava sentada  sua mesa e o cumprimentou com a usual
cordialidade:
        - Bom dia, Dr. Fabrcio. Atrasou-se um pouco hoje.
        - Bom dia, Dona Oflia. Tive de resolver alguns assuntos. Como
        esto meus compromissos hoje?
        - Hmm... deixe-me ver-respondeu ela, consultando a agen
        da sobre a mesa. - O senhor teria uma audincia s duas horas, mas
        foi desmarcada. Ligaram do escritrio do advogado da outra parte, avisando que o
cliente dele foi hospitalizado.
        - Coitado. Algo grave?
        - No. Parece que passou mal e teve de fazer uns exames. - Ainda bem. E  s isso?
        - No. Tem hora marcada com dois clientes novos, um s dez
        e outro s onze.
        Consultou o relgio. Faltavam apenas dez minutos para as dez.
        Atenderia aos clientes primeiro e depois teria todo o tempo livre para
        preparar tudo.
        Quando, finalmente, o ltimo cliente se foi, j passava do
        meio-dia, e Fabrcio saiu com Oflia para almoar. No restauran
        te, contou-lhe o que pretendia fazer, e ela deixou escapar um sorriso maroto.
        - Nossa! Parece at coisa de filme de detetive. - Quase isso, Dona Oflia.
        Terminaram a refeio e voltaram para o escritrio. Oflia aju
        dou-o a aprontar tudo.
        - Onde vamos coloc-lo? Tem de ser em um lugar que no d
        na vista e que no seja distante, ou no conseguir gravar direito. - Hmm... deixe-me
ver... Que tal embaixo de sua mesa?
        - Embaixo da mesa? Eles podem ver. - E claro que no. A mesa  fechada deste
lado.
        Oflia apontou para o outro lado da mesa, onde uma grossa pla
        ca de madeira cobria o fundo, e Fabrcio sorriu satisfeito.
        - Isso mesmo! O som no vai ficar abafado, e ningum vai ver
        nada.
        Depositou o gravador no cho, encostando-o bem no fundo da
        mesa, longe de seus ps. Apanhou o fio e fez uma extenso. Seria preciso passara
fiao por debaixo do tapete at a tomada, para que no
        ficasse visvel. Tudo terminado, olharam para a sala. Havia ficado muito bom, e
ningum perceberia nada.
        - Agora vamos ver se funciona. Sente-se aqui, Dona Oflia. Ela obedeceu, e
Fabrcio ligou o gravador. - Agora, diga alguma
        coisa.
        - Est certo. Meu nome  Oflia, e o seu?
        - O meu? E Fabrcio. Estamos testando voc, gravador. Veja l se no vai nos deixar
na mo.
        - No vou, no - respondeu Oflia, entrando na brincadeira. - Juntos, vamos apanhar
aquele Cassiano. Ele vai ver. Vai se
        dar mal.
        - E o que espero. Conto com voc, gravador, com sua eficincia. - No se preocupe,
Dr. Fabrcio. No vou decepcion-lo.
        Riram alto, e Fabrcio desligou o aparelho. Em seguida, voltou
        a fita e colocou-a para tocar. A voz de Oflia se elevou clara e nitidamente
        - Est certo. Meu nome  Oflia...
        Ouviram toda a gravao, e Fabrcio desligou o gravador, satisfeito.
        - Dona Oflia, vai dar tudo certo. Se Cassiano estiver aprontando alguma, est
perdido. Ficar em nossas mos.
        No fim da tarde, depois de preparar algumas peties, Fabrcio saiu do escritrio e
dirigiu-se  casa da av. Sentia muita
        saudade de Selena. Sabia que estava apaixonado e que ela correspondia e, apesar de
no poderem ainda assumir seu amor, no
        podia deixar de pensar nela.
        Como ainda era cedo, pensou em fazer-lhe uma surpresa. Foi caminhando pelas ruas
do centro da cidade, olhando as lojas,
        e resolveu fazer umas compras. Comprou uma boneca para Selma, um chocalho de
ursinho para Carlinhos e um vestido para Selena,
        alm de algumas flores para sua av. Tencionava levar Selena para jantar e queria
que ela estivesse linda.
        Na casa da av, a alegria de Selma ao ver a boneca nova foi contagiante. At mesmo
Carlinhos, que comeara a andar fazia
        alguns dias, ficou todo contente com seu chocalho novo. Vendo a alegria dos filhos,
Selena falou emocionada:
        - Nem sei como lhe agradecer, Fabrcio. Fazia tempo que no ganhavam nenhum
brinquedo. Nossa situao  difcil, voc sabe.
        - No precisa agradecer, Selena. Sinto prazer em faz-la feliz. E, depois, gosto de
seus filhos.
        Ins veio l de dentro. Tinha ido colocar as flores na gua e voltou seguida por
Bibiana, que trazia uma bandeja cheia de
        copos de refresco. Todos se serviram, e Fabrcio, em seguida, meio acanhado,
estendeu para Selena o ltimo embrulho que
        trouxera. Ela o apanhou sem jeito, desatou o lao que o prendia e exps o vestido.
        - Fabrcio! - exclamou embasbacada. - Que riqueza!
        Era um vestido de noite, azul-escuro, de um tecido brilhante e com debruns pretos
cintilantes.
        - Gostaria de convid-la para jantar comigo hoje.
        - Jantar? No sei se posso.
        -  claro que voc pode - incentivou Ins. - Pode e deve.
        - Mas as crianas...
        - Pode deixar que Bibiana e eu tomamos conta delas. E agora suba. V se vestir.
        Selena apanhou o vestido e, com os olhos midos, beijou a face de Ins, correndo
para o quarto. Voltou cerca de meia hora
        depois. O vestido parecia feito para ela, e Fabrcio ficou admirado.
        - Mame t bonita-falou Selma, que nunca havia visto a me vestida daquele jeito.
        - Est mesmo uma beleza, no est? - concordou Ins. - Mas pode ficar melhor.
        Saiu e voltou pouco depois, com uma caixa de sapatos na mo. Dentro, um sapato
de salto, de verniz preto, novinho em folha.
        - Que lindo, Dona Ins.
        - Comprei-o para a formatura de Adriano. - Deixou escapar um suspiro e continuou:
-Mas agora  seu.
        - No posso aceitar.
        - Deixe de bobagem! Ento ainda no aprendeu que merecemos tudo aquilo que
recebemos? Se estou lhe dando meu sapato, primeiro
         porque posso e quero. Segundo, porque voc merece.
        - Mas, Dona Ins,  novinho!
        - E da? Deixe de orgulho e aceite. Saber receber  to importante quanto saber dar.
        Sem ter como recusar, Selena apanhou o sapato e experimentou. Era um nmero
maior do que o seu, mas Ins deu um jeito,
        colocando nele uma palmilha.
        - Ficou uma beleza! - tornou Fabrcio, cada vez mais apaixonado.
        - Sim, uma beleza - aquiesceu Ins. - E agora vo. J est ficando tarde.
        Selena apanhou os filhos no colo, beijou-os carinhosamente, fez-lhes milhes de
afagos e falou com doura:
        - Mame vai sair, mas no demora. Vocs vo ficar com vov Ins s um
pouquinho, est bem?
        Selma e Carlinhos fizeram carinha de choro quando ela saiu, e
        Selena quase desistiu de ir, mas Ins a tranqilizou:
        - V, minha filha, no se preocupe. Criana pequena  assim
        mesmo: no quer desgrudar da me. Mas eu vou distra-las. Pode ir tranqila.
        Parada na porta da frente, Selena esperou at que as crianas
        voltassem sua ateno para as brincadeiras que Ins comeou a fazer e s ento saiu.
        - Sua av  maravilhosa - falou para Fabrcio.
        -  sim. Gosto muito dela. Apanharam o carro e partiram.
        Enquanto ia dirigindo, Fabrcio olhava-a pelo canto do olho. Ela era linda e meiga, e
ele estava certo de que estava cada
        vez mais apaixonado.
        Fabrcio levou-a para jantar num restaurante fino, freqentado pela mais alta
sociedade carioca.
        - H muito tempo no venho aqui - comentou Selena. - Conhece este lugar?
        - Sim. Vim algumas vezes antes de casar. Mas depois minha vida mudou, e tudo
ficou difcil.
        - Entendo. Mas no pense nisso agora. Pense apenas em se divertir.
        Passaram uma noite agradvel. Jantaram, conversaram, riram.
        Em momento algum, Fabrcio tentou algo com ela. Nenhum beijo ou abrao, nem
palavras de amor. No queria que ela se sentisse
        constrangida ou pressionada. Apenas se deixaram envolver pela suavi
        dade do momento e pela presena um do outro. E foi maravilhoso. Para os dois.
        No sbado pela manh, Clarinha acordou indisposta.
        Dormira mal, sonhara com Adriano a noite inteira. No sonho, ele
        lhe cobrava algo que ela no sabia o que era. Dizia que fora rouba
        do, algo assim, mas ela no se lembrava direito.
        Levantou-se da cama, vestiu o biquni e foi tomar caf. Um ba
        nho de mar seria excelente para recobrar suas energias. A me e o
        pai j estavam  mesa e a cumprimentaram quando ela chegou:
        - Bom dia, Clarinha. Sente-se e venha tomar caf. Clarinha sentou-se, mas no
conseguiu engolir nada. - O que h com voc?
        - indagou a me. - No sei, no me sinto bem. Estou enjoada. A me e o pai
trocaram olhares significativos.
       - Enjoada?-repetiu o pai. - Por qu? Comeu alguma coisa que
       lhe fez mal?
       -No sei. Mas no passei bem  noite. Tive pesadelos e meu
       estmago revirou.
       O pai olhou para ela com desconfiana e disparou:
       - Veja l o que andou fazendo, hein, menina. Com essa sua ma
       nia de independncia, no v nos envergonhar.
       Clarinha levantou-se da mesa abismada.
       - O que esto pensando? O que quis dizer, papai?
       - Nada - respondeu a me, tentando disfarar. - Seu pai no
       quis dizer nada.
       - Pois no foi o que pareceu. Est insinuando alguma coisa? - No estou insinuando
nada. Apenas espero que voc saiba
       se cuidar.
       - Sei cuidar de mim muito bem.
       - Melhor assim. Voc pode andar com essa mania de mulher independente, mas
ainda  uma moa e deve se preservar. Cuidado
       para no cair na lbia de qualquer um.
       - Pai, no estou entendendo aonde quer chegar. Por acaso pensa que estou grvida,
?
       A me engasgou com o caf e tossiu, e o pai, envergonhado, considerou:
       - E est?
       - No, no estou.
       - Espero que continue assim.
       - Bernardo! - censurou Elisete. - Clarinha no  desse tipo. - Que tipo, me?
       - Ora, voc sabe o que eu quis dizer.
       - Espero que no seja mesmo - interrompeu o pai. - Seno, vai se arrepender.
       - Papai, pare de me ameaar por uma coisa que nem fiz! Vocs sempre confiaram
em mim. Posso saber por que desconfiam agora?
       Bernardo pigarreou, pousou a torrada no prato e respondeu:
       - Voc anda se encontrando muito com Selena. E ela no  boa influncia.
       - Eu sabia! Tinham de envolver Selena nisso. O que ser que ela fez de to errado
assim, hein, pai?
       - Voc sabe.
       - No, no sei. Ao contrrio, acho que ela no fez nada de errado.
       - Ela foi vista ontem num restaurante, em companhia de Fabrcio.
       - E? E da?
       - E da que eles devem estar... estar... - Estar o qu, pai?
       - No me diga que voc o deixou para sua prima! - objetou a me.
       - Deixei quem, me?
       - Fabrcio.
       -No a quero envolvida com Fabrcio tambm. Ele pode ser homem, mas devia se
preocupar mais com o nome da famlia. Aposto
       como o pai dele no est nada satisfeito com esse caso.
       - Que caso?
       - Ora, minha filha, duvido que ele e Selena no sejam
       amantes.
       - Papai, como pode dizer uma coisa dessas? Selena  uma moa
       direita.
       - Bem se v. Enfim, no temos nada com isso. Mas voc  mi
       nha filha, e no fica bem ser vista em companhia deles.
       - Mas, Bernardo - ponderou Elisete -, Fabrcio  um timo
       partido. Pensava que Clarinha e ele pudessem se entender.
       - Mame, quantas vezes preciso lhe falar que no estou interessada em Fabrcio? Eu
amava Adriano.
       - Adriano morreu. E voc tem de pensar em seu futuro.
       - Sua me est certa. Contudo, no creio que Fabrcio seja o ra
       paz mais indicado para voc.
       - Por que no, Bernardo? E rico, tem um futuro brilhante. - Porque est envolvido
com sua sobrinha, por isso!
       -Ora, mas Selena deve ser apenas um casinho. Sabe como ,
       os rapazes adoram certas facilidades. E, depois, com nossa Clarinha
       ele no vai conseguir nada disso...
       - Vocs querem parar com isso, os dois?-cortou Clarinha, in
       dignada. - Discutem sobre minha vida como se ela fosse de vocs.
       E voc, me? No se envergonha de falar de sua sobrinha assim, desse jeito?
       Elisete deu de ombros e retrucou:
       -No a considero mais minha sobrinha. Desde que se casou
       com Cassiano, a famlia toda lhe voltou as costas.
       - Mas eu no! Selena  minha prima e minha amiga, e preten
       do ajud-la no que for preciso.
       - Chega, Clarinha! - esbravejou o pai. -No quero voc metida com Selena.
       - Voc no tem o direito.
       - Tenho, sim. Voc  minha filha e me deve obedincia.
       - No lhe devo, no. Sou maior e vacinada, e voc no man
       da mais em mim.
       - Estou lhe avisando!
       - Por que tanto preconceito, pai? O que Selena lhes fez?
       - No nos fez nada. Fez a toda a sociedade. E muito feio uma mulher largada do
marido.
       - Feio  o preconceito. As pessoas so todas iguais, independentemente de suas
escolhas.
       - Chega, Clarinha, eu a probo!
       - Voc no me probe de nada! E quer saber? J estou cheia dessa conversa idiota.
       Ela se levantou bruscamente, atirou o guardanapo sobre a mesa com fora e saiu
batendo p.
       - Aonde vai? - quis saber a me.
       - No interessa.
       Furiosa, rodou nos calcanhares, apanhou a bolsa e saiu batendo a porta, ainda a
tempo de ouvir as ltimas palavras do pai:
       - Essa menina no nos respeita mais...
       Clarinha entrou no elevador desanimada. Por que as pessoas eram to
preconceituosas? Ela sabia que Fabrcio encontrava o
        mesmo problema com o pai. Mas, se at os pais da prpria Selena a discriminavam,
o que dizer dos outros? Aquela era a sociedade
        em que viviam. Uma sociedade hipcrita, mesquinha, cruel. Todo mundo fazia de
tudo, mas ningum tinha coragem de assumir
        nada, e logo apontavam o dedo para o primeiro que fugia a suas regras, como se
pudessem descontar nos outros todos os seus
        erros e frustraes.
        Parada na beira da calada, Clarinha esperava para atravessar. O dia estava muito
ensolarado e quente, mesmo quela hora
        da manh, e ela comeou a sentir-se mal. O estmago voltou a doer, e ela sentiu
uma forte tonteira. Levou a mo  testa,
        sentindo o suor escorrer, e pensou que iria desmaiar.
        Recobrando nimo, sacudiu a cabea e ps o primeiro p na rua, em seguida o
outro, e comeou a atravessar lentamente. J
        estava no meio da rua quando a tonteira aumentou e ela, de repente, viu tudo rodar 
sua volta e sentiu uma fraqueza incontrolvel.
        Suas pernas comearam a se dobrar e o corpo amoleceu. Em segundos, estava no
cho e nem escutou o rudo de pneus atritando
        no asfalto, e um carro que vinha a toda, freando bruscamente, quase a atropelou.
        Foi uma correria danada. Clarinha, desmaiada no cho quente, parecia morta, plida
feito cera. O porteiro, vendo a confuso,
        aproximou-se e, reconhecendo Clarinha, correu a chamar seus pais, que vieram
esbaforidos. O pai ergueu-a no colo e correu
        com ela para o carro, deitando-a no banco de trs. Elisete sentou-se a seu lado, e ele
deu partida, rumo ao hospital.
        Enquanto isso, parado no meio da rua, alheio aos carros que passavam, Adriano
olhava perplexo. No entendia o que havia
        acontecido. Chegara perto de Clarinha, tentara conversar com ela enquanto dormia.
Mas, quando ela acordara, sentira-se frustrado
        ao perceber que ela havia esquecido praticamente tudo. Por qu? Aquilo o deixara
furioso.
        Depois, quando ela comeou a defender Selena e Fabrcio, quase enlouqueceu.
Aproximou-se dela novamente para lhe pedir que
        parasse, mas ela no o ouvia. Colara-se a ela, seguindo-a at a rua.
        To intensa era sua proximidade que ele lhe sugava as energias sem saber, e
Clarinha, no conseguindo assimilar sua presena,
        sentiu-se invadida por uma fora estranha, e seu estmago logo reagiu, revirando e
causando-lhe dores e enjos. E foi ento
        que desmaiou. A tontura que as investidas de Adriano lhe causavam fez com que ela
perdesse grande parte de suas energias,
        e ela, no podendo suportar, como que brevemente fugiu da realidade e desmaiou.
        Aquilo assustou Adriano sobremaneira. Ser que ela estava doente? Em sua
ignorncia espiritual, nem sequer desconfiava de
        que era ele a causa do mal-estar da moa, julgando que ela estivesse com alguma
doena at ento desconhecida.
        Clarinha estava sendo atendida na emergncia.
        - O que foi, doutor? - perguntou Bernardo.
         - Ainda no sabemos. Vamos fazer alguns exames.
         Colheram sangue e deram-lhe remdio, e Clarinha comeou a
         melhorar. Vendo a me parada a seu lado, perguntou o que havia
         acontecido e ficou surpresa ao saber que havia desmaiado. Fora a pri
         meira vez em toda a sua vida.
         - Sente-se melhor? - perguntou o mdico. - Sim.
         - timo. Descanse mais alguns minutos e poder ir. O mdico saiu com Bernardo
atrs. - Doutor, espere! O que ela tem? -
         A princpio, nada.
         - Nada?
         - Pois . No constatei nada de anormal. Entretanto, qualquer
         diagnstico definitivo, nesse momento, me parece precipitado. S poderei falar
depois de ver o resultado do exame de sangue. Contudo, aconselho-o a lev-la a um
         bom clnico geral. - Ser
         que ela pode estar grvida?
         - Grvida? No, no est, se  isso o que o preocupa. Bernardo suspirou aliviado.
Apertou a mo do mdico e finalizou:
         - Graas a Deus, doutor. Fico mais tranqilo.
         O mdico se foi e Bernardo voltou mais animado para junto da mulher e da filha.
Ao menos, Clarinha no estava grvida, o
         que seria uma vergonha. Entrou no pequeno boxe da enfermaria da emergncia,
recebeu e assinou alguns papis que a enfermeira
         lhe estendia e foi embora com Clarinha e Elisete.
         Quando Fabrcio entrou em casa naquela noite, Paulo
         ainda estava acordado, esperando por ele. Assim que fechou a por
         ta, assustou-se com o pai sentado na sala,  meia-luz, vestido com um
         robe azul-marinho que se confundia com o tecido escuro do sof. Fa
         brcio teve um sobressalto e exclamou:
         - Pai! Que susto me deu. O que faz a, sentado no escuro? Paulo levantou-se e
acendeu a luz, encarando o filho com ar de
         reprovao.
         - Onde esteve? - perguntou mal-humorado.
         Fabrcio aproximou-se dele, j sentindo a raiva do pai pela en
         tonao de sua voz.
         - Estive por a - respondeu secamente. - Com quem?
         Tentando controlar a contrariedade, Fabrcio virou-lhe as costas
         e foi seguindo em direo ao corredor, ao mesmo tempo em que dizia: - J sou
grandinho, papai. No lhe devo satisfaes.
         Vendo-o se afastar, Paulo correu para ele e puxou-o pelo ombro,
         virando-o bruscamente.
         - Ah, deve, sim! Enquanto viver nesta casa, deve-me todas as
         satisfaes que eu lhe pedir.
         - Se o caso  esse, posso mudar-me amanh mesmo. Paulo o soltou bruscamente e
arrematou com azedume: - Tudo por causa daquela
         mulherzinha, no  mesmo?
         - Que mulherzinha? J disse que no conheo nenhuma mu
         lherzinha.
        Ouvindo as vozes do marido e do filho, Flvia despertou e
        abriu a porta do quarto. Paulo e Fabrcio estavam parados no corredor, discutindo.
        - Mas o que est acontecendo aqui? Discutindo de novo? -Nada, me.
        - Est tudo bem, querida - tranqilizou Paulo. - Volte a dormir.
        Fabrcio, aproveitando a presena da me, deu boa-noite e en
        trou em seu quarto, trancando a porta em seguida. - Venha dormir, Paulo - chamou a
mulher. - No estou com sono.
        - Mas venha para o quarto. No tem por que ficar parado a. - Vou ver televiso.
        - Mas que televiso? J so duas horas da manh, e a TV est fora do ar. Venha
dormir, vamos.
        Sem sada, Paulo entrou em seu quarto, completamente contrariado, tirou o robe e
deitou-se na cama. Flvia deitou-se a seu
        lado e, rosto virado para ele, tentou argumentar:
        - Paulo, querido, o que est acontecendo conosco? Por que no podemos mais ser
uma famlia feliz?
        Ele a encarou com profundo pesar e contestou com mgoa: - Como posso ser feliz
se perdi meu nico filho? - Isso no  verdade.
        Ns temos Fabrcio. - Fabrcio no ...
        - Psiu! - fez ela, tapando a boca do marido com os dedos. - No diga isso. Pelo amor
de Deus, nunca mais pense em dizer
        uma coisa dessas. Voc prometeu.
        Envergonhado, Paulo retrucou:
        - Sinto muito. Sei que prometi nunca dizer nada. Mas no posso evitar. Voc sabe
que Fabrcio e eu nunca nos demos muito
        bem. - Voc sempre o discriminou.
        - No  verdade...
        - E, sim. Desde pequenos, sua preferncia por Adriano sempre foi muito clara.
        - Mas Adriano era nosso filho.
        - Assim como Fabrcio tambm .
        - No quero magoa-la, querida, mas sabe que os dois eram muito diferentes.
        - No vejo diferena alguma alm dos traos fsicos.
        - Por favor, Flvia, tente entender. Durante todos estes anos, venho me esforando
para gostar de Fabrcio tanto quanto
        gostava de Adriano. Mas no consegui. Ele sempre me pareceu um estranho. E,
agora que meu menino morreu, vejo-o como um
        usurpador.
        - Paulo, que horror! Como pode dizer uma coisa dessas? Fabrcio nem sequer
desconfia de sua origem. Pensa que  nosso filho
        legtimo. Jamais ser um usurpador.
        - Ainda assim. Sabe, Flvia, h coisas que no podemos explicar. Sentimento  uma
delas. Por que s vezes nos sentimos atrados
        por determinadas pessoas e antipatizamos com outras? No acha isso estranho?
        - ,  estranho, mas sei que acontece. Contudo, quando o alvo so nossos prprios
filhos, devemos fazer de tudo para nos
        modificarmos.
        - Modificar j  difcil. Modificar sentimentos, ento,  praticamente impossvel.
        - Mas, Paulo, voc tem de tentar.
        Paulo acariciou os cabelos da mulher e deitou a cabea sobre seu colo, falando com
ternura:
        - Flvia, sinto muito. Amo voc e no quero mago-la. No entanto, no consigo
amar Fabrcio. No consigo! Pensa que isso
        tambm no  difcil para mim? Pensa que no gostaria de am-lo? Se o amasse,
talvez agora no sentisse tanto a falta de
        Adriano. Mas o que acontece, e sei que o que vou dizer  horrvel,  que preferia
que fosse Fabrcio que tivesse morrido
        naquele acidente, no Adriano.
        Calou-se, a voz embargada. S Deus sabia quanto de esforo estava fazendo para
poder assumir aquele sentimento, at para
        si mesmo. Durante muitos anos tentara se justificar, dando sempre a desculpa da
afinidade. Adriano era mais parecido com
        ele, no s fisicamente, mas em temperamento. Por isso sua preferncia. Contudo,
no fundo, no fundo, sabia que essa no
        era bem a verdade. Amava Adriano e no gostava de Fabrcio. E nem era porque um
era legtimo e o outro, adotado. Simplesmente
        no conseguia amar Fabrcio. S isso.
        Mas Flvia no entendia. Amara os dois filhos em igual intensidade, embora se
afinasse mais com Fabrcio. Retrucou chocada:
        - Paulo! No devia dizer uma coisa dessas. Adriano morreu porque chegou a vez
dele.  duro, eu sei, e muito mais para mim do que
        para voc. Sou me, fui eu que o criei, que lhe dei amor, que lhe dei o seio para se
alimentar. Voc no sabe o que  isso.
        - Compreendo, Flvia. Sei que voc deve estar sofrendo muito tambm. Mas tem
Fabrcio...
        - Voc tambm tem. Ele  to seu filho quanto meu.
        - No, Flvia. Ele  seu filho. Voc o recebeu nos braos, voc quis adot-lo. Eu
simplesmente me resignei  sua vontade.
        - Quer me culpar por ter adotado o menino?
        - No  isso. Eu tambm concordei. Mas achava que no conseguiramos ter outros
filhos. E, depois, voc ficou to feliz...
        - Pois ento? Por que voc tambm no consegue ser feliz? Por que no tenta? Por
que no olha para Fabrcio como seu filho?
        O problema  que voc nunca conseguiu v-lo como filho, mas somente como um
estranho.
        - Ele no tem meu sangue.
        - E da? Desde quando os laos de amor esto presos aos laos de sangue? Voc
sabe que isso  bobagem.
        - No sei. O fato de que Adriano era meu filho legtimo criou um elo muito mais
profundo com ele. Esse elo no consigo ter
        com Fabrcio.
        - Pois, se no fosse Fabrcio, agora no teramos mais nenhum filho para atear.
        - Se no fosse Fabrcio, Adriano no teria sado correndo na
        quela chuva, subindo o Alto da Boa Vista feito um louco.
        - No diga isso, Paulo, no  justo. Voc quer culpar Fabrcio
        pela morte de Adriano. Mas ele no  culpado. Ningum . Adriano morreu porque
escolheu assim. Era chegada a hora dele. Paulo inspirou profundamente e tornou:
        - Acredita mesmo nisso?
        - Acredito.
        - Acredita que o esprito de Adriano esteja vivo em algum lugar?
        - Tenho certeza.
        - E ele j se comunicou com voc?
        - Ainda no.
        - Por qu?
        - No sei. Talvez porque ainda no tenha chegado a hora.
        - Oua, Flvia, sei que deve ser um conforto para voc acreditar nisso, mas no
consigo. Se Adriano estivesse vivo em esprito, 
        claro que j teria tentado entrar em contato conosco. Mas nunca o
        fez. Sabe por qu? Porque espritos no existem.
        - Tudo bem, Paulo,  seu direito pensar assim. Mas por que no
        vai comigo um dia ao centro de mame? Talvez se surpreenda.
        - Por qu? Vou me comunicar com meu filho? Se for, irei amanh mesmo.
        - No posso lhe garantir isso. Eu mesma espero uma comuni
        cao h tempos mas, at agora, no obtive resultado.
        - Est vendo? Isso tudo  bobagem, Flvia. Sua me fica influen
        ciando sua cabea com essas tolices.
        - No vou discutir com voc porque sei que no adianta. Mas
        pense bem no que lhe falei.
        - No, no posso me iludir e viver me preocupando com iluses. Preocupa-me o
aqui e agora. Preocupa-me o fato de, a cada dia,
        gostar menos de Fabrcio. E, para completar, ele foi se envolver com
        aquela Selena. Aposto que esteve com ela at agora.
        - No comece a colocar Selena, novamente, como justificati
        va para sua revolta.
        - No  nada disso. E no adianta brigar. Voc j conhece mi
        nha opinio.
        - Sim. E lamento muito por ela.
        - Por favor, Flvia, no vamos mais discutir.
        - No estou discutindo. Mas tambm me preocupo. Quero
        que voc e Fabrcio se entendam. Quer voc queira, quer no, so
        pai e filho.
        - Ele quer sair de casa.
        - Quer? - repetiu ela, espantada. - Sim.
        - Por qu? O que voc lhe disse?
        - Que, enquanto viver sob meu teto, ele me deve explicaes. - Por favor, Paulo, no
diga mais isso. Deixe-o. - Talvez seja
        melhor mesmo que se v. - No desse jeito. Seria melhor se ele tivesse essa vontade
para
        construir sua prpria vida de forma independente. Mas no  esse o
        motivo. Ele quer sair porque voc o est atormentando.
        - Voc no quer que ele parta, no  mesmo?
        - No  isso. Fabrcio j  um homem e deve cuidar de sua prpria
        vida. Mas quero que ele saia porque  seu desejo, no para fugir de ns.
        Paulo no disse mais nada. Estreitou a mulher de encontro ao peito e deitou-se
colado a ela. Apagou a luz, beijou sua cabea
        e murmurou:
        - Est bem, no direi mais nada. Agora durma. Amanh  segunda-feira, e preciso
levantar cedo para trabalhar.
        Encerrado o assunto, ele permaneceu abraado  mulher. No entanto, embora ambos
fingissem dormir, no conseguiram pregar
        olho e permaneceram calados o resto da noite, at que a exausto viesse domin-los,
j quase ao amanhecer.
        Faltavam cinco minutos para as dez quando Cassiano e Aderbal entraram na sala de
espera do escritrio de Fabrcio. Oflia
        recebeu-os com simpatia, ofereceu-lhes um cafezinho e pediu que aguardassem:
        - O Dr. Fabrcio est ao telefone com um cliente, mas ja vai atend-los.
        Fabrcio deixou que esperassem por cerca de quinze minutos, ligou o aparelho
gravador e s ento mandou que entrassem. Cassiano
        passou primeiro. Olhar arrogante, postura de desafio, queixo proeminente em sinal
de imposio. Aderbal, mais profissional,
        veio atrs, sustentando no rosto um sorriso de estudada cortesia.
        - Bom dia, Dr. Fabrcio - cumprimentou Aderbal, estendendo-lhe a mo, que o outro
tomou e respondeu:
        - Bom dia, Dr. Aderbal, Sr. Cassiano...
        Apontou-lhes as poltronas em frente  sua mesa, e os dois se sentaram. Cassiano
continuava a encar-lo com olhar desafiador,
        mas Fabrcio no se deixou intimidar.
        - Gostariam de um cafezinho? Uma gua?
        - No, obrigado, doutor. Sua secretria j nos serviu.
        - Muito bem. Em que posso ser-lhes til?
        Aderbal pigarreou, cruzou as mos sobre e mesa e, prosseguindo com seus gestos
estudados, comeou fazendo rodeios:
        - Bem, Dr. Fabrcio, sabe que meu cliente est muito abalado com essa separao...
        Parou de falar e esperou para ver se Fabrcio esboava alguma reao, mas este se
manteve impassvel, apenas olhando-o com
        firmeza.
        - O Sr. Cassiano ama muito a mulher e no gostaria de se separar - completou
Aderbal.
        - Sei... - fez Fabrcio, sem demonstrar muito interesse.
        - E, depois, h a questo dos filhos... Ser muito doloroso separar-se deles tambm.
        - Sei...
        O outro fez uma pausa, sem saber como prosseguir. Esperava que Fabrcio dissesse
alguma coisa, que se adiantasse na conversa,
        mas ele no dizia nada. Olhou discretamente para Cassiano, que continuava com
aquele olhar de desafio, e continuou:
        - Por isso viemos procur-lo. Gostaramos de propor-lhe um acordo... - disse,
remexendo-se na cadeira, pouco  vontade.
        Fabrcio, mos cruzadas sobre a boca, olhava-o com ar enigmtico. Estava louco
para falar, mas procurava se conter. Precisava
        ir com calma, fazer com que o outro pensasse que no tinha muito interesse e
falasse mais.
        Durante alguns segundos, um silncio constrangedor se instalou entre eles. Fabrcio
endireitou o corpo na poltrona, respirou
        fundo e, olhos nos olhos, indagou:
        - Que espcie de acordo, Dr. Aderbal?
        Aderbal pigarreou novamente, olhou de soslaio para Cassiano, que fez um gesto
imperceptvel, e rebateu:
        - Bom, Dr. Fabrcio,  muito doloroso para meu cliente separar-se dos filhos.
Contudo, est disposto a abrir mo deles em
        troca de uma pequena... compensao.
        - Que compensao?
        Aderbal olhou novamente para Cassiano, que no tirava os olhos de Fabrcio, e
continuou:
        - O senhor sabe, Dr. Fabrcio, como  difcil para um pai separar-se de seus filhos.
Selma e Carlinhos so a razo da existncia
        de Cassiano... No  mesmo, Sr. Cassiano?
        Cassiano deu um sorriso irnico e, num gesto teatral, respondeu com voz melflua:
        - So tudo que tenho, Dr. Fabrcio.
        - Pois  - retomou Aderbal. - Por isso lhe  to difcil separar-se deles. Ele vai
sofrer, mas, se for para o bem de todos...
        - Entendo.
        - E claro que ningum faz uma coisa dessas de forma impensada. No, claro que
no. Meu cliente est apenas pensando no bem
        estar das crianas. S por causa delas  que aceitou fazer este acordo. j impaciente,
Fabrcio cortou-o e falou com rispidez:
        - Por favor, Dr. Aderbal, v direto ao ponto, sim? O que, exa
        tamente, est tentando me dizer?
        Aderbal pigarreou de novo, olhou para Cassiano mais uma vez
        e, tentando aparentar naturalidade, declarou:
        - Bem, Dr. Fabrcio, trata-se de um acordo...
        - Isso eu j sei, Dr. Aderbal, o senhor j me disse. Mas que tipo
        de acordo?
        Aderbal pigarreou de novo, e Fabrcio notou que seu rosto ia fi
        cando vermelho. No devia estar muito acostumado quelas situa
        es e esclareceu, como que a se desculpar:
        - Dr. Fabrcio, no estaria aqui se no fosse para o bem de meu
        cliente. Ele vai concordar em perder os filhos, mas no pode sair assim, sem nada...
        - Sei, sei...
        - Por isso, tem uma proposta a lhe fazer.
        Silncio. O advogado no conseguia falar, e Fabrcio j comeava a se inquietar. O
tempo ia passando, a fita ia rodando e logo se
        esgotaria, sem que ele conseguisse gravar o que era importante. Cogitou encerrar
aquela entrevista e mand-los embora. Depois pensaria
        em outra coisa. Mas, subitamente, Cassiano, tambm impaciente, ergueu a voz e
exps, ele mesmo, a proposta que o levara at ali:
        - Bem, Dr. Fabrcio, vamos deixar de lengalenga. O Dr. Aderbal aqui no se sente
muito  vontade para fazer-lhe a proposta. Mas
        no faz mal. Eu mesmo lhe direi a que vim.
        Fabrcio ergueu as sobrancelhas, interessado, e o outro prosseguiu: - Ns todos
sabemos quanto Selena  rica, no  mesmo?
        - E da?
        - E da que no  justo que eu saia desse casamento com uma
        mo na frente e outra atrs. Afinal, foram anos de convvio. Fabrcio mordeu os
lbios, j sentindo a raiva tomar conta
        dele, mas procurou se conter e estimulou:
        - Continue, Sr. Cassiano, estou ouvindo.
        - Bem, como o Dr. Aderbal aqui falou, ser muito duro separar-me de meus filhos,
mas estou disposto a abrir mo deles, desde que
        Selena me d algo em troca.
        - O qu?
        - Como disse, ela  muito rica. Pois bem. Minha proposta  a seguinte: dou-lhe o
desquite amigavelmente e a guarda das crianas.
        Em troca, ela me d uma gratificao... em dinheiro.
        Apesar de surpreso, Fabrcio manteve-se impassvel. Pelo rumo da conversa, no
percebia nenhuma ameaa no ar, mas uma proposta
        realmente indecorosa, o que seria timo para Selena.
        - Sr. Cassiano, deve estar havendo algum engano - esclareceu Fabrcio. - Selena no
tem dinheiro algum. Quem tem so seus
        pais, e eles, ao que me consta, no aprovaram o casamento. O que o faz pensar que
eles a ajudariam?
        - As crianas. Sei que gostariam de cri-las.
        - H, em seu raciocnio, um grande equvoco, Sr. Cassiano. Selena no est disposta
a entregar os filhos para os pais criarem.
        - Ainda assim, eles a ajudariam, tudo para que pudessem ver os
        netos. Ainda que no os criassem, gostariam de poder visit-los, passear com eles,
acompanhar seu crescimento. No estou certo?
        - E acha que eles lhe dariam dinheiro?
        Cassiano olhou para Aderbal, que tomou a palavra:
        - Estivemos pensando, Dr. Fabrcio, num adiantamento de legtima.
        - O qu?
        - Bem, como Selena e a irm so as nicas herdeiras, a parte que lhes cabe na
herana, que  a legtima, no pode ser transferida
        para mais ningum. Tem de ser delas, de qualquer jeito. E Selena, como herdeira
necessria, vai receber seu quinho, com
        certeza.
        - No precisa me ensinar o direito, doutor, porque o conheo muito bem. S estou
achando um absurdo essa proposta.
        - Absurdo por qu? Com o adiantamento da legtima, Selena pode entrar na posse de
seus bens e fazer o que bem entender.
        E, a, a metade teria de ser de Cassiano. Eles so casados em comunho de bens, o
senhor sabe.
        Refreando a vontade de esgan-los, Fabrcio continuou a incentiv-los. Aquela
conversa estava tomando um rumo melhor do
        que o esperado.
        - O que o faz pensar que os pais de Selena aceitariam essa proposta? Seria o mesmo
que fazer uma doao direta a Cassiano.
        E com isso eles jamais concordariam.
        - Tenho meios de convenc-los - intercedeu Cassiano com ar de triunfo.
        - Que meios?
        Ele fez sinal para Aderbal, que abriu a pasta e retirou um envelope pardo,
estendendo-o para Fabrcio.
        - O que tem a no  nenhuma novidade...
        Antes mesmo de pegar o envelope, Fabrcio j sabia do que se tratava. Abriu-o
calmamente e retirou as fotos de Selena e
        de Anbal, contendo-se para no esmurrar aquele ordinrio.
        - No gostaria de fazer uso dessas fotografias publicamente - disse Cassiano -, mas
no vejo outra sada. Selena foi muito
        leviana. Trair-me com meu prprio irmo! E justo ao lado do bercinho de meu filho,
que dormia placidamente.  uma indignidade,
        no acha?
        - Com essas fotos, o juiz dar a guarda das crianas a meu cliente. Sabe disso, no ,
Dr. Fabrcio? O adultrio est provado.
        Note essa primeira foto. Ambos foram flagrados em pleno ato sexual. No h
dvidas.
        - No sei se o juiz pensa assim. Ele no me pareceu inteiramente convencido.
        - Como no? - questionou Aderbal. - O adultrio est mais do que provado. Em
pleno ato sexual_ Do jeito como manda a lei.
        - E, depois - completou Cassiano -, Anbal est disposto a testemunhar, dizendo que
ela o seduziu. Selena  uma mulher bonita;
        seria difcil para um homem resistir a ela.
        - Voc no presta, Cassiano - desabafou Fabrcio, com raiva. - Devia ir preso.
        - Eu no presto? Quem no presta  Selena. Ao menos, eu nunca a tra.
        - Nem ela o traiu. Isso foi uma armao. Ela me contou tudo.
        Cassiano deu de ombros, fez um muxoxo e retrucou:
        - E da? Quem pode provar?
        Era agora! O corao de Fabrcio disparou. Armara aquilo tudo esperando gravar
uma ameaa. Ao invs disso, Cassiano estava
        entregando todo o jogo, revelando sua prpria torpeza. Mais um pouco e ele
confessaria tudo, e o resultado seria muito melhor
        que o esperado.
        - Por que fez isso?- tornou Fabrcio, fingindo-se derrotado. - Por que humilha assim
sua mulher?
        Ele torceu os lbios e prosseguiu:
        - E a lei da selva, doutor. Selena j no me queria mais. Vivia pedindo o desquite. O
que queria que eu fizesse? Que abrisse
        mo de tudo pelo que venho lutando h anos?
        - E por isso resolveu armar essa arapuca?
        - No foi uma arapuca. Selena caiu porque quis.
        - Ela estava carente, e o senhor sabia disso. Por isso mandou seu
        irmo l naquela noite, no foi?
        - Foi uma idia genial, no? - Ele deu uma gargalhada e continuou: - Selena  muito
burra. Sabia que ia cair feito um patinho.
        Foi s apanhar as crianas, lev-las para a casa de minha me, e pronto. Vendo-se
sozinha, foi muito fcil para Anbal seduzi-la.
        - Isso foi uma covardia.
        - Que covardia, que nada! Aposto que ela at gostou - risos. -Anbal disse que foi
bom. E as fotos mostram isso, no ?
        - Ser mesmo? Parece-me que Selena estava sendo forada...
        - Forada? No, meu caro, no se iluda. Ela se entregou a ele porque quis. Ningum
mandou ser trouxa. Quando viu a cmera,
        ficou apavorada e quis fugir. Mas Anbal a segurou, e eu pude fotograf-los
bastante. Essa aqui do bercinho est tima,
        no est? Chega a ser comovente.
        - Selena estava carente, amedrontada.
        - E da? Ningum mandou ser trouxa. Ela bobeou, eu aproveitei. Sabia que ela
estava sentindo falta daquilo- novos risos.
        - muito fcil conquistar uma mulher sozinha e desiludida. No sabia, doutor?
        Ignorando sua insinuao maldosa, Fabrcio continuou, como quem no tinha mais
o que fazer.
        - No devia se aproveitar assim das fraquezas das pessoas.
        - O senhor  muito bonzinho, Dr. Fabrcio. Talvez porque no precise de nada.  um
homem rico, bem apessoado. O que sabe
        sobre a misria?
        - Eu? Nada. Nem o senhor. Que eu saiba, o senhor no  nenhum miservel. Pode
no ser rico, mas no lhe falta nada.
        - Mas eu quero muito mais. Quero ter um apartamento bacana, carro do ano, roupas
caras. Quero viajar, me divertir com as
        mulheres, aproveitar a vida. Pensei que, casando-me com Selena, fosse conseguir
tudo isso. Mas os pais dela no aprovaram
        o casamento e retiraram todo o apoio. Selena e eu ficamos sem nada. Acha isso
justo?
        - Casou-se com ela porque quis. Devia am-la.
        - Gostava dela. E bonitinha, tem um corpo bem-feito. Mas  fria qual uma pedra. Na
cama, deixa muito a desejar-concluiu
        com um riso debochado.
        Nesse ponto, Fabrcio quase se levantou e o espancou. j estava ficando difcil
tolerar a conversa daquele homem grosseiro
        e ordinrio.
        - Sr. Cassiano, por favor, contenha-se - censurou Aderbal. - Pode comprometer-se.
        - Como? O que ele pode contra mim? Nada. No pode provar o que eu disse. Ser a
palavra dele contra a minha. E, depois,
        no agento mais. Estou entalado com ele at o pescoo.
        Fabrcio riu intimamente. Aquele homem era um tonto.
        j era hora de dar a entrevista por encerrada. Eles estavam ali fazia quase uma hora
e, em breve, a fita terminaria.
        - Bem, Dr. Aderbal, se essa  a sua proposta, apanhe suas fotos e seu cliente e saia
daqui. No negocio com marginais.
        Cassiano deu um salto da cadeira, debruou-se sobre a mesa e, fitando-o com olhar
ameaador, disparou:
        - Vou acabar com vocs, doutorzinho. Quer recusar meu acordo? Pois bem. Recuse.
Mas depois, quando Selena perder as crianas,
        no diga que no avisei.
        - O senhor  livre para fazer o que bem entender. Mas eu sou um homem digno, um
advogado honesto. O que me oferece no 
        um acordo, mas uma chantagem, e no me curvo a chantagistas.
        Naquele momento, Fabrcio pensou que Cassiano fosse dar-lhe um murro, mas
Aderbal interveio, segurando-o pelo ombro.
        - Sente-se, Sr. Cassiano, por favor. Se perder a calma, perder tambm a razo.
        Cassiano tornou a sentar-se, e o advogado prosseguiu:
        - Reflita bem sobre nossa proposta, Dr. Fabrcio. Ser para o bem de todos. Mostre
as fotos aos pais de Dona Selena. Quem
        sabe assim eles no concordam com o adiantamento de legtima? Afinal,  o nome
deles que tambm est em jogo.
        - Lamento, mas j disse que no negocio com marginais. E, agora, faam o favor de
se retirar. No temos mais nada a conversar.
        - Cachorro!
        Cassiano deu a volta na mesa e correu para Fabrcio, tentando acertar-lhe um soco,
mas Aderbal correu atrs e segurou-o
        a tempo.
        - Contenha-se, Sr. Cassiano! - exclamou ele. - Quer estragar tudo?
        Fabrcio continuava sentado, impassvel, fitando-o com desdm. Sabia que ele
estava em suas mos e no tinha medo de suas
        ameaas.
        - Vai me pagar! -berrava Cassiano. -Est dormindo com minha mulher, no est?
        Fabrcio levantou-se com calma, segurou o outro pelo colarinho e, aproximando
bem o rosto do seu, disparou em tom intimidados:
        - No tenho medo de voc, Cassiano. E, agora, saia daqui antes que eu chame a
polcia.
        Ouvindo falar em polcia, Cassiano retrocedeu. At Oflia, ouvindo a gritaria,
apareceu na porta, preocupada com a segurana
        do patro. Estava mesmo pronta para ligar para a polcia.
        Cassiano puxou as mos de Fabrcio de seu colarinho, ajeitou o terno e, com olhar
fuzilando, ameaou:
        - Isso no vai ficar assim, doutor. Tenha certeza.
        Rodou nos calcanhares e saiu, seguido por Aderbal, que suava frio. Passou por
Oflia feito uma bala, esbarrando nela ao
        sair, e bateu a porta com furor. Depois que eles se foram, ela olhou para Fabrcio
com ar interrogador e ele, com um sorriso
        maroto, exultou:
        - Conseguimos, Dona Oflia! Conseguimos!
        Correu para o armrio e apanhou uma garrafa de champanhe e duas taas.
Precisavam comemorar. Venceria a ao e conquistaria
        Selena. Estalaram as taas e, ao lev-las aos lbios, ouviram um breve dique. A fita
no gravador chegara ao fim, e sua vitria
        estava apenas comeando.
        Sentados do lado de fora da sala de audincias, Fabrcio, Selena, Clarinha e dois
policiais esperavam a vez de ser chamados.
        Era dia de depoimento, e Clarinha e os policiais serviriam de testemunhas. A todo
instante, olhavam para a porta, esperando
        que Cassiano e Aderbal aparecessem, mas nada. Os minutos foram se passando, e os
casais das audincias anteriores iam entrando
        e saindo, mas nada de Cassiano chegar.
        - O que houve? - indagou Selena. - Ser que no vm?
        - Ainda no est na hora. Ns  que chegamos cedo.
        - E verdade, Selena. At o irmo de Cassiano j chegou. Clarinha apontou para um
canto, onde Anbal aguardava, aca
        brunhado, a chegada do irmo. Pouco depois, seus nomes foram
        apregoados, e Selena e Fabrcio se levantaram.
        - Acho que no vm - observou Clarinha. - Engana-se. L esto eles.
        Fabrcio apontou para a porta com o queixo, e ambas viram Cassiano e Aderbal
entrarem esbaforidos. Foram direto para a sala de au
        dincia, e Fabrcio pediu a Clarinha e os guardas que aguardassem at
        que fossem chamados. Todos tomaram assento, e o juiz Otvio, exa
        minando os autos, comeou a dizer:
        - Muito bem. Trouxeram as testemunhas? - Sim, excelncia - respondeu Fabrcio.
Otvio olhou para Aderbal e continuou:
        - O senhor indicou apenas uma testemunha, doutor. No com
        pareceu?
        - Compareceu, sim, excelncia. Est l fora.
        - Muito bem. - Virando-se para o oficial, ordenou: - Mande
        entrar a testemunha da parte autora.
        O oficial saiu e voltou logo em seguida com Clarinha, que to
        mou assento no local indicado. Ao olhar para ela, Otvio sentiu uma
        estranha emoo. De onde conhecia aquela moa? Provavelmente,
        de lugar nenhum. Ela era muito jovem e, na certa, no freqentaria
        os mesmos lugares que ele. Contudo, algo nela o atraa. No era apenas a sua
beleza. Era algo mais, algo que no sabia definir e que trmexia com ele.
        Clarinha virou-se para o juiz e sentiu que seu corao tambm
        disparava. Era estranho, mas aquele homem maduro e to bonito despertara algo
dentro dela. Contudo, ele era o juiz, a autoridade
        mxima ali dentro, e ela no podia deixar que percebesse sua admirao. - Muito
bem, Dona Ana Clara, a senhora  prima da autora,
        no  mesmo?
        - Sim, senhor.
        -  sua amiga pessoal? - Bem... sim.
        - Sei que esses casos so difceis, mas gostaria de alert-la de seu compromisso com
a verdade. Normalmente, pessoas muito ligadas s
        partes no podem depor como testemunhas. No entanto, dadas as peculiaridades dos
processos de famlia, as pessoas que mais
        conhecem os fatos so, justamente, aquelas mais prximas. Ainda assim, temos
todos o dever de colaborar com a Justia. Por
        isso, apesar de a senhora no ter prestado compromisso, gostaria que me
respondesse com a maior sinceridade possvel. Compreendeu?
        - Sim, senhor.
        A voz de Clarinha era to firme, to segura, que Otvio se admirou. Esperava que
ela, a exemplo de todos os que se sentavam
        ali, se sentisse intimidada e com medo. Mas no. Ela parecia bem segura e senhora
de si.
        - Bem, Dona Ana Clara, h quanto tempo conhece a autora? - A vida inteira. Somos
primas.
        - Sim, claro. E o Sr. Cassiano? Conhece-o tambm?
        - Conheo-o desde que comeou a namorar Selena. - Entendo. E o que sabe sobre
seu relacionamento?
        - Bem, no princpio, davam-se bem. Mas depois ele comeou
        a beber e a agredi-la.
        Ele balanou a cabea e, folheando os autos, ia lendo as alegaes da petio inicial
e da defesa, buscando elementos onde
        pautar a inquirio.
        -A senhora, pessoalmente, viu alguma dessas agresses? Viu-o batendo nela?
        - Ver, no vi.
        - E como sabe que ele a agredia?
        - Ela me contava e me mostrava os hematomas.
        O juiz continuou inquirindo Clarinha, at que chegou ao ponto desejado: o suposto
flagrante de adultrio.
        - A senhora tem conhecimento de que sua prima estivesse mantendo um
relacionamento extraconjugal?
        - No, senhor. Conheo Selena muito bem e sei que ela jamais seria capaz de uma
indignidade dessas.
        A inquirio continuou por mais dez minutos, findos os quais o juiz se deu por
satisfeito.
        - Alguma pergunta, doutores?-perguntou ele aos advogados.
        Ambos menearam a cabea negativamente, e Clarinha foi dis
        pensada. Sara-se muito bem, e no era preciso reinquiri-la em nada.
        Enquanto o escrivo encerrava o termo de depoimento, Clarinha fi
        cou prestando ateno na austera sala de audincias, e seus olhos e os de Otvio se
cruzaram de repente. Ela enrubesceu
        e baixou a cabea, envergonhada. Ele, por sua vez, tentando disfarar o embarao,
evitou ao mximo olhar de novo para ela
        e mandou que fosse conduzida a uma outra sala, onde teria de aguardar o final dos
depoimentos.
        Depois de acomodar Clarinha na sala ao lado, o oficial saiu e voltou com um dos
policiais que atenderam ao chamado de uma
        vizinha, no dia em que Cassiano, furioso, trancara as crianas no quarto e espancara
a mulher. O policial sentou-se e prestou
        compromisso, olhando seriamente para o juiz. No era amigo nem inimigo de
nenhuma das partes, e seu depoimento estava isento
        de qualquer suspeita.
        - Sr. Durval Pereira, o senhor foi chamado, na noite de 25 de abril de 1965, para
atender a uma ocorrncia na rua Baro
        de So Borja, nmero 48, apartamento 203?
        - Sim, senhor.
        - E quem o chamou?
        - Uma senhora, Dona Lucinda de Carvalho.
        - E por que foi chamado?
        - Bem, a Dona Lucinda disse que o vizinho, Sr. Cassiano, estava batendo na mulher
e nos filhos.
        - Sei. E o senhor l chegou a que horas, o senhor se recorda?
        - Hmm... Deixe-me ver... Por volta das nove horas.
        - Quem veio atend-lo?
        - O Sr. Cassiano.
        - Ele estava sozinho?
        - No. A mulher e os filhos estavam com ele.
        - O senhor os viu?
        - Somente a mulher. Ele disse que os filhos estavam dormindo.
        - E como estava Dona Selena?
        - Bastante machucada. Tinha sangue no rosto.
        - E o que ela lhe disse?
        - Disse que tinha cado e batido o rosto na quina da mesa.
        O policial terminou de prestar depoimento e saiu, e o outro, que atendera ao
chamado com ele, entrou, sentou-se e disse
        exatamente a mesma coisa.
        Em seguida, foi a vez das testemunhas do ru. A nica testemunha que Cassiano
tinha para apresentar era seu irmo. Anbal
        chegou com ar debochado, deu um sorriso para Selena, que baixou os olhos, e
tomou seu lugar.
        - Ento, Sr. Anbal, o que houve, exatamente, naquela noite em que o senhor foi 
casa de seu irmo?
        - Noite? Que noite? Refere-se quela em que... em que Selena e eu...
        Enxugou discretas lgrimas dos olhos, e Otvio olhou-o de m vontade. Sua longa
experincia lhe dizia que estava diante
        de um farsante. O homem  sua frente ia mentir. Aquela encenao toda era bem
tpica dos mentirosos, e ele sabia disso.
        No entanto, no podia prejulgar e continuou:
        - Sim, Sr. Anbal, refiro-me  noite em que seu irmo afirma que o senhor e Dona
Selena mantiveram relaes.
        - Oua, doutor, quero que saiba que estou muito arrependido do que fiz. No queria
magoar meu irmo. Mas o senhor sabe,
        sou homem, e foi difcil me controlar. Selena me abordou e... - calou-se novamente.
        - Sei, sei - concordou o juiz. - Mas o que aconteceu?
        Ele fez uma pausa teatral, respirou fundo e, fingindo constrangimento, comeou a
contar:
        - Bem, eu fui  casa de meu irmo. Precisava falar-lhe. Quando cheguei, Selena veio
atender, fez-me entrar e sentar. Disse
        que Cassiano no estava e que as crianas estavam dormindo.
        - E depois?
        - Levantei-me para ir embora, mas ela me impediu. Segurou minha mo e... bem...
comeou a acariciar-me, o senhor entende...
        O juiz olhou discretamente para Selena, que corou e fez um gesto de contrariedade,
mas foi contida por Fabrcio. Ele sussurrou
        algo em seu ouvido, e ela se acalmou, e Otvio prosseguiu:
        - O que houve, ento?
        - Eu tentei resistir. Sabe como , Cassiano  meu irmo, e eu no queria mago-lo.
Mas ela foi insistente, provocou-me de
        todas as formas, at que no pude mais resistir. Tomei-a nos braos e deixei que ela
me conduzisse at seu quarto.
        - Mantiveram relaes sexuais?
        -Sim...
        Anbal baixou os olhos, fingindo-se envergonhado, e o juiz continuou:
        - E as crianas, Sr. Anbal? Onde estavam?
        - Dormindo.
        - No mesmo quarto?
        - No. S Carlinhos. Selma estava no quarto dela.
        - Quer dizer que o beb dormia no quarto, enquanto o senhor
        e Dona Selena mantinham relaes?
        - Isso mesmo.
        - E no acordou? - No.
        - Quantas vezes o senhor e Dona Selena mantiveram relaes? - Apenas essa vez.
        - Tem certeza?
        - Sim.
        - O Sr. Cassiano disse que o senhor lhe confessou que j eram amantes havia
bastante tempo. Mas como  possvel, se essa
        foi a primeira vez que tiveram relaes?
        Anbal, desconcertado, olhou para Cassiano e para Aderbal, que no diziam nada.
Pensou depressa e respondeu:
        - Bem, eu estava confuso e arrependido. Posso ter dito qualquer coisa.
        - O senhor falou ou no a seu irmo que j era amante de Dona Selena h mais
tempo?
        - No me lembro...
        - No se lembra de haver faltado com a verdade antes, ou est faltando com ela
agora?
        Anbal sentiu o rosto arder e teve certeza de que o rubor lhe cobria as faces. Olhos
pregados no cho, no sabia o que dizer.
        O juiz Otvio deu por encerrada a audincia, abrindo prazo para que as partes
informassem se possuam outras provas a produzir.
        Depois que eles saram, ficou a pensar. No gostava de prejulgar ningum, mas
aquele Cassiano no o enganava. Era um homem
        mesquinho e violento, e ele duvidava muito se aquele flagrante no teria sido uma
farsa. Estava convicto de que fora.
        Em casa, Clarinha no conseguia parar de pensar no juiz Otvio. Aquele homem
mexera com ela de uma maneira que nunca antes
        havia experimentado. Terminou de pentear os cabelos, olhou-se no espelho e sorriu
satisfeita. Achava-se atraente e tinha
        certeza de que Otvio ficara impressionado. Mas o que estava dizendo? Otvio? O
homem era um juiz que ela, provavelmente,
        nunca mais tornaria a ver. Seu relacionamento com ele se resumira quela audincia
em que fora prestar depoimento, nada
        mais. E, depois, ele nem devia se lembrar mais de que ela existia. Mas, ainda assim,
no conseguia parar de pensar nele
        e no jeito como a olhara.
        Ela foi para a janela e ficou olhando o mar, sentindo no rosto a brisa fresca da noite.
De repente, ouviu chamar seu nome:
        - Clarinha.
        Olhou assustada, mas no viu ningum. Podia jurar que aquela era a voz de
Adriano, mas no podia ser. Ou podia? Ela j aprendera
        o suficiente sobre espiritismo para saber que isso era bem possvel. No entanto,
nunca soubera que era mdium. Nunca vira
        nem ouvira nada. At ento...
        Seus pensamentos se voltaram para o ex-noivo. Como estaria? Seu esprito
continuava vivo em algum lugar. Mas onde? Estaria
        perdido nas cavernas do astral inferior ou fora logo socorrido e se encontrava em
processo de repouso e refazimento?
        - Estou aqui, Clarinha - respondeu Adriano, invisvel aos olhos da moa. - Estou a
seu lado.
        Clarinha pensava nele com insistncia. Ser que estava mesmo ali?
        - Estou, Clarinha, estou aqui. Por que no me ouve? Olhe para mim.
        A moa, sem lhe ouvir as palavras, percebia-lhe a presena e intua tudo que ele lhe
falava. Olhou ao redor, mas no o viu,
        e Adriano, que j comeava a ficar nervoso, chegou-se mais para perto dela e
abraou-a. Clarinha sentiu uma forte tontura,
        o estmago revirou e teve vontade de vomitar. Foi para a cama e sentou-se,
pensando em chamar algum. Quanto mais passava
        mal, mais Adriano tentava se comunicar com ela, sem sucesso, porm.
        O campo vibratrio de Adriano causava imenso mal-estar em Clarinha. Ele
guardava no corao um dio cego e profundo, no
        s pelo irmo, mas, agora tambm, pelo juiz Otvio. No conhecia aquele homem e
surpreendera-se sobremaneira ao perceb-lo
        povoando os pensamentos de Clarinha. Quem era ele? Por que sua noiva no parava
de pensar nele?
        O dio de Adriano, literalmente, invadia a aura de Clarinha, e ela sentia essa
invaso com enjos e dores estomacais que,
        aparentemente, no tinham explicao. No conseguindo assimilar-lhe a presena,
no por estar desencarnado mas por vibrar
        tanto dio, ela passava mal e desmaiava.
        Percebendo que ia desmaiar, ainda conseguiu juntar foras e chamou baixinho:
        - Me...
        Tombou o corpo para trs e desabou sobre a cama, inconsciente. Em seu quarto,
Elisete lia uma revista de modas, ao lado
        do marido, que estudava alguns documentos.
        - Ouviu alguma coisa? - perguntou ela, erguendo os olhos da revista.
        Bernardo, sem desviar a ateno dos papis que tinha nas mos, retrucou sem
interesse:
        - No.
        - No ouviu nada?
        - No. Por qu?
        - No sei. Parece-me que ouvi Clarinha chamar.
        Ele ergueu os olhos dos documentos e apurou os ouvidos, tentando ouvir alguma
coisa.
        - No ouo nada. Deve ter sido impresso. -Acho melhor ir ver se est tudo bem.
        Elisete levantou-se, vestiu o penhoar e dirigiu-se ao quarto da filha. Bateu
levemente e chamou-a, mas ningum respondeu.
        Vagarosamente, abriu a porta e olhou. Clarinha estava estirada sobre a cama plida
feito um boneco de cera. Elisete correu
        para ela e psse a gritar:
        - Bernardo! Bernardo! Acuda!
        No mesmo instante, Bernardo apareceu. Vendo a filha jogada na cama como se
estivesse morta, assustou-se.
        - O que aconteceu?
        - Oh, Bernardo, no sei. Cheguei aqui e encontrei Clarinha assim.
        Bernardo tomou-lhe o pulso. Parecia um pouco alterado, mais fraco que o habitual.
        - Acho melhor chamarmos um mdico.
        - Depressa, querido, por Deus!
        - Melhor. Vamos ns mesmos lev-la a uma emergncia.
        Bernardo correu para seu quarto e se trocou, e Elisete fez o mesmo, apanhando
ainda algumas roupas da filha no armrio.
        Em seguida, Bernardo ergueu a filha no colo, ainda de camisola, abriu a porta e saiu
com ela, seguido por Elisete, que no
        parava de chorar:
        - Minha filha! Minha filhinha!
        A seu lado, o esprito de Adriano acompanhava tudo sem entender. Ele amava
Clarinha. Pensava que ela o amasse tambm. Mas
        devia estar enganado. Se o amasse, no estaria pensando em outro com tanta
insistncia. Ser que fora por isso que passara
        mal? J era a segunda vez que aquilo acontecia, e ele no conseguia entender por
qu.
        J haviam chegado ao carro, e Adriano, desesperado, falou para Elisete:
        - Dona Elisete, desculpe-me. Sou eu, Adriano. No fiz por mal.
        Elisete no ouviu nada, mas sentiu sua aproximao e arrepiou-se toda.
        - Credo! - exclamou ela, assustada.
        - O que foi? - indagou Bernardo, que acabara de ajeitar a filha no banco de trs.
        - Sei l. Senti um arrepio esquisito.
        - Deve ser o ar da noite.
        Bernardo deu partida no automvel e saiu em disparada, rumo
        ao hospital, deixando Adriano sozinho na garagem escura. Quando chegou, a
emergncia estava praticamente vazia, e Clarinha
        logo foi atendida. O mdico de planto era outro mas, como seu colega da primeira
vez, no conseguiu encontrar nada de errado.
        Depois de examin-la detidamente, virou-se para Bernardo e, fixando-lhe bem o
rosto, falou:
        - Creio que j o conheo.
        - E? - tornou Bernardo curioso. - De onde?
        - Sua filha no era noiva de Adriano, filho de Flvia e Paulo Lopes Mandarino?
        Bernardo ergueu as sobrancelhas, surpreso, e retrucou: - Isso mesmo.
        - Sou Feliciano, mdico de Flvia. No se lembra de mim?
        O outro estreitou os olhos, puxando pela memria e, conseguindo finalmente
lembrar-se dele, tornou:
        - Ah, isso mesmo! Agora me lembro. Como vai? Apertaram-se as mos com
simpatia, e Feliciano observou: - J faz algum tempo
        desde a ltima vez que nos vimos.
        - E verdade. Mas voc esteve presente ao funeral de Adriano,
        no esteve?
        Feliciano balanou a cabea e observou: - Estive, sim.
        - Uma coisa horrvel perder um filho na flor da idade. - Deus tem seus mistrios...
        Elisete veio se aproximando, e Bernardo logo a introduziu ao mdico:
        - Elisete, lembra-se do Dr. Feliciano, mdico de Flvia, me de Adriano?
        Ela o olhou espantada e, recordando-se dele, estendeu-lhe a
        mo, que ele tomou com cortesia, e acrescentou: - Lembro-me, sim.  um prazer
rev-lo. - O prazer  todo meu, senhora.
        - No sabia que trabalhava neste hospital.
        - Trabalho aqui h muitos anos, mas s fao planto duas vezes por semana. Hoje,
sou apenas clnico geral e tenho um consultrio
        particular em Copacabana. J estou ficando velho para levantar no meio da noite
para fazer partos.
        -Que sorte encontrarmos justo o senhor-felicitou-se Elisete. - Mas diga-me doutor:
O que minha filha tem?

        - Ela j fez o exame de sangue, e o resultado deve sair por estes dias - acrescentou
Bernardo.
        - Sei. Bem, no posso dar um diagnstico sem ver os exames. Mas sua filha,
aparentemente, no tem nada.
        - Como, no tem nada? - surpreendeu-se Elisete. - J  a segunda vez que isso
acontece.
        - Eu sei, mas examinei-a e no constatei nada de errado. Por isso precisamos esperar
o resultado do exame de sangue. Faamos uma
        coisa - ele levou a mo ao bolso e tirou um cartozinho, estendendo-o a Bernardo. -
Assim que tiverem o resultado, liguem para meu
        consultrio e marquem uma consulta. Tratarei dela pessoalmente, se
        vocs quiserem,  claro.
        -  claro que queremos -concordou Elisete. -O senhor  um
        mdico muito conceituado, e ficaremos mais tranqilos sabendo que
        nossa filha est em boas mos.
        - timo. Ento est combinado. Aguardo um chamado de vocs.
        Voltaram para perto de Clarinha, que estava acordada, conversando com a
enfermeira.
        - Sente-se melhor, minha filha? - indagou Elisete. - Sim, me. O que aconteceu? -
Voc desmaiou de novo.
        Ela olhou para o mdico, parado mais atrs, e sorriu para ele. - Oi, Dr. Feliciano,
tudo bem? No esperava v-lo aqui.
        Ele sorriu de volta e contestou:
        - No, minha cara. Eu sou mdico, e este  meu local de trabalho. Quem no deveria
estar aqui  voc, uma jovem to forte e saudvel.
        Olhando-os com cara de espanto, Bernardo perguntou:
        - Voc ainda se lembra do Dr. Feliciano, minha filha?
        -  claro, papai. J o encontrei algumas vezes no centro esprita que Dona Ins
freqenta, no , doutor?
        Bernardo e Elisete olharam para ele ao mesmo tempo. No sabiam que o mdico era
esprita e, muito menos, que Clarinha ia
        a um centro. Aquilo os deixou chocados, e Bernardo foi o primeiro a falar:
        - Centro esprita? Mas que bobagem  essa? - No  bobagem nenhuma, pai.
        Bernardo no disse nada. A filha no se sentira muito bem e, em considerao a ela,
no faria nenhum comentrio. Por enquanto.
        Mas, assim que ela se recuperasse, teriam uma conversa sria. E Bernardo j estava
comeando a duvidar da capacidade daquele
        mdico. Um homem estudado, culto, inteligente. Como se deixara envolver por
aquelas crendices?
        Esperou at que Clarinha se trocasse, pegou-a pelo brao, agradeceu a Feliciano e
saiu com ela. Espiritismo... pois sim.
        Sua filha no se envolveria com aquelas crendices. Isso  que no! Era uma moa
linda, inteligente, bem nascida. No permitiria
        que ela se envolvesse com aquelas besteiras. Talvez at fosse por isso que estivesse
passando mal. Na certa, davam-lhe aquelas
        infuses feitas com ervas de que j ouvira falar, alm daquelas comidas esquisitas.
S podia ser isso. No podiam fazer-lhe
        nenhum bem.
        - No vou permitir um absurdo desses - esbravejava Bernardo. - Minha filha no vai
se envolver com fetichismos.
        - Mas, papai - protestou Clarinha -, no  nada disso. Voc nunca foi, no sabe
como . Como pode julgar algo que no conhece?
        - No preciso ir para saber que no serve. Tudo ligado  espiritualidade  besteira. E
macumba, coisa de gente ignorante...
        - No, pai, est enganado. Primeiro, porque no  macumba. Alis, se quer mesmo
saber, macumba  o nome de um instrumento
        de percusso. O povo  que, por associao, estendeu o nome aos cultos africanos,
porque o instrumento tambm  de origem
        africana.  at parecido com um reco-reco.
        Bernardo olhou-a admirado.
        - Como sabe disso?
        - Andei estudando. De qualquer forma, a macumba, como prefere chamar os cultos
africanos, no tem nada de mais.  uma religio
        como as outras, s que tem seus mistrios, seus rituais prprios, suas cantigas
peculiares.  muito profunda e bonita.
        - Clarinha! Voc andou se metendo com essas coisas?
        - Deixe de preconceito, papai. Embora no freqente nenhum centro de umbanda,
que  o que vulgarmente se chama de macumba,
        respeito muito seu culto e sei que os que l esto desenvolvem um
        trabalho honesto e digno, voltado para a caridade e o autoconhecimento. E claro que
em alguns lugares, infelizmente, os
        freqentadores no pensam assim, direcionando seus conhecimentos para prti
        cas menos edificantes...
        - Clarinha! - gritou o pai. - Voc est proibida de se meter com essas coisas! Est
proibida, ouviu?
        Clarinha fitou o pai com desdm e retrucou calmamente:
        - Voc no me probe de nada.
        - Probo, sim! Voc  minha filha e me deve obedincia.
        - Sou sua filha, mas no sou propriedade sua. Tampouco sou uma criana. J tenho
vinte e cinco anos e sou uma mulher independente.
        - Independente... pois sim. Acha que s porque tem um em
        preguinho pode se sentir dona de seu nariz? Um empreguinho, alis,
        que eu arranjei?
        Ela sentiu o sangue subir-lhe s faces e retrucou com raiva:
        - Que voc arranjou, mas que eu soube manter e me fazer
        respeitar.
        - V sonhando! Voc s est l por minha causa. Se eu quiser,
        fao com que seja despedida hoje mesmo.
        - Ah, faz, ? Pois experimente!
        Saiu batendo a porta. Estava furiosa. Como o pai podia ser to
        preconceituoso? Discriminava tudo: mulheres desquitadas, espiritis
        mo e sabe-se l o que mais.

       Quando Clarinha chegou ao escritrio, o chefe mandou cham
       la. O pai agira rpido, pensou. Na certa, Aureliano ia despedi-la. Ela
       bateu na porta e entrou, cabea erguida, pisando firme.
       - Bom dia, Dr. Aureliano. Mandou me chamar?
       - Bom dia, Clarinha. Mandei, sim. Por favor, sente-se.
       Ela se sentou defronte a ele e ficou a encar-lo. Se ia ser despedida, seria com
dignidade. No baixaria a cabea para ningum.
       - Pois no - disse ela com voz firme.
       O outro, pouco  vontade, permaneceu alguns instantes estudando-a, at que
comeou:
       - Bem, Clarinha, sabe que estamos muito satisfeitos com seu trabalho aqui, no
sabe?
       Ela assentiu e ele continuou:
       - Desde que voc chegou, tem progredido muito. E inteligente e aprende rpido.
Tem boas idias e uma viso muito ampla do futuro. No entanto... - parou de falar
       abruptamente.
       - No entanto -completou ela, sentindo a raiva crescer dentro
        de si -, meu pai telefonou para o senhor e pediu que me demitisse. Ele ergueu as
sobrancelhas, surpreso, e concordou: -
        Isso mesmo. Como sabe?
        - Ora, Dr. Aureliano, j faz algum tempo que descobri que foi meu pai quem
arranjou este emprego para mim. - E isso no
        a incomodou?
        - Muito. Pensei at em pedir demisso. No entanto, refleti melhor e resolvi ficar.
Gosto daqui e sei que o senhor aprecia
        meu trabalho. Tenho conscincia de que procuro fazer o melhor e nunca me
aproveitei do fato de ser, digamos, "empistolada".
        Resolvi ficar porque posso mostrar meu valor independentemente de meu pai. Foi
fcil para ele me arranjar o emprego. Contudo,
        mant-lo foi outra histria. E sei que no o mantive s por causa do nome de meu
pai, mas sim pelos meus mritos. No fosse
        por isso, tenha certeza, Dr. Aureliano, eu j teria pedido demisso.
        Aureliano encarou-a admirado. Aquela moa era muito corajosa e cheia de
dignidade, e aquilo o agradou muito. Era de gente
        assim que precisava.
        - Pois , Clarinha, foi o que eu disse a seu pai. Mas ele insistiu que a despedisse...
        - Sinta-se  vontade. Sei como so essas coisas. Se acha que deve me despedir,
despea-me. Mas s o que lhe peo  que avalie
        meu trabalho. No sei o grau de amizade que o senhor tem com meu pai. Contudo,
coloque numa balana meu trabalho e a amizade
        que sente por ele, e veja para que lado ela pende. Seja para que lado for, saberei
respeitar sua deciso e no lhe guardarei
        mgoa ou rancor.
        Cada vez mais impressionado, Aureliano retrucou:
        - Clarinha, agora vejo que tomei a deciso certa.
        - Como assim?
        - Quando seu pai me telefonou, pedindo que a despedisse, falei a ele de seu trabalho
e de seu valor, e disse-lhe que no
        pretendia despedi-la.
        - No?
        - No. Voc  um elemento muito valioso em minha empresa.
        Tornou-se essencial. No posso prescindir de seus servios. Por isso, disse a seu pai
que me perdoasse. Eu aceitara dar-lhe
        o emprego em considerao , nossa amizade. Mas voc se demonstrou muito
competente, e no posso abrir mo de tanta competncia
        por causa do capricho de nenhum amigo. Disse a ele que no devamos misturar as
coisas. Amizade  amizade, trabalho  trabalho.
        Afinal,  muito difcil encontrar bons profissionais, e no estou disposto a abrir mo
de algum to capaz como voc.
        - Fala srio?
        - Muito srio. E agora, conversando com voc e conhecendoa melhor, tive certeza
de que tomei a deciso certa. Alm de inteligente
        e capaz, voc  uma mulher decidida, firme, corajosa e, acima de tudo, que sabe
expor sua vontade sem implorar nem mendigar.
         Sabe pedir sem se humilhar e  capaz de manter a altivez sem cair na arrogncia ou
na prepotncia. Confesso que estou impressionado,
         e  de pessoas assim que precisamos em nossa empresa.
         Clarinha no sabia o que dizer. No esperava por aquilo. Pensou que ia mesmo ser
demitida e ficou surpresa com a reao
         de seu chefe. Tentando conter as lgrimas, arrematou:
         - Dr. Aureliano, nem sei como lhe agradecer... -Calou-se, a voz embargada pela
emoo.
         - No precisa. Eu  que lhe devo agradecer a dedicao. Tenha certeza de que, se eu
a despedisse, voc logo arranjaria
         outro emprego, e eu perderia uma excelente profissional.
         - E meu pai? No ficou zangado com o senhor?
         Ele deu de ombros e observou:
         - Infelizmente, ficou. Contudo, no posso pr de lado os interesses de minha
empresa, e ele sabe disso. Tenho certeza de
         que mais tarde vai compreender e aceitar.
         - Espero. No gostaria de ser motivo de desavenas.
         - E no . Seu pai zangou-se comigo porque quis. Ningum  motivo de nada na
vida de ningum. Se ficamos tristes ou felizes
         com a atitude do outro,  porque essa atitude encontrou eco dentro de ns, foi ao
encontro de nossos prprios ressentimentos
         ou alegrias. O outro nada mais  do que um instrumento para que possamos
experienciar nossos prprios sentimentos.
         Dessa vez, foi Clarinha quem ficou admirada. No esperava que ele falasse daquele
jeito e exps o que pensava:
         - Dr. Aureliano, falando assim, o senhor at parece... - Esprita?
         - . - No tenha medo de dizer. Sou um homem aberto a todas as novas idias. Por
isso, quando seu pai me disse o motivo pelo
         qual queria que a demitisse, no pude concordar.
         - O senhor sabe que sou esprita?
         - Sei, sim. Pelo menos, foi o que seu pai me disse: que voc anda
         metida na macumba. - Ele riu gostosamente e continuou: - Mal
         sabe ele que eu sou um macumbeiro de primeira! - Mentira! O senhor?
         - Pois . Para voc ver. As pessoas so muito preconceituosas. Falam mal daquilo
que no compreendem.
         - E verdade.
         - Bem, agora que estamos acertados, pode voltar ao trabalho, sem medo de ser
despedida. Voc s sai daqui se quiser.
         - Obrigada, Dr. Aureliano, muito obrigada.
         Clarinha saiu da sala de seu chefe sentindo-se uma vitoriosa. Conseguira o que mais
queria na vida, que era manter seu emprego.
         Agora que tinha sobre ele a saudvel sensao de domnio, fruto da conquista, iria
dar um rumo em sua vida. Estava decidida.
         Iria morar sozinha.
         Enquanto Fabrcio dormia tranqilamente em sua cama, Adriano, sentado a seu
lado, remoa todo o seu dio. O perisprito de
        Fabrcio, flutuando alguns centmetros acima do corpo, ainda no se dera conta da
presena do irmo, at que este, com a
        voz carregada de dio, chamou-o pelo nome:
        - Fabrcio! Acorde! Quero falar com voc.
        Fabrcio abriu os olhos em esprito e, vendo o irmo a seu lado, desligou-se do
corpo e foi juntar-se a ele. Era a primeira
        vez que o via, e alegrou-se com sua presena.
        - Adriano! H quanto tempo! Por onde tem andado?
        - Por onde tenho andado? O que pensa? Que sa de frias? Eu morri!
        - E lgico que no morreu. Seu esprito vive, voc sabe. Deveria estar mais alegre.
        - Como posso estar alegre se voc tomou meu lugar?
        - Tomei seu lugar? - tornou o outro, confuso. - Mas do que est falando?
        - Ah! No sabe, no?
        -No, no sei.
        - Pois vou refrescar sua memria. Eu morri naquele acidente e voc continua a
vivo, ocupando o lugar que deveria ser meu.
        Fabrcio entristeceu-se. No sabia que o irmo estava com tanta raiva. Pensou que
ele houvesse sido socorrido, mas agora,
        reparando melhor, ele parecia uma espcie de demente. O corpo tinha a aparncia de
lesado. Havia sangue na testa, e os olhos
        tinham um brilho estranho.
        - Adriano, meu irmo, no entendo o que quer dizer.
        - No me chame de irmo! Nunca mais me chame de irmo, seu bastardo!
        - Bastardo? Como assim?
        - No sabe mesmo, no , idiota?
        - O qu? No sei o qu?
        - Voc  um intruso nesta casa. Devia voltar para o gueto de onde saiu.
        - Gueto? Mas o que  isso? No estou entendendo nada. - Voc, Fabrcio, no ...
        - Adriano!
        A voz severa de Ismael f-lo parar. Ele se voltou bruscamente para
        o av e, com o dio a consumir-lhe o corao, disparou: - Saia daqui, velho! No
chamei voc! - Adriano, venha comigo.
        - Ir com voc? Ha ha ha! Era s o que me faltava.
        - Venha comigo, Adriano. Voc no tem o direito de importunar Fabrcio.
        - Importunar? No o estou importunando.
        - Est tentando fazer algo que sabe ser proibido. - Proibido por quem? Por voc?
        - No. Pela divindade.
        - Que divindade, que nada! Deixe de besteiras, velho.
        - Adriano, estou lhe dando a chance de abrir os olhos e perceber seu erro. Se,
contudo, no quiser me ouvir, serei obrigado
        a tomar outra atitude.
        - No tenho medo de voc, velho - e, apontando para Fabrcio, continuou: - Quero
apenas contar-lhe a verdade.
        - Mas que verdade?- indagou Fabrcio, atnito. -No estou entendendo nada. E
voc, vov, o que faz aqui?- completou, dirigindo-se
        a Ismael.
        - Vocs j se conhecem, ?- tornou Adriano.
        - E lgico. Conheo Ismael de longa data. De vez em quando,
        ele e Helga vm me buscar para conversarmos, no  mesmo, vov? Ismael assentiu
e Fabrcio continuou:
        - Por falar nisso, onde est Helga? Ela no veio com voc? - Vir daqui a pouco.
        Helga no queria provocar ainda mais a fria de Adriano. Sa
        bendo que o rapaz se revoltara, preferiu deixar que Ismael cuidasse daquele assunto
sozinho. Embora desejasse muito estreitar
        Fabrcio contra o peito, no achou direito tentar impor sua presena.
        - Suma, velho! - continuou Adriano. - Ningum precisa de voc aqui.
        - Engana-se, Adriano. Voc precisa, e muito.
        - Por que fala assim com nosso av, Adriano? Deveria respeit-lo mais. E, depois,
se ele est aqui,  porque quer nosso bem.
        - Cale-se, Fabrcio! Sua voz de bonzinho me irrita! Vim aqui para lhe contar um
segredo e  o que vou fazer, quer esse velho
        queira, quer no!
        - Que segredo?
        Adriano olhou para Ismael e abriu a boca para falar. No mesmo instante, porm,
sentiu-se amarrado e amordaado, e logo tombou
        ao cho. Sem que percebesse, algumas entidades haviam se aproximado e o
agarrado, tapando sua boca com uma mordaa.
        - Mas o que  isso, vov?-perguntou Fabrcio aterrado. -Por que essa violncia toda?
E quem so vocs? Soltem meu irmo.
        Vov! Faa alguma coisa!
        - Deixe, Fabrcio. Esses espritos esto a servio do bem.
        -Como podem estar a servio do bem usando de toda essa violncia?
        Adriano tentava, desesperadamente, desvencilhar-se do jugo do que ele chamava de
seus algozes, mas era em vo. Os espritos
        eram em maior nmero e fora do que ele, e s o que pde fazer foi assistir
impassvel  sua derrota.
        - Eles no esto sendo violentos- esclareceu Ismael. - Esto sendo enrgicos.
Adriano no foi machucado nem ferido, mas
        no tem o direito de intervir nas questes dos encarnados.
        - Que questes? Por favor, vov, o que est acontecendo? No estou entendendo
nada.
        - Ainda no  o momento de voc compreender, Fabrcio, e foi por isso que tivemos
de adotar mtodos mais drsticos para
        conter seu irmo. Ele no est autorizado a lhe contar nada. Dei-lhe a chance de
desistir, por si mesmo, de revelar o que
        no pode. Mas ele se recusou a ceder por bem. Infelizmente, vai ter de obedecer 
fora.
        - Mas, vov, coitado...
        - Ele no  coitado. Ningum . E um esprito empedernido e
        rebelde, que se recusa a enxergar a verdade. Est tendo todas as chances de
progredir, mas no quer. Prefere continuar na
        obscuridade e na ignorncia, o que  um direito dele. Contudo, esse direito no pode
interferir no direito dos encarnados.
        E seu direito, nesse momento,  continuar vivendo como est.
        - Mas, vov, ele disse que tinha um segredo para me revelar. Que segredo  esse? Se
 algo que se refira a mim, tenho o
        direito de saber.
        - Voc tem uma srie de etapas a vencer em sua vida, mas sua opo foi envolver-se
em determinadas situaes por outros
        caminhos, no por intermdio de Adriano. Ao menos, no diretamente. Nenhuma
utilidade lhe trar a revelao desse segredo
        neste instante e nestas condies. Sim,  claro que voc tem o direito de saber.
Ainda mais porque voc escolheu viver esse
        segredo. Mas desvend-lo agora somente iria complicar sua jornada evolutiva. Voc
deve acertar-se primeiramente com seu
        pai. O dio de Adriano  outra histria.
        - Est sendo muito severo, vov. Amanh, ao acordar, prova
        velmente j terei esquecido tudo que aconteceu aqui hoje.
        - Ainda assim, Adriano no tem esse direito. Ele precisa apren
        der a conhecer seus limites.
        Mesmo sem entender, Fabrcio no disse nada. Se o av lhe dizia que no era ainda
o momento, ele acreditava e se resignava.
        Contudo, doa-lhe ver o irmo cado no cho, subjugado como se fosse um
criminoso.
        Adriano, por sua vez, roa-se por dentro. Fora obrigado a ouvir aquela conversa sem
poder dizer nada. Estava com tanto dio
        que seria capaz de matar o irmo. Contudo, as amarras eram poderosas, e ele no via
meios de se soltar.
        Com um sorriso bondoso, Ismael despediu-se de Fabrcio e, a um sinal seu, os
espritos auxiliares ergueram Adriano e o conduziram
        para fora. Ele foi se debatendo e grunhindo feito um animal, mas teve de ir. No lhe
restava escolha.
        Do lado de fora, Ismael deu ordens para que levassem Adriano a uma colnia
espiritual muito peculiar. Era uma espcie de
        priso. Os quartos eram como celas. Todas as portas eram trancadas. S que tudo
era muito limpo e perfumado, as paredes
        pintadas de branco, vasos com flores, janelas com cortinas que se abriam para
imensos jardins. Pareciam quartos de hospital. A nica diferena eram as por
        tas trancadas e as barras nas janelas.
        Os auxiliares colocaram Adriano em uma das celas com todo o
        cuidado e, em seguida, desataram os ns e retiraram-lhe a mordaa,
        postando-se bem ao lado de Ismael. Logo que se viu solto, Adriano
        investiu contra o av, tentando agarrar-lhe o pescoo.
        - Cachorro! - gritava ele. - Ordinrio! Canalha! Vai me pa
        gar caro por esta humilhao!
        No mesmo instante, foi agarrado pelos auxiliares e jogado so
        bre a cama.
        - Adriano-falou Ismael com ternura. -Acalme-se. Estou aqui
        para ajud-lo.
        - Ajudar? Como, se mandou esses brutamontes me agarrarem? - Eles so apenas
espritos, como voc. E esto me prestando um
       servio.
       - Belo servio esse... de guarda-costas...
       - No, Adriano, eles apenas cuidam para que voc no se pre judique.
       - Eu, me prejudicar? Eles esto defendendo  o seu pescoo. - Ao contrrio de voc,
meu filho, meu esprito j est mais
       refinado e, ainda que desejasse, voc no conseguiria me ferir. Suas
       mos nada podem contra mim e atravessariam a matria plasmada
       que voc chama de pescoo.
       Confuso, Adriano comeou a se acalmar e retrucou com voz chorosa:
       - Por que me trouxe aqui? - Foi preciso. - Estou preso? - No.
       - Ento solte-me. Deixe-me ir. - Ainda no.
       - Que lugar  este?
       -  apenas uma colnia-retiro, para onde so trazidos espritos que, como voc,
pretendem interferir na vida dos encarnados sem a permisso do Alto.
       - Colnia-retiro? Belo nome para uma priso.
       - No importa o nome que voc lhe d. O que importa  o trabalho que
desenvolvemos aqui.
       Adriano virou o rosto para seus detentores e ponderou:
       - Pea a eles que me soltem, Ismael. No sou nenhum condenado.
       - Promete que no vai tentar nada?
       - Prometo.
       Ismael balanou a cabea, e os espritos o soltaram. Ele se levantou, aproximou-se
da janela e elogiou:
       - Bonito lugar. E para que os presos no se sintam na priso?
       -  para que os espritos aqui acolhidos se sintam confortados.
       Adriano olhou para Ismael Pela primeira vez, sentiu uma pontada de emoo. Tudo
que ele falava, o av rebatia com palavras
       de ternura e compreenso. Aquilo acabou por comov-lo, e ele, cansado das lutas e
da revolta, desabou sobre a cama, afundou
       o rosto entre as mos e desatou a chorar. Ismael fez sinal para os auxiliares, que
saram discretamente, fechando a porta
       sem fazer barulho.
       Calmamente, aproximou-se do neto e tomou-lhe a cabea entre as mos, beijando-a
com carinho. Adriano, emocionado, estendeu
       os braos e agarrou-se a ele, entregando-se a um pranto convulso e sentido.
       - Oh, cus! - suplicou. - Por que tive de morrer? Por qu? Eu no queria!
       Ismael alisou-lhe os cabelos e ponderou:
       - Voc no morreu, Adriano. Apenas trocou de dimenso.
       - D no mesmo. No queria esta dimenso. Queria aquela, onde Fabrcio hoje vive,
ocupando meu lugar de filho. - No fale assim. Fabrcio  seu irmo.
       - No, no . E um bastardo, um intruso!
       - Pena que voc veja as coisas desse jeito. Quem mais sofre com tudo isso  voc.
       - Mas no  justo...
       - A justia divina  perfeita, meu filho, porque fica a cargo de uma das perfeies de
Deus, que  a nossa prpria conscincia.
       Por isso Ele no precisa nos castigar nem nos impingir nenhum sofrimento. Deus
no quer a dor de Suas criaturas. Quer seu
        crescimento. Ningum precisa sofrer para crescer. Sofremos porque ainda no
conseguimos entender que a dor s  necessria
        quando no acreditamos que podemos aprender pela via do amor.
        - Tudo isso  muito bonito. Mas eu estou sofrendo. E onde est Deus, que no evita
meu sofrimento?
        Apontando para o corao de Adriano, Ismael respondeu com doura:
        - Ele est a dentro. Basta que voc acredite em si mesmo, e Deus se manifestar em
voc.
        O pranto sacudia o peito de Adriano, que no conseguia mais falar. Sentia-se
arrasado, vencido, derrotado. Como fazer para
        conseguir seu intento?
        Percebendo-lhe a confuso de sentimentos, Ismael continuou:
        - No pense em destruir a vida de seu irmo, porque voc no vai conseguir.
Ningum  mais forte do que Deus, e as leis
        divinas dizem que a voc no  dado o direito de intervir.
        - Por qu? Sei que muitos espritos conseguem at se vingar.
        - Isso depende das necessidades de cada um. Alguns encarnados so mais
suscetveis, por diversas razes, aos ataques do
        invisvel, porque ainda esto impregnados de dio, de culpa, de medo... Os motivos
so muitos e os mais variados. Ainda
        assim, quando a sintonia entre o encarnado e seu agressor invisvel acontece, 
porque, de alguma forma, isso ser til
        para ambos, seja para que eles experimentem sensaes necessrias  compreenso
de seus processos de amadurecimento, seja
        para que se disponibilizem e contribuam com o esclarecimento um do outro. No
importa. O fato  que nem todos esto acessveis
        a esse tipo de interveno.
        - E Fabrcio no est.
        - No. Fabrcio tem sua prpria vida para viver. Vai passar por momentos difceis e
dolorosos, mas sem seu concurso direto.
        Voc no tem acesso a ele, Adriano, por mais que queira prejudic-lo. Por isso, no
est autorizado a contar-lhe a verdade
        sobre sua origem.
        - Mas ele tem de saber! Como ele mesmo disse,  um direito dele.
        - No procure ocultar seu dio por detrs dos direitos de seu irmo. Voc quer lhe
contar, no para esclarec-lo, mas para
        se vingar. E ou no ?
        Adriano baixou a cabea e concordou:
        - Est certo, admito. Mas, droga, tambm sou humano!
        -Ningum est dizendo o contrrio. S que Fabrcio tambm . E, quer queira, quer
no, ele  exatamente igual a voc.
        - E, por isso, voc resolveu me manter prisioneiro aqui?
        - Voc no  prisioneiro. Vai permanecer apenas o tempo su
        ficiente para se harmonizar. Quando aceitar o fato de que est proi
        bido de contar algo a Fabrcio e se dispuser a calar, poder partir.
        - Poderei? E como voc vai saber que manterei minha palavra? - Saberei.
        - Se no a mantiver, voltarei para c?
         - Se tentar falar de novo, irei a seu encontro exatamente como fui hoje. Voc ser
novamente trazido para c e passar um
         tempo recluso. Mas isso no acontecer para sempre. Lamentavelmente, se voc
insistir nesse caminho, cruzarei meus braos
         e o deixarei entregue apenas a meus auxiliares.
         - Como assim?
         - Eles so espritos que habitam os mundos inferiores e que se oferecem para nos
auxiliar com os espritos mais endurecidos,
         a fim de que possam, trabalhando a favor do bem, ir se libertando de suas culpas.
         - No entendi. Por que no pedem logo para vir para c ou qualquer outro lugar
melhor?
         - Porque no tm coragem. No se julgam dignos. No sabem que podem. No
acreditam quando lhes dizemos que podem sair das
         sombras no momento em que assim desejarem. Ns sabemos que todos podem e so
dignos da misericrdia divina, mas no podemos
         impor nada a ningum. O livre-arbtrio  sempre respeitado, e, se um esprito insiste
em se punir, embora saibamos que isso
         seja desnecessrio, s o que podei-nos fazer  respeit-lo. Respeitando o momento
de cada um, damos a chance aos espritos
         de se descobrirem e se perdoarem.
         - Sei. Mas o que esses auxiliares poderiam fazer comigo?
         -No se iluda com eles, Adriano. Embora estejam comeando a despertar para as
verdades do esprito, ainda esto muito arraigados
         aos valores terrenos. So como soldados que obedecem ao comando de seu superior,
mas nada decidem por si ss. Se acham
         que voc est fazendo algo que no deve, trataro de afast-lo e seguiro as ordens
de quem estiver no comando. Quando a
         meu servio, traro voc para c. Mas, se eu cruzar os braos, se no lhes der mais
nenhuma ordem, seguiro aquelas de seus
         superiores das trevas e o levaro s cidades do mundo inferior. L, voc ser
aprisionado ou cair nas mos de espritos
         poderosos que o escravizaro e o disponibilizaro para o servio do mal.
         - E se eu no quiser?
         - Se no quiser mesmo, de verdade, no se afinar com eles e no os atrair. Em
outras palavras, no pensar em fazer aquilo
         que sabe que no pode.
         Adriano calou-se pensativo. Ser que o que o av dizia era verdade ou ele dizia
aquilo s para assust-lo e afast-lo de
         Fabrcio? J ia dizer alguma coisa, mas Ismael levantou-se e, fazendo-lhe um afago,
foi para a porta.
         - Descanse. Mais tarde, Cia vir visit-lo e lhe trar algo para comer.
         Saiu e trancou a porta, deixando Adriano sozinho para refletir. Era tudo de que
precisava naquele momento: refletir sobre
         suas necessidades e sobre o que desejava realmente. S quando despertasse sua
conscincia  que poderia sair dali.
         Enquanto se arrumava para sair, Fabrcio ficou pensando no caso de Selena. Estava
claro que iriam vencer. Ele apresentara
        a fita como prova contra Cassiano, que no teria como refut-la. Por mais que
quisesse e que a submetesse a qualquer tipo
        de percia, estaria claro que a fita no fora montada e que as vozes ali contidas eram,
efetivamente, dele, de Aderbal e
        de Cassiano. Parecia-lhe perfeito.
        Terminou de ajeitar o n da gravata e olhou-se no espelho. A me entrou no quarto,
cuja porta estava entreaberta.
        - Ol, meu filho.
        - Oi, me. Como est?
        - Bem...
        As reticncias que ela deixou no ar fizeram-no pensar que algo de errado estava
acontecendo, e ele tratou logo de indagar:
        - O que houve? Tudo bem? Voc parece preocupada.
        Ela encarou o filho com imenso desgosto. Em seu ntimo, sabia que ele estava
prestes a descobrir a verdade e, por mais
        que desejasse, no poderia evitar. Flvia suspirou profundamente, segurou nos olhos
uma pequenina lgrima que teimava em
        cair e retrucou:
        - No  nada, meu filho. Ando cansada.
        - No seria melhor consultar um mdico? Se quiser, posso ligar para o Dr. Feliciano.
        - No, no precisa. Tenho certeza de que no  nada de mais.
        Fabrcio foi at o armrio e retirou sua pasta de trabalho, nela colocando alguns
papis importantes que estudara durante
        a noite. A medida que ia ajeitando os documentos, ia comentando:
        - Sabe, me, ontem sonhei com Adriano.
        - Sonhou? Foi um sonho bom ou ruim?
        - No sei ao certo. Mas me pareceu que ele estava muito revoltado.
        Flvia fez uma expresso de tristeza e, com os olhos rasos de gua, desabafou:
        - Ah, meu filho, como sinto falta de seu irmo!
        Fabrcio largou o que estava fazendo e sentou-se junto a ela, abraando-a com
ternura.
        - Eu sei, me. Todos sentimos.
        De repente, ela desatou a chorar convulsivamente. Estava amargurada, com medo
do futuro. Perdera um filho e estava prestes
        a perder o outro. Tinha medo da reao de Fabrcio se soubesse a verdade. Embora
ele fosse um rapaz muito espiritualizado,
        temia que se revoltasse com o fato de ela no lhe haver revelado a verdade desde
cedo. E, depois, talvez ficasse com raiva
        do pai. A vida inteira, Paulo sempre o discriminara. E, agora, mais do que nunca.
        - No chore, me - Fabrcio interrompeu seus pensamentos, estreitando-a cada vez
mais. - Sei que um filho no substitui
        o outro, mas estou aqui para lhe dar meu amor.
        - Tem razo - sussurrou ela, enxugando os olhos com as costas das mos. - Seu
amor  meu nico conforto. No gostaria de
        perd-lo tambm.
        - Mas o que  isso, me? No vai me perder. O que aconteceu a Adriano foi o
destino, mas no creio que o meu seja esse.
        Acho que escolhi viver muitos anos.
        Ela sorriu agradecida e baixou os olhos. No era a esse tipo de perda que se referia,
mas achou melhor se calar.
        Ouviram batidas na porta e olharam ao mesmo tempo. Era Olvia, que vinha avisar
que havia algum ao telefone, pedindo para
        falar com Fabrcio.
        - Disse quem ?
        - No. S disse que era urgente.
        Ele deu um beijo na testa da me e se levantou. - Vou atender na biblioteca.
        Entrou e fechou a porta. Levantou o fone do gancho e disse: - Al?-No houve
resposta. -Al? Al? Quem ? Quem fala? Um
        clique do outro lado indicou-lhe que haviam desligado.
        Quem seria? Embora no tivesse certeza, podia imaginar.
        Novamente, bateram  porta, e dessa vez foi Flvia quem entrou, trazendo nas mos
um envelope pardo.
        - Isso acabou de chegar para voc.
        Ele apanhou o envelope e ela continuou:
        - Quem era ao telefone?
        No querendo preocup-la, ele respondeu com indiferena:
        - Um cliente desmarcando um compromisso.
        O envelope continha algo um pouco pesado. No era uma carta, com certeza, e
Fabrcio rasgou-o em uma das extremidades, virando-o
        sobre a mesa para que seu contedo pudesse cair. No mesmo instante, Flvia levou
a mo  boca, sufocando um grito de pavor.
        - Meu Deus! - exclamou ela, aps o primeiro susto. - Quem teria feito uma maldade
dessas?
        Olhando para o ratinho morto  sua frente, asfixiado com um saquinho plstico de
balas, Fabrcio respondeu, j compreendendo
        tudo:
        - No sei, me. Deve ser alguma brincadeira de mau gosto.
        - Brincadeira? O pobre animalzinho foi torturado! Quem fez isso no tem corao.
        Fabrcio tinha certeza de que tanto o telefonema quanto aquele rato tinham vindo da
mesma pessoa: Cassiano. Ele o estava
        ameaando. Provavelmente, j soubera da anexao da fita aos autos e estava
tentando um ltimo e desesperado recurso.
        Ele virou o envelope nas mos e acrescentou:
        - No tem remetente.
        - Fabrcio, isso no est me parecendo nenhuma brincadeira. Parece mais algum tipo
de ameaa. Em que anda se metendo, meu
        filho?
        Ele olhou para a me, tentando acalm-la. Lembrou-se da conversa que tiveram
minutos antes e no quis preocup-la. Se ela
        soubesse que aquilo, provavelmente, viera da parte de Cassiano, ficaria muito
nervosa.
        Apanhou o ratinho com um pedao de papel, colocou-o de volta no envelope e
respondeu, tentando aparentar uma calma que,
        efetivamente, no sentia:
        - No fique preocupada. Isso no  nada srio. Foi apenas uma brincadeira, tenho
certeza.
        Beijou-a levemente na face e saiu, levando o envelope com o ratinho. Aquilo era
coisa de Cassiano, no tinha dvidas. Pena que no podia provar. O envelope no continha
        nenhuma carta,
        nem remetente, nem nada. Qualquer um poderia ter feito aquilo, e o juiz no se
convenceria de que fora Cassiano.
        Fabrcio colocou o envelope na lixeira, voltou para buscar sua pasta e foi trabalhar.
J na rua, ia preocupado. Aquele homem
        era perigoso e bem poderia fazer algo que prejudicasse Selena e as crianas. No
tinha dvidas de que ele no hesitaria
        em fazer-lhes algum mal. No se importava com ningum, nem com os filhos, e
tudo que queria era dinheiro.
        Chegou ao escritrio e no disse nada. No precisava preocupar Oflia
desnecessariamente. J bastava a me. Atendeu alguns
        clientes, foi ao frum e, no final da tarde, apanhou o carro e dirigiu-se para a casa de
Ins. No caminho, pareceu-lhe que
        algum o seguia. Olhou diversas vezes pelo retrovisor e constatou: um sed preto
seguia-o a distncia, fazendo ultrapassagens
        arriscadas para no o perder de vista.
        Mas o velho sed do perseguidor no era preo para seu moderno jaguar E-Type
importado, e Fabrcio, exmio motorista, acelerou
        o automvel e passou no sinal amarelo, deixando o sed preso trs carros atrs,
parado no sinal vermelho. Mais que depressa,
        entrou por uma rua lateral e fez o retorno, voltando para o centro da cidade pelas
ruas de dentro, enquanto o perseguidor
        passava direto e o perdia.
        Com medo de tomar a direo da casa da av, fez o percurso de volta e dirigiu-se
para Copacabana. Fosse quem fosse que o
        seguia, se descobrisse onde Selena estava escondida, seria muito perigoso. Era
preciso, antes de tudo, preservar Selena
        e as crianas. Alm disso, sua av j era uma senhora idosa, e ele temia tambm
pela segurana dela.
        Ao chegar em casa, apanhou o telefone e discou o nmero da casa da av. Foi ela
mesma quem atendeu, e Fabrcio contou-lhe
        o ocorrido. Ins ficou deveras preocupada. Depois que desligou, foi falar com
Selena.
        Ela estava sentada no sof, vendo televiso, tendo a filha de um lado, com a
cabecinha pousada em seu colo, e Carlinhos do
        outro, ambos dormindo sossegadamente. Vendo aquela cena, Ins sorriu. Selena era
uma me carinhosa e meiga, e os filhos
        a adoravam.
        - Dormiram?
        - Sim - fez Selena, alisando os cabelos de ambos ao mesmo tempo.
        - Vamos lev-los para o quarto?
        - Vamos.
        Ins se abaixou e tomou Carlinhos no colo, e Selena pegou Sel
        ma, que gemeu e se ajeitou em seu ombro. Subiram e os colocaram
        em suas camas. Selena beijou-os amorosamente, acendeu a luz do aba
        jur e saiu com Ins, deixando a porta aberta, como sempre. De vol
        ta  sala, Ins foi logo falando:
        - Selena, temos um problema. - Que problema?
        - Sabe a fita que Fabrcio gravou? Pois . Ele acha que Cassiano j sabe que ele a
juntou aos autos, e recebeu um telefonema mudo
        e um envelope com um ratinho morto...
        - Ratinho morto? Como assim?
        - Algum asfixiou um ratinho com um saco de balas e enviou para ele num
envelope.
        - Meu Deus! Que horror!
        - E hoje, quando vinha para c, foi seguido por um sed preto.Por sorte, conseguiu
despist-lo.
        - Nossa, Dona Ins, ser que foi Cassiano? - S pode ter sido.
        - Mas ele no tem carro.
        - Ento, foi algum a mando dele. Quem mais teria interesse em ameaar Fabrcio e
em segui-lo? Ele me disse que nenhum de seus
        casos envolve pessoas desse tipo. S pode ter sido Cassiano.
        - O que vamos fazer?
        - No sei. Mas ele acha que Cassiano est tentando descobrir onde voc est
escondida.
        - E agora? Ser que corremos perigo?
        - No sabemos. Por isso, Fabrcio acha prudente que voc e as
        crianas no saiam sozinhas.
        - Mas, Dona Ins, no posso ficar prisioneira. - E apenas por uns tempos.
        Abraada a Ins, Selena ps-se a chorar. Logo agora que tudo parecia estar tomando
o rumo desejado, Cassiano resolvia dar uma de
        louco e apavor-la. Selena no temia por ela, temia pelos filhos. Ja
        mais permitiria que o marido lhes fizesse algum mal. Em silncio, fechou os olhos e
orou a Deus. S Ele poderia ajud-los.
        Cassiano andava de um lado para o outro na sala de seu apartamento, enquanto
Anbal, fumando um cigarro, fazia rodelas com
        a fumaa e as soltava no ar.
        - Voc  um idiota! - bufava Cassiano. - Como pde perdlo de vista?
        - No sei. Ele me enganou. Ele passou no sinal amarelo e eu fiquei no vermelho.
No deu tempo.
        - Se o estivesse seguindo mais de perto, isso no teria acontecido.
        - Fiquei com medo de que percebesse.
        - E claro que ele percebeu. Seno, no teria acelerado daquela maneira. E voc  um
cretino! Devia ter prestado ateno
        na rua em que ele virou.
        - Como eu podia saber que ele ia entrar em outra rua? No sou adivinho.
        - Voc no presta para nada mesmo. E agora? Como vou descobrir onde Selena
escondeu meus filhos?
        - Oua aqui! - esbravejou Anbal, j perdendo a pacincia. - Estou nisto porque voc
 meu irmo e me pediu para ajud-lo.
        Mas, se quer me ofender, vou-me embora. No conte mais comigo.
        - No! - exclamou o outro. - No quero ofend-lo, Anbal. Estou nervoso. Pensava
que tinha aquela ordinria nas mos, mas
        tudo est indo por gua abaixo.
        - Ningum mandou voc e aquele seu advogado serem to estpidos. Onde j se viu
falar aquelas coisas no territrio do inimigo?
        O que esperava? Que ele lhe desse flores?
        - No podia imaginar que ele estivesse gravando a conversa. - Voc, no. Mas seu
advogado tinha a obrigao de prever. 
        pago para qu?
        - O Dr. Aderbal estava morrendo de medo. No fosse a grana que lhe prometi, no
teria entrado nesta.
        - Pois . S que agora deu no que deu. - O que vamos fazer?
        - No sei. Mas posso tentar segui-lo de novo.
        - Isso  que no! Ele j conhece seu carro e pode muito bem avisar a polcia. A
ltima coisa de que precisamos agora  sermos presos. Anbal apagou o cigarro no
        cinzeiro e apanhou a garrafa
        de cachaa, servindo-se de uma dose e estalando a lngua.
        - Ah! Nada como uma boa branquinha!
        Sem prestar ateno quele comentrio, Cassiano mudou de assunto:
        - Gostaria de ter visto a cara dele quando viu aquele rato.
        - Foi uma idia brilhante, no foi?
        - Digna de um gnio. De onde a tirou?
        - No me lembro direito. Li algo parecido num livro. Mas ser que essa ameaa vai
surtir efeito? Acha que ele vai voltar
        atrs e desistir de apresentar a fita?
        - Pelo que j deu para conhecer desse doutorzinho, acho que ele no  homem de se
deixar intimidar por qualquer coisa.
        - E se ele apresentar mesmo a fita? Como vai se sair dessa?
        - O Dr. Aderbal disse que talvez seja melhor tentarmos um acordo de verdade. Disse
que o contedo da fita  altamente revelador,
        comprovando que eu armei aquele flagrante e que no estou interessado no bem-
estar das crianas.
        - Que coisa!
        - Pois . Acho que ficamos sem sada. De qualquer sorte, vamos aguardar a
audincia. E pouco provvel, mas pode ser que
        o juiz no aceite a fita como prova. Nem todos aceitam.
        Cassiano no sabia quanto estava enganado. Sentado em seu gabinete no frum,
Otvio lia e relia a petio em que Fabrcio
        oferecia a fita como meio de prova. Se fosse mesmo como dizia, era altamente
comprometedora e colocava Cassiano numa situao
        bastante difcil. Fabrcio afirmava que Cassiano no s preparara aquele flagrante
com o irmo mas tambm pretendia transformar
        as crianas em fonte de renda, o que era uma indignidade.
        Aderbal estava apavorado, com medo de que o juiz fizesse uma representao 
Ordem dos Advogados do Brasil e ele fosse punido
        ou, pior, tivesse cassada sua licena para advogar. Se isso acontecesse, no sabia o
que faria de sua vida. Por que se deixara
        envolver naquela lOUCUra? Podia no ser um advogado brilhante nem muito
honesto, mas jamais se metera numa falcatrua to
        grande.
        Havia marcado com Cassiano em seu escritrio s duas horas, e ele acabara de
chegar. Como no tinha secretria, foi ele
        mesmo atender. Fez com que Cassiano entrasse e se sentasse. Era uma sala pequena
e suja, num prdio velho da Cinelndia,
        sem ao menos uma ante-sala.
        Cassiano sentou-se na poltrona rota e encardida e esperou. Meio sem jeito, Aderbal
pigarreou e comeou a dizer:
        - Muito bem, Sr. Cassiano, em que bela enrascada nos metemos, hein?
        Fixando-o com olhar irnico, o outro rebateu:
        - Espero que j saiba como nos tirar dela.
        - Sinceramente, no sei. A fita  muito comprometedora, no
        s para voc mas tambm para mim.
        - Voc tem de dar um jeito. No pode me deixar na mo.
        - Que jeito quer que d? O melhor seria tentar o acordo.
        - Mas que acordo? Acha que Selena, com um trunfo desses na
        mo, vai querer entrar em acordo comigo? S se fosse louca. Aderbal considerou
durante alguns segundos. Cassiano tinha
        razo: Selena no tinha mais nenhum motivo para negociar com ele. - Confesso que
estou numa enrascada, Sr. Cassiano.
        - Est? E eu? Estou prestes a perder tudo, porque voc nem se
        quer imaginou uma coisa to simples como uma fita. Eu devia ter adi
        vinhado. Aquele doutorzinho estava mesmo muito calmo. S podia
        estar aprontando alguma.
        - Pois . Camos num truque muito simples.
        - Ser que voc no tem como contestar aquela fita? Voc mesmo disse que nem
todo mundo aceita essas gravaes.
        - Posso tentar, mas acho difcil. Se o juiz a submeter a um exame tcnico, o perito
logo vai constatar que so as nossas
        vozes e que no h montagens na fita. Estamos mesmo perdidos.
        - Mas ns podemos negar. Ningum poder provar que somos ns mesmos.
        - No se iluda. Nossas vozes devem estar claras e bem reconhecveis.
        - Quando a ouviremos?
        - O juiz marcou nova audincia para a semana que vem. - O que faremos?
        - Nada. Acho que o melhor  nem comparecermos.
        - Ficou louco? Se eu no for, a  que o juiz vai dar ganho de causa a Selena.
        - Ele vai dar de qualquer jeito. Perca as esperanas de uma sentena favorvel a
voc. Selena j ganhou esta ao.
        Durante alguns segundos, Cassiano ficou remoendo as palavras
        de Aderbal. No queria lhe dar razo, mas no conseguia enxergar nenhuma sada.
Desesperado, levantou-se da cadeira e, aproximando
        o rosto do advogado, falou baixinho:
        - E se ns apagssemos o doutorzinho e aquela vagabunda?
        - Ficou louco? - Aderbal estava perplexo. - Faa isso e, alm de perder tudo, nunca
mais ver a luz do sol. As provas contra
        voc so incriminadoras, e ningum teria dvidas de que estaria metido nisso. E,
depois, o pai do Dr. Fabrcio  um poderoso
        e influente empresrio. Acha que deixaria barato? Colocaria at a polcia
internacional atrs de voc.
        Desanimado, Cassiano deixou-se cair na poltrona e resmungou:
        - Diabos! Tem de haver uma sada.
        - Infelizmente, no vejo sada alguma.
        - Pensei at em seqestrar as crianas, mas Anbal no conseguiu seguir o
doutorzinho para descobrir onde Selena as escondeu.
        - No faa isso! As penas para seqestro so muito severas.
        - Mas eu sou o pai!
        - Um pai que est prestes a perder a guarda dos filhos.
        Cassiano escondeu o rosto entre as mos e suspirou desalentado. Tinha de haver um
meio. Precisava pensar, e trataria de
        agir sozinho. Daria um jeito naquele doutorzinho, ainda que fosse apenas para se
vingar.
        Parada na porta da varanda, Selena pensava em sua vida. Quando se casara,
alimentava a iluso de que seria um casamento perfeito,
        apesar da oposio de seus pais. Cassiano no era rico, mas, at ento, era gentil e
carinhoso.
        No primeiro ano, tudo correra como num sonho. Ele a surpreendia com flores,
bombons, levava-a a lugares maravilhosos, at
        lhe recitava poesias. Quando Selma nasceu, ele pareceu feliz e enviou diversos
convites a seus pais para que fossem visit-la.
        Apesar de embevecidos com a neta, seus pais no mudaram de idia sobre seu
casamento e continuaram a no lhes dar nada.
        Foi ento que ele comeou a se modificar. Deu para beber e s voltava para casa
altas horas da noite, bbado e agressivo.
        Comeou a trat-la com desrespeito e grosseria. Sempre que chegava, cheirando a
lcool, segurava-a  fora e obrigava-a
        a deitar-se com ele, possuindo-a com brutalidade e selvageria. Aquilo a desgostou
        profundamente, e ela passou a rejeit-lo. Ele ento comeou a lhe bater. Sempre que
ela se recusava a fazer sexo com
        ele, l vinha pancada. At que ela, com medo de apanhar, tornou-se passiva e
deixou-se subjugar  vontade.
        Foi nesse clima que Carlinhos nasceu. Quando Selena descobriu que estava grvida
pela segunda vez, chegou a pensar em aborto.
        Mas no teve coragem. Ficou a imaginar o rostinho inocente do beb e sentiu que o
amava. Cassiano podia ser um monstro nojento,
        mas o filho em sua barriga era tambm seu, e ela no podia matar um ser cuja vida,
naquele momento, dependia apenas dela.
        Depois, Cassiano passou a bater nela por qualquer motivo. Mandava e gostava de
ser obedecido, e, quando ela o contestava,
        davalhe tapas no rosto e nas ndegas. Ela comeou ento a falar em desquite, mas
ele se recusava a aceitar a idia. veria
        seu dinheiro; tinha sido para isso que se casara.
        Fabrcio fora sua salvao. Pensando nele, seu corao bateu mais forte. Sentia que
o amava, mas s poderia ser dele no
        dia em que se desquitasse de Cassiano. Embora todo mundo a discriminasse e a
julgasse leviana e ordinria, era uma mulher
        direita e no aceitaria viver nenhuma relao obscura ou ilcita. J bastava a besteira
que fizera, entregando-se a Anbal.
        Os filhos brincavam no jardim. Selma ganhara uma casinha de bonecas, presente de
Clarinha, e ajeitava panelinhas, fogo,
        geladeira. Carlinhos, que j ensaiava algumas palavras, brincava com Ins, batendo
palminhas e balbuciando as msicas que
        ela lhe cantava.
        O menino comeou a bocejar e a esfregar os olhinhos, choramingando e apontando
para a me.
        - Mam, qu mam...
        Ins ergueu-o em seus braos e levou-o para junto de Selena, que o ajeitou no colo,
e ele logo adormeceu.
        - J estava mesmo na hora do soninho da tarde, no  mesmo? -considerou Ins.
        -j, sim.
        - Quer lev-lo para cima?
        - No, deixe-o aqui. Gosto de senti-lo junto a mim.
        Selena estreitou o filho junto ao peito e comeou a chorar dis
        cretamente, deixando algumas lgrimas carem sobre sua cabecinha. - O que  isso,
Selena? - falou Ins. - Por que ficou
        to triste?
        - Desculpe-me, Dona Ins - respondeu ela, tentando conter os soluos. - Estava
pensando em minha vida. Casei-me to cheia
        de iluses...
        - No se martirize por isso. Voc vai conseguir seu desquite, tem dois filhos
maravilhosos, um homem que a ama. No acha
        que chegou a hora de enterrar as iluses do passado e viver as alegrias do presente?
        - No sei. Temo que Cassiano faa alguma coisa contra mim ou contra meus filhos.
        - No tenha medo. Ele nada pode contra voc ou as crianas.
        - Como pode saber? O que lhe d essa certeza?
        Apontando para o alto, Ins respondeu convicta:
        - F, Selena, a inabalvel f no Criador.
        Como todos os sbados, costumavam receber a visita de Clarinha e de Fabrcio, que
chegavam sempre juntos. Naquele dia, porm,
        Fabrcio foi sozinho. Tocou a buzina e Ins foi abrir o porto. Ele passou
vagarosamente com o carro e foi estacion-lo
        na garagem.
        - Ol, Selena - cumprimentou ele, beijando-a na face. - O que houve? Estava
chorando?
        Ela tentou disfarar e fez sinal com o dedo para que ele no falasse alto, a fim de
no despertar o filho.
        - Espere um instante. Vou coloc-lo na cama.
        - Pode deixar que eu o levo - cortou Ins, estendendo o brao para apanhar o
menino.
        Selena beijou-o levemente e entregou-o a Ins, que subiu com ele para o quarto.
        - Ainda no respondeu  minha pergunta - tornou ele. - Esteve chorando?
        - No  nada - respondeu ela, fungando de leve. -j passou.
        Percebendo que ela no queria falar, Fabrcio no insistiu. Sabia quanto ela devia
estar sofrendo com aquilo tudo e soube
        respeitar seu recolhimento.
        - Tio Fabrcio, tio Fabrcio' - Selma veio correndo do jardim, toda chorosa, trazendo
numa das mos uma boneca e, na outra,
        uma perna solta. - Olhe s. Quebrou...
        - No chore, Selma. Tio Fabrcio conserta para voc.
        Enquanto ele tentava enfiar a perna da boneca de volta, Selena indagou:
        - E Clarinha? Por que no veio com voc?
        - Ela me telefonou de manh, dizendo que no estava bem. - O que ela tem?
        - No sei. Parece que anda tendo dores de estmago e desmaiando.
        - ? Mas ela no me falou nada.
        - Sabe como  Clarinha. Quer sempre dar uma de forte.
        - No ter sido por causa da discusso que teve com o pai? -No. Parece que j
vinha tendo isso h mais tempo.
        Ins, que acabara de chegar e ouvira o final da conversa, observou:
        - Por falar nisso, anteontem Feliciano me ligou. Disse que atendeu a Clarinha numa
emergncia.
        - E mesmo? E falou o que ela tem?
        - No. Disse que ficou esperando que o pai dela a levasse a seu consultrio, mas ele
no apareceu. Contudo, acha que ela
        no tem nada de fsico.
        - Ele acha que  espiritual?
        - Acha.
        - Estranho- observou Selena. - Clarinha vai sempre ao centro conosco, e nunca
percebemos nada.
        - Para falar a verdade, Selena, Clarinha no tem aparecido por aqui s quartas-feiras.
        -  mesmo. Ser que tem alguma coisa a ver?
        - E bem possvel. Muitas vezes, espritos ignorantes, no querendo perder o contato
com os encarnados, incutem-lhes o desnimo
        e a ausncia de vontade de ir. No fundo, tm medo de serem descobertos e
obrigados a olhar para si mesmos. No querem largar
        suas vtimas e fazem com que elas no sintam vontade de procurar ajuda, pois s
assim podem fazer o que bem entendem.
        - Acha que  isso que est acontecendo com Clarinha, vov?
        - Pelo que Feliciano disse,  bem provvel.
        - Nossa! E o que faremos para ajudar?
        - Precisamos convenc-la a ir. No sei por qu, mas algo me diz que Adriano 
responsvel por isso.
        - Adriano? Mas como, vov? Adriano a amava. Por que lhe faria algum mal?
        - Porque pode estar se enganando. Talvez nem perceba que a
        est prejudicando. Por isso, a melhor maneira de ajudarmos os dois  fazendo com
que ela v ao centro. Mais tarde, vou telefonar
        para ela.
        Ins desceu as escadas da varanda, onde Fabrcio e Selena estavam sentados, e foi
juntar-se a Selma, que, feliz com a boneca consertada, brincava de casinha.
        Em sua casa, Clarinha, deitada na cama, contorcia-se de dor. Elisete e Bernardo,
desesperados, j pensavam em intern-la,
        e ele corria de um lado para o outro, tentando achar o telefone do mdico.
        - Mas que droga! - maldizia. - Nunca se acha o telefone quando se quer!
        - Ligue para o Dr. Feliciano, depressa! - implorou Elisete, aflita.
        - Aquele curandeiro? Nunca!
        - Ento vamos lev-la ao hospital novamente! Por favor, ela est sofrendo!
        Enquanto eles discutiam, Clarinha, apertando o ventre com fora, gritava e se
contorcia cada vez mais.
        - Ai, me! Como di! No sei o que est acontecendo comigo! Di muito!
        - Calma! Bernardo, pelo amor de Deus, faa alguma coisa!
        - Estou tentando chamar uma ambulncia!
        - Me, no agento! Est doendo muito! Parece que me reviram as entranhas! Vou
vomitar! Ajude-me, vou vomitar!
        A me, desesperada, segurou o brao da filha, tentando ajudla a se levantar. Mas
Clarinha no conseguiu e desmaiou, quase
        derrubando Elisete.
        - Bernardo, acuda! Ela desmaiou!
        Bernardo correu para o quarto da filha. Vendo-a desmaiada, lvida como cera,
apavorou-se. Ergueu-a no colo e, dirigindo-se
        a Elisete, ordenou:
        - Apanhe as chaves do carro! Depressa! Vamos lev-la ao hospital!
        Enquanto seguiam em direo ao hospital, Elisete ia em silncio, intimamente
torcendo para que Feliciano estivesse de planto
        naquele dia. O exame de sangue da filha no acusara nenhuma anormalidade, e
Bernardo levara-a a um especialista em doenas
        gstricas. O mdico passou uma bateria de exames, e nada. Clarinha no tinha
doena alguma. Embora no soubesse explicar,
        tinha esperana de que Feliciano pudesse ajud-la.
        Chegando ao hospital, foram atendidos por uma enfermeira, que deitou Clarinha na
cama e saiu para chamar o mdico. Pouco
        depois, Feliciano apareceu, e Elisete quase pulou em seu pescoo.
        - Graas a Deus, doutor! Tive medo de que no estivesse aqui
        hoje.
        Feliciano cumprimentou-os com simpatia, ignorando o ar de desagrado de
Bernardo, e foi examinar Clarinha. Como da outra
        vez, no encontrou nada de errado. Depois que ela voltou a si, receitoulhe um
remdio para enjos e foi falar com os pais.
        - E ento, doutor?- indagou Elisete, logo que ele se aproximou. - O que ela tem?
        - Quer mesmo saber? Nada. Sua filha no tem nada.
        - Mas isso  impossvel - contestou Bernardo. - Tem certeza de que a examinou
direito?
        - Fiz todos os exames possveis numa emergncia. Contudo, alguns mais especficos
e detalhados seriam recomendados.
        - Sabemos disso, doutor - adiantou-se Elisete. - J fizemos todos os exames
possveis. Ns a levamos a um especialista,
        mas ele tambm no constatou nada.
        - Hmm... estranho.
        - Pois . Comeo a pensar que... - Calou-se temerosa, olhando de soslaio para o
marido.
        - Pensar o qu, Dona Elisete?
        Tomando coragem, ela inspirou fundo e disparou:
        - Comeo a pensar se isso no  obra de um esprito malvado. - O qu? - indignou-
se Bernardo. - Ficou louca, Elisete? De
        onde tirou essa idia?
        - No sei. Mas Clarinha no tem nada de fsico. Ningum descobre nada. No acha
isso esquisito?
        - Esquisito, . O que no significa que ela esteja sendo vtima de assombraes.
        No dando ouvidos ao que o marido dizia, Elisete virou-se para o mdico e
suplicou:
        - Doutor, Clarinha disse que o senhor freqenta o centro esprita de Dona Ins e que
at ela j foi l. Acha possvel que
        ela esteja sendo perturbada por algum esprito?
        - Elisete, pelo amor de Deus! - gritou Bernardo, colrico. - Pare j com essa
besteira!
        Clarinha, que vinha chegando mais disposta, ouvindo aquela discusso, indagou
assustada:
        - O que est acontecendo aqui? Por que esto discutindo?
        Bernardo aproximou-se dela, segurou-a pelo brao e saiu puxando-a para fora,
enquanto dizia para a mulher:
        - Venha, Elisete. Seno, mando intern-la num hospcio. Voc e sua filha!
        Elisete lanou um olhar de profundo desgosto para Feliciano. Gostaria muito de
pedir-lhe ajuda, mas Bernardo jamais consentiria.
        Era um homem rgido e ctico, e no acreditava em nada que no fosse obra do
homem. Feliciano, porm, discretamente colocou
        em suas mos um carto, que ela, mais que depressa, enfiou na bolsa. Sorriu para
ele em agradecimento, rodou nos calcanhares
        e seguiu o marido.
        Saram e ajudaram Clarinha a se acomodar no banco traseiro do automvel. A seu
lado, Adriano olhava-a sem conseguir compreender.
        S o que queria era abra-la. Aproximara-se dela e a envolvera num abrao
caloroso, carregado de um sentimento que ele
        chamava de amor. Ela, ao invs de o receber com alegria, comeou a se curvar sobre
o corpo, urrando e gemendo de dor, como
        se ele fosse alguma peste. No conseguia entender, mas j comeava a desconfiar
que sua presena talvez tivesse algo a ver
        com aquilo. Era coincidncia demais. Sempre que ele se aproximava, ela passava
mal.
        Ficou to impressionado e assustado que, daquela vez, resolveu segui-los ao
hospital. Ao ouvir as palavras de Feliciano,
        sentiu imenso desgosto. Pde ler-lhe os pensamentos e descobriu que o mdico
tinha certeza de que Clarinha estava sendo
        vtima de constante obsesso. No princpio, revoltou-se. Quem ousaria obsidiar sua
noiva? Quando descobrisse, daria uma
        lio no atrevido.
        Mas agora, sentado a seu lado, comeou a refletir melhor. Desde que desencarnara e
passara a visit-la, no vira mais nenhum
        esprito a seu lado. Apenas ele. Ele... Mas ento? Quem seria o obsessor? Ele!? No,
no podia ser. No era um obsessor.
        Era um apaixonado. No tinha mais um corpo de carne, mas seu corao
permanecia o mesmo. Amava Clarinha como sempre amara.
        Pensando melhor, talvez fosse possvel. Desde que a descobrira a pensar naquele tal
de Otvio, seu dio s fez aumentar.
        Julgava-se nico em seu corao, em sua lembrana, em seus pensamentos. Mas
agora percebia que ela j no pensava mais nele
        como antes e talvez at estivesse comeando a esquec-lo. S pensava naquele
Otvio, que s vira uma vez. Isso o enchera
        de um dio to grande que, se pudesse, mataria o juiz.
        Como no podia mat-lo, investia furiosamente contra Clarinha. Naquele dia,
deixara-se dominar pelo cime e pelo desespero,
        e a abraara, numa tentativa desesperada de faz-la sentir seu amor. E o que
conseguira? Ela comeara a passar mal novamente,
        pior ainda do que das outras vezes. E quem era o responsvel? Ele. S podia ser ele.
        Esse pensamento causou-lhe imensa tristeza. Contudo, no havia nada que pudesse
fazer. Clarinha era sua, pertencia-lhe para
        sempre. No podia prescindir dela. Embora estivessem em planos diferentes, ele
podia v-Ia, ouvi-la, senti-Ia. Ficou a imagin-la
        nos braos de outro homem e pensou que iria enlouquecer.
        O carro continuava rodando, e Adriano deitou a cabea no colo de Clarinha, que
nada percebeu. De onde estava, podia ouvir
        os pensamentos de Elisete. Ela pensava em Feliciano e em Ins, av de Adriano.
Elisete sabia que, de vez em quando, o mdico
        freqentava o centro de Ins, e ela alimentava o desejo silencioso de ir at l.
        Mas Clarinha no podia mais ir. Antes, Adriano tirava-lhe a vontade de ir para no
se afastar dela. Sabia que Ismael e Cia
        eram mentores daquele centro, bem como a tal de Helga, me de Fabrcio. Como
no gostava de se encontrar com eles, incutia
        em Clarinha o desnimo e a preguia, e ela se deixava envolver, achando o centro
uma chatice.
        Agora, porm, no podia ir por medo de que quisessem afastlo dela. Se ele
realmente fosse a causa de seu mal-estar, dariam
        um jeito de afast-lo. Talvez at chamassem Ismael para lev-lo para aqueIa priso
que ele chamava de colnia-retiro. E
        Adriano no queria
         ir. Fora muito bem tratado ali, e Ismael o deixara sair assim que se convencera de
que ele no falaria nada a Fabrcio.
         Mas o que faria se descobrisse que ele estava obsidiando Clarinha? Na certa o
levaria de volta.
         Chegaram em casa, e Adriano seguiu-os acabrunhado, com medo de que Ismael ou
Cia l estivessem. E se tambm houvessem escutado
         os pensamentos de Elisete? E se tivessem atendido a seu apelo? Mas no. No havia
ningum ali. Elisete no tinha f. Estava
         amedrontada, mas no tinha f. Queria experimentar qualquer coisa. Se a
mandassem levar a filha ao Tibete, com certeza a
         levaria. No por f, mas por desespero. De qualquer sorte, o desespero acaba por
levar  f, e Elisete, aos poucos, acabaria
         se convencendo e acreditando com o corao. O que faria?
         Depois que Clarinha adormeceu, Adriano saiu e ficou perambulando pela rua.
Aonde iria? O que podia fazer? Estava triste,
         amargurado. No queria aquela vida, mas no podia evitar. Suas duas maiores
preocupaes eram Clarinha e Fabrcio. Amava-a
         aos extremos e odiava o irmo com todas as suas foras.
         Pouco depois, chegou a seu apartamento. J era tarde, e todos estavam dormindo.
Foi at seu quarto e espiou. A cama estava
         arrumada como sempre, e ele se deitou, pondo-se a chorar. S agora percebia a falta
que sentia do lar.
         Passados alguns instantes, ouviu o som de uma fechadura se abrindo e foi olhar.
Fabrcio acabara de chegar. Era quase meianoite,
         e ele podia imaginar que o irmo passara a noite na casa da av, em companhia de
Selena. Na mesma hora, Adriano colou-se
         ao pai, que despertou imediatamente. Tambm ouvira rudos, s que de passos no
corredor, e levantara-se para ver.
         Assim que Fabrcio pousou a mo na maaneta da porta de seu quarto, ouviu a voz
irritadia do pai:
         - Fabrcio! Chegando tarde de novo?
         J cansado daquelas cobranas, o rapaz se virou e falou, tentando controlar a m
vontade:
         - Boa noite, pai. Perdeu o sono?
         - No. Estava dormindo at que muito bem. S que ouvi barulho no corredor...
         - Sei. Mas, agora que j viu que sou eu, pode voltar a dormir sossegado.
         Fabrcio ia abrindo a porta quando a voz do pai se fez ouvir novamente:
         - Onde esteve?
         -De novo com isso, pai?No acha que fica ridculo um homem de minha idade,
advogado, ter de dar satisfaes de seus passos
         ao prprio pai?
         Paulo teve vontade de gritar: "No sou seu pai!" Ao invs disso, mordeu os lbios e
retrucou:
         - Esteve com aquela mulherzinha?
         L vinha ele de novo. Parecia que Paulo sentia prazer em irrit
         lo. Fabrcio pensou em dar-lhe uma resposta a altura. Mas estava can
         sado e achou que era melhor no discutir, arrematando com frieza: - Boa noite, pai.
        Abriu a porta do quarto e entrou rapidamente, deixando Paulo parado no corredor,
remoendo sua raiva. Junto a ele, Adriano
        tambm se roa. Cada vez que Fabrcio chamava Paulo de pai, tinha vontade de
esmurr-lo. Com que direito o chamava de pai?
        No era seu filho, no era ningum.
        Paulo voltou para seu quarto e deitou-se na cama. A seu lado, Flvia dormia
tranqilamente. Por sorte, no escutara nada.
        Olhando para ela, o corao de Adriano se acalmou. Ela realmente o amava. Sentia
saudade dele e orava todas as noites por
        ele. De onde estava, Adriano recebia suas oraes. Pena que ainda no lhes desse
valor.
        No dia seguinte, bem cedo, Olvia foi chamar Fabrcio para atender ao telefone. No
eram nem sete horas, e os pais dele
        ainda dormiam.
        - Desculpe-me, Fabrcio - falou ela. - Falei que voc ainda estava dormindo, mas a
pessoa ao telefone disse que era urgente.
        -No faz mal, Olvia. Fez bem em me chamar.
        Levantou-se da cama, bocejou e vestiu o robe, seguindo para a biblioteca. Ainda
sonolento, ergueu o fone do gancho e falou:
        - Al? - Silncio. - Al?
        Ficou escutando a respirao ofegante do outro lado da linha at que, afinal, algum
respondeu:
        - Dr. Fabrcio, acha que os ratos merecem viver?
        Desligaram. Fabrcio podia imaginar quem era. Cassiano estava
        tentando amedront-lo. Mas no tinha importncia. Ele trataria de resolver aquele
assunto na mesma hora. Correu a seu quarto,
        abriu a pasta e retirou seu caderninho de telefone. Procurou o nmero de Cassiano e
voltou  biblioteca, discando rapidamente.
        A mesma voz de antes atendeu, e ele falou em tom grave e decidido:
        - Acho que os ratos merecem a gaiola.
        Desligou rapidamente e comeou a rir, imaginando a cara de espanto de Cassiano.
Se ele pretendia intimid-lo, podia ir perdendo
        as esperanas. Fabrcio no se deixaria intimidar com facilidade.
        Em casa, parado com o fone na mo, Cassiano espumava. Estava tentando
amedrontar Fabrcio, mas no estava obtendo sucesso.
        Alm de tudo, o jovem advogado era bastante atrevido. Mais at do que ele. Pensou
em quanto seria difcil assust-lo para
        que no apresentasse aquela fita, mas agora estava certo de que nada conseguiria.
Pelo visto, no teria sada. Seria obrigado
        a desistir de seus planos.
        No dia da audincia de prosseguimento, Fabrcio chegou cedo com Selena. Aderbal
e Cassiano ainda no haviam chegado e, quando
        o oficial apregoou seus nomes, somente os dois entraram na sala. Acomodaram-se
em suas cadeiras e aguardaram.
        - Boa tarde - cumprimentou o juiz Otvio. - Onde est o Sr. Cassiano?
        - No sabemos, excelncia - respondeu Fabrcio respeitosamente.
        - Vamos aguardar apenas cinco minutos. Se no vier, iniciaremos sem ele.
        Os cinco minutos se escoaram, e nada de Cassiano aparecer. Vendo que ele no
vinha, o juiz tomou novamente a palavra:
        - Muito bem. Vejo que no vem mesmo. Nem seu advogado compareceu ou deu
qualquer satisfao, o que considero um descaso
        com esta justia. - Encarou Fabrcio com simpatia e disse: - O senhor afirma possuir
uma fita incriminando-os, e eu gostaria
        de ouvila. Trouxe-a consigo?
        - Sim, excelncia - Fabrcio abriu a pasta e retirou a fita, exibindo-a ao juiz. - Aqui
est.
        - Trouxe gravador?
        Fabrcio assentiu e apanhou o aparelho.
        - Ento, vamos ouvi-la - ordenou Otvio.
        O oficial ajudou Fabrcio a ligar o gravador e colocar a fita. Pouco depois, as vozes
se elevaram nitidamente:
        - Bom dia, Dr. Fabrcio... - era a voz de Aderbal, a primeira a se ouvir na gravao.
        Durante quase uma hora ouviram a fita. Seu contedo, efetiva
        mente, era muito comprometedor. Cassiano pretendia trocar os filhos por dinheiro.
Queria que a mulher convencesse os pais
        a fazer um adiantamento de legtima em troca das crianas. E depois confessava,
literalmente, a armao do adultrio e do
        flagrante. No restavam dvidas. Tudo no passara de um embuste.
        - Dr. Fabrcio-comeou o juiz-, j ouvi algumas fitas em minha vida profissional.
Em geral, maridos e mulheres que pedem
        a detetives que gravem conversas ao telefone, declaraes de amantes, confisses de
amor. Mas nunca ouvi nada semelhante.
        Fabrcio endireitou-se na cadeira e retrucou:
        - Sei disso, excelncia. Confesso que tambm fiquei impressionado.
        - Sabe que a autenticidade dessa fita poderia ser contestada, no sabe?
        - Sei, sim, senhor. Contudo, estou pronto a submeter a fita a qualquer exame tcnico
que Vossa Excelncia entender necessrio.
        A fita  autntica, e no tenho medo da percia.
        - Compreendo. - Otvio considerou durante alguns segundos e comentou: -
Entretanto, Dr. Fabrcio, seu ex-adverso no compareceu...
        - No, excelncia. Talvez porque no tenha o que dizer. Ele tambm sabe que a fita
 verdadeira.
        - Sei... Bem, dada a ausncia da parte r, vou considerar autntica a fita e admiti-la
como prova. O senhor agora pode fazer
        suas ltimas alegaes.
        - Excelncia - comeou Fabrcio -, creio que o contedo da fita  altamente
revelador e dispensa maiores digresses. Gostaria
        tambm de chamar ateno para o fato de que o Sr. Cassiano no compareceu,
perdendo a oportunidade de impugn-la. Assim
        sendo, peo que leve isso em conta e aplique a presuno de veracidade dos fatos
alegados pela parte autora. Dona Selena,
        minha cliente, foi vtima de uma trama. Seu marido, homem rude e mal
intencionado, casou-se com ela com vista a sua herana.
        Em seguida, passou a mal
        trat-la, espancando-a e aterrorizando os filhos. Percebendo a iminncia do desquite,
tornou uma medida desesperada. Mancomunado
        com o irmo, preparou o adultrio e o flagrante. Sabendo que a mulher, carente e
ferida, encontrava-se sozinha, amedrontada,
        desiludida, fez com que o Sr. Anbal a seduzisse e a conduzisse para o quarto, onde
mantiveram, por uma nica vez, relao
        sexual. Restou claro tambm que as crianas no estavam em casa e que o bero do
beb se encontrava vazio. Foi tudo combinado
        para que o Sr. Cassiano entrasse na hora para fotograf-los em pleno ato sexual,
garantindo, assim, a prova do adultrio.
        E tudo isso para qu? Para chantagear minha cliente, oferecendo-lhe aguarda dos
filhos em troca da parte que lhe cabe em
        sua herana. Diante dos fatos, Excelncia, restou provado que o Sr. Cassiano
concorreu para que Dona Selena cometesse o
        adultrio, razo pela qual no pode esse flagrante ser invocado como fator de
culpabilidade da autora. Est ainda amplamente
        demonstrado que o ru submetia a mulher e os filhos a tortura fsica e emocional.
Assim sendo, espera a autora que seja
        o ru considerado culpado e que seja decretado o desquite, autorizando-se a
separao dos cnjuges e pondo-se fim ao regime
        matrimonial dos bens.
        Dada a palavra ao membro do Ministrio Pblico, este foi totalmente a favor de
Selena e repetiu, praticamente, as mesmas
        palavras de Fabrcio. A audincia foi encerrada e marcado o prazo de dez dias para
leitura da sentena. Embora Otvio j
        tivesse formado seu convencimento, queria redigi-la com cuidado e ateno.
        Durante os dias que se seguiram, nem Cassiano nem Aderbal apareceram. Fabrcio
ficou  espera de um telefonema, ainda que
        ameaador, mas nada. O homem parecia haver desaparecido.
        A sentena foi clara e precisa. Otvio considerou Cassiano culpado pela separao e
decretou o desquite, dando a guarda
        das crianas  me e fixando ainda a quota com que deveria concorrer para a criao
e educao dos filhos. Foi uma alegria
        para Selena, que pde, finalmente, respirar mais tranqila. Ela estava to feliz que
nem sabia ao certo o que dizer.
        - Fabrcio, nem sei como lhe agradecer.
        - Voc no tem de me agradecer. Fiz apenas meu trabalho.
        - Voc foi brilhante! E muito eficiente-disse, emocionada, calando-se em seguida.
        Fabrcio tomou sua mo e levou-a aos lbios, sussurrando com emoo:
        - Sabe que no fiz isso apenas por profissionalismo, no sabe? Ela no respondeu, e
ele continuou:
        - Eu a amo. E no h nada agora que impea nosso amor.
        Selena ps-se a chorar baixinho. J havia sofrido tanto! Ser que no estaria se
iludindo mais uma vez, e o amor de Fabrcio
        no terminaria assim que ele a tivesse em sua cama? Percebendo-lhe a hesitao e o
medo, Fabrcio passou o brao ao redor
        de seu ombro e puxou-a para si, beijando-a apaixonada e longamente. Ela
correspondeu ao beijo com ardor e logo percebeu
        o quo sincero ele estava sendo. Aquele gesto era mais do que um simples beijo. Era
um ato de amor.
        Andando de um lado para outro no escritrio de Aderbal, Cassiano esbravejava:
        - Aquele cretino! Como isso pde acontecer?
        - Acalme-se, Cassiano. No tnhamos sada.
        - No tnhamos? Eu trabalhei anos para conseguir uma boa
        situao na vida, e voc deixa tudo ir por gua abaixo da noite para
        o dia!
        - Ei! Calma a! A culpa no foi minha. Ningum mandou voc armar aquele
flagrante de adultrio.
        - E ningum mandou voc ser to burro! - Isso agora no adianta nada.
        - Ah! No adianta, no ? Pois garanto-lhe que isso no vai ficar assim. Perdi Selena
e o dinheiro, mas ele tambm no vai
        ficar com a herana!
        -O que pretende fazer?
        - No  de sua conta. Mas no se preocupe. Saber pelos jornais. - No conte
comigo para mais nada.
        - No preciso de voc. Est despedido.
        - Ah, ? E meus honorrios?
        Fitando-o com ar de desdm, Cassiano rebateu com ironia: - V reclam-los na
polcia.
        Saiu batendo a porta e foi para casa. Ligou para o irmo, pedindo que o encontrasse
imediatamente.
        Anbal chegou cerca de meia hora depois.
        - O que houve?
        - Quero acabar com aquele doutorzinho. - Quer?
        - E voc vai me ajudar. - Eu?
        - Ele me tomou tudo que eu tinha, mas vai ver s uma coisa. - O que pretende fazer?
Embosc-lo?
        - At que no seria uma m idia. Ele tem dinheiro, no tem? - E da?
        - E da que desperta a ateno de qualquer ladro, no  mesmo? - Pretende forjar
um assalto?
        - Sim. Sei onde ele mora. Basta observ-lo, e logo saberei a que
        horas costuma chegar. Da,  s roubar seu carro e mat-lo.
        - Isso  loucura. Um carro daqueles! Logo seria encontrado! - Imbecil! No vou
ficar com ele! Vou dar sumio no carro assim que fugir.
        - Vai? Para onde?
        - Ainda no sei. Pensei em lev-lo l para os lados de Caxias e tocar fogo nele. O
que acha?
        - Hmm... No sei. Pode no dar certo.
        - Voc  mesmo um covarde! Est com medo. - No estou com medo. S no quero
ser preso. - No vai ser! Eu lhe garanto. -
        E o Dr. Aderbal?
        - Eu o despedi. E um incompetente.
        Aps pensar por alguns instantes, Anbal acabou por aceder: - Est bem. O que quer
que eu faa?
        - Na verdade, quase nada. Voc apenas ser meu libi. Aquele doutorzinho de meia-
tigela vai ter o que merece. Eu bem que o avisei para que no se metesse comigo.
        Pensou que eu estava brincando, no  mesmo? Pois vai ver s!
        Na noite seguinte, Cassiano deu incio ao plano. Postou-se do outro lado da rua e
ps-se a vigiar os passos de Fabrcio.
        Em pouco tempo, j conhecia seus hbitos: a que horas saa e a que horas voltava.
Durante a semana, costumava ir trabalhar
        de carro ou de txi. Entretanto, todos os fins de semana saa de automvel e s
voltava tarde da noite.
        O prdio em que ele morava no tinha vigia noturno. Fabrcio tinha de saltar do
carro para abrir o porto da garagem, o
        que seria tempo mais do que suficiente para agir. Cassiano se esconderia nas
sombras e, quando ele chegasse, saltaria diante
        dele, tir-lo-ia do automvel e lhe daria trs tiros  queima-roupa. Em seguida,
entraria no carro e sairia em disparada.
        No havia como errar. Todos pensariam em roubo de carro, e ningum poderia lig-
lo ao crime. Anbal estava disposto a jurar
        que ambos haviam permanecido em casa, bebendo e assistindo  TV. Contar-lhe-ia
o filme que estivesse passando e ningum
        poderia duvidar de sua palavra.
        Aps o desquite, Fabrcio e Selena tornaram pblico seu romance. Iam a bares e
cinemas juntos, eram vistos passeando com
        as crianas nos parques e praas, na praia e no zoolgico. No se largavam. Estavam
apaixonados e pretendiam viver juntos.
        Era sbado de sol, e Selena estava na praia em companhia de Fabrcio, Clarinha e as
crianas. Haviam armado a barraca e ajeitaram
        as crianas na sombra, e elas se entretinham em brincar com baldinhos, pazinhas e
forminhas.
        - Nossa, Selena - queixou-se Fabrcio -, est fazendo um ca
        lor! Acho que vou para a gua. Algum quer ir?
        - No, obrigada, meu bem. Iremos depois. - Est certo, ento.
        Fabrcio levantou-se e foi para a gua, e Clarinha elogiou: - E um belo rapaz.
        - E sim. Tive sorte de encontr-lo.
        - To diferente de Adriano! Quem no os conhecesse, no diria que eram irmos.
        - Ainda sente a falta dele?
        - Um pouco. Eu o amava, ns amos nos casar. Mas no h nada que o tempo no
cure, no  mesmo?
        -  verdade.
        Clarinha inspirou o aroma do mar e mudou de assunto: - As crianas esto felizes.
        - Esto, sim. Fabrcio  muito atencioso com elas. To atencioso, que elas nem
sentem a falta do pai.
        - Cassiano desapareceu mesmo?
        - Acho que sim. Soube que continua morando no mesmo apartamento. Voc sabe,
ns no tnhamos nenhum bem juntos, e o apartamento
        era alugado.
        - Ainda bem, no ? Seno, teria de dividir tudo com aquele cafajeste.
        Clarinha parou de falar, boquiaberta. Fabrcio vinha voltando da gua em
companhia de um homem alto, moreno, muito atraente.
        Chegando perto delas, Fabrcio foi logo apresentando-o:
        - Selena, Clarinha, lembram-se do juiz Otvio? Foi ele quem presidiu nosso
processo.
        - Como no? - respondeu Selena, recordando-se muito bem dele. - Como vai,
doutor?
        - Muito bem, e a senhora?
        - Agora est tudo bem.
        - E a senhorita? - dirigiu-se a Clarinha. - Dona Ana Clara, no ? Como vai?
        Clarinha ficou encantada. No sabia por que obra do destino Otvio aparecia assim
em sua frente, mas o fato  que aparecera
        mesmo.
        - Vou bem, juiz, e o senhor? - respondeu ela timidamente.
        - Por favor, no me chamem de juiz ou de doutor. No estamos no frum. Tratem-
me apenas por Otvio.
        Ela enrubesceu, e Fabrcio, na mesma hora, notou que o juiz olhava para ela de um
jeito especial. At Selena percebeu e
        cochichou com ele:
        - Acho que nosso juiz est interessado em Clarinha. Fabrcio sorriu e revidou:
        - Sabe, Dr. Otvio, estvamos pensando em almoar depois da praia num
restaurante aqui perto. No gostaria de nos fazer
        companhia?
        - Depende. S se vocs pararem, de uma vez, de me chamar de doutor.
        A simpatia entre eles foi instantnea. Otvio era um homem culto e agradvel, e
impressionou Clarinha mais do que ela esperava.
        Fora muita coincidncia. Alis, coincidncia nenhuma. Ela j estudara o suficiente a
espiritualidade para saber que nada
        acontece por acaso. Sendo assim, havia um motivo justo para Otvio crusar seu
caminho.

       Almoar com as crianas era uma tarefa difcil. Selma, mais crescidinha, j comia
sozinha, mas era preciso alimentar Carlinhos na boca.
       Vendo a dedicao com que Selena cuidava dos filhos, Otvio comentou:
       - Sabe, Selena, tambm tenho uma filha. - Verdade? E onde est?
       - Foi  praia com uma amiguinha. Chama-se Ana Lcia e acabou de fazer oito anos.
       - Voc  casado? - tornou Clarinha, surpresa. - Sou vivo.
       - Oh! Que pena. Sinto muito.
       - No sinta, Clarinha. So as coisas da vida. E, depois, Ana Lcia compensa
qualquer sofrimento.
       - E verdade, Otvio - concordou Selena. - Os filhos fazem todo o resto parecer sem
importncia.
       - E mesmo... E seu ex-marido? Tem tido notcias dele?
       - Pois . Estava agora mesmo dizendo a Clarinha que ele sumiu. Nem se interessa
em ver as crianas.
       - Antes assim - interrompeu Fabrcio. - De um homem como aquele, o melhor  ter
distancia.
       A conversa prosseguiu animada. Em seguida, trocaram telefones e, quando j iam se
despedir, Otvio indagou:
       - Clarinha, tem algum compromisso para hoje  noite?
       Ela exultou. Era tudo que esperava ouvir, e respondeu com mal disfarada
ansiedade:
       - Bem, Otvio, para falar a verdade, no tenho compromisso nenhum.
       - Aceitaria jantar comigo?
       - Eu adoraria!
       - Excelente. D-me seu endereo, e eu passarei em sua casa, que tal, s oito?
       - timo.
       Nesse momento, Clarinha levou a mo ao estmago e soltou um uivo de dor,
curvando o corpo para a frente e gemendo sem parar.
       - Meu Deus, Clarinha! -alarmou-se Selena. -O que houve?
       - A dor! De novo a dor! Ai, meu Deus, no agento!
       Desmaiou, rosto cado sobre a mesa. Rapidamente, Fabrcio correu para ela e tomou
seu pulso.
       - Precisamos lev-la a um hospital!
       Chamaram um txi. No dava tempo de ir em casa buscar o carro. Como eram
muitos para um veculo s, Otvio ficou de encontr-los
       no hospital. Apanharia seu automvel e os traria de volta.
       Clarinha, recostada no banco, cabea pousada sobre o ombro de Selena, parecia
morta. As crianas choravam sem parar, e Selena
       tentava acalm-las.
       - Est tudo bem, crianas. Tia Clarinha vai ficar boa.
       No hospital, nada foi constatado. O mdico de planto examinou-a como das outras
vezes, mas no pde diagnosticar nenhuma
       anormalidade.
       - O Dr. Feliciano no est? - quis saber Fabrcio.
       - No - respondeu o mdico. - Hoje no  dia do planto dele. Otvio chegou logo
em seguida, preocupado com a sade de Clarinha.
       Ao voltar a si, ela agradeceu a ateno do mdico e das enfermeiras, ajeitou-se da
melhor forma possvel e saiu em companhia dos
       demais.
       - Isso j est virando rotina - reclamou.
       - Como assim? - tornou Otvio. - No  a primeira vez?
       - No. At j perdi a conta de quantas vezes passei mal dessa
       maneira. S que ningum descobre o que .
       - Por falar nisso - interrompeu Fabrcio -, o Dr. Feliciano telefonou outro dia para
minha av. Ele atendeu voc algumas
       vezes, no foi?
       - Foi, sim.
       - Ele acha que voc no tem nada fsico.
       - No? - revidou Otvio. - Como assim? Ele acha que  problema espiritual?
       Os outros o olharam atnitos. Ningum esperava que ele entendesse dessas coisas.
       - Acredita em espritos, Otvio? - perguntou Fabrcio.
       - Acredito. No sou esprita, se  o que quer saber. Mas sou um estudioso e j li
muitas obras a respeito da espiritualidade
       em geral e fenmenos espritas.
       - Ento no se surpreender com nossa conversa. - E claro que no.
       - Pois  - cortou Selena. - No acha que devia se cuidar, Clarinha? Voc nem tem
aparecido mais. Por qu?
       Clarinha deu de ombros e respondeu:
       - No sei dizer. No tenho tido vontade.
       - Mas voc precisa se esforar. Se houver mesmo algum esprito junto de voc, ele
precisa ser orientado.
       - Sabe, Selena, no creio mesmo que seja isso. Acho que ando trabalhando demais.
E tambm estou procurando um apartamento
       para alugar.
       - Srio?-retorquiu Otvio. -Uma moa to jovem, pensando em morar sozinha?
       - O que tem de mais? Sou jovem, mas tenho minha profisso e at que ganho bem.
Sou uma mulher independente.
       - No se ofenda. Admiro muito sua atitude. Gosto de mulheres corajosas e ousadas.
       Clarinha riu e olhou para ele. Gostava daquele juiz. Ele lhe transmitia uma
tranqilidade que havia muito no sentia.
       A seu lado, Adriano o fuzilava. Percebendo as intenes de Otvio, grudara-se a
Clarinha, na tentativa de proteg-la. Mas,
       ao invs disso, causara-lhe o costumeiro mal-estar.
       - Mas que droga! - falou em voz alta, que ningum escutou. - Agora no tenho mais
dvidas... Por que a fao sentir-se to
       mal, Clarinha? No v que a amo e s o que quis foi proteg-la?
       Clarinha no escutou. Entrou no carro de Otvio e sentou-se a seu lado, enquanto
Selena e Fabrcio se acomodavam no banco
       traseiro com as crianas.
       - Para onde vamos?
       - Para o lugar em que estvamos, se no se importa - pediu Fabrcio.
       - Deixe-me lev-los em casa.
       -No, por favor. Leve apenas Clarinha, se no for incmodo. Eu irei buscar o carro
em casa e levarei Selena.
       - E claro que no  nenhum incmodo. Ser um prazer.
       Apesar do ocorrido, Clarinha no quis desmarcar o encontro da noite. O que mais
desejava, naquele momento, era estar junto
       de Otvio, e no perderia aquela chance por nada.
       Assim que Clarinha entrou em casa, Elisete veio correndo a seu encontro.
       - Graas a Deus, minha filha! Por que demorou tanto? Fiquei preocupada.
       J passava das cinco horas, e Clarinha nunca chegava depois das trs. Todavia, no
querendo preocupar a me, respondeu com
       displicncia:
       - Ora, mame, fui almoar e perdi a hora.
       - Voc no me engana, Clarinha. Eu a conheo. Teve um daqueles ataques de novo,
no foi?
       Clarinha no estava acostumada a mentir.
       - Foi, me - respondeu a contragosto. - Fabrcio e Selena me levaram ao hospital.
        - Selena? Esteve com sua prima?
        - E da? Ela  minha amiga. Vai continuar implicando com ela? - No... no, minha
filha, no vou. Estou preocupada  com
        voc.
        - Pois no precisa. O mdico disse que no tenho nada. E, agora, com licena.
Preciso tomar um banho.
        Depois que ela saiu, Elisete ficou refletindo. Foi at o quarto, apanhou a bolsa e
retirou o carto que Feliciano lhe entregara.
        Ligaria para ele. Talvez pudesse ajud-la.
        - Al? - disse uma voz de homem, do outro lado da linha.
        - Boa tarde... - respondeu Elisete, meio sem saber o que di
        zer. - Por favor, gostaria de falar com o Dr. Feliciano. Ele est? -  ele mesmo quem
est falando.
        - Doutor, desculpe-me estar ligando. Quem fala  Elisete Morais, me de Clarinha.
O senhor se lembra?
        - Mas  claro. Como vai, Dona Elisete? - Mais ou menos...
        - Algum problema?
        -  Clarinha. No anda nada bem.
        Comeou a chorar. Pelo telefone, Feliciano podia sentir a angstia em sua voz.
Esperou at que ela se acalmasse e indagou:
        - Aconteceu algo de grave?
        - No. Mas ela continua tendo aqueles ataques. Oh, doutor, no
        sei mais o que fazer! J consultamos vrios mdicos, mas ningum descobre nada. E
o senhor disse que poderia ajudar...
        - Posso tentar. Mas  preciso que Clarinha tambm queira. - Como assim?
        - Dona Elisete, sua filha est sofrendo influncia de um esprito perturbado...
        - Esprito perturbado? Mas como? O que  isso?
        - Seria melhor marcarmos de nos encontrar pessoalmente. Por
        telefone, fica difcil explicar certas coisas.
        - Doutor, meu marido jamais consentir. Ele no acredita nem
        em Deus, que dir em espritos. Dir que estou ficando louca.
        Ele pensou durante alguns segundos, at que falou: - Conhece Dona Flvia, no
conhece? - Sim, claro.
        - Tem seu nmero?
        - Um minuto... - Ela consultou o caderninho de telefone. -
        Deixe ver... Letra F... Tenho.
        - Pois muito bem. Ligue daqui a uma hora e marque um encon
        tro com ela. Cuidarei de avis-la e explicar o que est acontecendo. Desligou.
Esperou o tempo que Feliciano lhe pedira
        e ligou para
        Flvia. Foi ela mesma quem atendeu e foi logo falando:
        - Como vai, Elisete? H quanto tempo no nos vemos! - Desde a ltima missa de
Adriano.
        - Pois . J faz bastante tempo. Bom, sei quanto est aflita e, por
        isso, vou direto ao assunto. Feliciano ligou e me explicou tudo. Clarinha estava indo
conosco ao centro de minha me, no Engenho Ve
        lho, s que, de repente, sumiu. No sabemos o que houve, mas Feli
         ciano j havia telefonado para minha me e dito que estava descon
         fiado de que Clarinha estava com perturbao espiritual.
         - Foi o que ele me disse. S que no entendi muito bem.
         - Ser que voc no pode vir aqui para conversarmos? Diga a
         seu marido que eu a convidei para um ch. Assim, poderei explicar
         lhe tudo com calma.
         - Est bem.
         - Que tal segunda-feira? E dia til, e talvez seja mais fcil sair. - Perfeito. A que
horas?
        - Quatro horas, est bom? - Estarei a.
        Elisete tornou a desligar e foi at o quarto da filha. Ela havia aca
        bado de tomar banho e estava dormindo. Achou melhor no a despertar e voltou
para a sala.
        Clarinha dormiu direto at as oito e quinze da noite. Acordou
        com a me ao lado de sua cama e perguntou assustada: - Me? O que houve?
        - No sei, minha filha. No queria despert-la, mas est a um tal de Otvio, pedindo
para falar-lhe. Disse que tinha
        um encontro com voc.
        Clarinha consultou o relgio e exclamou: - Meu Deus! Dormi demais!
        Levantou-se apressada, lavou o rosto rapidamente e correu para a sala, onde Otvio
conversava com o pai.
        - Ah, minha filha, venha aqui. Acabo de conhecer seu amigo.
        Clarinha aproximou-se acabrunhada. No esperava por aquilo. Tambm, quem
mandou pegar no sono e perder a hora? S esperava
        que o pai no estivesse colocando Otvio em nenhuma situao constrangedora.
        - Otvio - comeou logo a dizer -, perdoe-me. Dormi e perdi a hora.
        - No faz mal, Clarinha, eu entendo. Voc passou mal, e era na
        tural que descansasse. Quer deixar nosso encontro para outro dia? - No. D-me
meia hora e eu me apronto.
        Meia hora depois, Clarinha voltou deslumbrante. Escolhera um
        vestido branco esvoaante, penteara-se, maquiara-se. Otvio ficou
        embevecido e no pde deixar de elogiar sua beleza.
        Depois que ela saiu, Bernardo comentou:
        - Esse homem  um excelente partido para nossa filha! - Um pouco velho demais,
talvez.
        - Isso no importa. O homem  juiz. Quer melhor do que isso? Se Clarinha tiver
cabea, no o deixar escapar.

        A noite foi maravilhosa. Otvio era homem gentil e divertido, muito diferente da
idia que ela fazia dos juzes. Quando
        ele segurou sua mo e a beijou, ela sentiu leve choque percorrer todo o seu corpo e
percebeu que estava apaixonada. To
        apaixonada que nem a presena de Adriano conseguiu abal-la. Embora chegasse a
enjoar, no desmaiou, e ambos terminaram
        a noite nos braos um do outro.
        Na segunda-feira, Elisete partiu para a casa de Flvia coberta de esperanas. Flvia
conversou muito com ela, esclarecendo-a
        sobre o mundo dos espritos e os fenmenos medinicos. Clarinha, na certa, era
mdium e estava sendo perturbada por algum
        esprito menos esclarecido. Embora suspeitasse de Adriano, Flvia no disse nada.
        Adriano era seu filho, e ela no queria que ningum o chamasse de
        esprito perturbado, tampouco de obsessor.
        Flvia convidou-a a acompanh-la na quarta-feira ao centro de
        sua me, e Elisete aceitou.
        - Seria timo se pudesse levar Clarinha. - Farei o possvel.
        Mas, na quarta-feira, Clarinha no quis ir. Alegando cansao,
        foi recolher-se mais cedo. Elisete disse a Bernardo que havia encontrado
        Flvia por acaso e que ela a convidara para ir  sua casa naquela noite. Por
delicadeza, aceitara.
        Apanhou o txi e dirigiu-se  casa de Flvia, que j a aguarda
        va. Em companhia de Fabrcio, rumaram para a casa de Ins. Quan
        do ela chegou, Selena veio receb-los.
        - Tia Elisete! - exclamou. - H quanto tempo!
        Meio sem graa, Elisete beijou a sobrinha no rosto e retrucou: - E mesmo, Selena. E
voc, como vai? - Graas a Deus, estamos
        bem. Eu e as crianas. - Onde esto?
        - Dormindo.
        - Conhece minha me? - perguntou Flvia a Elisete. - E claro. Como vai, Dona
Ins? - Vou bem. E Clarinha? No veio?
        - No quis vir. Fiz de tudo para que me acompanhasse, mas no houve jeito.
        - No faz mal. Faremos uma mentalizao para ela.
        No centro, Antnio abriu os trabalhos com uma bonita orao,
        proferiu interessante palestra sobre obsesso e convidou os espritos
        necessitados que quisessem se apresentar. Alguns se manifestaram,
        mas nenhum que se relacionasse com Clarinha.
        A sesso foi encerrada, e Elisete saiu frustrada.
        - No desanime, Elisete - consolou Ins. - No comeo  as
        sim mesmo. Nem todos os espritos querem se dar a conhecer.
        - Acha que minha filha est sendo vtima de algum obsessor? - Apesar de serem
assim chamados, no gosto de usar esse ter
        mo. Digamos que so espritos ignorantes que s precisam de um pou
        co de esclarecimento para seguir seu caminho. E sim, Clarinha, pro
        vavelmente, sofre o assdio de algum esprito menos esclarecido. Mas
        no se preocupe. Com o tempo ele vir at ns.
        - Acha mesmo?
        - Trabalharemos por isso. Contudo, seria muito importante que Clarinha nos
acompanhasse. Da prxima vez, tente convenc-la.
        Elisete estava convencida. Faria o que fosse preciso para libertar a filha do jogo
daquele obsessor, ignorante ou fosse l
        como quisessem cham-lo. O que ela no queria era ver Clarinha sofrendo daquele
jeito.
        Ao entrar em casa naquela noite de sbado, Fabrcio teve outra surpresa. O pai
estava sentado na sala lendo um jornal e,
        quando ele passou, disse com azedume:
        - Mais uma de suas noitadas?
        Fabrcio engoliu em seco e seguiu adiante, rumo a seu quarto. No estava com
nenhuma vontade de discutir. Fechou a porta
        com cuidado e foi sentar-se na cama. Estava cansado e precisava dormir. Tirou os
sapatos e deitou-se, esticando os ps para
        relaxlos. De braos cruzados sob a cabea, fitou o teto e ficou a pensar em Selena.
Ela agora estava livre, e ambos podiam
        tornar pblico seu relacionamento. Iria pedi-la em casamento e dariam uma festa
ntima, s para marcar a ocasio.
        Pouco depois, pegou no sono. Estava semi-adormecido quando escutou um rudo
estranho. Abriu os olhos vagarosamente, sonolento
        ainda, e ouviu nitidamente a voz do pai erguendo-se do lado de fora da porta de seu
quarto:
        - Isso no vai ficar assim, Flvia! No est direito!
        - Por favor, Paulo, fale baixo. Vai despert-lo.
        - E da? Que acorde! E bom mesmo que oua o que tenho a dizer.
        - Mas ele no fez nada.
        - Fez, sim. Est me envergonhando. As pessoas j esto comentando.
        - Deixe para l. Ningum tem nada com isso.
        - Sou um importante empresrio. Como pensa que me senti quando Epaminondas
me ligou falando aquelas coisas?
        - Voc no devia dar importncia ao que os outros falam. As pessoas so muito
maldosas.
        - Maldosas ou no, o fato  que os dois esto sempre sendo visto juntos. E
Epaminondas me liga a esta hora para me contar
        a novidade. Grande novidade... Meu filho envolvido com uma desquitada,
freqentando hotis de reputao duvidosa!
        - Paulo, por favor...
        Ao ouvir as ltimas palavras do pai, Fabrcio deu um salto da cama e escancarou a
porta, encarando-o com rancor.
        - Mas o que significa isso? No se pode mais dormir sossegado nesta casa?
        - Onde esteve, Fabrcio? - retrucou Paulo, cheio de dio.
        - No  de sua conta, pai. J disse que sou crescidinho.
        - E de minha conta, sim! Voc anda se encontrando com aquela vagabunda em
lugares de baixo nvel!
        - O qu? Quem lhe disse isso?
        - Epaminondas. Viu quando vocs saam de um hotel  beira da estrada Rio-
Petrpolis. Vai negar?
        - Quem  esse Epaminondas?
        - No se faa de tolo, Fabrcio. Voc conhece Epaminondas to bem quanto eu.
        - Ah, , tem razo. E aquele que possui uma amante em cada esquina, no ?
        Paulo mordeu os lbios, enquanto Fabrcio prosseguia: - E o que ele estava fazendo
l?
        - Isso no  problema meu. Meu problema  voc.
         - Pois est enganado, pai. Em primeiro lugar, esse Epaminondas devia cuidar mais
da vida dele. Aposto que, se me viu, foi
         porque estava em situao semelhante, no ? Como pde me reconhecer  noite,
numa estrada com pouca iluminao?
         - Ele conhece seu carro.
         - Ah, o carro...
         - Deixe de sarcasmo comigo, rapaz! Exijo uma explicao!
         - Pois no lhe devo explicao alguma. Contudo, para que
         voc se tranqilize, no costumo andar com vagabundas...
         - No? E o que pensa que aquela Selena ?
         - Selena  uma moa muito direita, e pretendo casar-me com
         ela. Por isso, no admito que fale dela dessa maneira desrespeitosa.
         - Casar-se?! Mas como? Pretende matar o marido dela?
         - Ex-marido. Eles esto desquitados. - E da?
         - Paulo, por favor - interrompeu Flvia. - Pelo bem de todos
         ns, encerre essa discusso.
         - No, Flvia, no posso. Ele vive sob meu teto, deve-me respeito. No posso tolerar
que transforme meu nome, nosso nome, o
         nome que lhe dei em motivo de chacota.
         - Selena  uma boa moa, Paulo. Eu sei. Conheo-a.
         - Conhece-a, no  mesmo? E pensa que isso a autoriza a atestar sua idoneidade.
Pois no me convence. Ela no presta. Se prestasse,
         no sairia por a freqentando hoteizinhos.
         - Pela ltima vez, pai! Selena no  o que voc pensa. E no fomos a nenhum
hotel...
         - Nega que foram a um local de encontros?
         - Onde fomos ou deixamos de ir no  de sua conta. Mas posso lhe assegurar que
no fizemos nada de que pudssemos nos enver
         gonhar. Ns nos amamos, e no h pecado algum no amor.
         -Que lindo! Amor... E assim que agora se chama a pouca vergonha?
         Fabrcio mordeu os lbios e cerrou os punhos, contando at dez
         para no perder a cabea.
         - Paulo - intercedeu Flvia, j percebendo a impacincia do
         rapaz -, deixe Fabrcio em paz. Ele no fez nada de errado.
         - Voc, sempre o defendendo. - Ele  nosso filho.
         - E Adriano? Tambm no era?
         - Eu sabia! -retrucou Fabrcio com desprezo. -Ainda me cul
         pa pela morte de Adriano, no ? Preferia que eu tivesse morrido em
         seu lugar!
         Paulo no respondeu, e Flvia se adiantou:
         - No  nada disso, meu filho. Seu pai est magoado.
         - Magoado? Ele me odeia, mame! No v isso? E usa Selena
         como desculpa para poder me agredir e acusar. Por que no gosta de
         mim? O que lhe fiz, pai? Diga-me!
         Encarando-o com raiva, Paulo respondeu entre dentes: -No  justo. Adriano era
meu filho! - E eu, pai? Tambm no sou?
         No conseguindo mais conter a fria, Paulo esbravejou: - No me chame de pai!
        - Paulo, por Deus! - suplicou Flvia, completamente apavorada. - Pare com isso.
Lembre-se da promessa que me fez! Aturdido,
        Fabrcio indagou:
        - Que promessa? Que promessa, me?
        Fitando Flvia com desgosto, Paulo engoliu a raiva e tornou com secura:
        - Nada, Fabrcio.
        - Paulo me prometeu que no iria mais brigar com voc - e, virando-se para o
marido, acrescentou: -No  mesmo, Paulo? No
        vo mais brigar, vo? Adriano se foi, mas ainda temos Fabrcio. Ele  to nosso
filho quanto Adriano, no ?
        Sentindo o desespero na voz da mulher, Paulo retrocedeu.
        - E... - respondeu, sem muita convico.
        - Ento? Parem com isso, por favor. Ser que no podemos vi
        ver em paz, para variar?
        - No sou eu que comeo, me.
        - Sei disso, meu filho. Mas pode muito bem terminar.
        Fabrcio suspirou e estendeu a mo para Paulo, que baixou os olhos, tentando
ocultar a raiva e o desprezo. Contudo, para
        agradar  mulher, tomou a mo que o filho lhe estendia e apertou-a com raiva,
soltando-a logo em seguida. Depois, virou-lhe
        as costas e foi para o quarto, batendo a porta com estrondo.
        Flvia estava angustiada. Sentia que o pior estava para acontecer e no havia nada
que pudesse fazer para impedir. Precisava
        falar com a me. Somente Ins seria capaz de ajud-la.
        No dia seguinte, logo pela manh, Flvia foi procur-la. Cumprimentou Selena e as
crianas e saiu puxando a me para o jardim.
        Sentaram-se em um banco, e Ins comeou a dizer:
        - O que houve, minha filha? Parece preocupada.
        - E Paulo, me-desabafou num soluo. -Sinto que est a um passo de revelar a
verdade a Fabrcio.
        Ins inspirou profundamente, segurou a mo da filha e retrucou: - Ns sabamos que
isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde,
        no sabamos?
        - Mas isso jamais poder acontecer!
        - Minha filha, no h segredo que se guarde para sempre. Voc
        est tentando controlar o curso do destino, mas o destino quer impor sua vontade,
mesmo  sua revelia.
        - Isso no  justo. Fabrcio  meu filho.
        - Eu sei. E ele tambm sabe. Acha que a amar menos se descobrir a verdade?
        - No sei. Tenho medo de perd-lo tambm.
        - Voc subestima seu filho. Ele  um rapaz muito inteligente e sensvel. No comeo,
pode ficar chocado. E natural. Mas depois,
        sentindo seu amor, vai compreender.
        - E Paulo? Ele no ama Fabrcio. Nunca conseguiu am-lo. Como espera que
Fabrcio se sinta?
        - Vai compreender tambm. Vai entender a dificuldade de Paulo.
        - Mas se sentir rejeitado.
        - Foi ele quem escolheu.
        Flvia comeou a chorar, e Ins ponderou:
        - Voc sabe to bem quanto eu que ningum nasce numa famlia por acaso, assim
como o desenrolar da vida no  casual. Por
        um motivo que ainda desconhecemos, Fabrcio escolheu ser filho daquela mulher
alem e ser entregue a voc para que o criasse.
        No foi por acaso. No foi o destino, pura e simplesmente, que escolheu voc,
casualmente, para que o recebesse e amasse
        como filho. Tudo aconteceu conforme o esperado. E Fabrcio vai entender isso
porque tambm conhece essas verdades.
        - Mas e o sentimento? Compreender  uma coisa; aceitar no corao  outra bem
diferente.
        - Compreender  o primeiro passo para aceitar. No estou dizendo que vai ser fcil.
Fabrcio vai ficar triste, talvez at
        revoltado. Mas seu raciocnio, sua inteligncia faro com que ele entenda.
Entendendo, vai compreender o fato em seu corao,
        que injetar uma boa dose de amor para que ele possa aceitar. Essa ser a
compreenso verdadeira, aquela que brota da inteligncia
        e se abriga no corao.
        - Gostaria de acreditar nisso.
        - Pois acredite. Fabrcio  um rapaz muito sensvel e ter de trabalhar seus
sentimentos. E ns estaremos aqui para ajud-lo
        com nosso amor, principalmente voc, quem mais o amou a vida inteira. Confie
nisso, Flvia. Confie em voc.
        Flvia beijou as mos da me e ps-se a chorar. Estava amargurada, mas a conversa
com Ins servira para levar-lhe um pouco
        de alento. Faria todo o possvel para impedir que a verdade viesse  tona. Contudo,
se isso acontecesse, envidaria todos
        os esforos no apenas para consolar o filho mas tambm para reconcili-lo com o
pai.
        Enquanto isso, Cassiano deixava-se invadir cada vez mais pelo dio que sentia por
Fabrcio. Em sua casa, Anbal dava tragadas
        no cigarro, fitando as rodelas que fazia no ar e ouvindo o esbravejar do irmo:
        - Mas ser possvel? No consigo meios de pegar aquele doutorzinho!
        - Calma, Cassiano. Voc comeou a vigi-lo h pouco tempo. At que j est bem
por dentro de seus hbitos. Agora  s aguardar
        o momento oportuno.
        - Mal posso esperar...
        - Fique tranqilo. Vai dar tudo certo. - Tirou nova baforada e
        mudou de assunto: - E Selena? Tem tido notcias dela?
        Cassiano trincou os dentes e respondeu com raiva: - Sim. A cadela est envolvida
com o doutorzinho.
        -Isso ns j sabamos. Quero saber  se voc descobriu onde ela
        est morando.
        - No. Nem me preocupei mais com isso. Por qu? Tem alguma idia para ela
tambm?
        - Por enquanto, no. Mas depois que o doutorzinho se for... - O que tem?
        - Estive pensando... E se Selena sofrer algum... acidente? Quem sabe os pais dela
no entram num acordo com voc?
        j entendendo o plano diablico do irmo, Cassiano comeou a rir.
        - E, at que no seria m idia. Posso dar uma de pai arrependido, machucado pela
vida, essas coisas.
        - Mas temos de ter calma. Isso vir com o tempo. No podemos nos precipitar,
seno a polcia pode desconfiar. Vamos primeiro
        dar um jeito no doutorzinho. Depois, mas muito depois, cuidaremos de Selena.
        EM seu escritrio, Paulo no parava de refletir. Estranhamente, de uma hora para
outra, a lembrana de Adriano no lhe saa
        do pensamento. Chegava a sentir como se ele estivesse vivo a seu lado.
        - Estou vivo, pai. Tente me enxergar.
        - Como pode estar vivo se sofreu um acidente fatal?-respondia Paulo mentalmente.
        - Pai, eu desencarnei. Mas no foi justo. Fabrcio  quem devia estar no meu lugar.
Aquele bastardo! Que direito tem de
        viver?
        - Por que ser que a vida foi to cruel comigo? - pensava Paulo. - Perdi meu nico
filho legtimo. Agora s me sobrou o
        enjeitado, um desconhecido, filho de uma judia que morreu na guerra. Por que fui
aceitar cri-lo?
        - Acabe com essa farsa, pai. Conte logo tudo a Fabrcio. Ele precisa saber a verdade,
conhecer seu papel de intruso.
        - Por quanto tempo mais poderei guardar este segredo? Prometi a Flvia,  verdade.
No quero mago-la.
        - E eu, pai? Quem pensou em mim? Quem pensou em quanto eu poderia estar sendo
magoado?
        - Ah, se Adriano soubesse a verdade... Se tivesse descoberto tudo antes de morrer...
        - Eu descobri, pai. Descobri depois, mas descobri. E foi pior. Fiquei mais indignado.
        - Por que Fabrcio  quem continuou vivendo? Por qu?
        A porta do escritrio se abriu e Marcos entrou, sentando-se diante do cunhado.
        - Tudo bem com voc? - indagou, preocupado com o ar abatido do outro.
        -Tudo... - respondeu Paulo, sem muita convico. - Est tudo bem.
        - Ser que podamos discutir esta planilha? - Planilha? Por qu? O que houve?
        - Nada de mais. Tive algumas idias para reduo de custos. No gostaria de
analis-las comigo?
        Paulo assentiu e voltou a ateno para os negcios. Adriano, vendo que no
conseguiria mais influenci-lo, saiu e foi ao
        encontro de Clarinha.
        J era hora do almoo, e ela se preparava para sair. Clarinha apanhou a bolsa e foi
at o banheiro. Ajeitou-se, passou batom
        e sorriu. Estava bonita. Fechou a porta do toalete e falou para a secretria:
        - Diga ao Dr. Aureliano que fui almoar.
        A secretria sorriu e balanou a cabea, e Clarinha foi andando pelo corredor.
Chamou o elevador e entrou, consultando o
        relgio. Passavam poucos minutos do meio-dia, e Otvio, na certa, j a aguardava
no trreo.
        Otvio estava parado na portaria do prdio, esperando por ela. Pensou em subir, mas
no achou boa idia. No queria atrapalh-la
        em seu trabalho. Apesar de saber que sua posio de juiz lhe franqueava todas as
portas, no gostava de abusar.
        Ela apareceu sorridente, aproximou-se dele e beijou-o nos lbios. - Ol, meu bem -
saudou ela com jovialidade. - Demorei
        muito?
        - Nem um minutinho...
        Abraou-a com ternura, e Adriano quase se desesperou. Tentou
        acertar-lhe um soco no queixo, mas Otvio nada sentiu. - Acho que encontrei um
apartamento para voc. - Srio?
        - E. No  muito grande, mas acho que vai servir. Quer ver? -  claro que quero.
        - Ento vamos comer um sanduche, que  para termos mais tempo. Isto , se voc
no se importar.
        - Claro que no me importo.
        Comeram rapidamente e depois tomaram um txi, com Adriano a segui-los. Queria
ver onde aquela histria ia parar.
        O apartamento era pequeno porm confortvel. Iluminado, arejado, muito bem
dividido. Clarinha olhou tudo, tirou medidas,
        fez planos. Parecia o lugar ideal para ela.
        - Ento? - perguntou Otvio. - Gostou?
        - Adorei. E perfeito para mim.
        - Foi o que pensei.
        - O aluguel  muito caro?
        - Acho que no. Venha, vamos devolver as chaves ao porteiro e pedir o telefone do
proprietrio. Se voc quiser ficar com
        ele,  bom ligar logo.
        Clarinha voltou para o trabalho de posse do telefone do dono do apartamento.
Queria ela mesma tratar do assunto. O dono
        do imvel disse que havia outras pessoas interessadas. Contudo, como ela
apresentava um juiz como fiador, ele iria dar-lhe
        preferncia. Se a documentao estivesse em ordem, poderiam marcar para breve a
assinatura do contrato. Combinaram uma reunio
        para o dia seguinte. Clarinha e Otvio iriam encontr-lo em seu escritrio, que
ficava no centro da cidade, e acertariam
        tudo.
        Ao desligar o telefone, Clarinha sorriu satisfeita. Estava feliz, muito feliz.
Conhecera um homem maravilhoso, que a incentivava
        e a tratava com respeito, e no como uma menina mimada. Otvio sabia entender
seus anseios e no achava que seu trabalho
        era uma bobagem. E, agora, iria conseguir o que mais queria. Alugaria aquele
apartamento e sairia da casa dos pais. Eles
        iriam ver s. Se pensavam que ela era apenas uma criana voluntariosa, estavam
muito enganados: era uma mulher decidida
        e independente, e no uma daquelas dondocas que nasceram talhadas para o
casamento.
        Resolveu concentrar-se no trabalho, e Adriano sentou-se de frente a ela. Passou o
dia a olh-la, imaginando o que fazer
        para afast-la de Otvio.
        - Voc no pode pretender controlar todo mundo - era a voz de Ismael, que soou
ntida atrs dele.
        Adriano voltou-se indignado.
        - O que faz aqui, velho? No me lembro de t-lo chamado.
        - Vim apenas ver como voc est se portando.
        - V com calma. No fiz nada.
        - Sei que no. Contudo, no deixa a moa em paz.
        - E da? Ela  minha noiva.
        - No v que isso  impossvel? Voc j no tem mais um corpo de carne.
        - Isso no faz a menor diferena. Continuo vivo, e meus sentimentos so os
mesmos.
        - Mas suas necessidades no so.
        - Quem  voc para entender de necessidades?
        - No se exalte. Raiva no vai lev-lo a nada.
        Adriano calou-se assustado. Ser que Ismael fora ali para lev
        lo de volta quela priso? Lendo-lhe os pensamentos, Ismael sorriu
        com amargura e retrucou:
        - No se preocupe. A colnia-retiro  um lugar de descanso e meditao, no uma
cmara de tortura com a qual se ameaam
        os espritos faltosos.
        - Eu no disse isso.
        - Mas pensou. Quando o levei para l, foi porque voc queria fazer algo proibido.
No penso em conduzi-lo de volta, a no
        ser que falte com sua palavra.
        -No fiz isso, fiz?
        - No.
        - Ento v embora. Clarinha  outro assunto. Nada tem a ver com voc.
        Ismael suspirou, acercou-se dele e, colocando as mos sobre seus ombros,
aconselhou:
        - Saia dessa vida, Adriano. Uma outra, muito mais tranqila e feliz, espera por voc.
        - Agora vai me prometer o paraso, ? Anjinhos cantando e coisas do gnero?
        Ismael deu novo suspiro e finalizou:
        - Voc  quem sabe.
        Saiu, e Adriano voltou sua ateno novamente para Clarinha. Ficara ali to distrado
que nem vira a hora passar. O expediente
        chegara ao fim, e ela j estava se preparando para sair. Arrumou a mesa, apanhou
suas coisas, deu um at-amanh cordial
        e se foi, com Adriano em seu encalo.
        Novamente na rua, Adriano viu que aquele juiz idiota a estava esperando com o
carro.
        - De novo? - rugiu furioso.
        Aproximou-se bem de Clarinha, ou melhor, colou-se a ela. No
        queria que ela fosse ao encontro daquele homem. Investiu contra ela com tanta
violncia que Clarinha, na mesma hora, comeou
        a sentir-se mal. O estmago revirou-se, a cabea parecia que ia explodir. Foi
sentindo uma fraqueza, um esmorecimento, at
        que desmaiou a poucos passos do automvel.
        Otvio saltou do carro apavorado, enquanto algumas pessoas corriam para acudi-la.
Ele pediu licena e ergueu-a no colo,
        seguindo com ela para o carro e deitando-a no banco traseiro. Fechou a porta com
rapidez e tomou a direo do hospital.
        Ele ia apressado, tentando desviar-se dos carros que congestionavam o trnsito do
fim da tarde. Parou no sinal vermelho,
        impaciente, e olhou para trs. Clarinha continuava desacordada, plida feito cera.
Quando tornou a se virar para a frente,
        viu a me de Clarinha, que atravessava a rua apressadamente, carregada de
embrulhos. Intuitivamente, buzinou, e ela olhou.
        Reconhecendo o juiz, aproximouse do carro.
        - Dr. Otvio, como est?
        Calou-se alarmada, vendo Clarinha deitada no banco de trs. Percebendo o que
havia acontecido, fez sinal para o juiz, que
        abriu a porta do outro lado, e logo entrou, toda atrapalhada com os pacotes. O sinal
ficou verde e ele andou, desabafando
        em seguida:
        - Graas a Deus que a encontro, Dona Elisete. Clarinha desmaiou novamente, e
estou a caminho do hospital.
        Elisete olhou para a filha e sentiu um aperto no corao. Lembrou-se da conversa
que tivera na casa de Ins na semana anterior.
        Por coincidncia, era quarta-feira, dia de sesso, e ela, enchendo-se de coragem,
comeou a falar:
        - Doutor...
        - Por favor, Dona Elisete. Trate-me apenas por Otvio.
        - Est certo. Otvio, estive pensando. No sei se seria uma boa idia lev-la ao
hospital.
        - No? - Ele estava perplexo. - Como assim?
        - Bem, tenho uns amigos que... bem... que no acreditam que Clarinha esteja
doente...
        - No? Por qu?
        - Eles pensam que ela est sofrendo um tipo de... de...
        Calou-se, sem ter como explicar aquilo, mas Otvio, para surpresa sua, completou
sua frase com naturalidade:
        - Perturbao espiritual?
        - Sim... Como sabe?
        - Bem, Dona Elisete, j conversei com eles. E tambm penso a mesma coisa.
        - Pensa?
        - Sim. No sou propriamente um entendido no assunto, mas j
        li o suficiente para desconfiar de casos como o de Clarinha.
        No querendo perder tempo, Elisete falou mais que depressa: - Ento vai concordar
comigo que precisamos lev-la a um
        centro esprita. E o mais rpido possvel.
        Do lado do astral, Adriano esbravejou: - Centro esprita?! Isso  que no!
        - Acho que seria uma excelente idia- concordou Otvio. - S que no conheo
nenhum.
        - Pois eu conheo. E o centro de Dona Ins, av de Fabrcio, aquele jovem
advogado. E hoje, por coincidncia,  dia de sesso.
        Por que no a levamos l?
        Otvio j ia responder quando escutou um gemido. Olhando pelo espelho, viu
quando Clarinha se levantou, ainda zonza, esfregou
        os olhos e olhou para os dois.
        - Mame! O que est fazendo aqui?
        - Voc desmaiou novamente - respondeu Otvio. - E, por sorte, encontrei sua me.
        - Aonde estamos indo?
        - A casa de Dona Ins.
        - E? Para qu?
        - Sua me falou que ela freqenta um centro, e achamos que voc devia ir at l.
        Adriano, confuso e indignado, afastou-se de Clarinha o suficiente para que ela
despertasse, mas ficava inspirando-lhe
        o desnimo e o cansao.
        - Ah, Otvio, no quero ir. Sinto-me mal ainda. O estmago di. Acho que  melhor
ir para casa descansar.
        - Mas, Clarinha - protestou a me -, ir ao centro s lhe far bem. E, depois, voc
sempre gostou. Chegou a brigar com seu
        pai por causa disso.
        - Eu sei, me. S que agora no estou com vontade. Por que no deixamos para
outro dia?
        Adriano estava desesperado. Tinha medo de que, no centro esprita, descobrissem
sua presena e o afastassem.
        - Por que deixar para amanh o que podemos fazer hoje? - brincou Otvio.
        - Porque hoje estou me sentindo mal.
        - Por isso mesmo - ponderou a me. - Quem sabe no  um problema espiritual?
        - Me, muito me admira ouvi-la falar desse jeito. Voc, que at ento no acreditava
em nada. O que deu em voc para mudar
        de idia?
        Elisete virou-se e fitou-a com os olhos cheios de gua, respondendo com profundo
sentimento:
        - O amor de me, minha filha. V-la sofrer , para mim, o maior sofrimento.
        Clarinha calou-se. Diante das palavras da me, no tinha argumentos. Vendo-se sem
sada, Adriano decidiu que no podia ir.
        No estava disposto a acompanh-la quele lugar novamente. Sabia que eles
tentariam doutrin-lo, e no estava disposto a
        ceder.
        Ao chegarem  casa de Ins, a alegria foi geral. Selena ficou to feliz que abraou e
beijou a prima diversas vezes. Elisete
        telefonou para o marido, dizendo que encontrara Clarinha, e ambas haviam
resolvido jantar fora, s para variar. Apesar de
        Bernardo no aprovar, no disse nada.
        Por volta das sete e meia, Fabrcio chegou e, na hora marcada, foram todos ao
centro esprita.
        At ento, Adriano estava com eles. Mas, vendo a porta do centro se aproximar, foi
diminuindo o passo, diminuindo, at que
        ficou para trs. Parou numa esquina e ficou olhando o grupo se afastar. Em breve,
alcanaram o centro e entraram, e ele,
        virando as costas, tomou outra direo. No entraria ali. De jeito nenhum.
        Antnio abriu a sesso. Proferiu a prece, fez a palestra e convidou os espritos
presentes que quisessem se manifestar.
        Nesse momento, Ins fixou o pensamento em Clarinha, mentalmente implorando ao
esprito que a acompanhava que se fizesse
        presente. Mas nada. Ningum conhecido se manifestou, o que, de certa forma, foi
frustrante, principalmente para Elisete.
        Ela esperava que o obsessor se apresentasse e fosse logo afastado, mas no fora isso
o que acontecera.
        Depois que a sesso terminou, Ins explicou-lhe que, na maioria das vezes, os
espritos ignorantes no compareciam ao centro
        esprita, com medo de serem esclarecidos e afastados de suas vtimas. Tinha sido
isso, provavelmente, o que acontecera com
        Clarinha. Contudo, era preciso no perder a f e continuar assistindo s sesses.
Com o tempo, os mentores encarregados
        de auxiliar nos trabalhos da casa conseguiriam levar o esprito at l, e ento ambos
seriam ajudados. Quanto mais o tempo
        passava, mais Ins tinha certeza de que era o neto quem estava causando a Clarinha
todo aquele mal-estar.
        No sbado, s sete horas em ponto, Fabrcio chegou  casa de Ins, que ficou
deveras surpresa com a visita.
        -O que est fazendo aqui to cedo?- indagou ela, beijando-lhe as faces.
        - Ah, v - retrucou ele, retribuindo-lhe o beijo -, vim ficar com Selena e as crianas.
        - At parece que preciso de bab - brincou Selena.
        - Fez bem, Fabrcio - aquiesceu Ins. - No  bom para Selena ficar sozinha com as
crianas. Nunca se sabe o que pode acontecer.
        - Ora, Dona Ins - protestou Selena. - O que poderia acontecer?
        - Por acaso est me dispensando, ? - tornou Fabrcio de bom humor.
        - No  nada disso. No quero lhe dar mais trabalho. J chega o que teve com o
processo.
        - Cuidar de voc e das crianas no  trabalho nenhum.  o que me d mais prazer.
        Selena sorriu timidamente e apertou sua mo, puxando-o para a mesa do caf.
        Ins resolvera fazer uma pequena excurso a Friburgo naquele fim de semana. Iria
com algumas pessoas do centro, que combinaram
        levar agasalhos para as crianas de um orfanato daquela cidade.
        Sentado  mesa do caf, Fabrcio sentou Carlinhos nos joelhos e ps-se a brincar de
cavalinho. O menino ria feliz, e Fabrcio
        terminou estreitando-o de encontro ao peito e beijando-o carinhosamente.
        - Agora sou eu - queixou-se Selma, com sua vozinha mida.
        Selena apanhou Carlinhos do colo de Fabrcio e sentou-o na cadeirinha, enquanto o
rapaz erguia Selma e a ajeitava em suas-
        pernas, brincando de cavalinho com ela tambm.
        - Muito bem, j chega-disse Selena depois de um tempo, sorrindo e tirando a filha
do colo de Fabrcio.
        - Ah, mame, tava to bom!
        - Voc precisa se alimentar -aconselhou Fabrcio. - Ou no quer ficar forte como o
Popeye?
        Selma sentou-se em seu lugar e apanhou o copo de leite, sorvendo-o com prazer.
Vendo o carinho com que Fabrcio tratava
        seus filhos, Selena se emocionou e disse com doura:
        - Voc  muito bom para meus filhos.
        - Amo seus filhos como se fossem meus. E no digo isso s para agrad-la.
        - Meu neto  um rapaz de ouro! - exclamou Ins, batendo-lhe de leve na mo. -
Bem, agora preciso ir. j so quase sete e
        meia, e o nibus sai daqui a uns dez minutos. Cuide bem de Selena e das crianas
por mim. Volto domingo  tardinha.
        - No quer que a acompanhe at a porta do centro, vov?
        -No precisa. Bibiana vai me ajudar. Bibiana! O Bibiana, venha logo! j est na
hora!
        - j vou, j vou!
        A criada veio apressada, enxugando as mos no avental, que retirou e colocou no
espaldar da cadeira. Ins despediu-se de
        todos e saiu, carregando uma pequena valise e uma bolsa com alguns mantimentos.
        - Tem certeza de que no quer que eu ajude? - tornou Fabrcio, tentando segurar a
ala da sacola.
        - No precisa, no, Fabrcio - contestou Bibiana. - No est pesada.
        Vendo que no adiantava nada insistir com duas senhoras teimosas, Fabrcio
deixou-as ir.
        Logo que elas saram, esperou at que as crianas terminassem o caf e sugeriu:
        - Que tal irmos a Paquet?
        - Oba! - fez Selma, sem nem saber onde ou o que era Paquet, mas feliz porque ia
passear.
        - Quer ir, Selena?
        -Quero, sim.
        - Ento vo aprontar-se. Tambm vou me vestir.
        Passaram o dia em Paquet. Foram  praia, passearam, andaram de bicicleta,
tomaram sorvete. Passaram um dia agradvel, e
        ningum se lembrou da hora nem a viu passar.
        Fabrcio havia sado de manh bem cedo e no falara nada com ningum. Como a
me ainda dormia, no quis despert-la e no
        se lembrou de deixar-lhe um bilhete. Pensou em telefonar-lhe mais tarde, mas
acabou se envolvendo com Selena e esqueceu-se.
        A princpio, Flvia no se preocupou. O filho no gostava de dar satisfaes, e ela
at imaginou que ele estivesse em companhia
        de Selena. Sabia que Ins havia ido viajar e ficou pensando se ele no se oferecera
para ficar na casa dela, fazendo companhia
        a Selena e s crianas. Sim, pensou, s podia ser isso.
        Por volta das cinco horas, Flvia e Paulo tiveram uma surpresa. Estavam na sala,
jogando cartas, quando Olvia entrou, trazendo
       nas mos um envelope pardo. Ao ver aquele envelope, o corao de Flvia
imediatamente sobressaltou-se. Era igualzinho quele
       que chegara contendo o ratinho morto.
       Sem dizer nada, esperou que Paulo o apanhasse.
       - Para quem ?-perguntou ele a Olvia, aps constatar que no estava endereado a
ningum em particular.
       - No sei, Dr. Paulo. Chegou h pouco pelo correio da tarde, mas quem mandou
deve ter se esquecido de preencher o nome do
       destinatrio.
       - Ora essa. O pessoal do correio devia ser mais criterioso.
       - Abra, Paulo - sugeriu Flvia.
       -  melhor mesmo. Se no est endereado a ningum...
       Depois que Olvia saiu, ele abriu o envelope e dele retirou um frasquinho contendo
um lquido vermelho. No rtulo, uma caveira
       e as letras F E A. Ao ver o frasco, Flvia quase desmaiou, e Paulo perguntou
indignado:
       - Mas o que  isso?
       Vendo o ar aterrado da mulher, repetiu:
       - O que  isso? Voc sabe, Flvia?
       Olhando do frasco para o marido, Flvia balanou a cabea e balbuciou:
       - No... no estou... no estou bem certa...
       - Por qu? O que poderia ser? F E A ... Sero as suas iniciais? Ou as de Fabrcio?
Responda, Flvia! Voc sabe! Pela sua
       cara, sei que sabe de algo! Essas iniciais so as suas?
       - No... - balbuciou ela, confusa. - So as de Fabrcio. Oh, Paulo, ele deve estar
correndo perigo!
       - Perigo? Por qu? O que ele fez?
       - Ele no fez nada!
       - Ento, por que acha que ele pode estar correndo perigo? Por causa deste frasco?
       Exibiu o frasco para Flvia, que recuou assustada.
       - Oh, cus! Algum quer prejudicar meu filho. Sinto isso!
       - Deixe de bobagens! Quem iria querer fazer algum mal a
       Fabrcio?
       -No sei. O mundo est cheio de maldade. E, depois, se no quisessem fazer-lhe
mal, por que nos enviariam esse frasco? E
       o que h dentro? Ser veneno?
       Paulo abriu o frasco e cheirou o contedo. Avaliou-o bem e respondeu hesitante:
       - No sei ao certo. Pelo cheiro, parece sangue.
       - Sangue? Oh, meu Deus! Ser que  de Fabrcio? Mataram meu filho! Meu Deus,
mataram meu filho!
       Comeou a chorar descontrolada, e Paulo teve de sacudi-la para cham-la de volta 
razo.
       - Nossa Senhora, Flvia! O que deu em voc? Est ficando louca?
       - Mas, Paulo, no percebe? Esse sangue deve ser de Fabrcio. Algum o matou e
colocou o sangue dele a dentro e enviou para
       ns, para que soubssemos.
        - No  nada disso. Deve ser apenas uma brincadeira de muito mau gosto. Nem
sabemos se isso  mesmo sangue. - Mas voc disse...
        - Disse que parece sangue. Mas pode no ser. Ou pode ser sangue de algum bicho.
Pare de pensar bobagens e acalme-se.
        - Mas, ento, por que Fabrcio no telefona? Por que no d notcias?
        - Voc sabe to bem quanto eu que Fabrcio no gosta de dar satisfaes de sua
vida. Na certa, est por a com aquela...
        com Selena e nem se lembrou de telefonar. Voc no disse que sua me ia viajar?
Pois ento? Ele deve estar l com ela.
        Na mesma hora, Flvia correu para o telefone e discou o nmero da casa da me.
Deixou que tocasse, mas ningum atendia.
        Fabrcio e Selena estavam na ilha de Paquet, e Bibiana fora ao mercado comprar
batatas. Desesperada, Flvia apertou o gancho
        e tentou novamente. Nada. Ningum respondia.
        Pousou o fone no gancho, esperou cinco minutos e tentou novamente. Tocou, tocou,
e nada. At que Bibiana, que vinha chegando
        da rua, correu para o telefone, mas no conseguiu chegar a tempo. Flvia j havia
desligado.
        - Por que no atendem? - indagou, j em lgrimas.
        - Na certa, no esto em casa.
        - Ningum? E Bibiana? Mame disse que ela s ia embora  noite. Por que no
atende?
        -No sei. Ela deve ter sado. Quem sabe, ido ao aougue ou  padaria?
        - No! Vou at l, Paulo! Quero ver se esto bem!
        Vendo o descontrole da mulher, Paulo achou melhor no a contrariar.
        - Est certo, querida. Fique calma. Vamos at l.
        Enquanto tiravam o carro da garagem, Bibiana, na casa de Ins, terminava de dar os
ltimos retoques no jantar. Deixara carne
        assada prontinha no forno. Era s esquentar. A casa j estava toda arrumada,
inclusive o quarto em que Fabrcio iria dormir.
        Colocara lenis limpos na cama e trocara as flores dos jarros.
        Tudo terminado, tomou um banho rpido, vestiu-se e saiu, levando a chave reserva
que costumava ficar com ela. Os meninos,
        como os chamava, j deveriam estar chegando, e no havia necessidade de deixar
nenhuma luz acesa. Trancou a porta da frente
        e o porto e se foi.
        Assim que dobrou a esquina, rumo ao ponto de nibus, o carro de Paulo surgiu pelo
outro lado. Estacionou em frente ao casaro,
        e Flvia saltou apressada. Tocou a campainha diversas vezes, mas ningum atendeu.
Tentou espiar pelas barras de ferro do
        porto, mas no viu nada. O Jaguar de Fabrcio, estacionado na garagem atrs da
casa, ficava fora da vista de quem estivesse
        na frente. O que teria acontecido?
        - Oh, Paulo! - choramingava Flvia. - Alguma coisa aconteceu. Por que no
respondem? Onde esto todos?
        Embora a contragosto, Paulo resolveu ir  polcia, mas o delegado disse que no
poderia fazer nada. No havia nenhum indcio
        de que algum crime houvesse sido cometido, e o frasco contendo o lquido
vermelho no era suficiente para comprovar nada.
        Alm disso, no podia invadir a casa de ningum sem uma ordem judicial.
        Tampouco havia motivos que justificassem um mandado.
        Paulo e Flvia retornaram para casa frustrados. Na volta, ainda passaram de novo
pela casa de Ins, mas estava tudo escuro,
        no havia ningum. Em casa, Flvia tentou ligar novamente, mas ningum atendia.
        Por volta das oito da noite, Fabrcio chegou com Selena. As crianas dormiam no
colo de ambos, acomodadas no banco traseiro
        do txi que os levara da Praa Quinze at em casa. Fora um dia exaustivo, embora
divertido.
        - Acho que Bibiana j foi - comentou Selena.
        - Tambm, pela hora! - acrescentou Fabrcio.
        - Espero que no tenha ficado preocupada. Ns demoramos muito.
        - Acho que no. Ela sabe que Paquet  longe e que a barca leva uma hora para
cruzar a baa.
        Desajeitadamente, com Selma adormecida em seu colo, Fabrcio abriu o porto e a
porta da frente, e eles passaram. Selena
        foi direto para o quarto. As crianas estavam sujas, mas ela no tinha coragem de
despert-las para que tomassem banho.
        Ela e Fabrcio, aps se banharem, esquentaram a carne assada que Bibiana deixou
preparada e, mortos de cansao, foram dormir.
        Em sua casa, Flvia no tinha sossego. A cada instante, ia para a janela ver se
Fabrcio aparecia. No entendia por que
        o delegado no acreditara nela. Para ela, o frasco era prova mais do que suficiente
de que algo havia acontecido. Mas ela
        no tinha como comprovar quem havia mandado o envelope, e o delegado no
estava disposto a molestar cidados inocentes
        por causa de uma suspeita infundada.
        Telefonou novamente. Dessa vez, porm, Fabrcio e Selena, dormindo
profundamente, nem sequer escutaram o telefone tocar.
        Ambos estavam com as portas fechadas e haviam ferrado no sono, e nem uma
bomba seria capaz de despert-los.
        Flvia estava to agoniada que no conseguia dormir. Ficava andando de um lado
para o outro, chorando e apertando as mos
        nervosamente, at que Paulo, no suportando mais tanta angstia, buscou um
calmante no armrio do banheiro e fez com que
        ela o tomasse. Ela ainda relutou, mas ele acabou convencendo-a.
        De qualquer sorte, teriam de esperar at o dia seguinte para fazer alguma coisa.
        Quando o dia amanheceu, Fabrcio acordou e foi bater na porta do quarto de Selena.
        - Bom dia - cumprimentou ele, assim que entrou.
        - Bom dia - responderam todos ao mesmo tempo.
        As crianas haviam pulado para a cama de Selena e estavam abraadas a ela, ainda
sonolentas porm j de olhos bem abertos.
        - O que a gente vai fazer hoje? - quis saber Selma, toda animada.
        - Hoje? Hmm... deixe-me ver... Que tal irmos  praia?
        - Oba! Oba! - exclamou Carlinhos.
        Desceram, tomaram caf e Fabrcio foi tirar o carro para irem  praia. Estava to
entretido com Selena e as crianas que
        nem sequer se deu conta de que se esquecera de avisar a me que passaria o fim de
semana fora. Sua felicidade era tanta
        que nada nem ningum seria capaz de interromp-la.
        O efeito do calmante fez com que Flvia dormisse at tarde na manh seguinte. Ao
acordar, a primeira coisa que perguntou
        foi se Fabrcio j havia chegado. Informada de que no, correu novamente para o
telefone e tornou a ligar para a casa da
        me. Mas Fabrcio havia muito j no estava, e o telefone, mais uma vez, ficou
ressoando pela casa vazia.
        Vendo as crianas brincar na areia, Fabrcio segurou gentilmente a mo de Selena e
levou-a aos lbios. Ela sorriu com meiguice
        e acariciou-o de leve no rosto, beijando-o delicadamente nos lbios.
        - Sabe que a amo, no ? - perguntou Fabrcio, a voz embargadapela emoo.
        - Sei, sim. E eu tambm o amo muito. Voc  um homem maravilhoso.
        - Estive pensando...
        - O qu?
        - Gostaria de se casar comigo?
        Ela o encarou assustada e baixou os olhos, respondendo timidamente:
        - No posso mais me casar. Nem na igreja. Sabe que a religio no aceita o desquite.
        - Eu sei. Mas podemos viver juntos, mesmo assim.
        - Voc no se importa? Quero dizer, de ir morar com uma mulher desquitada, com
dois filhos? Sabe que no deixo meus filhos,
        no sabe?
        -Nem quero isso. Tambm j lhe disse que gosto deles como se fossem meus. E,
depois, ficaria muito decepcionado se voc
        os trocasse por mim.
        - Ficaria?
        - E claro. O que poderia esperar da futura me de meus filhos se ela no ligasse para
os que j tem?
        Selena sorriu e beijou-o novamente, e ele prosseguiu:
        - Ento? Ainda no me deu sua resposta. Aceita ou no ir morar comigo? Podemos
oferecer um jantar para as pessoas mais ntimas,
        s para "oficializar" nosso casamento.
        - No sei, Fabrcio. Pensei que agora talvez eu pudesse arranjar um emprego.
        - Um emprego no  empecilho para nosso casamento.
        - Voc no se importa que eu trabalhe fora?
        -  claro que no. Voc pode fazer o que quiser. Trabalhar, estudar, ficar em casa...
Voc  quem sabe. O que quiser fazer, esteja
        certa de que apoiarei.
        Depois de alguns segundos de suspense, ela apertou as mos dele e respondeu com
emoo:
        - Est certo. Aceito.  o que mais quero. Depois verei o que fazer de minha vida.
        Beijaram-se com paixo. Amavam-se sinceramente e tudo que mais desejavam era
constituir uma famlia juntos. Deram a notcia
        s crianas, que, apesar de no entenderem muito bem, ficaram felizes em saber que
tio Fabrcio iria morar com eles.
        Quando Ins chegou, no final da tarde de domingo, eles ainda no haviam voltado
da praia, e ela, ouvindo o telefone tocar,
        abriu a porta depressa e correu para atender.
        - Al?
        Tarde demais. A pessoa que ligara havia desligado segundos antes de ela atender e
no chegara a ouvi-la. Ins pensou que
        a pessoa ligaria de novo, mas Flvia, do outro lado da linha, j havia ligado trs
vezes seguidas. Colocou o fone de volta
        no gancho, desanimada, e voltou a chorar.
        - Flvia, pelo amor de Deus, acalme-se.
        - Como posso ficar calma? E voc? No se preocupa?
        Paulo no acreditava que alguma coisa tivesse acontecido. Na certa, Fabrcio estava
por a com aquela ordinria e nem se
        lembrava de que tinha me. Se alguma coisa houvesse acontecido, eles j teriam
ficado sabendo, ainda mais porque a polcia
        j fora alertada.
        -No  que no me preocupe. Mas acho que no aconteceu nada. As ms notcias
voam.
        - Ser?
        - Tenho certeza. Fabrcio deve ter cado na farra e nem se lembrou de voc. Voc 
que  uma tola, perdendo o sono e a tranqilidade
        por causa daquele ingrato.
        - No fale assim.
        - E isso mesmo. Duvido que algo tenha acontecido. Voc vai ver que, logo, logo, ele
vai entrar por aquela porta... Agora
        largue esse telefone e venha c. Vamos fazer um lanche.
        - No estou com fome.
        - Deixe de bobagens. Voc est parecendo uma neurtica.
        Flvia soltou o telefone e foi para junto dele. No se sentia com nimo para brigar.
        Quando Fabrcio e Selena chegaram da praia, por volta das cinco e meia, estavam
todos mortos de cansao. As crianas foram
        tomar banho e depois desceram para jantar. Enquanto elas comiam, Fabrcio se
despediu, deixando para Selena o encargo de
        participar  av a deciso que tomaram de irem morar juntos. No dia seguinte,
Fabrcio teria uma audincia importante e
        ainda queria se preparar. Depois, voltaria e ento poderiam comemorar.
        Assim que abriu a porta de casa, foi surpreendido pelos gritos furiosos do pai:
        - Muito bem, Dr. Fabrcio! Isso se faz?
        - Oh, graas a Deus! -completou a me, correndo para ele em lgrimas.
        Fabrcio, atnito, olhou o pai e tentou contestar:
        - Pai, pare com isso. No estou a fim de discutir com voc.
        - Ah, no est a fim, ? E de que est a fim? De matar sua me do corao?
        Fabrcio ergueu o queixo da me, que se agarrara a ele, e encarou-a com ar
interrogativo.
        - O que houve?
        - No sabe? Sua me quase morreu de preocupao por sua causa!
        - Mas por qu? O que fiz?
        Paulo dirigiu-se para a escrivaninha e apanhou um envelope, estendendo-o para ele.
        - Isto chegou ontem de tarde.
        Era o pequeno frasco contendo um lquido vermelho que parecia sangue.
        - Quem o enviou?
        -No sei. Diga voc.
        - Ah, meu filho - interrompeu Flvia. - Fiquei to assustada.
        Tive medo de que algo lhe houvesse acontecido.
        Desatou a chorar, abraando-se a Fabrcio, que retrucou: - Isso deve ser alguma
brincadeira...
        - Foi o que eu disse a ela - cortou o pai abruptamente. - Mas
        ela no quis me ouvir. Cismou que voc estava em perigo.
        - Me, estou bem. No aconteceu nada.
        - Onde esteve metido durante todo o fim de semana?- inqui
        riu o pai com raiva.
        - Isso no importa, pai.
        - Tem razo, no importa - repetiu Flvia. - O que importa  que ele est aqui
conosco, so e salvo.
        - Esteve com aquela vagabunda? - Paulo, estimulado pelo dio de Adriano,
continuava a provoc-lo.
        - Pai, j lhe disse mil vezes para no a chamar assim.
        - Ah, no? E como devo cham-la? Sua donzela virginal? Tentando controlar a
raiva, Fabrcio desvencilhou-se delicada
        mente da me, aproximou-se de Paulo e declarou com voz firme: - Pois fique
sabendo que ns resolvemos nos casar.
        - Casar? Mas como? Mulher desquitada no se casa, se acasala...
        Fabrcio no viu mais nada. Cego pela revolta, desferiu violento soco no queixo do
pai, que rodou sobre si mesmo e desabou no
        cho, batendo a cabea contra o sof.
        - Miservel! - esbravejou Paulo, levando a mo ao pescoo e
        esfregando a nuca. - Podia ter-me matado!
        Flvia, apavorada, correu para o marido, tentando levant-lo. - Meu Deus, Paulo!
Voc est bem? - E, virando-se para Fa
        brcio, censurou-o com veemncia: - No devia ter feito isso, meu
        filho. Ele  seu pai!
        S ento, dando-se conta do que havia feito, Fabrcio correu para
        Paulo e estendeu-lhe a mo, falando com angstia:
        - Papai, perdoe-me! Perdi a cabea, perdoe-me!
        - Afaste-se de mim, seu cretino! - gritou Paulo entre dentes.
        - No se aproxime mais de mim!
        Amargurado, Fabrcio ergueu as mos para o cu e implorou: - Por favor, no queria
fazer isso. Foi um desatino. Perdoe-me.
        - No! Mil vezes no, seu animal!
        - Paulo, por Deus! - objetou Flvia. - Fabrcio agiu mal, mas
        est arrependido. Perdeu a cabea, voc o provocou. Por favor, abra
        ce-o e vamos acabar com essa briga.
        - , pai - concordou Fabrcio, completamente transtornado e
        com os olhos rasos de gua. - Isso no vai mais acontecer. Eu juro. - Saia de perto
de mim! No quero mais v-lo!
        - Ora, vamos, pai, por favor - implorava Fabrcio, sentindo o
        remorso ro-lo por dentro. - Sei que o que fiz foi grave e no merece perdo. Mas
estou lhe pedindo, sinceramente, que me perdoe. Ser
        que  assim to duro que no pode perdoar o prprio filho?
        Paulo encarou-o com desgosto e, fuzilando-o de dio, rugiu: - Voc no  meu
filho!
        - Pai, por favor, perdoe-me. No faa isso comigo. Sei que no
        gosta muito de mim, mas sou seu filho...
        - Voc no  meu filho, j disse!  apenas um bastardo imun
        do, abandonado pela me no meio da guerra!
        Fabrcio recuou aterrado, enquanto Flvia, chorando, implorava ao marido que se
calasse.
        - O que disse? - perguntou Fabrcio atnito.
        - Paulo, pelo amor de Deus, no diga mais nada! - suplicava Flvia.
        Mas Paulo no ouvia mais a voz da razo. Dominado pelo dio,

        despejou sobre o filho toda a ira e a frustrao acumuladas durante todos aqueles
anos.
       - Eu disse que voc no  meu filho! Nunca foi! E um enjeitado que Flvia, por
piedade, resolveu acolher. No tem meu sangue!
       No tem! No  um verdadeiro Lopes Mandarino!
       Adriano exultava. Conseguira o que queria. Fabrcio no sabia o que dizer ou
pensar. Recebera um duro golpe, mas no sabia
       se acreditava. Ainda tentou protestar:
       - Pai, por favor, sei que est com raiva, mas no precisa me agredir desse jeito.
       - Voc  um enjeitado! Um bastardo! Eu o odeio, Fabrcio! Odeio-o porque tomou o
corao de Flvia, porque tomou o lugar
       de meu filho. Meu filho! - Bateu no peito diversas vezes. - Meu nico filho,
Adriano, que morreu para que voc pudesse viver.
       Que direito tem de estar vivo no lugar dele, Fabrcio? Voc no  nada, no 
ningum. Nem sabemos quem foi sua me, nem
       se teve um pai de verdade! Voc  apenas um bastardo! Um bastardo!
       Flvia chorava descontrolada e correu para o filho, segurandoo pelos braos e
balbuciando:
       - Fabrcio... meu filho... por Deus...
       - Filho?! - interveio Paulo com sarcasmo. - Ele no  seu filho, Flvia. No  filho
de ningum!
       Fabrcio retirou as mos da me de seus braos e, ainda segurando-as, falou com
profundo desgosto:
       - Isso  verdade, me?
       - Oh, Fabrcio...
       - E verdade ou no?
       -  claro que  verdade! - respondeu Paulo.
        Sem prestar ateno ao que o pai dizia, Fabrcio fixou os olhos da me e tornou a
perguntar:
        - Quero saber de voc, me. Isso  verdade ou no ? - Fabrcio, eu...
        - Responda-me. Eu preciso saber.  verdade o que meu pai diz? Completamente
arrasada, Flvia deixou cair os braos ao longo
        do corpo e sussurrou vencida:
        - Sim...
        Aturdido, Fabrcio afastou-se dela e, aps o impacto dos primeiros instantes,
retrucou com desgosto:
        - Por que no me contou? Por qu?
        - Meu filho... eu o amo... no tive coragem...
        - Voc  um intruso, Fabrcio- continuava Paulo. -No tem o direito de estar aqui.
        - No! - gritou Flvia. - Fabrcio  meu filho, tanto quanto Adriano o foi...
        - Por favor, me - cortou Fabrcio. -No diga mais nada. No quero saber de mais
nada. Deixe-me.
        Foi andando para trs, at que alcanou a porta. Colocou a mo na maaneta, ainda
encarando a me, abriu a porta e, rodando
        nos calcanhares, disparou pelo corredor. Flvia foi atrs dele, gritando da porta:
        - Fabrcio! Fabrcio, meu filho, volte! Pelo amor de Deus, volte! Deixe-me explicar!
        Alguns vizinhos, ouvindo aquela gritaria, entreabriram suas portas para ver o que
estava acontecendo, e Flvia voltou para
        dentro, envergonhada. Fabrcio nem esperara o elevador. Descera correndo pelas
escadas. No queria ter de falar com a me.
        Naquele momento, no queria falar com ningum.
        Quando Flvia entrou em casa, Paulo estava sentado no sof, ainda esfregando a
nuca.
        - Por que fez isso, Paulo, por qu? Voc me prometeu...
        - Ele me agrediu. Voc mesma viu.
        - Mas voc o provocou.
        - No interessa. Ele  meu filho. E os filhos no podem bater em seus pais.  a
maior falta de respeito!
        - Agora ele  seu filho, no ? S na hora de lhe exigir respeito  que voc se lembra
de que ele  seu filho. Mas na hora
        de desrespeit-lo, de humilh-lo, de maltrat-lo, voc se esquece de que  pai dele.
Voc no tinha o direito de fazer isso.
        E agora? O que ser dele? O que ser de mim?
        - No se preocupe - respondeu ele, sem muita convico. - Depois que a raiva
passar, ele volta. Afinal, onde encontrar
        o conforto que tem aqui?
        - Voc me enoja, Paulo. Pensei que fosse um homem digno, mas agora vejo que me
enganei. Como pude deixar-me enganar durante
        todos estes anos?
        - No diga isso. Eu a amo. Voc sabe disso. A minha vida inteira, fiz tudo por voc.
Dediquei-me a voc com paixo e afeto. Pode duvidar de tudo, menos de meu amor
        por voc.
        - Isso no  amor. E posse, orgulho, apego... tudo menos amor. Se voc me amasse
de verdade, saberia me entender e respeitar
        meus sentimentos para com Fabrcio. Sabe quanto o amo.
        Sentindo uma pontada de arrependimento, no por Fabrcio, mas pela mulher, Paulo
aproximou-se e, cabea baixa, desabafou:
        - No acha que est sendo muito dura comigo? No percebe quanto me esforcei para
aceit-lo? Mas no pude, no consegui.
        Falhei,  verdade. Mas no foi porque quis. Foi porque no consegui sentir o amor
que voc desejava. No tenho culpa se
        no consegui, como pai, corresponder a suas expectativas de me.
        Flvia baixou os olhos e comeou a chorar. Em seguida, foi para o quarto e, sem
dizer nada, tirou a mala do armrio e comeou
        a colocar algumas roupas dentro dela.
        - O que est fazendo?- indagou Paulo, atnito.
        - Vou embora. Volto para a casa de mame. - Voc no pode fazer isso. E minha
mulher!
        - Devia ter pensado nisso antes de destruir a vida de meu filho. - No pode estar
falando srio. No pode ama-lo mais do que a mim!
        - Pois eu amo. Ele  meu filho. E no h no mundo sentimento maior que o amor
materno.
        - Mas voc nem  me dele!
        Sem nem pensar, Flvia desferiu-lhe um tapa no rosto e revidou entre dentes:
        - Nunca mais diga isso! Nunca mais!
        Apanhou a mala e, sem dizer mais nada, saiu. Na rua, chamou um txi e deu o
endereo da casa de Ins, que, pela hora, j
        deveria ter voltado de Friburgo. Seno, esperaria at que ela voltasse. Precisava
desesperadamente da me. S ela saberia
        como ajuda-la. E, depois, quem sabe Fabrcio tambm no estivesse l?
        Fabrcio havia sado desatinado pela rua. Entrou em seu carro, deu partida no motor
e saiu em disparada. O trnsito estava
        desafogado, e ele pde acelerar mais que o habitual. Ia desorientado, sem saber que
rumo tomar. Viu  sua frente um claro
        e olhou para o cu. Um raio acabara de cair a distncia, e o rudo forte do trovo se
fez
        ouvir logo em seguida. Alguns minutos depois, uma chuvinha fina comeou a cair.
Em seguida, desabou o temporal, e grossos
        pingos escorriam pelo pra-brisa, obrigando Fabrcio a ligar o limpador.
        Sem sentir, comeou a subir a Avenida Niemeyer, e o carro, em disparada, foi
serpenteando pela estrada sinuosa. A cada curva,
        Fabrcio podia ver o mar se agigantando l embaixo, e foram muitas as vezes em
que a traseira do automvel derrapara e chegara
        a roar a
        mureta do outro lado da pista. Quase batera em um carro que vinha na direo
contrria, mas segurou o volante e trouxe o
        carro de volta  pista. O motorista do outro automvel buzinou, e Fabrcio ainda
ouviu um grito, que lhe pareceu um palavro.
        Nada disso lhe importava. Estava cego pela revolta e pela indignao. Como a me
pudera fazer aquilo com ele? Como pudera
        engana-lo durante todos aqueles anos? Com esse pensamento, foi acometido de uma
sensao de invalidao, como se nada que
        possusse lhe pertencesse, inclusive aquele carro. Perdeu o sentimento de domnio
que tinha sobre todas as suas coisas,
        como se estivesse usufruindo de algo que no merecia ser seu.
        E o amor? No conseguia nem valorizar aquele sentimento. Que amor? A me o
adotara movida por um impulso de piedade, e o
        pai nem sequer conseguira aceit-lo. Tambm, como aceitar um estranho, cuja
presena tolerara s para satisfazer o altrusmo
        da mulher? Agora compreendia tudo. Entendia por que era to diferente no s do
irmo mas tambm do resto da famlia. Compreendia
        por que o pai no gostava dele e por que a me o protegia. Paulo no conseguia v-
lo como filho e julgava-o um usurpador;
        usurpara o lugar que pertencia a Adriano por direito e por nascena.
        Flvia, por sua vez, sentia pena dele. Por isso o protegia: porque o julgava a parte
mais fraca. No tinha coragem de contar-lhe
        a verdade porque tinha medo de que ele no suportasse e se revoltasse. Mas por
qu? Por piedade. Porque sentia pena dele.
        Pena de sua condio de enjeitado, de renegado pela me. Paulo dissera que nem
conheceram sua me e que ela o abandonara
        na guerra. Por qu? Porque precisava fugir e se esconder, e um filho pequeno seria
um estorvo? Por que ento no o deixara
        l para morrer? E ela? Teria morrido tambm? E quem teria sido seu pai verdadeiro?
        Quanto mais pensava nessas coisas, mais se indignava e mais acelerava o
automvel. De repente, pensou em Adriano. O irmo
        morrera sem nada saber. Mas ser que no sabia mesmo? Na certa, ao desencarnar,
ficara conhecendo toda a verdade. E como teria
        reagido?
        Sentado a seu lado, braos cruzados, Adriano lia seus pensamentos.
        - Como acha que me senti, sabendo que voc tomou meu lugar? - revidou ele,
coberto de dio.
        Mentalmente, Fabrcio ia respondendo:
        - Mas eu no tive culpa. No sabia de nada. Fui to inocente quanto Adriano.
        - Inocente? Desde quando usurpadores so inocentes? Voc tomou o que  meu!
        - No tomei nada de ningum. Se soubesse disso h mais tempo, teria dado outro
rumo  minha vida.
        - Que rumo? Teria voltado para a Alemanha?
        Fabrcio no respondeu. Sentiu a raiva crescer dentro do peito e comeou a chorar.
O carro, como que desgovernado, descia
        a estrada a toda velocidade, derrapando na pista molhada. Raios e troves caam 
sua frente, e o mar, a todo instante,
        aparecia revolto a seu lado, chocando-se violentamente contra as rochas l embaixo.
        - Foi numa noite assim que Adriano morreu - pensou em voz alta.
        - Sim, idiota - respondeu Adriano entre dentes. - E, pelo visto, voc vai ao meu
encontro da mesma forma.
        -No vai, no - uma voz de mulher fez-se ouvir no banco traseiro, e Adriano virou-
se espantado.
       Sentados no banco de trs, Helga e Ismael olhavam-no penalizados.
       - O que fazem aqui? - esbravejou Adriano. - Mas ser possvel que, aonde vou, sou
obrigado a dar de cara com vocs? Por
       que no desaparecem?
       - O que est pretendendo, Adriano? - tornou Ismael. - Levar seu irmo ao suicdio?
       - Eu no!
       - Mas, desse jeito, ele vai acabar se matando.
       - E da? No tenho nada com isso. Ele dirige feito um louco porque quer.
       - Com certeza. Mas, no fosse sua influncia, ele no captaria a vibrao de seu
acidente e no a atrairia para ele.
       - Ah! Quer dizer agora que, se ele morrer, a culpa ser minha?
       - No. Ele est em sintonia com voc porque nutre os mesmos sentimentos que
voc, naquele dia. Est revoltado, com raiva,
       com cime de voc.
       - Cime de mim? Ora, essa  boa.
       - Sim, cime. Voc era o filho legtimo. Voc conquistou o amor do pai.
       - E ele tem o amor de minha me.
       - Assim como voc. Sua me ama a ambos com igualdade. Mas seu pai, durante
todos esses anos, s conseguiu amar voc.
       Adriano calou-se por uns instantes, at que retrucou:
       - Olhe, velho, no tenho nada com o que Fabrcio faz.
       - Ento, por que o est acompanhando?
       - Por qu? Ora, porque gostaria de ver onde isso vai parar.
       - Vai parar no fundo do abismo - respondeu Helga de repente-, se ns no fizermos
nada para impedir.
       Colocou as mos na testa de Fabrcio e comeou a vibrar o sentimento de amor pela
vida. Por que no prestava ateno ao
       que estava fazendo? Por que dirigia feito um louco por uma estrada perigosa e
escorregadia, encharcada pela chuva? Ser
       que no conseguia ver a similitude entre aquela situao e aquela que causou a
morte de Adriano? No conseguia perceber
       que estava repetindo os passos do irmo? Ser que queria desencarnar, como ele?
       - Voc no precisa passar por isso, Fabrcio - sussurrou Helga a seu ouvido. -
Adriano escolheu. Voc, no. No sintonize
       com o dio e a revolta dele. Seja forte e enfrente a vida. Mas, antes, escolha viver.
       Subitamente, Fabrcio tirou o p do acelerador e comeou a frear. Mas o carro,
embalado na descida, no obedecia a seu comando.
       Os freios, molhados pela chuva, no funcionavam direito, e o automvel continuava
serpenteando estrada abaixo. Fabrcio
       comeou a ficar nervoso. S ento se dera conta do que estava se passando. Sara
feito um louco, dirigindo de forma imprudente
       por aquela avenida perigosa. Mas no queria morrer. Adriano perdera a vida num
dia como aquele. Mas ele, no. Precisava
       parar aquele carro, que ia ganhando velocidade  medida que a descida se
acentuava.
       Com esforo e destreza, Fabrcio ia controlando o volante, mas no conseguia evitar
que o automvel derrapasse e sasse
        de lado. Em pnico, via as rochas  sua direita e o mar  sua esquerda, imaginando o
que o destino lhe havia reservado: chocar-se contra
        a montanha de pedra ou despedaar-se no mar l embaixo.
        Mas o destino conspirava a seu favor, porque Fabrcio o traara na direo da vida.
Conseguiu conduzir o carro at o fim
        da estrada e afundou o p no freio, virando o volante para a direita. O automvel
obedeceu, fazendo a curva a toda velocidade,
        com os pneus j travados. O carro rodopiou uma, duas, trs vezes e saiu andando de
r. Subiu a calada, at que parou, centmetros
        antes de colidir contra a parede de um imenso hotel.
        Quando o carro parou, Fabrcio pousou o rosto no volante e, com lgrimas nos
olhos, balbuciou aturdido:
        - Meu Deus... obrigado..
        No mesmo instante, pessoas apareceram. Viram quando o carro fizera a curva e
rodara, e haviam acorrido para ver se havia
        algum ferido. Fabrcio levantou-se e saiu ileso, sem nenhum arranho. Foi apenas o
susto. O susto e a certeza de que fora
        a interferncia do alto que o salvara, poupando-o de ter a mesma sorte do irmo.
        Fabrcio agradeceu a ajuda que lhe ofereciam e pediu para usar um telefone. Foi
levado at a recepo do hotel, ainda trmulo,
        e discou o nmero do auto-socorro. Ao subir o meio-fio, quela velocidade, algo no
carro se soltara, e o motor no pegava
        mais. O homem do outro lado da linha mandou que aguardasse, pois estava
providenciando um reboque para buscar o automvel.
        Fabrcio desligou e agradeceu novamente, mas foi ento interpelado:
        - Tem certeza de que est bem? - indagou o gerente. - Estou timo - respondeu
Fabrcio.
        - Acho melhor ele descansar... - sugeriu uma hspede. - Obrigado. Mas estou bem,
j disse.
        - O que houve, rapaz? - indagou um senhor. - Por que corria tanto? No est
alcoolizado, est?
        Fabrcio sorriu com benevolncia e retrucou:
        - No, senhor. No ingeri uma gota sequer de lcool. O que
        aconteceu foi que perdi o freio bem na descida. O carro ganhou velocidade e, com a
chuva, no consegui parar. - Mas que coisa! - tornou a mulher.
        - Essa estrada  um perigo. Ainda mais com um tempo destes.
        - Pois . Mas agora, graas a Deus, est tudo bem.
        Fabrcio despediu-se e foi postar-se ao lado do carro, a fim de esperar o reboque,
que chegou cerca de uma hora depois.
        Com o carro na oficina, Fabrcio no sabia para onde ir. Para a casa da av, seria
impossvel, pois, na certa, seria o primeiro
        lugar em que Flvia o procuraria, e no queria falar com ela, ao menos por
enquanto.
        Chamou um txi e pediu que o levasse a um hotel. Passaria a noite l e depois
pensaria no que fazer. Se  que haveria o
        que fazer.
        Ao chegar  casa de Ins, Flvia estava desesperada. Pensou que Fabrcio tivesse
ido se refugiar nos braos de Selena ou
        da av. Mas ningum sabia de nada, e ambas ficaram deveras surpresas ao ver
Flvia ali, de mala na mo, pedindo para ficar.
        - Mas o que houve, minha filha? - indagou Ins alarmada, tomando-lhe a mala da
mo e fazendo-a sentar-se. - Voc e Paulo brigaram?
        - Sim...
        - Mas por qu?
        Era a primeira vez que aquilo acontecia. Desde que se casaram, fazia mais de trinta
anos, Paulo e Flvia nunca haviam tido
        um desentendimento srio. Brigavam como todo casal, mas nada que os afastasse ou
que levasse um deles a sair de casa.
        Percebendo o constrangimento de Flvia, Selena pediu licena para se retirar e foi
para o quarto dormir. Depois que ela
        saiu, Flvia, encarando Ins com os olhos banhados em lgrimas, desabafou:
        - Oh, me! Aconteceu! Ele descobriu. Fabrcio descobriu tudo.
        Aturdida, Ins pensou que no havia compreendido direito.
        - Descobriu o qu, Flvia? Que no  seu filho?
        Vendo que a filha assentia, Ins levou a mo  boca e deixou escapar num sussurro:
        - Eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer.
        - E agora? O que vou fazer?
        - Onde ele est?
        - No sei. Saiu de casa feito um louco. Pensei que tivesse vindo para c.
        - Aqui ele no apareceu. Aonde ter ido? - Ah, meu Deus! S espero que esteja
bem. - Vamos fazer uma orao por ele.
        Oraram com fervor, e Ismael e Helga acorreram no mesmo instante. Foi quando,
atendendo ao apelo delas, apareceram no carro
        de Fabrcio para ajud-lo.
        Terminada a orao, Flvia comeou a chorar, descontrolada.
        - Tudo por culpa de Paulo. Foi ele quem contou. Aquele desgraado! Nunca mais
quero v-lo enquanto viver!
        - Acalme-se, minha filha, e conte-me como aconteceu.
        Tentando controlar a emoo, Flvia enxugou as lgrimas e comeou a contar tudo
 me, desde quando Fabrcio sara de manh
        at o momento em que voltara. Contou-lhe do frasco com o lquido vermelho e da
caveira com suas iniciais, de quanto ficara
        nervosa e telefonara insistentemente, mas ningum atendera.
        - Selena me disse que eles passaram o sbado em Paquet e hoje foram  praia.
        - Mas eu no sabia. Liguei diversas vezes, vim at aqui com Paulo. At fomos 
polcia.
        - Polcia?
        - E. Fiquei preocupada com aquele frasco. Para mim, era outra ameaa. S que o
delegado disse que no podia fazer nada...
        Ah, me, fiquei to desesperada! S o que podia pensar era que havia perdido meu
outro filho. No poderia suportar perder
        dois filhos!
        - Acalme-se, meu bem. j passou.
        - No, no passou. Onde est Fabrcio? Por que no aparece? - Ele vai aparecer, no
se preocupe. Na certa, precisa apenas
        de um tempo para pensar.
        - Acha mesmo?
        - Tenho certeza. Fabrcio  um rapaz inteligente e sensato. No vai se deixar levar
pelo dio e esquecer quanto voc o ama
        e quanto ele a ama. Vai aparecer, voc vai ver.
        Ainda soluando, Flvia trincou os dentes e revidou com raiva: - Tudo por causa de
Paulo! Por que o odeia tanto? - No acuse
        seu marido. Ele no tem culpa.
        - No tem culpa? Como pode dizer uma coisa dessas? Pois se foi ele quem contou!
Quebrou a promessa que me fez e contou. Chamou Fabrcio de bastardo!
        - Paulo jamais conseguiu aceitar Fabrcio.
        - E isso no  horrvel? No conseguir amar o prprio filho?
        - Flvia, o amor no se impe; conquista-se, constri-se.
        - Mas por que ele tambm no pde construir o amor por Fabrcio, assim como fez
com Adriano? S porque Fabrcio no tinha
        seu sangue...
        - No  por causa disso, e voc sabe muito bem. Quantas pessoas h por a que
adotam crianas, inclusive de outras raas,
        e as amam como verdadeiros filhos? H casais de brancos adotando negros,
asiticos, mulatos. H negros que adotam brancos
        e ndios. E todos se amam. Constroem o amor ou mantm o que j existia.
        - Eu sei, me...
        - E no h laos de sangue entre eles. O que h so os laos do esprito. O amor
prescinde do sangue, minha filha. A verdadeira
        famlia no  a consangnea, mas a das pessoas que se amam. Voc e Fabrcio no
possuem o mesmo sangue, mas se amam muito
        mais do que outras pessoas, que so pais e filhos, irmos e irms.
        - Mas Paulo no pensa assim...
        - Porque Paulo ainda est preso a alguma dificuldade do passado que ns
desconhecemos.
        - E que culpa tem Fabrcio de suas frustraes?
        - Lembre-se de que ningum passa por aquilo que no precisa passar, e, se Fabrcio
escolheu nascer nessa situao, foi porque
        achou que seria til a seu crescimento. E eles se amam. Podem ainda no conseguir
enxergar isso, mas se amam.
        - Amam? Estranha maneira de amar.
        - O que me parece  que, por algum motivo, Paulo se ressente de algo que Fabrcio
lhe fez. Algo que emperra o sentimento,
        que o represa, que o distorce para que ele seja liberado em forma de dio.
        -No entendo. Paulo odeia Fabrcio, isso  muito claro. No existe amor algum em
seu corao.
        - A  que voc se engana. Para mim, Fabrcio deve t-lo frustrado de alguma forma.
Deve ter feito algo que frustrou seu
        afeto e, por no conseguir perdo-lo, Paulo reage de maneira agressiva, exatamente
porque ama e foi ferido nesse amor.
        - Mas o qu, me? O que, de to grave, Fabrcio poderia ter feito a Paulo?
        - No sei. Mas que ambos possuem uma forte ligao do passado,
        isso possuem. E Paulo s no consegue amar Fabrcio porque escondeu sua mgoa,
sua frustrao, por detrs de um aparente
        dio. A atitude de Fabrcio, no passado, deve ter, no provocado, mas propiciado
essa reao.
        - Mas o que pode ter sido? No me lembro de nada nesse sentido.
        - Nesta vida, no. Mas, em outra, deve ter acontecido entre eles algo que plantou
essa mgoa no corao de Paulo, e ele
        no conseguiu esquecer. Mas, no momento em que perdoar e se perdoar, vai
compreender e aceitar. Em uma palavra: vai amar.
        Flvia refletiu por alguns instantes, at que considerou:
        - No sei, me. Ainda que essa mgoa exista, o sentimento paterno deveria ser mais
forte que tudo. Mas Paulo jamais conseguiu
        se ver como pai de Fabrcio, assim como foi pai de Adriano a vida inteira.
        - E pensa que ele no sofreu com isso?
        - Bem, ele disse que se esforou. Mas no sei se acredito nisso.
        - Pois deveria. Eu acredito que Paulo tenha se esforado para amar Fabrcio da
forma como voc esperava. E deu o mximo
        que podia. E o mximo dele era muito inferior a seu mnimo. Por isso entraram em
choque.
        - Isso no  desculpa.
        - No  desculpa mesmo.  a realidade. Deixe um pouco de lado seu sentimento e
pense em seu marido. Acha que deve ter sido
        fcil para ele conviver com uma pessoa a quem sabia que deveria amar e no
conseguia? Pensa que ele devia ficar feliz reconhecendo
        a distino que fazia entre Fabrcio e Adriano? No acha que ele gostaria de tambm
poder aceitar Fabrcio em seu corao?
        Flvia titubeou:
        - No sei. Nunca pensei nas coisas dessa forma.
        - Pois pense. No veja apenas seu lado, o lado da me que sofre porque ama demais.
Pense no lado do pai que tambm sofre,
        mas porque no consegue amar. Deve ser to difcil para ele quanto  para voc.
Com uma nica diferena: ele deve se roer
        pela culpa. Voc, no.
        Flvia comeou a chorar. Ins continuou:
        - No seja to severa com Paulo. D-lhe a chance de sentir e de falhar. Ningum
pode pretender alcanar a perfeio sem
        experimentar o fracasso. E natural,  a vida. Entenda que seu marido fez o
        melhor que pde, e no  culpa dele se no conseguiu corresponder s suas
expectativas. A expectativa foi sua, no dele.
        - Do jeito como fala, at parece que Paulo est certo em rejeitar Fabrcio.
        - No est certo nem errado.  o melhor que ele consegue fazer no momento. E o
ideal? Talvez no. Mas  seu melhor. Cada
        um d o que tem, minha filha, e ningum pode dar ouro quando s o que tem so
algumas moedas de cobre. Mas pode dar as de
        cobre e se esforar para, um dia, conseguir conquistar o ouro tambm. E, quando o
conquistar, pode distribu-lo na exata
        medida daquilo que julgar necessrio para prover ao outro sem deixar de prover a si
mesmo.
        - Oh, mame!
        - Chore, minha filha. Deixe que as lgrimas lavem sua alma e seu corao. Voc
precisa.
        Agarrada a Ins, Flvia deu livre curso s lgrimas. Naquele momento, foi
acometida por uma sensao de esperana e sentiu
        que nem tudo estava perdido. Fabrcio aceitaria e entenderia que, de qualquer forma,
era filho de seu corao.
        Fabrcio queria desaparecer. Contudo, tinha responsabilidades com seus clientes e
no podia permitir que seus problemas
        pessoais prejudicassem pessoas a quem ele se dispusera a ajudar e que confiavam
nele.
        No dia seguinte, acordou bem cedo e foi fazer compras. A audincia comearia s
onze horas, e ele ainda teria tempo de comprar
        um terno, camisas e um sapato novo. Escolheu tudo rapidamente, comprou alguns
objetos de uso pessoal e voltou para o quarto
        do hotel. Ficaria morando ali at que resolvesse o que fazer.
        Depois que se aprontou, foi direto para o frum. Na pressa de sair de casa, nem se
lembrara de apanhar sua pasta. Contudo,
        no podia falhar. No tivera tempo de se preparar adequadamente, mas faria o
melhor que pudesse.
        A audincia transcorreu normalmente. Embora o caso fosse complicado, Fabrcio
conseguiu desembaraar-se bem. Quando terminou,
        deu algumas orientaes ao cliente e foi para o escritrio. Ao abrir a porta, Oflia
foi logo falando:
        - Dr. Fabrcio, que bom que chegou! Sua me j ligou diversas vezes...
        O telefone tocou novamente e ela atendeu.
        - Ah, sim, um momento. - E, tapando o bocal, acrescentou para Fabrcio: - Sua me
novamente.
        Ele pensou por alguns segundos e respondeu: -.Diga que no estou.
        Oflia no entendeu nada e pensou em protestar, mas ele entrou correndo em seu
gabinete e fechou a porta.
        - Sinto muito, Dona Flvia - desculpou-se ela. - Ele no est. Eu me enganei...
Pensei que tivesse chegado... Sei... Pode
        deixar, darei seu recado.
        Desligou e foi bater  porta do gabinete. - Entre - ordenou Fabrcio.
        - Dr. Fabrcio - disse ela, sentando-se diante dele -, sabe que no gosto de me
intrometer em sua vida, mas sua me estava
        realmente aflita. No sei o que lhe aconteceu, mas acha justo deix-la nesse estado?
        Fabrcio encarou-a com hostilidade e retrucou de m vontade:
        - No quero falar com ela. No quero falar com ningum. Passe-me apenas as
ligaes profissionais. Qualquer ligao pessoal,
        diga que no estou.
        Oflia no contestou. Estava claro que ele no queria se abrir nem ceder, e ela no
tinha o direito de importun-lo. Contudo,
        se Flvia ligasse novamente, diria que ele estava ocupado. Ao menos assim ela se
tranqilizaria. Oflia tambm era me e
        sabia quanto sofria com os problemas de seus filhos.
        Flvia desligou o telefone e fitou a me.
        - Ele no quer falar comigo. Sei que estava l, mas no quis atender.
        - Deixe, Flvia. D-lhe tempo. Isso vai passar.
        Ouviram barulho na escada e viram Selena descendo em companhia das crianas. j
era hora do almoo, e elas estavam limpas
        e penteadas. Selena percebia que algo de errado havia acontecido, mas no queria
parecer intrometida. Pensou em oferecer
        ajuda, mas teve medo de que Flvia se zangasse.
        O almoo transcorreu em silncio, e era visvel a tristeza e a angstia de Flvia. De
repente, o telefone tocou, e Bibiana
        foi atender. Em meio ao sobressalto, ela voltou e disse para Flvia:
        -  para a senhora, Dona Flvia. E seu marido.
        Flvia olhou para a me, que balanou a cabea, e foi atender. - Al? - disse com
amargura. - Al? Flvia? E voc? Graas
        a Deus que est bem.
        - E lgico que estou bem. O que esperava? Que eu tivesse me matado?
        - Por favor, no seja sarcstica. Precisamos conversar. - No temos nada para
conversar. -Temos, sim. Ainda sou seu marido.
        - Devia era lembrar-se de que tambm  pai. - Por favor, deixe-me explicar.
        - Explicar o qu? O que j sei? Que no ama Fabrcio? - No  to simples assim.
        - No, no . Ao contrrio,  bem complicado. No so todos
        os pais que rejeitam os filhos com tanta facilidade.
        - Flvia, por Deus, no faa isso comigo! No posso viver sem
        voc. Durante todos estes anos, foi a primeira vez que dormi sozinho... - E, se
depender de mim, no ser a ltima.
        - No pode estar falando srio. No pode pensar em me deixar. - J o deixei.
        - Por favor, Flvia, isso no  assunto para discutirmos por telefone. Deixe-me ir at
a...
        - No! No quero. Enquanto meu filho no aparecer, no quero ver voc.
        - Fabrcio sumiu?
        - Voc sabe que sim. - Onde ele est? - Como vou saber?
        O silncio f-la perceber que ele estava chorando. - Por favor, Flvia, perdoe-me...
        - No  a mim que deve pedir perdo. E a seu filho.
        - Farei isso se voc quiser. Mas, por favor, no me abandone. - No, Paulo, no
quero que voc pea desculpas a Fabrcio.
        O que queria mesmo  que voc quisesse fazer isso.
        - Flvia... - Adeus.
        Desligou. Atrs dela, a me a olhava penalizada. - O que ele queria?
        - Conversar comigo.
        - E voc?
        - Recusei.
        - Mas por qu?
        -No tenho nada para falar com ele.
        - Ser que o que conversamos ontem no serviu para nada? - No  isso, me. No
vou conseguir ficar diante dele. - Mas por
        qu? D-lhe a chance de se desculpar. - Ele deve desculpas  a Fabrcio.
        - Por que no deixa que Fabrcio resolva isso? - Como? Se ao menos soubesse onde
ele est... - Voc sabe. Sabe que ele foi
        ao escritrio. - Mas no sei onde passou a noite.
        - Isso no importa. Ao menos sabemos que ele est bem.
        Flvia no respondeu. Baixou a cabea, virou-se e saiu para o jardim. Nem terminou
de almoar. Se j no tinha muita fome,
        agora a perdera completamente.
        Com a mo ainda sobre o telefone, Paulo chorava de mansinho. Por que fizera
aquilo? Por qu? Por que no conseguia amar
        Fabrcio? Em seu ntimo, sabia que o fato de ele ser adotado no era desculpa
suficiente. No era essa a questo. Se fosse
        seu filho legtimo, no o amaria do mesmo jeito e ainda se sentiria mais culpado do
que agora.
        Levantou-se desanimado, apanhou o palet e saiu.
        - Vai almoar? - perguntou o cunhado, vendo-o  espera do elevador.
        - Vou - respondeu ele com profundo desgosto. - Por favor, Marcos, cuide de tudo
para mim, sim? No me sinto bem e no volto
        mais hoje.
        - Posso ajudar?
        - No. Ningum pode.
        O elevador chegou, e Paulo entrou. Alcanou a rua e comeou a caminhar
desorientado. Sentia-se muito mal com o que fizera,
        mas no sabia como voltar atrs. Concordara em pedir desculpas a Fabrcio s para
ter Flvia de volta. Mas no estava sendo
        sincero. Depois da morte de Adriano, ela passara a ser a nica coisa importante em
sua vida. Tinha de encontrar um jeito
        de lhe pedir perdo.
        Ao ver Clarinha se aprontar para sair, Adriano se revoltou. Ele conseguira acabar
com a felicidade do irmo, e agora precisava
        dar um jeito naquele juiz intrometido. Ouviu quando a campainha da frente soou e
adivinhou quem era. Otvio agora se tornara
        ntimo e ocupava seu lugar. Por que todo mundo queria seu lugar? Era o lugar de
filho e agora o de noivo. Por isso tinha
        de acabar tambm com a alegria daquele juiz.
        - Voc no vai sair, Clarinha - disse ele a seu ouvido. - No vou deixar.
        Pela primeira vez, desejou que ela passasse mal. Das outras vezes, o mal-estar vinha
pelo contato com sua vibrao de dio.
        Mas essa vibrao era agora intencional, e Adriano deu-lhe um forte abrao e
colocou a mo em sua nuca, sugando-lhe um pouco
        das energias. Na mesma hora, Clarinha sentiu o estmago revirar e uma forte
tonteira, e desmaiou no exato instante em que
        a me abria a porta do quarto.
        - Clarinha! - exclamou Elisete, correndo para ela. - Bernardo! Bernardo! Venha
depressa!
        Bernardo apareceu alarmado.
        - De novo?
        Ajudou a mulher a coloc-la na cama.
        - Acho melhor lev-la ao hospital - sugeriu Bernardo, preocupado.
        - No! Chame o Dr. Feliciano.
        - O qu? L vem voc de novo. Ainda no desistiu desse mdico maluco?
        - Ele no  maluco. Por favor, Bernardo, pense em sua filha. O que lhe custa? Voc
pode no concordar com as crenas dele,
        mas sabe que ele  um bom mdico.
        Bernardo considerou. Ela tinha razo. O mdico podia ter l suas
        idias esquisitas, mas era muito conceituado em seu meio.
        - Est bem- concordou vencido. -S que no tenho mais seu
        telefone. Joguei fora o carto que ele me deu.
        - Mas eu tenho. Est na bolsa preta, em cima da poltrona do
        quarto. Por favor, Bernardo, depressa!
        At ento, Bernardo no sabia que Elisete havia ido ao centro de Ins. Com medo de
sua reao, ela preferiu no dizer nada.
        Mesmo curioso para saber quando a mulher apanhou outro carto com o mdico,
Bernardo no disse nada e foi busc-lo. Voltou
        para a sala, tirou o fone do gancho e discou o nmero da casa de Feliciano.
        - Algum problema?-quis saber Otvio, que fora acomodado numa poltrona da sala.
        Bernardo fez-lhe sinal que sim, mas no teve tempo de respon
        der. Uma voz atendeu do outro lado da linha, e ele falou: - Ah... Boa noite. Por
favor, o Dr. Feliciano est? - E ele mesmo.
        Quem est falando?
        - Desculpe-me incomod-lo, doutor. Aqui quem fala  Bernardo Morais, pai de
Clarinha...
        - Ah, sim. Como vai, Dr. Bernardo?
        - Nada bem. Clarinha... - no concluiu a frase, envergonhado ante aquela situao.
        - Ela desmaiou de novo?
        - Sim... - hesitou. - E minha mulher insiste em cham-lo. - Quer que eu v at a?
        - Se for possvel...
        - Um momento - fez-se um breve silncio do outro lado, at que Feliciano voltou. -
Muito bem, Dr. Bernardo, pode me dar
        o endereo.
        Feliciano anotou e desligou. Bernardo, por sua vez, explicou a Otvio o que havia
acontecido, e ambos ficaram esperando
        o mdico chegar.
        Clarinha continuava desmaiada, com Adriano colado a ela. No estava mesmo
disposto a solt-la. Por ele, ela s despertaria
        depois que o juiz fosse embora.
        Quando Feliciano chegou, foi apresentado a Otvio e logo introduzido no quarto de
Clarinha. Assim que a viu, no teve dvidas:
        um esprito estava a seu lado, minando-lhe as foras. Ele se aproximou da cama e
tocou-lhe a testa. Estava fria, ela toda
        estava gelada. Tomou-lhe o pulso e sentiu que os batimentos haviam diminudo. O
esprito sugava-lhe as energias com vontade.
        A presena de Feliciano intimidou Adriano. Embora o conhecesse, no ficou nada
satisfeito com sua ida at ali. Afinal, no
        tinha nada com aquilo. E havia algo nele que o amedrontava.
        Sem dizer nada, Feliciano estendeu as mos sobre o corpo de Clarinha e elevou uma
orao aos cus. Em seguida, comeou a
        deslizar as mos por sobre todo o seu corpo, e de seus dedos ia saindo uma onda
com colorao arroxeada, que se espalhava
        por todo o quarto, fazendo a limpeza do ambiente. Depois, suas mos passaram a
vibrar uma tonalidade mais puxada para o
        vermelho, que elevou a presso sangnea de Clarinha e acelerou sua respirao, at
ento bastante enfraquecida. Em poucos
        instantes, o cansao, o abatimento e o desnimo foram sendo substitudos por uma
onda de vitalidade que dominou todo o corpo
        da jovem.
        Ela abriu os olhos e piscou lentamente, tentando entender o que estava se passando.
Vendo o mdico a seu lado, e a me,
        o pai e Otvio mais atrs, compreendeu tudo. S no entendia como Feliciano fora
parar ali.
        Em seguida, o mdico convidou todos para, juntos, fazerem uma orao. Bernardo,
completamente abismado, no entendia o que
        havia acontecido. A filha, havia poucos minutos, parecia morta. Como podia aquele
homem, s com a imposio das mos, trazer
        a cor de volta a suas faces?
        Sem dizer nada, Bernardo aproximou-se e sentou-se junto aos demais, em volta da
cama de Clarinha.
        Feliciano fez a prece, agradecendo as bnos recebidas e convidando o esprito ali
presente a acompanhar os mentores que
        circundavam o ambiente.
        Adriano olhou ao redor. L estava Ismael, parado a observ-lo
        - De novo, velho? Ser que voc no desiste nunca?
        Ismael estendeu a mo para ele e tornou com doura:
        - Venha comigo, Adriano. No tem mais o que fazer aqui.
        - A  que voc se engana...
        - Voc perdeu, meu filho. O poder da orao e da f foi mais forte que voc.
        - Por enquanto. Mas esse Feliciano no vai ficar aqui para sempre.
        - O que pretende, Adriano? J no se vingou de seu irmo? No est feliz com o que
lhe aconteceu? Por que quer tambm prejudicar
        Clarinha?
        - No quero prejudic-la. Quero proteg-la.
        - Tem razo: ela precisa mesmo ser protegida. De voc. Adriano deu um salto,
indignado.
        - O qu? Como se atreve a me dizer uma coisa dessas?
        Partiu para cima de Ismael, que ficou parado no mesmo lugar. - Vai me agredir? -
indagou com serenidade.
        Adriano no lhe deu ouvidos e tentou dar-lhe um tapa, mas sua
         mo atravessou o rosto do outro, e ele indagou perplexo:
         - Como pode? Voc  um esprito tanto quanto eu.
         - Sim, meu filho. Mas, como lhe disse, minha matria  muito
         mais sutil do que a sua. A sua, por ser mais densa, atravessa a minha,
         assim como a dos encarnados passa atravs da sua.
         Aturdido, Adriano acercou-se dele e ponderou:
         - Oua, velho, desculpe-me. No pretendia atingi-lo. Foi uma
         estupidez de momento.
         Ismael sorriu para ele e, parando na frente do espelho da cmoda, convidou-o a se
olhar.
        - Venha, Adriano. Veja em que se transformou.
        Sem entender, Adriano postou-se diante do espelho e levou um susto. Nem
pareciam seu rosto, seu corpo. Ele, que fora um
        rapaz bonito, via-se agora diante de um espectro, todo sujo e arranhado, os olhos
fundos, cercados de olheiras, a pele baa,
        sem vida, os cabelos desgrenhados.
        - Mas o que  isso? - perguntou assustado.
        - E voc, Adriano. Tal qual no dia em que sofreu o acidente. - Mas como? Isso foi
h tanto tempo!
        E o resultado de sua rebeldia. Recusando nossa ajuda, no permitiu que
terminssemos de reequilibrar seu perisprito, e
        no dia em que voc, em sua casa, se recordou da tragdia, plasmou as leses em seu
corpo espiritual e foi se degenerando,
        como se carne ainda possusse.
        - No entendo... -balbuciava ele aturdido. - Como pode ser
        isso? Sou um esprito... No devia guardar seqelas do acidente.
        - Voc precisa se harmonizar com suas prprias energias. Venha
        comigo. Quero tratar de voc.
        Adriano olhou para Clarinha, que conversava animadamente
        com Otvio, e sentiu o dio voltar a crescer dentro dele.
        - No posso deix-la, velho. No com esse a.
        - Acha que ela ainda vai querer voc? O que pensa que ela sen
        tiria se o visse nesse estado?
        Ele titubeou novamente. Sabia que ela ficaria apavorada. - No pretendo me
mostrar...
        - E acha que ela no o sente? Acha que ela no capta seu desequilbrio, sua dor?
        - No fao por mal.
        - No fazia. At hoje. Mas agora h pouco, quando a abraou,
        desejou ferozmente que ela se sentisse mal e desmaiasse. Considera
        isso um ato de amor? Ou  puro egosmo?
        - Pare com isso, velho. Voc no sabe de nada.
        - No, Adriano. Quem no entende nada  voc. Pensa que
        Clarinha lhe pertence. Mas ela no lhe pertence. Nem a voc nem
        a ningum. Clarinha pertence ao mundo,  vida...
        - Chega, velho, chega! - gritou Adriano, tapando os ouvidos.
        - No diga mais nada!
        - Desista desse propsito. No v que, com isso, s o que con
       segue  tornar-se cada vez mais infeliz?
       - No, no... - choramingava Adriano. - Eu era feliz. Tinha
       uma vida. Tinha pais que me amavam, tinha uma profisso de futuro, uma noiva que
me adorava. Mas agora... tiraram-me tudo.
       - Quem tirou?
       - No sei. Fabrcio...
       - Acredita mesmo nisso?
       - Foi por causa dele que sofri aquele acidente.
       - Ser? Pense bem e responda sinceramente. Fabrcio  que foi
       o responsvel por seu desencarne? Ou foi sua imprudncia que o levou at aquele
precipcio?
       - No sei... no sei, velho, no sei!
       Adriano agora chorava descontrolado, e Ismael aproximou-se dele. Alisou seus
cabelos, duros de sangue ressecado, e apoiou
       a cabea em seu peito. O rapaz, por uns instantes tocado por aquela onda de amor e
ternura, deixou-se ficar e agarrou-se  cintura
       de Ismael, chorando cada vez mais.
       - Venha comigo, Adriano. S o que quero  que voc seja feliz.
       Adriano ergueu o corpo e abraou-o com fora, deixando em seus ombros todo o
peso de sua dor. Seu corpo, sacudido pelos
       soluos, era amparado por Ismael, que o acariciava com sublime amorosidade. De
olhos cerrados, Adriano continuava a chorar.
       De repente, decidiu-se. Iria partir com ele. J estava cheio de tudo aquilo. Abriu os
olhos e, com a viso ainda turvada
       pelas lgrimas, viu, por sobre o ombro de Ismael, Clarinha e Otvio beijando-se
apaixonadamente, a mo do juiz levemente
       pousada sobre seu seio. Imediatamente, toda aquela fragilidade esmoreceu. Adriano
empertigou-se e partiu para cima dos dois,
       mas foi impedido de atingi-los pela vibrao tranqilizadora de Ismael.
       -No vou, velho, no adianta! -esbravejou ele. - Quase me convenceu! Paraqu?
Para deixar esse juiz dos infernos livre para
       profanar o corpo de minha Clarinha? Jamais!
       Deu as costas a Ismael e sumiu pela parede. Era s o que podia fazer naquele
momento. Mais tarde, quando toda aquela energia
       de amor se esvanecesse do ambiente, voltaria. E no, ningum conseguiria tir-lo
dali.

        Sem ter para onde ir, Adriano voltou para sua casa. Ao entrar, sentiu uma aura de
tristeza no ar e foi procurar o pai. Ele
        estava deitado na cama, com uma garrafa de usque ao lado, bastante embriagado
quela altura. Adriano sentou-se junto a
        ele e auscultou seus pensamentos.
        - Por que fui fazer uma coisa dessas, por qu? Onde estava com a cabea?
        - No se atormente, pai - respondeu Adriano do astral_ . Fez o que era certo.
        Julgando que fosse sua prpria conscincia tentando amenizar sua culpa, Paulo ia se
acusando e se justificando ao mesmo
        tempo:
        - Mas eu no devia... Prometi a Flvia. E, depois, Fabrcio no tem culpa...
        - Como no tem culpa? Pois se tomou meu lugar! O lugar de seu filho legtimo!
        - Est certo que ele no  meu filho. Mas que culpa tem? Era ainda um beb quando
foi adotado. No sabia de nada.
        - Isso no invalida o fato de que ele  um usurpador...
        - Como pode ter usurpado algo que sempre julgou que fosse seu?
        - E as outras vidas, pai? Agora sei que existem. Fabrcio deve ter me roubado numa
vida passada... -Calou-se espantado,
        s agora comeando a compreender. - Ou ser que fui eu que lhe roubei alguma
coisa?
        Paulo no lhe captou os ltimos pensamentos. Como relutava em aceitar a idia da
reencarnao e da espiritualidade, no
        conseguiu perceber a dvida do filho. Enquanto isso, Adriano ia refletindo:
        - Essa tal de lei de causa e efeito de que minha av tanto fala... ser isso? Ser que o
que estou passando hoje  resultado
        de meu comportamento de ontem?
        A esse pensamento, Adriano estremeceu. Parecia-lhe que agora comeava a
vislumbrar a realidade de sua situao.
        - Mas ento-prosseguiu-estou sendo punido. Seja o que for que tenha feito, o castigo
foi muito maior. Ningum merece passar
        pelo que eu passei. Como Deus  injusto! Por que me castigou dessa forma? Por que
colocou nas mos de Fabrcio as armas
        para se vingar de mim?
        Adriano deixou-se dominar pela autopiedade e comeou a sentir-se vtima da
situao. Baixou a cabea e saiu acabrunhado,
        deixando o pai adormecido, ressonando sobre os travesseiros.
        O que faria agora? Foi andando pela rua, sem saber aonde ir. Ao passar pelas
esquinas, via grupos de desencarnados fumando
        e bebendo, e alguns o convidavam para juntar-se a eles. Mas Adriano no queria.
No estava interessado em ficar vagando
        feito uma assombrao. O que fazia tinha um propsito. Mas que propsito?
Vingar-se de Fabrcio. Nesse caso, vingar-se de
        qu? Da usurpao de seu lugar de filho. Mas como, se fora ele quem roubara o
lugar de Fabrcio, e Fabrcio  que se vingara
        dele? E de que se vingaria amanh? E quando isso terminaria?
        Torturado, levou novamente a mo aos ouvidos, como se, impedindo-os de escutar,
no pudesse ouvir seus prprios pensamentos.
        Foi caminhando com dificuldade, at que passou diante da vitrine de uma loja de
molduras. Havia vrios espelhos emoldurados,
        e ele olhou para a frente. Viu seu rosto deformado e sujo refletido em vrios
        tamanhos e comeou a gritar. Saiu correndo e atravessou a rua, passando pelo meio
dos carros, que no o atingiam.
        Ao chegar ao outro lado da calada, estacou exausto e desatou a chorar. Sacudido
pelos soluos, ajoelhou-se no cho e, ainda
        com as mos sobre os ouvidos, exclamou com fervor:
        - Deus! Ajude-me! Por favor, ajude-me!
        Viu que  sua frente uma luzinha formava uma espcie de trilha e, levantando os
olhos, deparou com uma igreja toda iluminada.
        Na porta, um padre sorria para ele. Levantou-se envergonhado, tentou
        ajeitar-se da melhor forma possvel, alisando os cabelos sujos e duros. Aproximou-
se do padre e, com ar maravilhado, indagou:
        - Que lugar  esse? Onde estou?
        O padre, sorrindo bondosamente, respondeu:
        - Esta  uma igreja, e voc est exatamente onde parou. Numa rua de sua cidade.
        - Rua de encarnados ou desencarnados?
        - Esta no  uma cidade espiritual, se quer saber. E o Rio de janeiro mesmo.
        Adriano voltou-se para a igreja, que luzia de encontro  noite, e continuou:
        - Ser que posso entrar?
        - Venha - disse o padre, chegando para o lado e deixando-o passar.
        Adriano entrou meio sem jeito. No era religioso e, tirando casamentos, no
freqentava a igreja desde a primeira comunho.
        - No  preciso ser catlico para entrar aqui -falou o padre com ternura. - Esta  a
casa de Deus, assim como o so os templos
        budistas, as sinagogas, os centros espritas e quaisquer outros que se destines a levar
ao mundo palavras de sabedoria e
        amor.
        Com os olhos rasos de gua, Adriano apanhou a mo do padre e a beijou. O padre
acariciou seus cabelos, sem se importar com
        a crosta de sangue que os endurecia, e foi com ele at o altar.
        - Por que no experimenta rezar? - perguntou gentilmente.
        - No sei rezar.
        - Sabe, sim. No rezou h pouco?
        - Eu? No.
        -No pediu ajuda a Deus?
        - Ah, aquilo? No foi reza, no. Foi desespero.
        - Um desespero muito sentido e carregado de esperana e f no Criador. No 
preciso mais que isso.
        Sentindo a bondade na aura daquele homem, Adriano experimentou ajoelhar-se no
genuflexrio e fitou o altar. Era simples:
        ao centro, a imagem de Jesus crucificado. A direita, Maria, sua me, e,  esquerda,
So Jos. Contudo, havia tanta luz emanando
        daquele altar que Adriano se sentiu envolvido por ela, e uma paz reconfortante foi
tomando conta de todo o seu corpo. Ele
        chorava sentido, s que agora suas lgrimas tinham um gosto de alvio e esperana.
        O padre comeou a se afastar, mas Adriano o deteve.
        - Voc no  encarnado, ?
        - No, como pode perceber.
        - Mas, ento, o que faz aqui? Que eu saiba, a Igreja no cultua os mortos.
        - No estou morto, como voc tambm no est. E, depois, todo templo dedicado a
Deus, desde que sincero em seus propsitos,
        tem a proteo do Alto. Por isso estou aqui. Fui padre em vida e pedi para continuar
a s-lo aps meu desenlace. Quando
        encarnado, gostava de auxiliar pessoas a se reencontrarem consigo mesmas. Agora,
dedico-me a auxiliar pessoas a se reconciliarem
        consigo e com Deus.
        - Obrigado, padre - disse Adriano emocionado. - Jamais esquecerei o que fez por
mim.
        O padre sorriu e deu um tapinha no ombro de Adriano, caminhando para o fim da
igreja, onde um desencarnado o aguardava,
        sentado no ltimo banco.
        - Salve, meu irmo - falou o padre com simpatia.
        - Ol, padre. E um prazer estar em sua igreja.
        - Veio por causa do rapaz?
        Ismael assentiu.
        - E seu neto?
        - , sim. Andou um pouco perdido, mas creio que est comeando a despertar.
        O padre assentiu e retrucou:
        --  um bom rapaz. S que no sabe disso. Pensa que deve se vingar.
        - Leu em sua aura?
        - Sim. Seus pensamentos esto impregnados do desejo de vingana, agora aliado a
um profundo arrependimento. Est confuso.
        - Mas vai se encontrar. E sua ajuda, padre, foi muito importante para ele.
        - Eu apenas atendi a seu chamado. Ele caiu em frente  minha igreja, e eu escutei
sua prece. Por isso, vim atender. - Muito
        obrigado.
        - No precisa me agradecer. Minha maior recompensa  ver o despertar dos espritos
ainda cegos pela dor.
        Ismael sorriu e o padre retrucou com bondade: - Por que no vai falar com ele?
        Ismael olhou para Adriano, ajoelhado de costas, cabea baixa, em profunda orao,
e respondeu com certa tristeza:
        - Ainda no. Ele no me quer por perto. No momento, limitome a agradecer o fato
de ele ter pedido e aceitado sua ajuda.
        J  um incio bastante significativo.
        - Entendo.
        - Contudo, no pude deixar de vir. De onde estava, tambm senti sua angstia e ouvi
seu apelo. Por isso, tomei a liberdade
        de vir at aqui apenas para v-lo.
        - Venha quando quiser. Esta igreja sempre estar aberta para qualquer um que dela
necessitar.
        - Obrigado - respondeu Ismael, levantando-se para ir embora. - At breve. E,
novamente, muito obrigado por tudo.
        Ismael saiu feliz da igreja. Adriano dera um importante passo em sua nova vida.
Estava comeando a questionar suas atitudes,
        e isso era muito bom. Apesar de fazer uma idia errnea sobre encarnao e lei de
causa e efeito, no fazia mal. Ao menos
        por enquanto. O que importava era que ele estava comeando a despertar para as
verdades da alma. Mais tarde, Ismael trataria
        de esclarec-lo.
        Era quarta-feira, e Fabrcio, at ento, no tinha dado nenhum sinal. No atendia ao
telefone, e ningum sabia onde estava
        morando. Apenas Oflia dava notcias, informando que ele estava bem. Ela tambm
no sabia onde ele vivia; imaginava que
        em algum hotel, mas no sabia dizer qual.
        Quando ele no apareceu  noite, na hora da reunio, Selena no agentou mais.
Nem com ela ele queria falar, e ela j no
        suportava mais ver todos tristes sem saber o que estava acontecendo. Ins dissera-
lhe que houvera uma briga sria com Paulo
        e que, por isso, Fabrcio sara de casa. Mas, fosse qual fosse o motivo da desavena,
no via razo para afastar-se dela
        tambm. Afinal, no tinha nada com isso.
        Vendo sua angstia, Ins e Flvia acharam que j era hora de contar-lhe a verdade.
Afinal, se ela ia se casar com Fabrcio,
        era justo que conhecesse toda a sua histria.
        - Quando voltarmos do centro hoje - anunciou Ins -, ns lhe contaremos tudo.
        - Mas s depois? - protestou Selena.
        - Agora no d mais tempo. A histria  longa e no pode ser contada assim, s
pressas.
        J estavam fechando o porto quando ouviram a buzina de um automvel.
Voltaram-se ao mesmo tempo e tiveram uma imensa surpresa.
        Elisete chegava em companhia de Clarinha e Bernardo, no carro de Feliciano.
        Depois que eles saltaram, Ins abraou o amigo e exclamou com sincera alegria:
        - Feliciano! Que surpresa! H quanto tempo no aparece. - Pois , Ins. Falta de
tempo.
        Cumprimentaram-se todos, e Selena observou:
        - Tio Bernardo,  uma surpresa muito grande v-lo aqui tambm. Bernardo
enrubesceu e baixou os olhos, acrescentando com
        voz sumida:
        - Vim conhecer esse centro esprita de que Elisete tanto fala. - Diga a verdade,
Bernardo - cortou Elisete. - Voc s
        aceitou vir porque o Dr. Feliciano aqui praticamente curou nossa Clari
        nha apenas com a imposio de suas mos. E ou no ? Desconcertado, Bernardo
reconheceu:
        -  verdade... Confesso que ainda  difcil para mim acreditar nessas coisas de
esprito. Mas no posso negar que o Dr.
        Feliciano conseguiu, em apenas dez minutos, o que nenhum mdico pde fazer em
meses.
        Clarinha no dizia nada. Estava melhor, sentindo menos enjos e no desmaiava
desde o dia em que Feliciano fora  sua casa.
        Mas sentia-se deprimida, angustiada, sempre com vontade de chorar. A seu lado,
Adriano acompanhava tudo com desgosto. Estranhamente,
        no estava mais interessado em prejudicar Fabrcio nem em possuir Clarinha. No
momento, isso seria mesmo impossvel, e de
        que adiantaria ficar tentando alcanar o inatingvel?
        Pouco depois, um outro carro chegou. Era Otvio, que marcara de encontr-los ali.
Ele estacionou na rua, atrs do carro
        de Feliciano, saltou e foi ao encontro de Clarinha, que sentiu uma pontada no
estmago. Apesar de tudo, Adriano ainda no
        gostava daquele juiz, e v-lo ao lado de Clarinha causava-lhe imenso desgosto.
        - E Fabrcio? No vem?
        Ins e Flvia trocaram um olhar rpido, e esta explicou:
        - Fabrcio no pde vir hoje. Compromissos de trabalho, vocs entendem.
        Apenas Adriano soltou um riso sarcstico. Compromissos de trabalho... Pois sim!
Ele estava era enfurnado naquele quarto
        de hotel, com vergonha at de botar a cara para fora. S ia trabalhar porque
precisava. Pensar naquilo causou-lhe estranho
        desgosto. Achou que ficaria feliz com a derrota do irmo, mas sentiu que no havia
mais um sarcasmo verdadeiro naquelas
        palavras. Apenas um esforo para reafirmar uma raiva que j no sentia, mas que
achava que devia sentir.
        O grupo seguiu para o centro esprita, e Adriano passou pelo porto da casa da av e
foi sentar-se no alpendre. Ainda no gostava
        do centro esprita e no estava com vontade de ouvir os sermes de Ismael.
        Esticou as costas no cho e ficou olhando as estrelas, sentindo a brisa suave da noite
batendo em seu rosto.
        Embalado por aquela sensao de paz, acabou por adormecer. Cerca de quinze
minutos depois,
        ouviu uma voz a seu lado e abriu os olhos, fitando a interlocutora com ar de
espanto.
        - Cia! - exclamou, reconhecendo ali o esprito amigo. - O que faz aqui?
        - Eu? Nada de especial. Vim apenas conversar com voc. - Voc anda sumida.
        - Ora, quem sumiu foi voc. Voc  que nos abandonou, lembra-se?
        -  uma surpresa para mim v-la aqui. - Por qu?
        - Esperava outra pessoa.
        - Quem? Ismael?
        - . Ele no me deixa em paz. Ele e aquela tal de Helga, que s vezes aparece
tambm.
        - S querem ajud-lo. Ismael gosta muito de voc, sabia? - Por qu? Eu nem o
conheci.
        - Ele  seu av. E, depois, no precisamos realmente conhecer algum para am-lo.
        - Voc  engraada. Como se pode amar um desconhecido? - Amor universal, meu
caro. Nem todo mundo sente. - Bobagem. A gente
        s ama quem conhece...
        - Ser? E o padre que o atendeu naquele dia? No o ter amado tambm?
        - O padre? - Adriano considerou. - No. Ele foi bonzinho. - Por qu? Por que acha
que foi bonzinho?
        - Sei l. Porque  o ofcio dele.
        - Ningum possui bondade por dever. A bondade faz parte da evoluo das
criaturas.
        - At parece.
        -No acha que est sendo injusto?
        - Olhe, reconheo o que ele fez por mim e jamais seria ingrato
       a ponto de dizer que ele no me ajudou. Ser-lhe-ei eternamente grato. Mas isso de
ajudar  coisa de padre mesmo. Faz parte
       da funo. So todos bonzinhos.
       - Acredita mesmo nisso? Acredita que a bondade decorre do ofcio, da profisso?
       - Acha que no? Decorre de qu? Do amor? Qual! Isso  fantasia. O padre nem me
conhecia...
       - Ao atend-lo, o padre foi movido por um sentimento de amor pela humanidade...
       - Est bem, que seja. E da? O que isso tudo tem a ver comigo? - Estou
esclarecendo-o acerca do amor. Lembra-se? Falvamos
       de Ismael...
       - O chato.
       - No diga isso. Aposto como sente a falta dele.
       - Eu?- indignou-se. - Era s o que me faltava...
       -No fosse por ele, sabe-se l o que j no teria acontecido a voc!
       - Como assim?
       - Ora, ento no sabe? Ismael reza muito por voc.
       - Ele pode ser bonzinho tambm, mas continua sendo chato. Sempre aparece para
me perturbar.
       - Ser? Pense bem e responda-me com sinceridade: ser que Ismael no aparece nos
momentos em que voc se encontra em maiores
       dificuldades?
       Adriano pensou durante alguns instantes. Realmente, Ismael aparecia quando ele
estava mais angustiado ou desesperado, com
       aquela fixao em Fabrcio e em Clarinha. Ser que, quando ia a seu encontro, ia
para demov-lo de seus intentos, pura e
       simplesmente?
       Lendo-lhe os pensamentos, Cia mesma respondeu:
       - E claro que no. Ismael tenta impedi-lo de prejudicar seu irmo e sua ex-noiva
para que voc no prejudique a si mesmo.
       No percebe que o maior atingido  voc?
       - Eu?! Fui atingido pela fatalidade naquele acidente. Agora acho que tenho o direito
de dar o troco.
       - Voc no acredita mais nisso. Fala porque  orgulhoso. Mas, no fundo, no pensa
mais assim. Est sofrendo. Olhe para si
       mesmo. Nem um homem parece mais.
       Adriano olhou para seu corpo magro e comeou a chorar. Ela ti
       nha razo: no era nem sombra do homem bonito e elegante que fora
       outrora. Agora, mais parecia um farrapo, um molambo.
       - Cia, no sei mais o que sou...
       - Voc  um ser humano. Desencarnado, mas humano. E, o tempo todo, Ismael
tentou mostrar-lhe isso.
       - Ele foi duro comigo. Colocou-me diante daquele espelho. - Para que voc pudesse
ver com os prprios olhos todo o mal
       que vem infligindo a si mesmo. O que pensa? Que Ismael tem prazer em tortur-lo?
Ismael o ama.
       Adriano chorava sem parar, mas continuava a teimar. Nem sabia por que teimava.
       - Teima por orgulho, Adriano. Porque no sabe reconhecer que errou, que perdeu.
        - No, no  nada disso. No  que no goste de Ismael. Voc tem razo. Ele nunca
me fez nada. Mas  que, sempre que eu estava
        prestes a fazer alguma coisa, l vinha ele com seus sermes enjoados. - Ele s
queria impedir que voc piorasse sua situao. E ela poderia
        ter sido bem pior. No fosse por Ismael, talvez voc nem estivesse aqui.
        - No? Como assim?
        - Caso no saiba, h muitas falanges de espritos das sombras interessados em
capturar espritos descuidados como voc, que no
        aceitam ajuda para no terem de abandonar seus projetos de vingana e dio.
        - Capturar-me? Para qu?
        - Para o utilizarem em seus prprios projetos de vingana con
        tra os encarnados. Alguns espritos, com o corao cheio de dio, in
        veja, desejos de vingana, acabam por sintonizar com as falanges das
        trevas e so logo capturados. Passam ento a trabalhar para os mais
        poderosos e so ameaados, espancados, torturados.
        - Que horror!
        -  um horror mesmo. E voc gostaria de parar num lugar desses? - No... Claro que
no.
        - Pois . Foi Ismael, com suas incansveis oraes, quem con
        seguiu mant-lo longe dessas falanges. Voc acha que sofre, no  mes
        mo? Pois no sabe o que  o sofrimento no astral inferior.
        Adriano, envergonhado, afundou a cabea entre as mos e desabafou:
        - Ah, meu Deus! O que fui fazer? O que fiz com minha vida? - Ainda h tempo de
voc consertar tudo. - Como?
        - Venha comigo ao centro esprita. L receber tratamento e ser encaminhado de
volta  colnia.
        - Terei de abandonar Clarinha?
        - Desapegue-se dela. Apego no faz bem a ningum. Veja o que o apego fez a voc:
aprisionou-o, tornou-o escravo de seus
        prprios temores. Com medo de que Clarinha o esquea e arrume outro, voc vive
grudado a ela, fazendo-a sentir-se mal. E
        para qu? O que voc vai ganhar com isso? Nada. No poder t-la mesmo.
        - Mas eu a amo.
        - Isso no  amor. O amor liberta, jamais aprisiona. Se voc tenta aprisionar o ser
amado, na verdade enclausura a si
        mesmo. Prende-se ao medo de perder,  insegurana, ao desespero. Isso  bom? No
 melhor ser livre? Livre para amar, inclusive.
        Se voc conseguir se libertar do apego, ver que seu sentimento no lhe trar mais
dor.
        - Tem razo. E dor mesmo o que sinto.
        - E lgico! Quem pode ser feliz vivendo em constante sobressalto, com medo de
perder, de ser abandonado? O amor no  motivo
        de dor. Ele liberta da dor e do sofrimento. Por isso, se ama Clarinha de verdade,
deixe-a em paz.
        - Eu a amo...
        - Ento liberte-a. Estar libertando a si mesmo. Ou ser que no se ama tambm?
        - A mim? Nunca havia pensado nisso.
        - Pois pense agora. Aprenda a se amar e depois ame mais algum. Ele enxugou os
olhos, olhou para o cu e emocionou-se. O
        mundo era bonito, o universo era belo. Por que ele no podia usufruir de
        toda aquela beleza? Por que tinha de ficar amarrado  podrido do dio? - Venha
comigo. Estou lhe pedindo.
        Ele voltou para ela os olhos midos e respondeu hesitante:
        - No sei. No sei se posso. No sei se mereo. - E claro que merece. Todos
merecemos.
        Ele estava louco para aceitar, mas no sabia se devia. Julgava-se
        um rprobo e tinha medo de ser recriminado. No. No fundo, no fun
        do, ainda no conseguira dar um salto sobre seu orgulho e admitir que
        estava errado, que sofrera porque fora teimoso e arrogante.
        Ele apanhou a mo de Cia e levou-a aos lbios, molhando-a com suas lgrimas
sentidas. Em seguida, acariciou-lhe o rosto
        e sussurrou:
        - Vou pensar.
        O trabalho de Cia ali havia terminado. Fizera o que fora possvel e j era hora de
voltar. Quando chegou ao centro, a palestra
        havia terminado naquele exato instante, e Antnio preparava-se para dar incio aos
trabalhos de desobsesso. Vendo-a entrar
        sozinha, Ismael endereou-lhe uma indagao com o olhar.
        - Conversei muito com ele - respondeu ela. - Acho que consegui atingir seu corao.
        - Por que ele no veio?
        - Est confuso, com medo, vergonha, tudo junto. Mas h uma grande chance de ele
aparecer.
        Enquanto Antnio doutrinava um esprito que se apresentara, Ismael e Cia davam
passes nos presentes, orientando os recmchegados
        que queriam ser atendidos. No total, trs espritos haviam se manifestado, e o
dirigente j ia encerrar a sesso quando
        Adriano entrou. Veio tmido, olhou ao redor, balanou a cabea para Cia e Ismael e
ficou parado na porta, olhando.
        Imediatamente, o mentor de Antnio, em telepatia com Ismael, conduziu suas
palavras e f-lo dizer:
        - Meus amigos, acaba de chegar um esprito que precisa muito de nosso auxlio. Por
isso, peo-lhes pacincia e concentrao,
        e convoco esse nosso visitante a se apresentar.
        Percebendo que o mentor falava com ele, Adriano ficou sem saber o que fazer.
        - Venha, meu filho. No tenha medo. Estamos aqui para ajud-lo no que for preciso.
        Cia aproximou-se de Adriano, estendeu-lhe a mo e falou com doura:
        - Venha. No tenha medo. Ficarei a seu lado, se quiser.
        Ele sorriu em agradecimento e, de mos dadas com ela, aproximou-se da mesa. Sua
av chorava de mansinho, j percebendo sua
        presena. De onde estava, podia ver a me e Clarinha, com a cabea recostada no
ombro do juiz. Seu corao comeou a disparar,
        mas sentiu que uma estranha paz o dominava e percebeu que Cia o tocava bem na
altura do cardaco.
        Ajudado pelo esprito, Adriano incorporou numa mdium. Assustou-se
       ao sentir um corpo de carne e experimentou falar. Abriu a boca, e a mdium abriu a
sua tambm. Aquilo era inusitado.
       E assustador tambm. Mas Cia estava a seu lado, e ele se sentiu seguro, mais
confiante. Abriu a boca novamente e falou:
       - Me... perdoe-me...
       Desatou a chorar. Com ele, Flvia e Ins tambm choravam. At Clarinha, que, de
repente, tivera uma melhora sbita, chorou
       com elas, sem saber direito por qu. Em poucas palavras, Adriano cons

        abrir seu corao e atingir o daqueles a quem amava. Estava tudo bem agora.
Conseguira se libertar.
        Sentado sozinho em seu quarto de hotel, Fabrcio pensava em sua vida. Mas que
vida? A vida nem era sua. Vivera a vida de outro.
        Consultou o relgio da mesinha: sete e meia. Hora de se levantar.
        Tomou um banho, fez a barba, vestiu-se e saiu. No caminho, passou na oficina para
ver como estava indo o conserto do carro e foi avisado de que poderia ir busc-lo
        no fim da tarde.
        Fez sinal para um txi e entrou. Nunca se sentira to s em toda a sua vida. Tinha
saudade da me, da av, de Selena e das crianas. Selena... O que estaria pensando
        de tudo aquilo? Na certa, deveria estar zangada com ele. E no era para menos. Ele
sumira, desaparecera sem dar nenhum sinal. Ele a amava. No queria perd-la. Contudo,
        no se sentia com nimo de encar-la. Ela lhe faria perguntas para as quais ele no
conhecia as respostas.
        O txi parou na porta do edifcio onde ele tinha escritrio, e ele saltou. Tomou o
elevador e foi andando, pensativo, pelo corredor. Chegou  porta do escritrio
        e rodou a maaneta. Ao abrir a porta, levou um susto. Sentada numa poltrona da
sala de espera, sua av mantinha animada conversa com Oflia.
        Ao v-lo, ela sorriu e foi a seu encontro. Constrangido, recebeu o abrao e o beijo
que ela lhe deu e indagou surpreso:
        - V... O que faz aqui?
        - Surpreso em me ver?
        - No... Quero dizer, sim... No a esperava aqui.
        - Pois . Voc sumiu de minha casa. Ento, resolvi visit-lo.
        Ele assentiu vagarosamente e, virando-se para a secretria, indagou:
        - Algum compromisso para a manh, Dona Oflia?
        - No, doutor. O senhor tem uma reunio marcada para as quatro e meia com o
advogado de Dona Helena, lembra-se?
        Ele assentiu. Tinha uma proposta de acordo para a partilha de bens num desquite
amigvel. O acordo j estava pronto, e ele tinha tempo para conversar com Ins. Havia
        chegado o momento de tirar tudo a limpo.
        - Muito bem, Dona Oflia. Venha, vov. Vamos para meu escritrio.
        Ins seguiu-o at sua sala, e ele fechou a porta, indicando-lhe um confortvel sof
perto da janela. Ela se sentou, e ele se acomodou ao lado dela.
        - Gostaria de alguma coisa? Um caf, um ch?
        -No se preocupe, meu filho, no quero nada.
        Ele pousou as mos sobre os joelhos, encarou-a e indagou com
        voz polida:
        - Muito bem. O que a traz aqui?
        - Deixe dessas formalidades comigo, Fabrcio. Sou sua av. Ele engoliu em seco e,
ainda a encarando, indagou com olhos midos:
        - Ser?
        - Voc duvida? No acredita?
        - No  isso... Mas, depois de tudo que houve...
        - E o que houve? Voc descobriu a verdade sobre seu nascimento. S isso.
        - S isso? Acha pouco saber que fui adotado? - Diga-me: o que mudou em sua vida?
        - Tudo. Sinto-me um intruso em minha famlia.
        - No ama mais sua me? Nem seu pai? Nem a mim? E quanto a Selena? O que ela
tem a ver com tudo isso?
        - Devagar, vov, por favor. Continuo amando minha me como sempre amei,
embora no entenda por que ela mentiu para mim. Quanto a meu pai, foi ele quem nunca
conseguiu
        me amar. E Selena, como voc mesma disse, no tem nada a ver com esta histria.
        - Entretanto, nem a ela voc procurou.
        - Porque no sabia o que lhe dizer.
        - Por que no a verdade? Acha que Selena se importa? Acha que ela deixaria de
am-lo?
        - No sei.
        - Ora, mas que amor  esse que sente por ela? Ento no confia no amor de Selena?
        - Confio...
        - Pois no parece. Ela ficou muito magoada com voc, porque voc no confiou
nela e desapareceu, deixando-a aflita, sem saber de nada.
        - Ela j sabe a verdade?
        - j. Sua me e eu tivemos de lhe contar.
        - E?
        - E nada. Gostaria de estar junto de voc nessa hora. Ficou sentida porque voc no
confiou nela.
        Ele suspirou com tristeza e retrucou:
        - Por favor, ajude-me. No sei o que pensar.
        - Meu filho - tornou ela com mais doura -, entendo como
        deve estar se sentindo. Mas pense em sua me. Pense em quanto ela
        sofreu e ainda sofre com tudo isso. Ela o ama verdadeiramente como
        filho. No pode duvidar disso.
        - No duvido.
        - Ento por que desapareceu? Por que a deixou angustiada?
        Sabe que ela est morando em minha casa?
        Ante seu olhar de espanto, ela esclareceu:
        - Pois . Sua me ficou muito magoada com seu pai e o deixou. - No a culpo...
        - Nem deve. Mas tambm no deve culpar seu pai.
        - Como no? Por acaso tem idia do que ele me disse?
        - Sei de tudo que aconteceu. Mas no posso culp-lo de nada. - Por qu? Ser que
pensa como ele?
        - Voc sabe quanto voc  importante para mim. Responda-me
        com sinceridade: acha mesmo que penso como seu pai?
        - No, vov, desculpe-me. Estou confuso.
         -  natural. Mas voc tem de tentar se reequilibrar para enfren
         tar essa situao com coragem e confiana.
         - No sei. Tudo isso  muito estranho. Eu tinha uma vida, mas
         agora percebo que vivi uma mentira durante quase trinta anos. Como quer que me
sinta?
        - Voc no viveu uma mentira. Viveu cercado de amor e compreenso. Como pode
ser to ingrato?
        Ele baixou os olhos, envergonhado, e retrucou: - No me refiro a isso.
        - Refere-se a qu? Para mim, o amor deve superar todas as barreiras.
        - Mas meu pai...
        - No use seu pai como desculpa. Ele fez a parte dele, contoulhe a verdade da forma
como podia. Mas voc pode aceitar isso ou no, independentemente da atitude de
        seu pai.
        -  difcil...
        - O amor torna fceis todos os problemas. Voc  um rapaz inteligente. No 
possvel que no perceba a dimenso de tudo que viveu.
        - No  isso...
        - O que , ento?
        - No sei dizer ao certo. Mas  como se, de repente, nada do que fui me pertencesse:
meu nome, minha profisso, meus bens, minha vida. Sinto-me como se tivesse
        tomado o lugar de outra pessoa e furtado tudo que era seu.
        - Pois no devia pensar assim. Tanto voc quanto Adriano ocupavam o lugar que
lhes cabia. S que ele, por opo prpria, desencarnou antes de voc. E voc, por um
        motivo que desconhecemos, escolheu ser adotado nas circunstncias em que foi.
        - Mas que circunstncias? No sei de nada. Meu pai... isto , Paulo, disse que minha
me me abandonou na guerra. Por qu? Onde fui encontrado?
        Ins balanou a cabea e objetou:
        - Voc no foi encontrado. Foi dado  sua me num momento de desespero. E foi o
maior presente que ela poderia ter recebido. - Como assim, dado? Por qu?
        - Quer mesmo saber?
        - E claro que quero. Penso nisso todos os dias desde que soube da verdade, e acho
que tenho esse direito.
        - Tem, com certeza.  um direito seu, mais do que de qualquer outro, conhecer a
verdade sobre sua origem. No entanto, no sou eu quem lhe ir contar.
        - No? Por qu?
        - Porque quem no tem esse direito sou eu. Essa  uma conver
        sa que voc ter de ter com sua me.
        - Minha me? No sei se terei coragem de encar-la. - E por que no? Por acaso est
com raiva dela? - No, em absoluto.
        - Pois ento? V at minha casa e ela lhe contar tudo. - Tem certeza?
        - Tenho.
        Aps alguns instantes de reflexo, ele afirmou: - Est certo. Hoje mesmo irei at l.
- timo. Estaremos esperando-o.
        Ins despediu-se do neto com o corao mais leve. Ficara satis
        feita com o resultado daquele encontro e estava certa de que Flvia
        conseguiria alcanar seu corao.
        Fabrcio foi buscar o carro na oficina e, s oito em ponto, entrou na casa da av. A
me e Selena estavam sentadas na sala quando ele chegou. Olhou para elas envergonhado
        e cumprimentou:
        - Boa noite.
        - Ol, meu filho - respondeu Flvia, lutando desesperadamente para conter a
emoo.
        Selena levantou-se do sof, acercou-se dele e estendeu-lhe a mo, que ele tomou e
apertou. Sentindo o amor da moa, puxou-a para si e beijou-a suavemente, estreitando-a
        de encontro ao peito.
        - Oh, Selena, que falta senti de voc! Perdoe-me!
        - Est tudo bem, meu querido.
        Depois de alguns instantes de pura emoo, Fabrcio desvencilhou-se do abrao de
Selena e foi ajoelhar-se aos ps da me, pousando a cabea em seu colo. Ela acariciou
        seus cabelos com ternura, molhando-os com suas lgrimas, at que ele falou:
        - Perdoe-me tambm, me. Fiquei baratinado. No sabia o que fazer.
        - No, meu filho, sou eu que devo pedir-lhe perdo. Por mim e por seu pai.
        - Agora compreendo por que meu pai nunca me amou. Ele jamais pde aceitar o
fato de que eu no era seu filho, no  mesmo?
        - Infelizmente,  isso mesmo. Seu pai lutou, mas no conseguiu vencer suas prprias
dificuldades.
        - Mas por qu? Por que fui adotado? Papai me disse que fui abandonado na guerra.
Vov falou que me deram a voc. Quem? Minha verdadeira me?
        - Sente-se aqui a meu lado e lhe contarei tudo. Chegou a hora de voc conhecer toda
a verdade.
        Fabrcio sentou-se ao lado da me, e Ins acomodou-se numa poltrona do outro
lado. Selena, por sua vez, levantou-se para sair. O momento era de extrema intimidade,
        e ela no queria parecer uma intrusa.
        - No, Selena - protestou Fabrcio. - Se vai se casar comigo, quero que conhea tudo
a meu respeito.
        Ela sorriu emocionada e foi sentar-se ao lado dele no sof. Depois que todos se
acomodaram, Flvia respirou fundo e, rememorando os acontecimentos daquele dia, quase
        trinta anos atrs, comeou a falar:
        - Tudo comeou quando eu perdi o filho que estava esperando...
        Contou tudo. Da gravidez e do aborto espontneo j no terceiro ms de gestao. Do
medo de contar  famlia e decepcionar a todos. Da viagem  Europa que Paulo sugeriu
        como forma de diminuir sua dor. Confessou que no tivera coragem de escrever
para a famlia, revelando aos sogros o aborto. Aps seis meses de viagem, estavam na
        Alemanha exatamente quando as tropas de Hitler invadiram a Polnia. Por
coincidncia, se no tivesse abortado, seu filho estaria para nascer por aqueles dias. E
        foi ento que tudo aconteceu.
        - Ns estvamos na estao, esperando o trem, quando ouvimos o soar de um apito.
Ao olharmos na direo daquele som, vimos uma mulher correndo e, mais atrs, alguns
        policiais, que gritavam algo que no entendamos, embora pudssemos supor do que
se tratava. A mulher era judia e estava sendo perseguida pelos soldados nazistas.
        Vendo-nos, ela correu em nossa direo e estendeu-me o que parecia ser uma
trouxinha. Fiquei assustada. Ela falava em alemo, e eu no entendia nada do que dizia.
         Mas ela me estendia a trouxinha com insistncia, gritando e chorando em desespero,
falando palavras que eu no compreendia. Ouvi um barulho que parecia ser um choro.
         Afastei os panos e vi voc. Era um beb lindo. Gorducho e rosado, olhinhos azuis
expressivos e cabelinho louro. Parecia um anjinho. Fiquei emocionada. Eu havia perdido
         meu filho, e aquela mulher me oferecia outro. Apesar dos protestos de seu pai,
apanhei
         voc do colo dela e o estreitei o mais que pude, tentando escond-lo. A pobre
mulher, com lgrimas que reconheci como de agradecimento, saiu correndo pela estao
         para, logo em seguida, ser alcanada pelos guardas. Eles a seguraram com
brutalidade e saram arrastando-a Ao passar por ns, ela nem sequer nos olhou. Tinha medo
         de que vissem o beb e o levassem para a morte. Contudo, pude sentir seu alvio.
Ela caminhava para a morte, mas algo diminua sua dor: a certeza de que voc estava
         vivo e que teria uma chance de continuar a viver.
         Flvia no conseguiu prosseguir. Lgrimas de emoo deslizavam de seus olhos, e
Fabrcio, mais emocionado ainda, agarrou-se a ela e liberou o pranto. Depois de se
         recuperar, Flvia continuou contando a histria Falou da forma como conseguiram
tir-lo da Alemanha sem documentos e de como o trouxeram de volta ao Brasil, aps
         registr-lo no consulado brasileiro na Sua.
         - Chegando aqui, seu pai procurou um advogado e regularizou tudo, e voc
conseguiu a nacionalidade brasileira sem levantar suspeitas.
         - E verdade. Lembro-me de que tive que ratific-la aos vinte e um anos. Mas nem
desconfiei. Para mim, havia nascido no estrangeiro porque vocs estavam em viagem
         de frias.
         Aps breves instantes de emoo, Flvia segurou o queixo de Fabrcio e continuou:
         - Sua me deve t-lo amado muito para fazer o que fez. Sabia que ia morrer, mas
tentou de tudo para salv-lo. Abriu mo de voc por amor. Voc no foi abandonado.
         Foi amado desde seu nascimento. E continuou a s-lo depois. S o amor materno
para permitir fazer o que ela fez. Entreg-lo nas mos de estranhos, cujos princpios
         nem conhecia, na tentativa desesperada de salv-lo. E ela partiu daquela estao sem
nem olhar para trs, embora ns pudssemos sentir quanto estava triste por ter
         de se separar de voc.
         Fabrcio chorava emocionado, apertando a mo de Selena.
         - Quem era ela, me? Como se chamava?
         - Isso ns nunca saberemos. No entendamos nada de alemo e nunca antes a
havamos visto.
         - Mas no tentaram encontr-la depois da guerra?
         - No. Confesso que at tive medo de que ela aparecesse para reclam-lo. Mas ela
no nos conhecia e no sabia para onde amos.
         Depois, sabendo das atrocidades que cometeram aos judeus, deduzimos que ela
deveria estar morta.
         Fabrcio baixou o rosto, entristecido, e tornou desalentado: - E pena. Gostaria de t-
la conhecido.
         Flvia olhou discretamente para a me, que fez um gesto de assentimento, e
prosseguiu:
         -No entanto, meu filho, ao tirar sua roupinha, notei que havia algo em seu pescoo...
         - Em meu pescoo? O que era?
        Ela se levantou, abriu uma gaveta da arca e retirou uma caixinha de papelo, j
bastante amarelada pelo tempo.
        - Isto - respondeu, exibindo-lhe a caixa.
        Fabrcio tomou-a de suas mos, sofregamente, e abriu-a com pressa. Dentro, um
cordozinho de ouro com uma medalha, dessas que se abrem para se porem fotografias.
        Mais que depressa, Fabrcio acionou o fecho e a medalha se abriu, exibindo duas
fotografias antigas. De um lado, uma mulher loura, olhos claros, cabelos ondulados,
        no rigor da moda da poca. Do outro, um homem ainda jovem, de bigode e olhar
austero.
        - Esta  sua me - esclareceu Flvia. - Foi ela quem entregou voc em minhas mos.
O outro... no sabemos. Creio que deva ter sido seu pai.
        - Mas, me! - tornou ele atnito. - Esta  a mesma mulher que eu vi num nibus,
anos atrs, quando era garoto. Lembra-se? Ela at falou comigo!
        - Tem certeza? - falou Ins, ao mesmo tempo em que olhava significativamente para
Flvia.
        - Absoluta.
        - Ns bem desconfiamos - confessou Flvia. - Sua av e eu tnhamos quase certeza
de que era ela.
        - E nunca me disseram nada...
        - O que poderamos dizer? - tornou Ins. - Que aquela mulher era sua me
verdadeira? Pense bem, Fabrcio.
        - Tem razo, v. Compreendo que no podiam me contar. E, depois disso, de vez
em quando eu a sentia a meu lado, principalmente quando ia ao centro. Para mim, era
        meu guia espiritual.
        - E deve ser mesmo, Fabrcio - concordou Ins. - Sua me
        deve ter padecido em algum campo de concentrao e voltou para proteg-lo.
        - Sim - concordou Selena, ainda atnita ante aquelas revelaes. - Sua me natural
deve ser um esprito altamente iluminado. Por isso, ficou a seu lado esse tempo
        todo.
        - E sem prejudic-lo um instante sequer - impressionou-se Ins. - Podia t-lo
atormentado, ter tentado influenciar sua vida ou, ao menos, t-lo deixado angustiado
        com sua presena. Mas no. Ela nunca lhe fez qualquer mal, fez?
        - De jeito algum. Sua presena sempre foi agradvel e me transmitiu muita paz e
alegria.
        - Ela deve ser mesmo muito iluminada - concordou Flvia, que nem de longe se
lembrava do sonho que tivera com ela anos antes, quando soube que ela aparecera para
        Fabrcio. - Que mulher fantstica!
        A seu lado, Helga ouvia tudo emocionada. Sabia que aquele seria o dia da grande
revelao e aproximou-se, a fim de partilhar com o filho aqueles momentos tocantes.
        junto a ela, Ismael e Adriano. O rapaz, ouvindo as palavras da me, emocionou-se
de tal maneira que todo o dio, toda a mgoa, todo o ressentimento que pudesse ter
        nutrido por Fabrcio desapareceram.
        Vendo sua emoo, Ismael abraou-o com ternura e indagou:
        - E ento, Adriano? Como se sente?
        - Bem - respondeu ele, com os olhos marejados. - Aliviado... feliz...
        - Que bom - falou Helga, com seu inseparvel sotaque alemo.
        - Helga... perdoe-me. jamais quis ofend-la ou agredi-la. Eu era ignorante. No
sabia o que fazia...
        - No se culpe, meu menino. Tudo foi importante para voc.
        - E agora? O que ir acontecer?
        - Vamos voltar - disse Ismael. - Voc deve se preparar.
        - Para qu?
        - Voc vai ver.
        De mos dadas, os trs partiram, deixando a casa de Ins envolta em benfica
vibrao de amor e harmonia.
        - No estou entendendo nada! - indignava-se Cassiano. - Faz quase uma semana que
o doutorzinho no aparece.
        - Acha que se mudou? - perguntou Anbal.
        - No sei. Tudo  possvel.
        - Para onde ser que foi?
        - E eu  que vou saber?
        - Ser que se assustou com aquele vidrinho com sangue de pombo que lhe enviamos
e resolveu fugir? - disse Anbal, com um risinho debochado.
        - No creio. Aquilo foi s uma brincadeirinha, e o doutorzinho no iria se
impressionar com to pouco.
        - Mas que deve ter causado um rebulio naquela casa, isso deve. Primeiro o ratinho,
depois o frasco de sangue. Queria ser uma mosquinha s para ver a cara dele.
        Cassiano fez uma careta de contrariedade e conjecturou:
        - Talvez ele tenha viajado...
        - Hmm... No acredito. Ele  muito certinho; no ia largar os clientes. - Fez uma
pausa, procurando refletir sobre o assunto, e perguntou: -E Selena?
        - No sei dela tambm.
        - Voc pode usar Selena como desculpa para abord-lo. O doutorzinho e ela devem
estar se encontrando em algum lugar. Voc tem o direito de saber. Afinal, tem filhos,
        e o Dr. Aderbal disse que o juiz fixou os dias de visita. Podia alegar isso: que quer
visit-los.
        - Voc se esquece de que ele fixou tambm a penso alimentcia. Se eu for procur-
la, Selena, na certa, vai exigir a penso. E de
        mim aquela mulher no vai ter um tosto. Ela  quem devia me pagar. E rica...
        Anbal fez uma careta e retrucou com raiva:
        - E ele  bem capaz de mandar prend-lo. No dizem que no pagar penso d
cadeia?
        - Por que acha que sumi? No pago nada a ela e no quero ser preso. Ela que v
procurar outro otrio para sustent-la. Aquele doutorzinho mesmo. Tambm  cheio da
        grana.
        - Foi muito azar, no  mesmo? E logo agora que j estvamos nos inteirando de
seus hbitos.
        - Para voc ver. Passei dias plantado na frente daquele prdio, estudando seus
passos, anotando tudo que ele fazia, at conseguir estabelecer sua rotina. E ele some.
        D para acreditar?
        - Pois , meu irmo... E agora? O que faremos?
        - Vou esperar mais um pouco. Vigiarei seu prdio por mais uma semana. Se ele no
aparecer, tentarei o escritrio...
        Riram e beberam muito. Mal podiam esperar at que Fabrcio estivesse fora de seu
caminho. Cassiano culpava-o por tudo de ruim que lhe acontecia, por sua derrota,
        por seu fracasso.
        No dia seguinte, l estava Cassiano de novo em frente ao prdio de Fabrcio, mas
nada de o jovem aparecer. Podia ter viajado no fim de semana. Esperou at a segunda-feira
        seguinte, na esperana de que o visse saindo para o trabalho. Mas nada. Fabrcio
parecia ter-se evaporado.
        Esperou mais dois dias. Como ele no aparecia, pensou em ir vigiar seu escritrio.
Mas o centro da cidade era um lugar movimentado, e seria difcil vigi-lo no meio
        de toda aquela multido. No. Tinha de esperar que ele aparecesse  noite. Alm
disso, as sombras poderiam facilitar-lhe a ao. A luz do sol poria tudo a perder.
        Enquanto isso, Paulo remoa sua dor. Estava cada vez mais angustiado, porque
Flvia ainda se recusava a falar com ele. Ia trabalhar porque era seu dever e porque
        no gostaria que ningum desconfiasse do que estava acontecendo. Apenas o
cunhado percebera que algo havia acontecido, mas no perguntou nada alm do "Est tudo
        bem?" Paulo baixava a cabea e respondia que sim.
        Sempre que chegava em casa, perguntava a Olvia se Flvia havia ligado, e ela dizia
que no. Embora a governanta no soubesse o
        que havia acontecido, ela tinha certeza de que fora algo muito grave. Por que outro
motivo Flvia e Fabrcio teriam ido embora?
        Cotovelos apoiados na janela, Paulo olhava o mar. As ondas, subindo e descendo na
cadncia da mar, causavam-lhe uma paz reconfortante. Vagando os olhos pela praia,
        perdeu-se em pensamentos de saudade e foi acompanhando o movimento da rua.
Pessoas que iam e vinham, carros que passavam apressados. O sol comeou a se pr no
horizonte,
        e a praia, j no to cheia quela poca do ano, foi sendo deixada pelos banhistas de
ltima hora.
        A noite chegou, e Paulo continuava  janela. Fazia quase duas horas que estava ali.
De repente, ouviu a voz de Olvia atrs de si:
        - Posso mandar tirar a janta, Dr. Paulo?
        Ele inspirou profundamente e respondeu, sem se voltar:
        - Agora no. D mais meia hora e s ento mande servir.
        Olvia obedeceu. Aguardou a meia hora e deu ordens  cozinheira para que tirasse o
jantar.
        - J est na mesa, Dr. Paulo.
        Com um suspiro, Paulo deu uma ltima olhada na rua e j ia se voltar para dentro
quando algo lhe chamou a ateno. Seu apartamento ficava no segundo andar, e ele
        pde ver com nitidez um homem parado em frente ao edifcio, parcialmente oculto
pela rvore que beirava o meio-fio. Aquilo no seria nada de mais, no fosse a atitude
        suspeita do rapaz. Ele tentava parecer natural, segurando um jornal e fingindo ler, o
que lhe pareceu estranho, j que a pouca luz lhe dificultaria a leitura. De
        vez em quando, levantava os olhos do jornal e olhava para seu prdio, parecendo-
lhe mesmo que visava sua janela.
        Assustado, Paulo estacou e prestou ateno. Na semi-escurido da noite, podia
distinguir perfeitamente seu porte. Era alto, musculoso, robusto. No lhe via o rosto
        com distino, mas sabia que j conhecia aqueles traos. De onde? De onde
conhecia aquele sujeito?
        - O senhor no vem? - repetiu Olvia. - Est esfriando.
        - J vou.
        Paulo deixou a janela e foi sentar-se  mesa. No conseguia, porm, tirar aquele
homem da cabea. J o havia visto em algum lugar. Mas onde? Terminou de jantar
rapidamente
        e desceu. s dez horas em ponto, o porteiro trancava a portaria, e depois disso s se
entrava com a chave.
        Paulo acercou-se do porteiro e indagou: - Boa noite, Severino.
        - Boa noite, doutor.
        - Por acaso voc j reparou naquele homem ali, na beira da calada?
        - Que homem?
        - Aquele - respondeu Paulo, chegando para perto da porta de vidro. - Venha ver.
        O porteiro levantou-se e foi olhar. Um pouco mais  direita, fora do ngulo de viso
de quem estava sentado  pequena mesa da portaria, havia um homem parado perto
        do meio-fio. Severino estudouo atentamente e respondeu:
        - No, doutor, nunca o vi. Por qu? Ele fez alguma coisa? Paulo fez um muxoxo e
retrucou com hesitao: - No... No fez nada. Mas achei-o estranho. - Quer que v
        falar com ele?
        - No, no precisa. Ele no est fazendo nada de mais, no  mesmo?
        Cassiano nem se deu conta de que j havia sido descoberto. S que Paulo, por mais
que tentasse, no conseguia se lembrar de onde o conhecia.
        No dia seguinte, ao voltar do trabalho, Paulo foi espiar da janela. Ainda no eram
nem sete horas, e o homem no estava l.
        - Devo estar imaginando coisas - pensou em voz alta. - Fazendo mau juzo dos
outros...
        Subitamente, parou espantado. Pelo lado da praia, vinha chegando o mesmo
homem. Parou em frente a seu prdio, olhou para sua janela e disfarou. Na certa, vira-o
        ali e no queria dar na vista. Virou as costas para ele e fingiu que olhava o mar.
Passados alguns minutos, recomeou a caminhada e foi sentar-se em um banco na
        calada, virado de frente para a praia.
        Paulo estava assustado. Aquele homem, na certa, estava vigiando-o. Mas por qu?
Quem seria? E de onde o conhecia? Por mais que se esforasse, no conseguia se lembrar.
        Tinha certeza de que j havia visto aquele rosto antes. Mas onde? Onde?
        Olvia apareceu novamente, chamando-o para o jantar. Ele saiu da janela e foi
sentar-se  mesa. Queria dar tempo ao homem para que se posicionasse como na vspera.
        Se ele fosse se esconder atrs
        daquela rvore, no teria dvida. Estaria mesmo vigiando sua casa. Mas por qu?
Com que inteno? O que estaria visando?
        De repente, uma idia passou por sua cabea. Ser que Fabrcio mandara algum
tomar conta de seu apartamento? Ou teria sido Flvia? Ser que aquele homem era algum
        detetive que a mulher ou o filho haviam contratado para vigi-lo? Mas por qu? O
que estariam pretendendo? Na certa, queriam saber aonde ele ia.
        Aquilo no fazia nenhum sentido. Apesar disso, era o nico sentido que podia
atribuir quela inusitada situao. Que o homem vigiava seu prdio, no tinha a menor
        dvida. S o que no sabia era por qu. Perguntar-lhe, de nada adiantaria. O homem
se faria de desentendido e no diria nada. Chamar a polcia estava fora de cogitao.
         O que diria ao delegado? Que um desconhecido resolvera ler jornal diante de sua
porta? Isso no era crime algum.
         Terminou o jantar e foi para seu quarto. De luzes apagadas, aproximou-se da janela
e, afastando as palhetas da persiana, espiou para fora. L estava ele de novo,
         parado atrs da mesma rvore, com o jornal na mo. Olhava, no para sua janela,
mas para a portaria. Quem estaria esperando? Ou ser que se enganara? Meu Deus, era
         isso! Enganara-se, s podia ser. O homem estava ali para vigiar no ele mas outra
pessoa. Algum no prdio devia t-lo contratado. Quem sabe, um marido desconfiado
         da mulher? Sim, era isso. Como fora tolo, pensou. Julgara que o homem estivesse
ali por sua causa, mas no era nada disso. Riu de sua tolice e soltou a persiana.
         Acendeu a luz e abriu a porta do armrio. Precisava de um bom banho para se
refazer daquele susto e daquela tolice.
         Embaixo, na rua, Cassiano estava preocupado. Vira quando Paulo aparecera na
janela e olhara para ele. Quem seria aquele? Ser que desconfiara de algo? S podia ser
         o pai do doutorzinho. Precisava tomar cuidado. Se ele percebesse alguma coisa,
poderia at chamar a polcia. Pensando bem, e da? No devia nada a ningum e no
         estava fazendo nada de errado. Bem, devia a penso a Selena, mas ela no estava ali
para reclamar.
         Tomaria cuidado, mas no desistiria de seu intento. Alm do mais, a semana j
estava chegando ao fim e, se Fabrcio no aparecesse, teria de colocar em prtica a
         outra parte de seu plano.
         Adriano, j mais refeito, agora limpo e medicado, caminhava pela colnia Lar da
Luz Divina em companhia de Cia. - Como se sente? - perguntou a moa, interessada.
         - Melhor. Meus sentimentos, embora confusos, j no destilam
         mais dio ou revolta.
         - Fico feliz em ouvir isso. Ser que se sente em condies de passar por uma sesso
de terapia?
         - Que terapia?
         - Terapia de vidas passadas. J ouviu falar? - No.
         - Na Terra, ainda no  comum. Rarssimas pessoas praticam esse processo. Mas
aqui  bem corriqueiro.
         - Em que consiste?
         - E simples: em rememorar o passado.
         - Mas que passado? Lembro-me de tudo perfeitamente. - No me refiro a esse
passado. - No? Fala de outras vidas, outras encarnaes?
         - Sim. Ismael acha que chegou o momento de voc ter conta
         to com algumas verdades.
         Ele fez uma cara de surpresa, e ela continuou:
         - Ento? O que me diz? Gostaria de rever sua vida passada?
         - No sei, Cia. Tenho medo. E se eu descobrir algo que no
         queira ver?
         - Voc  quem sabe. No queremos for-lo a nada. Se no se sente apto, no
insistiremos e aguardaremos at que voc ache que
         est pronto. Quem decide isso  voc. Trata-se de sua vida.
         Adriano ficou pensando no que ela lhe dissera. Se, por um lado, tinha medo de
descobrir o que o corao tentava a todo instante lhe contar, por outro lado sentia
         que se libertaria daquele sofrimento que tanto o atormentava.
         - Est certo, Cia. Convenceu-me. Quero experimentar essa tal terapia.
         Ela sorriu e abraou-o, acrescentando com bom humor: - Muito bem. Vamos l,
ento?
        Partiram juntos e foram procurar Ismael, que j os aguardava. Ele sabia que Adriano
acabaria por concordar. Quando chegaram, Ismael conduziu-os at uma sala ampla,
        iluminada por uma luz azul reconfortante. Parecia uma sala de cinema, com uma
tela imensa ao fundo e algumas poltronas.
        Adriano acomodou-se onde quis, e Ismael e Cia sentaram-se na
        fileira logo atrs. Em seguida, seu av comeou a falar:
        - Muito bem, Adriano. Sinta-se totalmente relaxado e deixe
        fluir o que lhe vier  mente. Gosta de cinema? - Gosto.
        No mesmo instante, uma luz se acendeu na tela, e Adriano olhou admirado. Viu-se
ainda criana, sentado entre o pai e o irmo, a me ao lado de Fabrcio, assistindo
        a O Mgico de Oz no cinema.
        - Lembra-se do prazer que lhe causou essa fita?
        - Sim. Gostamos tanto, Fabrcio e eu, que papai e mame foram obrigados a assistir
a duas sesses seguidas.
        - Voc e seu irmo no eram assim to diferentes, eram? Houve um tempo em que
foram felizes.
        Adriano mordeu os lbios e respondeu hesitante:
        - Sim... Ns ramos crianas... No sabamos nada do mundo. Creio que nossos
sentimentos deviam ser mais genunos, porque ainda no estavam limitados e distorcidos
        pelas armadilhas da vida.
        - Mas a vida no nos cria armadilhas. Ns  que tentamos enred-la. S que no
conseguimos.
        - No sei. Se voc diz...
        - Por isso quero que voc agora pense em sua vida. Na sua, de Fabrcio e de seus
pais. Pense nos momentos felizes que passaram juntos e deixe sua mente voar at
        eles.
        Instantaneamente, Adriano lembrou-se de seu dcimo aniversrio, quando ganhara
um autorama imenso. Lembrou-se da alegria que
        partilhara com o irmo e os pais, apostando corrida com um carrinho vermelho e
outro azul. A cena apareceu na tela, e Adriano sorriu.
        - De quem  o carrinho azul? - indagou Ismael.
        -  meu.
        - Pois ento quero que se concentre nele. Concentre-se nesse azul e na alegria que
sentiu nesse momento. Sinta seus batimentos cardacos impulsionando a felicidade
        por todo o seu corpo. Pode sentir isso?
        - Sim...
        - timo. Agora, quero que imagine apenas o carrinho azul. Somente ele est
correndo na pista do autorama.
        Na tela, o carro vermelho sumiu, e apenas o azul corria de um lado para outro,
fazendo as curvas, subindo e descendo as pequenas elevaes que havia na pista.
        - Muito bem, Adriano. Agora imagine que esse carrinho azul j no  mais um
carrinho, mas um avio. Pode fazer isso?
        - Posso.
        O carrinho azul imediatamente se transformou num avio tambm azul, que se
ergueu da pista do autorama e alou vo pelo cu.
        - Excelente. Est indo muito bem. Voc est dentro desse avio. Pode se ver dentro
dele?
        - Sim.
        - O que v da janela do avio?
        - Vejo o cu azul.
        - Concentre-se nesse cu azul. No h nuvens, apenas o azul. Percebe o azul ao seu
redor?
        - Percebo.
        - O avio agora se desmanchou, confundindo-se com o cu, e voc est em contato
direto com o azul desse cu. Sinta-se flutuando nele, envolvido por ele, bebendo-o.
        Sinta-o atingindo sua mente e libertando-a, envolvendo-a com suavidade. Voc
agora no percebe mais o avio. E parte da sutileza do astral. Pode sentir isso?
        - Posso.
        Adriano estava em transe. Sentia uma indefinvel sensao de prazer e bem-estar, e
era como se sua mente, tomada por aquela luminosidade azul, recebesse cargas de
        emoo, e a razo aos poucos foi diminuindo e se desarmando, dando lugar a um
sentimento mais verdadeiro.
        - Muito bem, Adriano. Voc agora se encontra despido de qualquer sombra de
razo. Seu ser vibra apenas as emoes, e o vazio, a escurido de seu passado vo ganhar
        colorido e vida, e voc ser capaz de reviver todas as experincias necessrias a seu
crescimento nesse momento. Est pronto?
        - Estou.
        No mesmo instante, Adriano comeou a projetar na tela imagens at ento
desconhecidas-ou esquecidas. De olhos semicerrados, via e ouvia tudo que se passava.
        De onde estava, o menino podia ouvir as patas dos cavalos estalando no cho de
cascalho. Levantou os olhos assustado e viu os homens se aproximando. Tentou fugir,
        mas os homens foram mais rpidos e o alcanaram em poucos instantes.
        - Venha c, seu pestinha! - gritou um dos perseguidores, erguendo-o pela cinta.
        - Solte-me! Largue-me!
        - Voc vai voltar para casa agora mesmo. Onde j se viu fugir assim? Sua me j
est quase louca.
        O menino era pequeno, no devia ter mais que sete ou oito anos, e foi facilmente
dominado. O homem acomodou-o em seu colo e, enlaando-lhe a cintura, partiu com
        ele para casa.
        -No sei por que o patro gosta tanto de voc. E apenas o filho de uma criada...
        O menino ficou calado. Desde que soubera que a me havia engravidado, pensara
em fugir. Por mais que ela lhe explicasse que teria um irmozinho ou uma irmzinha
        para brincar, no conseguia aceitar a idia. Ele era o queridinho da casa, e at os
patres gostavam dele.
        Quando os soldados chegaram com Luigi, a me se jogou ao cho, agradecendo a
Deus por haver atendido a suas preces. Apanhou-o no colo, apertou-o e beijou suas
bochechas.
        - Seu danadinho travesso - desabafou. - Nunca mais faa isso comigo.
        Estava ainda com o menino no colo quando a senhora entrou. A criada colocou-o no
cho gentilmente, fez uma mesura e falou de olhos baixos:
        - Senhora...
        - Levante-se, Antnia, quero falar com voc.
        Antnia levantou-se e fez sinal para outra criada, que levou Luigi para dentro.
        - Luigi est bem? No se machucou? - No, senhora. Ele est bem.
        - E como vai o beb? - indagou ela, alisando o ventre de Antnia.
        A criada fez um imperceptvel ar de desagrado, mas respondeu humilde:
        - Bem, senhora.
        - timo.  sobre isso que gostaria de falar-lhe. Venha comigo. Antnia seguiu-a
pelo corredor, at que alcanaram um aposento
        mais afastado da manso e entraram. L dentro, sentado a uma escrivaninha sbria e
austera, um homem as aguardava.
        - Meu senhor - fez ela com ar servil.
        - Sente-se, Antnia - ordenou ele. - Vamos conversar. Desajeitadamente, Antnia
sentou-se diante dele. Sua senhora
        se acomodou ao lado do marido, que lhe sorriu e continuou:
        - Como sabe, Antnia, Isabela perdeu o beb h pouco mais de um ms...
        - Sei, senhor, e lamento.
        - Sabe tambm que a criana que carrega no ventre  filha de meu irmo Bruno.
        Ela ergueu o rosto, espantada. Como ele descobrira? - Senhor, eu... Est enganado...
        - No, Antnia, no estou. Ele me contou antes de morrer. - Luigi tambm  filho
dele? - interrompeu Isabela. - No, senhora.
        - Tem certeza?
        - Tenho. Quando cheguei aqui, j estava grvida de Luigi e s conheci o Sr. Bruno
depois.
        - Muito bem - prosseguiu o homem. - O que tenho a lhe dizer  o seguinte: quero
que me entregue a criana ao nascer. Em
        troca, dar-lhe-ei uma boa soma em dinheiro, para que possa recomear sua vida com
Luigi em qualquer outro lugar.
        - Estamos dispostos a criar Luigi tambm, se voc permitir. Dar-lhe-amos o mesmo
tratamento dispensado ao filho de meu
        cunhado - acrescentou Isabela. - Mas ele no  nosso sobrinho e no temos direito
sobre ele.
        Antnia comeou a chorar. No queria separar-se dos filhos, mas tinha medo do que
aquela gente rica e poderosa poderia fazer.
        - Senhor - protestou humildemente -, no posso separar-me de meus filhos. De
nenhum dos dois.
        - Pense bem, Antnia. Estar lhes roubando a chance de um futuro brilhante. O que
voc tem a lhes oferecer? - Amor.
        - Amor no enche barriga de ningum - cortou ele rispidamente. - S das mulheres
tolas.
        - Por favor, Raffaele - ponderou Isabela -, tenha calma.
        - Senhora - acrescentou Antnia. - Sei que deve estar sofrendo a perda de seu beb.
Mas Deus  bom e justo, e tenho certeza de que lhe mandar outros filhos.
        - Deus me castigou, Antnia. Jamais poderei ter outros filhos. De olhos baixos, sem
ousar encar-los, Antnia voltou a chorar, e Raffaele, impaciente, continuou:
        - Escute, Antnia, no seja tola. Irei tomar-lhe a criana de qualquer jeito. Se  meu
sobrinho ou minha sobrinha, tenho meus direitos. Voc no ter direito nenhum.
        - Por favor, senhor, no faa isso. No me tire meu filho.
        - Antnia, oua - tentou Isabela em tom mais conciliador. - Se no quer separar-se
dos dois, entendemos. Sugerimos criar Luigi tambm porque gostamos dele. Ns o
        vimos nascer e nos acostumamos a suas travessuras. Mas, se vai ser muito doloroso
para voc, no faremos questo de ficar com ele. Afinal, no tem nosso sangue.
        Mas, com esse a que carrega no ventre, ns ficaremos. No tenha dvida.
        Antnia chorava descontrolada.
        - No pode me obrigar, senhora. Sei que sou pobre e ignorante. Mas o filho  meu, e
ningum pode tir-lo de mim. A lei h de estar do meu lado.
        - Insolente! - esbravejou Raffaele. - Quem pensa que , para nos afrontar dessa
maneira?
        - No sou ningum, senhor, e desculpe-me o atrevimento. Sou apenas me e no
posso admitir que me tirem meus filhos. E agora, se me do licena, vou aprontar minhas
        coisas e as de Luigi. Partiremos daqui agora mesmo.
        Mais que depressa, Antnia tomou o caminho de volta. Foi ao alojamento dos
criados, onde vivia com o filho, estendeu um lenol
        sobre a cama e nele colocou as poucas roupas que ela e o filho possuam. Apanhou
tudo, despediu-se do resto da criadagem e foi bus
        car Luigi, que se divertia atirando pedrinhas no lago atrs da casa. - Venha, Luigi -
chamou ela, puxando-o pela mo. - Aonde vamos?
        - Vamos embora.
        - Por qu? Gosto daqui, mame. No quero partir. - Venha, Luigi, no faa
perguntas.
        Saiu arrastando o menino. Os criados, sem entender, ficaram vendo-a se afastar,
imaginando que ela devia ter feito algo muito grave
        para sair assim, quase fugida.
        Isabela e Raffaele, por sua vez, estavam estarrecidos. Jamais poderiam esperar uma
reao daquelas.
        - Precisamos impedi-la, Raffaele! -esbravejou Isabela, vertendo lgrimas de dio.
        - O que posso fazer?
        - No sei. Mas descubra um jeito de trazer a criana de volta. Antnia no pode
sumir assim com nosso sobrinho. Ele tem seu sangue. - Mas como vamos provar?
        - No precisamos provar nada, Raffaele. Voc  rico e poderoso. No lhe ser difcil
conseguir algum que faa o servio para ns. - Mas, Isabela,  perigoso. E
        se algum descobrir?
        - Se voc comprar as pessoas certas, ningum jamais ficar sabendo.
        No dia seguinte, Raffaele saiu em busca de um homem de quem
        ouvira falar. Era um malfeitor, mas serviria bem a seus propsitos. - O que quer,
cavalheiro? - perguntou o homem, olhando-o desconfiado.
        - Um servio. Disseram-me que  muito bom no que faz. - Modstia  parte, sou
mesmo. E ento? Do que se trata? - De uma criana. Quero que a roube para mim. - Uma
        criana? Entendo. Onde ela est?
        - No sei. Trata-se de um beb que ainda no nasceu, filho de meu irmo com uma
criada. Ela fugiu de minha casa, com medo de
        que lhe tomssemos a criana.
        - Entendo. E o senhor quer que primeiro eu descubra o paradeiro da mulher?
        - Sim.
        - Vai custar caro.
        - Estou disposto a pagar.
        - Quer que d cabo da vida dela?
        - No! Basta que lhe roube a criana sem que ela o veja. Mas cuidado: no v
machucar o outro menino.
        - Pode deixar, senhor. Farei tudo direitinho.
        De volta  sua casa, Raffaele foi interpelado pela mulher, que o aguardava
ansiosamente:
        - E ento? Como foi?
        - Deu tudo certo. O homem cobrou uma fortuna, mas vai valer a pena.
        - E Antnia? O que far a ela?
        -Nada. Mandei-o apenas apanhar a criana.
        Mximo, o malfeitor, logo descobriu o paradeiro de Antnia. Ela estava vivendo em
uma cidade vizinha, fazendo pequenas costuras para sobreviver, enquanto Luigi a
        auxiliava com alguns trocados que conseguia carregando embrulhos pesados para as
madames.
        Em casa, o menino no se conformava. Dia aps dia, s pensava em fugir. Mas era
pequeno e no sabia que direo tomar. Com o passar do tempo, observava o ventre
        da me a se avolumar cada vez mais, at que ela no pde mais trabalhar.
        Seu irmo nasceu em meio  dura pobreza. Antnia foi auxiliada no parto pelas
mulheres da vizinhana, sempre solidrias e dispostas a ajudar. Mximo, que vigiava
        a casa de Antnia, deduziu, pelo rebulio, que a criana havia nascido. Ao ver Luigi
passar correndo e chorando por ele, segurou-o pelo brao e indagou:
        - O que houve, menino?
        - Nada, no. Foi minha me que deu  luz.
        Soltou-o e sorriu satisfeito. Resolveu esperar alguns dias. Ao final de uma semana,
achou que j era hora de agir. Durante a noite, invadiu a casa em que Antnia
        vivia com os filhos. Ela dormia tranqilamente, com Luigi a seu lado e o beb num
bercinho velho, perto da porta.
        Ao colocar a mo no beb, este soltou um gemido bem baixinho, que Antnia no
escutou, mas Luigi, sim. O menino abriu os olhos e ergueu o corpo, assustando-se com
        Mximo ao lado do bero. Pensou em gritar, mas algo o paralisou. Reconheceu o
homem que o havia interpelado na rua e ficou olhando. Mximo fez-lhe sinal para
        que ficasse quieto e retirou o pequenino do bero. Apesar de assustado, Luigi
guardou silncio. Deitou-se na cama novamente, virouse para o lado e tornou a dormir.
        No dia seguinte, foi despertado por um grito lancinante. A me, dando pelo sumio
do filho, berrava feito louca:
        - Meu filho! Meu filho! Oh, meu Deus, roubaram meu filho!
        Foi um alvoroo. A rua inteira acorreu. Chamaram o inspetor da guarda, que tomou
notas e prometeu investigar. Antnia contoulhe sobre seus antigos patres, que moravam
        numa cidade vizinha, e os guardas foram at l investigar.
        Raffaele recebeu-os com fria tolerncia. Negou qualquer participao no fato. Se
quisessem, podiam at revistar a casa, mas no encontrariam nada. Antnia fora uma
        tola. Recusara sua ajuda e agora se via naquela situao. Era uma relaxada,
descuidada, irresponsvel. Na certa, algum bbado lhe roubara o filho.
        A criana fora cuidadosamente escondida em sua casa de campo e permanecia sob
os cuidados de uma criada de confiana.
        Antnia no se conformou. As buscas, em breve, cessaram, e o inspetor encerrou o
caso sem soluo. Ela se desesperou. Tinha certeza de que algum roubara seu filho
        a mando dos antigos patres.
        Certa manh, passou a mo em Luigi e partiu com ele para a casa de Raffaele e
Isabela. Bateu  porta com estrondo, mas o mordomo, alertado pelo patro, no lhe permitiu
        a entrada. Antnia, completamente fora de si, comeou a esmurrar a porta, gritando
feito louca:
        - Seus vermes! Malditos! Devolvam-me meu filho! Quero meu filho de volta!
Ladres! Bandidos! Devolvam-me meu filho!
        Raffaele deu ordens para que os criados expulsassem aquela louca dali. Mas Luigi,
vendo-se na casa dos patres a quem tanto admirava, no quis partir. Para surpresa
        de Antnia, ficou parado ao lado do porto, vendo passivamente os homens de
Raffaele colocarem-na para fora.
        Jogaram-na no meio da rua e trancaram o porto. Cada na calada, Antnia fitou
Luigi com profundo desgosto e gritou:
        - Esperem! Luigi! Venha, Luigi! Venha com sua me!
        Mas Luigi no respondia. Olhou para a me e para a manso, e percebeu Isabela
oculta atrs da cortina. Depois de alguns instantes de dvida, virou as costas para
        a me e correu em direo  casa, gritando para Isabela:
        - Senhora Isabela! Senhora Isabela! Por favor, deixe-me ficar!
        A porta se abriu e Luigi entrou, para desespero de Antnia. Do lado de fora, s o
que ela conseguia fazer era chorar.
        - No! No! - gemia ela. - Meus filhos no! Por que me roubam meus filhos? Luigi!
Por que abandonou sua me, meu filho? Por qu? Oh, meu Deus, ajude-me! Perdi meus
        filhos!
        Pouco depois, a guarda chegou e enxotou-a dali. Vencida e humilhada, Antnia
voltou para casa. Sabia que a luta era desigual, mas no podia se conformar. Tinha de
        haver um jeito de reaver os filhos.
        Antnia no sabia quanto estava enganada. Isabela, temendo a reao da criada, foi
sozinha procurar Mximo. Levou-lhe muito dinheiro e incumbiu-o de uma misso especial.
        - Quer que acabe com ela? - indagou ele. - Sim. O mais rpido possvel.
        - Mas seu marido no queria.
        - Meu marido no pode saber. Isso  por minha conta e ficar somente entre ns.
        - Est certo, dona. A senhora  quem sabe.
        Mximo apanhou o dinheiro, e Isabela foi embora, recomendando-lhe que jamais
dissesse que a conhecia.
        No dia seguinte, ao cair da madrugada, ele comeou a agir. Quando todos dormiam,
ateou fogo na casa de Antnia. As labaredas logo consumiram as paredes de madeira.
        Antnia ainda conseguiu ser tirada com vida das chamas, no entanto a enorme
quantidade de fumaa que respirara invadiu seus pulmes e ela morreu asfixiada, antes
        mesmo de chegar ao hospital.
        A notcia logo chegou  manso de Isabela. Embora desconfiado, Raffaele no disse
nada. Tinha medo at de perguntar. Um ms depois, quando tudo havia se acalmado,
        mandou buscar a criana em sua casa de campo e disse a todos que havia descoberto
o paradeiro do filho de Antnia e que pretendia cri-lo, juntamente com Luigi.
        Era o mnimo que podia fazer, depois de todo o sofrimento da moa. Deram-lhe o
nome de Giovanni e o registraram como filho, e Gianni, como desde ento passou a ser
       chamado, tornou-se o novo e legtimo herdeiro de Raffaele.
       O tempo foi passando, e os dois meninos foram criados juntos, sem que houvesse
qualquer distino entre eles. Estudaram nas melhores escolas, ganhavam os brinquedos
       mais caros, as roupas mais bonitas. Isabela e Raffaele se esmeravam em fazer-lhes
todas as vontades. Cobriam-nos de ateno e carinho, como se realmente fossem seus
       filhos.
       Quando Luigi alcanou a idade de catorze anos, sentiu que seu mundo ia desabar.
Apesar de usar o sobrenome de seus pais, descobriu que no havia sido registrado
       como filho deles. Vira, por acaso, seu registro de nascimento dentro da gaveta do
pai. Na verdade, em sua certido constava ainda o nome de Antnia, e somente o
       dela. Nem sabia quem havia sido seu verdadeiro pai. Decepcionado, foi procurar
Raffaele, pedindo-lhe explicaes.
       - Papai - comeou ele a dizer -, pensei que me considerasse como filho.
       Raffaele encarou-o, tentando entender o que dizia, e retrucou:
       -  claro que o considero, Luigi. Por qu?
       - Porque descobri que no sou registrado como seu filho e de Isabela...
       Desconcertado, Raffaele deu um salto da cadeira em que se encontrava sentado.
Apesar de gostar muito do menino, ele no era seu sangue, e no seria justo com Gianni
       partilhar seu nome e sua fortuna com o meio-irmo.
       - Meu filho - comeou ele a dizer. -No se preocupe com isso. Sua me e eu o
amamos tanto quanto a Gianni. No entanto, ele  meu sobrinho...
       - J entendi. - Cortou Luigi rispidamente. - Ele  seu sobrinho e eu no sou nada,
no ? Sou apenas um enjeitado que o senhor e sua mulher acolheram por piedade.
       -No se trata disso, meu filho. Trata-se dos laos de sangue. - Por que ainda me
chama de filho? Bem se v que no me considera assim.
       - No  isso, Luigi, j lhe disse. Consider-lo como filho, eu o considero. Mas voc
no  meu parente de verdade. - E Gianni .
       - Sim, . Mas isso no faz a menor diferena.
       - S que eu no terei direito algum sobre sua herana. - E isso o que o preocupa?
       - Tambm... - hesitou ele.
       - Pois no precisa. No vou deix-lo desamparado. Ao contrrio, deixar-lhe-ei bens
e uma boa renda que o sustente pelo resto de sua vida.
       - E o nome?
       - Infelizmente, meu filho, no poderei dar-lhe meu nome. Meus pais tambm jamais
concordariam. Afinal, voc no  um verdadeiro Michaeli. No tem nosso sangue.
       Luigi jamais poderia descrever a raiva e a frustrao que sentira naquele momento.
Fora enganado pelas nicas pessoas a quem considerava em sua vida. E tudo isso
       por qu? Porque seu irmo tivera a sorte de ter um Michaeli como pai, porque sua
me escolhera se deitar com um Michaeli para conceb-lo, ao passo que ele havia
       sido gerado por um desconhecido ignorado.
       Desde esse dia, Luigi nunca mais tocou no assunto. Mas no se esquecia. Jamais
poderia se esquecer de que Gianni representava um entrave  sua sorte. No fosse por
       ele, talvez Raffaele o adotasse de verdade.
       Entretanto, por mais que se revoltasse, preferiu calar seu dio. Se dissesse algo, bem
poderia ser mandado embora. Mas ele no queria partir. Silenciara quando o
       irmo fora roubado na esperana de que ele tambm fosse acolhido naquela casa.
Abandonara a me para poder viver naquela casa. E agora engoliria tudo para continuar
        a viver naquele lugar. Engoliria, mas no se conformaria.
        Anos mais tarde, quando Isabela morreu, vtima de febre arrmarela, Raffaele no se
conformou. Estava acostumado aos cuidados
        de uma mulher e logo pensou em arranjar uma nova companheira.
        Os rapazes j estavam adultos e no precisavam mais de me. Mas ele precisava de
uma mulher.
        Foi nessa poca que Gianni conheceu uma jovem de nome Paola e se interessou por
ela. Vira-a apenas uma vez, em uma festa, mas
        no pde se aproximar porque o pai dela, um comerciante de peles muito rgido e
severo, no permitia que ningum se aproximasse da
        filha. Guardava-a para o marido que ele considerasse ideal.
        Gianni buscava um jeito de se aproximar. Via em seus olhos que ela lhe
correspondia. Mas o pai no a deixava sozinha um minuto
        sequer, e Gianni no tinha oportunidade de falar com a jovem. Pensou em escrever-
lhe uma carta, mas como faria para que chegasse
        a suas mos?
        - No sei mais o que fazer - queixou-se ele a Luigi, certo dia.
        - Gostaria de me aproximar de Paola, conhec-la melhor.
        - Sabe que o pai dela no permitir. - E se papai falar com ele? - E srio assim?
        - Estou muito apaixonado. - E ela?
        - No sei. Mas acho que tambm est. - Como sabe?
        - Pelo jeito como me olha. Toda vez que a vejo na janela, nossos olhares se cruzam,
e eu sei que eles falam de amor.
        Luigi sentiu uma pontada de dio no peito. Como o irmo podia pensar em ser
feliz?
        - Espere mais um pouco - disse ele, por fim, tentando no dei
        xar transparecer a raiva que sentia. - No v falar com papai ainda. - Por que no?
        - No se precipite. No vai querer compromet-lo  toa, vai? Gianni pensou melhor.
Embora estivesse certo de seus sentimen
        tos, no queria tomar nenhuma atitude impensada. Era preciso pri
        meiro ter certeza de que ela o amava tambm. Se o amasse, poderia
        pedir a ajuda do pai sem medo de estar dando um passo em falso. Luigi precisava
agir rpido. Um dia, Raffaele estava sentado na
        varanda quando ele se aproximou.
        -Em que est pensando, pai? - perguntou ele com fingido interesse.
        - Voc sabe, meu filho. Busco uma nova mulher. Mas ainda no me decidi.
        -Tem algum em vista?
        - Sim. A senhora Manuela de Alencar. Conhece-a? E uma espanhola viva e muito
rica.
        - Conheo-a, papai. Mas no acha que j  um pouco velha?
        - O que queria, meu filho? Em minha idade,  difcil arranjar mocinhas. E, depois,
ela no  to velha assim. Deve ter l seus quarenta e cinco anos.
        - Quase a sua idade. Mas o senhor ainda  um homem jovem. Devia procurar uma
moa mais nova.
        - Voc acha?
        - Acho, sim.
        - Mas no h ningum em vista. Todas as jovens casadouras da cidade j devem
estar comprometidas. E, depois, que pai ir querer casar sua filha com um homem maduro?
        - Maduro e muito rico. Aposto que qualquer um o aceitaria como genro.
        - Ser?
        - Tenho certeza.
        - Hmm... No sei, no. No tenho mais tempo nem idade para me aventurar nessas
conquistas.
        - Por que no deixa que eu cuide disso para o senhor? - Voc?
        - Sim, eu.
        - Por acaso conhece algum disponvel?
        - Ora, papai, conheo muitas moas disponveis. Mas h uma, em especial, que 
perfeita para o senhor.
        - E mesmo? Quem?
        - Conhece o Sr. Vittorio Montoro?
        - O comerciante de peles?
        - Ele mesmo. Ouvi dizer que est  procura de um noivo para a filha.
        - E o que o faz pensar que ele me escolheria?
        - O senhor  um homem muito rico e atraente. E o Sr. Montoro e um homem
extremamente ambicioso.
        - Acha que a moa me aceitaria? Como se chama? - Paola. O nome dela  Paola.
        - E bonita?
        - Muito bonita.
        - Acha que me aceitaria?
        - Talvez... Dizem que ela faz tudo que o pai manda.
        Raffaele se decidiu. No dia seguinte, vestiu-se com esmero,
        mandou encilhar seu cavalo e saiu. J estava na porta quando encontrou Gianni, que
vinha procur-lo a fim de pedir sua interveno junto
        ao pai de Paola.
        - Agora no, meu filho. Estou com pressa. - Aonde vai, papai? - Depois, depois...
        O pai saiu sem nem lhe dar ateno, e Luigi, que vinha chegando, respondeu por
ele:
        - Acho que papai encontrou uma nova mulher. Gianni olhou-o admirado. - Esposa?
Quem ?
        - No sei.
        - Mas ele no disse nada! - Vamos esperar.
        O Sr. Montoro ficou remoendo a proposta que Raffaele lhe fizera. Ele era membro
de uma das famlias mais ilustres e tradicionais
        de toda a regio, e no havia uma s moa que no sonhasse em se casar com um
herdeiro Michaeli, ainda mais com um homem rico
        como Raffaele. Aps alguns instantes, Vittorio coou o queixo, encarou-o com ar de
cobia e respondeu com ar solene:
        - Muito bem, Sr. Michaeli. O senhor me convenceu. Sua proposta  irrecusvel, e
estou certo de que minha filha se sentir muito
        honrada com seu pedido.
        - Quando poderei v-la?
        - Amanh. O senhor poder vir jantar em minha casa amanh, e eu tratarei de
apresent-lo a Paola.
         Ao voltar para casa, Raffaele fez suspense sobre seu novo romance. No disse nada
a Luigi nem a Gianni. Queria dar-lhes a notcia
         quando tudo estivesse decidido. Tinha certeza de que ambos ficariam muito felizes.
         No dia seguinte, Raffaele conheceu Paola e imediatamente se interessou por ela. Ela
era realmente muito bonita, e seria difcil no
         a desejar. Embora contrariada, a moa no disse nada. Quando o pai
         lhe falara que um Sr. Michaeli a pedira em casamento, ficara toda feliz, achando que
o pedido partira do filho, Gianni. Mas ora, vendo Raffaele ali em sua frente,
         chegou  concluso de que se enganara com o rapaz. Pensara ter lido em seus olhos
um brilho de amor, mas fora iluso. Gianni no estava interessado nela.
         Decepcionada, resolveu aceitar. E, depois, de que adiantaria recusar? O pai, na
certa, a obrigaria, e ela acabaria se casando de qualquer jeito. Teria de conviver
         com Gianni em sua casa, o que poderia ser extremamente difcil e desagradvel.
Entretanto, o fato de saber que Gianni no a amava dar-lhe-ia foras para superar
         aquele amor, que no passara de uma tola paixo juvenil.
         Na outra noite, Raffaele marcou um jantar em sua casa, aonde Victorio iria com a
filha, a fim de que conhecesse seus filhos. Luigi no cabia em si de contentamento,
         e Gianni estava curioso para saber quem seria a esposa do pai.
         - Sabe quem  ela? - indagou a Luigi.
         - No fao a menor idia.
         - Quem ser?
         Quando Paola adentrou o salo de sua casa pelo brao do pai, Gianni pensou que
iria desmaiar. Fitou-a com profundo desgosto, mas no disse nada. O que poderia dizer?
         Paola, por sua vez, nem ousava levantar os olhos. De que adiantaria encarar o
homem que a rejeitara to friamente?
         Raffaele e Paola casaram-se um ms depois, e Gianni jurou a si mesmo que jamais
lhe falaria sobre seu amor. No princpio do casamento, tudo transcorreu normalmente.
         Paola no era propriamente infeliz, mas o convvio com Gianni s fez aumentar seu
amor por ele, e o rapaz tambm no conseguia evitar am-la cada vez mais.
         Ao final do primeiro ano, tudo parecia bem. Embora Raffaele no a amasse, tratava-
a com respeito e considerao. Gostava dela. Paola era bonita, obediente e corts,
         e isso era tanto quanto lhe bastava. Sabia que ela tambm no o amava, mas isso
no o incomodava. No precisava de amor para viver.
         Apesar do sentimento que os unia, nem Gianni nem Paola ousavam tocar naquele
assunto. Tinham medo at de se olhar. Ao contrrio do esperado, a presena de Gianni
         a desconcertava sobremaneira, e Gianni tambm se sentia pouco  vontade quando
em sua companhia.
         Por isso, evitavam ficar sozinhos juntos. Sentiam que o amor ia aumentando a cada
dia, e o medo tambm. Tinham medo de se olhar, de pensar, de sentir. Desejavam-se
         em silncio, e Gianni chegava a tirar sangue dos lbios ao imagin-la nos braos do
pai.
         Luigi era o nico que percebia o que estava acontecendo e se felicitava pelo trunco
que tinha nas mos. Pouco depois, conheceu uma moa, de nome Nicole, e ambos
         se apaixonaram. Luigi contava trinta e quatro anos e j estava passando da idade de
se casar. Casou-se com Nicole, mas a moa, embora no fosse pobre, no era herdeira
         de nenhum ttulo ou fortuna, era apenas filha de um mdio funcionrio pblico.
       Luigi casou-se, mas exigiu que fossem morar na casa dos pais. Raffaele no se ops.
Gostava de Luigi e ficou feliz em t-lo por perto.
       -No se preocupe, meu filho - disse Raffaele, logo aps a noite de npcias. - Voc e
Nicole no ficaro desamparados.
       Gianni no se casara. No conseguia se apaixonar por ningum. Formara-se em
medicina e ocupava seu tempo atendendo a crianas enfermas no hospital local. Luigi,
       embora fosse formado em direito, preferia ficar em casa sem fazer nada, apenas
usufruindo do dinheiro que seu pai ganhava com as terras que possua no interior.
       Nicole e Paola logo se tornaram amigas. Tinham quase a mesma idade, e a afinidade
entre ambas surgiu espontnea e natural. Passavam as tardes juntas, lendo, passeando,
       fazendo compras. Tornaram-se amigas e confidentes.
       Um dia, surgiu a ocasio que Luigi tanto esperava. O pai estava tendo problemas em
uma de suas fazendas: uma pequena rebelio dos colonos, irritados com o preo
       que Raffaele lhes cobrava pelo uso da terra.
       - Fique tranqila - disse a Paola. - Em duas semanas, no mximo, estarei de volta.
       - Quer que o acompanhe, pai? - indagou Gianni.
       - Seria bom...
       - No, papai - cortou Luigi. - Deixe que eu v. Gosto desses assuntos. Afinal, sou
advogado, lembra-se?
       Raffaele sorriu complacente e permitiu que ele o acompanhasse, recomendando a
Gianni que tomasse conta de tudo.
       - No se preocupe, pai. E voc tambm, Luigi. Tomarei conta das moas.
       Depois que eles se foram, Gianni procurou ainda mais evitar a companhia de Paola.
S ficava junto dela s refeies e quando Nicole estava presente. Mas Nicole,
       orientada pelo marido, tinha um papel a desempenhar. Gostava muito de Paola, mas
sabia do que dependia seu futuro financeiro: da traio de Paola e Gianni.
       Foi ao quarto de Paola quando ela se preparava para dormir.
       - J vai se deitar? - perguntou ela de forma dissimulada.
       - J - respondeu Paola, sem de nada desconfiar. - Estou com muito sono.
       - Por que no aproveita que nossos maridos saram...
       - Como assim? - cortou Paola rispidamente. - O que est insinuando, Nicole?
       - Eu? Nada. Mas penso como deve ser horrvel no poder se entregar ao homem que
se ama.
       Paola comeou a chorar. Realmente, no suportava mais. - No chore, querida.
Posso ajud-la.
       - Ajudar-me? Como?
       - No gostaria de ter Gianni ao menos por uma noite?
       Paola considerou. Era o que mais queria. Mas era uma mulher ntegra e no estava
acostumada a mentir.
       - E Raffaele? - tornou insegura.
       - Ele no precisa saber.
       - Mas no seria direito.
       - E o que  direito? Ficar casada com quem no ama?
       Paola no respondeu e Nicole continuou:
       - Seu marido a enganou. Luigi me disse que Gianni pediu a ele que falasse com o
Sr. Raffaele.
       - O qu? Como... Como assim?
       - No sabe?
       A outra meneou a cabea. Nicole continuou:
       - Pois Gianni comentou com Luigi que estava pensando em pedir ao Sr. Raffaele
que fosse falar com seu pai, para lhe pedir permisso para cortej-la. Como Luigi 
       muito amigo do irmo, adiantou-se e foi falar com o pai. Queria fazer-lhe uma
surpresa. S que o Sr. Raffaele teve outra idia. Resolveu pedi-la para si prprio.
       No foi uma traio?
       Paola fitou-a indignada.
       - Gianni nunca me contou...
       - Ele no sabe disso. Luigi tambm nunca lhe disse. Tem medo de que ele fique
contra o pai, o que no seria direito. Mas Gianni no
       consegue mais conter seus sentimentos. Ele a ama imensamente e est prestes a ir
embora.
       - Ir embora? Como assim?
       - Ele disse a Luigi que pensa deixar esta casa. J no suporta mais. Arde de desejo
por voc.
       - Oh, Nicole...
       - Pois . Gianni confidenciou a Luigi que sonha, um dia, poder t-la em seus
braos...
       Paola derramava um pranto sentido, quase angustiado.
       -Oh, Nicole, ajude-me! No deixe que ele parta. Eu no su portaria.
       -No posso impedi-lo. S voc pode. - Eu? Mas como?
       - Voc sabe. V procur-lo. Entregue-se a ele.
       - Mas isso no seria direito! Sou uma mulher casada.
       - E o que  direito, Paola? Seu marido enganar a voc e ao filho s para poder se
casar com voc? Se algum aqui enganou algum,
       no foram vocs. Foi o Sr. Raffaele.
       Paola comeou a ficar em dvida, e Nicole continuou a incentiv-la:
       - Pense bem, Paola. Gianni a ama e est esperando por voc. - Est?
       - Sim. Todas as noites ele fica deitado em sua cama, s esperando que voc aparea.
Como voc nunca aparece, ele resolveu ir
       embora. S vai esperar que o pai volte de viagem para partir.
       - No, Nicole. No vou permitir! - Pois ento faa algo. Depressa! - E se Raffaele
descobrir?
       - Como vai descobrir? Voc pretende contar? - E claro que no.
       - Pois eu tambm no. E Gianni muito menos. Vamos, Paola, o que est esperando?
       - No sei...
       - Deixe de ser boba. O que tem a perder? Ningum nunca vai ficar sabendo. E,
depois, vai ser uma noite s. Quando o Sr. Raffaele
       voltar, vocs no tero mais chance de se ver. Quer perder a oportunidade de, ao
Menos uma vez em sua vida, estar nos braos do homem que ama?
       Paola tomou sua deciso. O que Raffaele fizera ao filho fora uma indignidade.
Roubara-lhe a amada e a chance de ser feliz. E, depois, quem iria saber? Nicole no
       contaria nada a ningum. O que tinha a perder?
       Em silncio, saiu pelo corredor s escuras, at que chegou  porta do quarto de
Gianni. Abriu-a sem bater e aproximou-se da cama. Gianni dormia tranqilamente, e
        ela, tirando a camisola, deitou-se a seu lado e colou seu corpo ao dele. Assustado,
ele abriu os olhos e murmurou:
        - Hem? O que...
        No teve tempo de terminar. Coberta de desejo, Paola tocou seus lbios nos dele,
calando sua boca com um beijo longo e apaixonado. Gianni, a principio, pensou em
        repeli-la. Mas a paixo falou mais alto, e ele se deixou envolver cada vez mais por
seu corpo quente, por sua tez macia, pelo ardor de suas carcias. Entregaram-se
        a um amor turbulento e apaixonado, liberando o desejo h tanto reprimido.
        A partir daquele dia, no puderam mais parar. Mesmo depois que Raffaele voltou,
no conseguiram mais se conter. Quase todas as noites, depois que Raffaele dormia,
        Paola se levantava e ia ao quarto de Gianni.
        Certa noite, Luigi resolveu agir. Esperou at que Paola se levantasse e foi ao quarto
do pai. Raffaele abriu os olhos, ainda sonolento, e indagou preocupado:
        - Luigi? Aconteceu alguma coisa?
        - No sei, pai. Passei pelo quarto de Gianni e ouvi gemidos. Acho que ele no deve
estar se sentindo bem.
        Foi s quando levantou que Raffaele notou que Paola no estava deitada a seu lado.
Olhou para o filho com imenso desgosto, s ento percebendo tudo, e disparou pelo
        corredor, rumo ao quarto de Gianni. Atrs dele, Luigi dizia com fingida
preocupao:
        - Tenha calma, papai...
        No adiantou. Raffaele escancarou a porta do quarto e flagrou
        mulher e filho, nus nos braos um do outro, entre carcias e gemidos. - Desgraados!
- esbravejou, correndo porta afora e voltando
        segundos depois, trazendo uma pistola nas mos.
        - Papai, no! - gritou Luigi, dissimulando nervosismo.
        Raffaele deixou cair a arma no cho e olhou para o filho e a mulher, envoltos nos
lenis, sem nem ousar se mexer.
        - Saiam daqui! - vociferou. - Saiam de minha casa agora, ou no responderei por
mim!
        Mais que depressa, Gianni levantou-se da cama e puxou Paola, vestindo-se
apressadamente e saindo com ela o mais rpido que pde.
        O escndalo logo se espalhou. O pai de Paola quis mat-la. Xingou-a, humilhou-a,
renegou-a. No tinha mais filha. Como pudera desperdiar assim a chance de aumentar
        sua fortuna, e ainda atirando seu nome na lama? Enchera-se de dio da filha e de
Gianni e quis mat-los. S no conseguiu seu intento porque Gianni e Paola se mudaram
        para outra cidade, bem distante dali.
        Raffaele, por sua vez, renegou e deserdou Gianni, adotando Luigi e passando toda a
sua fortuna para ele. Desde aquele dia, tomou-se de dio por Gianni. Mesmo aps
        desencarnar, no pde perdoar nem ele nem Paola. Podia no a amar, mas ela era
sua mulher e devia-lhe fidelidade.
        Nicole e Luigi tambm no terminaram juntos. Com a morte de Raffaele, Luigi
passou a beber e a desperdiar toda a fortuna que o pai lhe deixara, e Nicole, arrependida,
        acabou por conhecer um pastor presbiteriano ingls, abandonando o marido para
segui-lo. Luigi quase explodiu de tanto dio e jurou vingana.
        Quando Nicole abandonou a casa, foi com o pastor para uma estalagem, de onde, no
dia seguinte, partiriam para a Inglaterra. Ao cair da madrugada, Luigi se aproximou
        da carruagem do pastor e desparafusou-lhe as rodas.
        Ao nascer do dia, Nicole e o pastor iniciaram viagem. Seguiam por uma estrada
ngreme e sinuosa e, na descida, uma das rodas se soltou e a carruagem se desgovernou.
        O cocheiro ainda conseguiu pular antes que a carruagem casse por um
despenhadeiro, assim como Nicole, empurrada para fora pelas mos do pastor. Mas este
no teve
        tempo. Ao se preparar para saltar, a carruagem despencou penhasco abaixo,
carregando consigo o pastor e despedaando-se contra as rochas. Sua morte foi instantnea.
        A tela escureceu, e Adriano abriu os olhos, chorando baixinho. Fitou Ismael e Cia,
que chorava emocionada. Adriano enxugou os olhos e indagou:
        - Por qu, Ismael? Por que teve de ser assim?
        Ismael fitou-o penalizado e respondeu bondoso:
        - So nossos processos de amadurecimento, Adriano. So os caminhos que
escolhemos para aprender a crescer. - Mas  tudo to doloroso...
        - Infelizmente, ainda no conseguimos compreender que o caminho do amor  bem
mais curto que o da dor.
        - E justo... Estou pagando por meus erros, no  mesmo?
        - No, Adriano, est crescendo. Ningum paga nada no mundo, porque no
devemos nada a ningum. Devemos a ns mesmos.  a ns que devemos conta de nossos
atos.
        - Voc diz que no estou pagando. No entanto, passei exatamente por aquilo que fiz
outros passarem.
        - Porque essa foi a maneira que voc escolheu de aprender. Ningum lhe disse que
devia passar por isso nem que seria bom. Mas voc achou necessrio. Voc optou porque
        acreditou que essa seria a nica forma de entender. Poderia ter escolhido outros
caminhos? Poderia, desde que j tivesse conscincia de que tudo poderia ter sido
        resolvido e se transformado com amor. Como no conseguiu compreender pelo
amor, optou pela estrada da dor. Foi seu livre-arbtrio, Adriano, sua concepo de justia
        que atraiu para voc os acontecimentos de que foi alvo.
        - Eu sei... Agora compreendo. Eu... Luigi... fui mau, invejoso, ambicioso, egosta,
assassino...
        - Foi humano, meu filho. Nem melhor, nem pior do que nenhum de ns aqui. Foi
apenas humano e agiu de acordo com o que j estava preparado para entender e fazer.
        No se culpe. No culpe ningum. Entenda tudo isso como parte da vida.
        - Ismael... O que posso fazer para me modificar?
        - Ajudar.
        - A quem?
        - Em primeiro lugar, a si mesmo. E  o que j est fazendo, desde que aceitou vir
para c e olhar para dentro de si mesmo. - E depois?
        - Depois, a seus semelhantes.
        - Como poderei fazer isso?
        - Quer comear por seu pai?
        - Meu pai? Por qu?
        - Ele vai passar por duras provas em breve. No gostaria de estar a seu lado? No
para instigar-lhe o dio, como vinha fazendo, mas
        para receb-lo com amor.
        Adriano fitou-o emocionado.
       - Gostaria... Meu pai foi Raffaele, no foi?
       - Sim, e sua me foi Antnia, que foi a verdadeira me de voc
       e de Fabrcio. No disse que vocs j tinham sido irmos de sangue? - E Isabela?
       - Isabela, sua me adotiva naquela vida, voltou como Helga. - Percebendo-lhe o ar
de espanto, continuou: -No se inquiete. A
       prpria Helga vir conversar com voc depois.
       - Helga foi minha me adotiva? Aquela por quem destru meu irmo? Mas por que
ela no me disse antes?
       - Ela tentou. Voc  que no quis ouvir, e ela soube respeitlo, ficando  espera de
que voc se lembrasse de tudo e a entendesse.
       Helga o ama muito, mas jamais tentou se impor a voc.
       Era verdade. Lembrou-se da primeira vez que a vira. Helga chamou-o para partir
com ela, disse-lhe que lhe contaria tudo. Mas ele
       no quis. Estava com tanta raiva que s o que pde foi sentir ainda mais raiva dela.
       - E os outros?- indagou Adriano.
       - Bem, Selena foi Paola, que sempre amou seu irmo, e Cassiano foi Vittorio, seu
ambicioso pai.
       - E Clarinha foi Nicole, no foi? - Sim.
       - E aquele pastor presbiteriano... era o juiz, que Clarinha amava e eu matei!
       - Lembre-se de que ningum atrai para si aquilo que no merece.
       - E voc, Ismael? E vov Ins? Onde entram nisso tudo?
       - Sua av no estava encarnada nessa poca. Reencarnou depois, como filha de
Paola e Gianni, ou Selena e Fabrcio.
       - Srio? E voc?
       - Eu? No imagina?
       - No. Nem desconfio.
       - Eu fui Bruno, o verdadeiro pai de Gianni.
       - Meu Deus! E verdade! Mas essa histria de reencarnao  mesmo o mximo...
       - Por falar em Mximo, no se lembra dele?
       - O malfeitor? Que sequestrou Gianni e matou Antnia?
       - Sim. Voc no o conheceu nessa vida, mas ele foi o verdadeiro pai de Fabrcio,
que morreu na guerra, dias antes de Helga. - No diga! E onde ele est?
       - Gostaria de conhec-lo?
       - E claro que sim.
       - Pois marcarei um encontro entre vocs. - Helga estar presente?
       -  claro. Ela o ama muito, embora voc nunca soubesse disso.
       No dia seguinte, Ismael foi buscar Adriano para uma entrevista
       com aquela que, um dia, tambm fora sua me. Ao se ver diante dela,
       foi como se todo aquele drama lhe aflorasse, e Adriano via e revia a
       cena do dia em que Mximo tirara Gianni do bero ao lado da me. Mal contendo a
emoo, Adriano ajoelhou-se no cho diante
       de Helga e, segurando-lhe as mos, implorava aos prantos:
       - Oh, perdoe-me, perdoe-me! Eu no sabia quem era voc. Helga, com profundo
carinho, alisou seus cabelos e comeou a
       falar, ainda com sotaque alemo:
       - No se torture, meu menino. Fui eu quem mais errou. Fui eu que insisti para que
roubssemos Gianni e fui em quem pagou Mximo para matar sua me. Sou eu, Adriano,
         quem mais tem de pedir perdo.
         - Minha me... Pobre Flvia. Como deve ter me odiado. Fui egosta. Eu vi quando
Mximo tirou Gianni do bero. Sabia que ele o estava roubando. E no disse nada.
         Fui conivente, no por medo, mas porque pensei que estaria me livrando de meu
maior inimigo. Uma criana, um beb! Como pude pensar que era meu inimigo?
         - Mas era. Por isso nasceram irmos.
         - ramos?
         - Nada acontece ao acaso, Adriano. Voc e Fabrcio renascem juntos h muitas
vidas, sempre na esperana de se amarem. - E eu desperdicei tudo...
         - Nada no mundo  desperdiado. Assim como a carne morta volta para o seio da
terra, tambm nossas aes impensadas so reaproveitadas por ns mesmos, em forma de
         experincia. Nada no mundo acontece em vo.
         Enquanto sentia as mos de Helga sobre sua cabea, Adriano foi se acalmando. Em
dado momento, ouviu a voz de um homem, tambm coam forte sotaque alemo, e s ento
         se deu conta de que havia mais algum com eles.
         - Voc  Mximo? - indagou Adriano
         - Sim. Nesta vida, fui Werther, marido de Helga e pai de Fabrcio. No sabe quanto
me arrependi depois pelo que fiz.
         - Quanto nos arrependemos - completou Helga. - Por no podermos suportar nossa
culpa foi que escolhemos nascer juntos, como marido e mulher, para termos Fabrcio
         e o entregarmos a Flvia. Foi a maneira que encontramos de nos perdoarmos.
         - O que, realmente, houve com vocs?
         Helga inspirou profundamente e, tomando a palavra, comeou a contar:
         -Ns ramos judeus, e voc pode imaginar o que significava para um judeu viver na
Alemanha daqueles dias. Com a ascenso do Partido Nazista, muitos judeus foram
         presos e encaminhados aos campos de concentrao. Naquele dia, Werther e eu
estvamos fugindo... Os soldados da SS estavam atrs de ns... - Ela deixou escapar
algumas
         lgrimas, tomou flego e prosseguiu: - Ouvimos falar que Hitler havia invadido a
Polnia e decidimos tentar atravessar a fronteira. Queramos fugir para a Sua.
         Na estao, fomos detidos. Quando nos pararam, vimos que no teramos sada. A
um olhar de Werther, eu sa correndo, em disparada. Ele se colocou diante dos soldados
         para nos proteger, a mim e a Fabrcio, quando levou um tiro, caindo fulminado,
morto na mesma hora. Eu sabia que ele havia morrido e que eu seria a prxima. Mas
         precisava salvar meu beb. Corri o mais que pude, tentando me ocultar entre a
multido que aguardava na gare. Foi quando vi seus pais. Eles estavam um pouco mais
         afastados, e corri para eles. Implorei-lhes que salvassem a vida de meu filho. Aps
alguma hesitao, sua me tomou-o de meus braos. Apesar de triste por me separar
         dele, fiquei feliz porque ele teria uma chance de sobreviver. Eu no sabia quem
eram seus pais nem para onde iriam, mas sabia que meu filho estaria a salvo com eles.
         Minutos depois, os soldados me agarraram. Fui detida e levada a um campo de
concentrao. Dias depois, morria asfixiada na cmara de gs... - Ela levou a mo 
garganta.
         - Desculpe-me se no entro nesses detalhes. Ainda me  muito dolorosa essa
lembrana.
         Helga e Werther choravam e, com eles, Adriano tambm.
         - Que coisa triste... - lamentou Adriano. -Nunca pude pensar em seu sofrimento.
        - Nem ns - concordou Werther. - Antes de passarmos por isso, no tnhamos noo
da dimenso do mal que havamos feito a Fabrcio e, principalmente, a Flvia.
        - Mas por que tiveram de ser exterminados?
        - Assim como voc - respondeu Helga -, ns tambm ainda no estvamos prontos
para aprender seno pelo rduo e espinhoso caminho do sofrimento.
        - Ns escolhemos passar por isso para compreender, de uma vez por todas, que a
ningum  dado tirar a vida de seu semelhante, seja por que motivo for. E s assim
        pudemos entender todo o sofrimento que causamos a Flvia.
        - Sim... - acrescentou Adriano. - Sei bem do que esto falando.
        - Mas no tem de ser assim. Ns podemos mudar isso. Podemos at mudar nossas
escolhas. Basta que acreditemos em ns mesmos, em nossa capacidade de conduzir e
modificar
        nosso destino.
        - Mas ns ainda no alcanamos essa compreenso, no  mesmo?
        - No. A maioria de ns ainda acredita que  s pelo sofrimento que iremos crescer.
No estou invalidando o sofrimento, porque ele nos ensina mesmo. Mas precisamos
        acreditar que podemos aprender de outras formas. O sofrimento no  essencial ao
crescimento humano. Pode at ser til e, s vezes, necessrio, porque serve a nossos
        propsitos. Mas  dispensvel.
        Com o corao tocado pelas palavras de Helga, Adriano deixou-se ficar ao lado
dela, chorando a dor do arrependimento. Por mais que lhe dissessem, sentia-se culpado
        por tudo. Precisava mudar, precisava transformar sua culpa em algo mais produtivo.
        Foi quando se lembrou do pai e do que Ismael lhe dissera: que o pai precisaria dele.
Ismael, captando-lhe os pensamentos, disse com ternura:
        - Venha comigo. Precisamos nos preparar.
        Embora no quisesse admitir, Bernardo tinha de reconhecer que a filha fora curada
no centro esprita. Ainda no entendera bem o que havia se passado, mas desde que
        aquele esprito se manifestou, dizendo ser Adriano, tudo comeara a melhorar.
Clarinha j no tinha mais aqueles enjos nem desmaiava. Readquirira a cor saudvel
        de outrora e retomara o gosto pela vida.
        No tinha como duvidar. No pretendia freqentar o lugar com regularidade, mas
iria vez por outra. Em agradecimento, fizera generosa doao para as obras de caridade
        do centro. Antnio aceitou de bom grado, afirmando-lhe que o dinheiro seria bem
empregado em roupas e mantimentos que doavam a famlias carentes.
        Alm disso, mandara rezar uma missa pela alma de Adriano. Antnio tambm
dissera que qualquer orao, seja de que religio for, ou mesmo de religio alguma, desde
        que sincera,  sempre muito til. E Bernardo estava sendo muito sincero ao
demonstrar seu agradecimento. Era sua forma de gratido. O bem-estar da filha no tinha
        preo, e ele considerava at muito pouco tudo que fizera em retribuio.
        Bernardo convidou Feliciano para jantar em sua casa com Elisete e Clarinha. No
meio da refeio, Bernardo tornou, humilde:
        - Acho que lhe devo um pedido de desculpas, Feliciano.
        - Ora, o que  isso, Dr. Bernardo? No foi nada. Sei quanto  difcil para certas
pessoas acreditar no mundo dos espritos.
        - Por favor, no me chame mais de doutor. Somos amigos.
        - Fico muito feliz que me considere seu amigo.
        Bernardo ficou durante alguns instantes refletindo, at que continuou:
        - Tive muita pena de Adriano. Se soubesse que era possvel para a alma sobreviver
ao corpo, teria tentado algo antes para ajud-lo.
        - Tudo tem sua hora, meu caro. Adriano recebeu ajuda no momento em que
precisou.
        - E libertou nossa Clarinha - acrescentou Elisete.
        - No fale assim, me - repreendeu a moa. - Adriano no sabia o que fazia.
        - Clarinha tem razo - concordou Feliciano. - Adriano agia mais por ignorncia do
que por vingana.
        - Espero que agora ele esteja bem - disse Clarinha com sinceridade.
        - Deve estar. No momento em que se manifestou no centro esprita, era porque j
estava disposto a mudar. Ningum gosta de sofrer.
        - E verdade...
        Conversaram at altas horas, e Feliciano esclareceu-os sobre muitas coisas relativas
 espiritualidade, conquistando o respeito e a admirao de Bernardo e Elisete.
        Foi uma noite agradvel, como havia muito no tinham, e Bernardo se sentiu
reconfortado e confiante. Sua filha era parte de um mundo que sempre lhe parecera cruel,
        mas estava aprendendo a reconhecer a beleza da divindade nas pequenas coisas da
vida.
        Quando Clarinha despertou no dia seguinte e olhou pela janela, o sol j ia alto, e ela
se levantou indignada. Olhou o relgio na mesinha: dez para as dez. Dormira
        demais. Levantou-se apressada e correu para o banheiro. Escovou os dentes e tomou
um banho rpido, vestindo-se s pressas. No teria tempo nem de se maquiar direito.
        Passou apenas um batom nos lbios, apanhou a bolsa e saiu correndo.
        - Por que a pressa? - perguntou Elisete, vendo-a passar como um furaco.
        - Depois, me. Estou atrasada.
        - Se vai trabalhar, pode esquecer. Hoje no h expediente. - No? Como assim?
        - Ligaram e avisaram que esto dedetizando a empresa. - Hoje? Mas no me
avisaram nada.
        - Por isso ligaram. O servio estava marcado para amanh, mas teve de ser
antecipado para hoje.
        Clarinha voltou para a sala e desabou na poltrona.
        - Puxa vida! Corri tanto  toa. - Quem manda ser apressada?
        - No faz mal. Vou aproveitar o dia e fazer umas compras. - Posso ir com voc?
        Clarinha fitou-a em dvida. Ainda no havia contado  me que alugara o
apartamento, que j o estava mobiliando e que agora pretendia sair
        para comprar alguns utenslios domsticos. Mas era chegada a hora. Ela e o pai
tinham de saber.
        - Me - comeou ela cautelosamente -, h algo que gostaria de lhe contar.
        - O que ?
        - Bem, sabe que estou firme em meu emprego, no sabe? - Sim... - respondeu
Elisete, hesitante.
        - No pense que vou acusar voc ou papai de alguma coisa, porque no vou. O
emprego  meu e eu o mantenho por minha capacidade.
        - Sei disso, minha filha. E seu pai tambm.
        - Fico feliz que agora pensem assim. Mas no  s isso. - No?
        - No. Sabe que gosto de ser independente.
        - Voc  uma moa muito independente, Clarinha. - Por isso tomei uma deciso... -
Vai se casar com Otvio?
        - No. Aluguei um apartamento para mim. Vou morar sozinha. -Como assim, morar
sozinha? Pensei que voc e Otvio esti
        vessem namorando firme.
        - E estamos. S que no quero me casar agora. Quero primeiro experimentar a vida,
ser dona de meu nariz. Se me casar, sairei da
        dependncia de meu pai para a dependncia de meu marido. E no
         isso o que quero.
        - Mas por qu? Toda mulher precisa se casar. E, depois, voc tem seu emprego. No
precisa larg-lo.
        - E no vou mesmo. Ainda que casasse, no deixaria o emprego. - Otvio sabe
disso?
        - Sabe e aprova.
        -Se sabe e aprova, ento no vejo por que vocs no podem se casar.
        - Porque eu no quero, me. No agora.
        Elisete considerou durante alguns instantes e retrucou, contrariada:
        - No estou gostando nada dessa histria, Clarinha. Trabalhar fora, tudo bem. Mas
morar sozinha... Sabe-se l o que pode acontecer.
        - O que est querendo dizer, me?
        - Quero dizer que voc vai acabar se perdendo.
        Clarinha soltou uma gargalhada e retrucou bem-humorada: - Mas que coisa mais
cafona, me. Perder-me...
        -  sim, Clarinha. Por mais direita que seja, a ocasio acaba pro
        piciando. Voc sozinha num apartamento, em companhia de Ot vio... no sei, no.
        - Pare com isso, me. Deixe de besteiras. - Vai acabar se entregando.
        - E da? O que tem de mais? Voc sabe quanto sou liberal. Elisete olhou-a
desconfiada:
        - Voc j... Quero dizer... Vocs j... Voc sabe.
        - Para falar a verdade, isso no  de sua conta. Mas, se quer mesmo saber, j, sim.
Otvio e eu nos amamos, e no vejo por que no
        possamos concretizar esse amor.
        - Clarinha! - tornou Elisete escandalizada. - O que seu pai vai dizer?
        - Por que tem de contar a ele?
        - Mas, minha filha, isso no  direito.
        - Oua, mame, no foi minha inteno choc-la, mas foi voc quem perguntou.
Pare de me ver como uma menininha.
        - Sei que voc no  mais nenhuma garotinha. Pensando bem, at j passou da idade
de se casar.
        - Est vendo? No  o que quero para mim. Casamento  conseqncia natural da
vida, no um projeto de vida.
        Elisete fitou-a espantada. No fundo, admirava-a imensamente. A filha era uma
mulher corajosa e decidida, e jamais deixaria que algum lhe dissesse o que deveria
        fazer. De repente, sentiu imenso orgulho dela. Por que no deveria apoi-la? No
estava feliz? No se livrara daquele obsessor que a atormentava e que a deixava
        doente? Por que ela no tinha o direito de buscar a felicidade  sua maneira? Elisete
apanhou a mo da filha e, com um sorriso nos lbios, arrematou:
        - Muito bem. Voc pode ser uma moa experiente, mas no entende nada de casa.
Deixe-me ajud-la a escolher pratos, talheres, cortinas...
        Clarinha respirou aliviada e sentiu uma enorme felicidade. Precisava do apoio dos
pais, principalmente da me. Precisava saber que no tinha de abrir mo do amor
        dos pais para viver sua vida. Agora sabia. A me a amava de qualquer jeito, e isso
era o mais importante. Era assim que tinha de ser.
        Depois da conversa que tivera com a me, Fabrcio sentira-se mais aliviado.
Desabafar fizera-lhe muito bem. Agora se sentia mais seguro, mais confiante, certo de
        que no fora um estorvo na vida de ningum. Se o pai escolhera rejeit-lo, s tinha a
lamentar. No fosse sua dificuldade, poderiam ter sido felizes juntos, e ele
        talvez tivesse conseguido amenizar um pouco a falta de Adriano em sua vida.
        Mudara-se do hotel em que estava morando para a casa da av. No fazia sentido
ficar escondido se j no havia mais de quem se esconder. Selena e ele, em breve,
        estariam
        morando juntos. Embora ela fosse desquitada, queria sacramentar a unio de alguma
maneira, e Ins conseguira que Antnio viesse do centro para lhes dar uma bno.
        Seria uma cerimnia bastante rpida. Antnio diria algumas palavras bonitas e
inspiradas, e todos os presentes derramariam sobre os noivos seus votos sinceros de
        harmonia e felicidade. Pronto. No precisavam de mais nada, s das vibraes de
amor e alegria.
        Selena ajudava Fabrcio a arrumar suas roupas no armrio quando Ins entrou no
quarto.
        - Preciso passar em casa para buscar minhas roupas - falou Fabrcio. - Tudo que
tenho foi o que comprei quando sa. No trouxe nada de casa.
        - Ora, ora - brincou Selena. - j viu isso, Dona Ins? Ele est chateado porque o
armrio est repleto de roupas novas.
        Ins sorriu e disse, ao mesmo tempo em que dobrava uma camisa recm-passada.
        - Clarinha est a embaixo.
        -  mesmo? - alegrou-se Selena. - Por que no a mandou subir?
        - Est com Otvio. Ele ficou sem jeito.
        Selena terminou de pendurar o ltimo terno e acrescentou:
        - Muito bem. Ento vamos descer.
        De mos dadas com Fabrcio, desceu as escadas. Clarinha esta va na sala em
animada conversa com Selma e Carlinhos, que lhes mos
        travam alguns brinquedos novos que haviam ganhado de Fabrcio. - Ol, Clarinha -
cumprimentou Selena, beijando-a no rosto. - Ol. Como vai, Fabrcio?
        - Bem.
        Ela ainda no sabia. Ningum sabia. A verdade sobre o nascimento de Fabrcio
permanecia em segredo.
        - Viemos convid-los para irem conhecer a casa nova de Clarinha - anunciou
Otvio.
        - O qu?- impressionou-se Flvia. - Voc vai se mudar? Vo se casar?
        - No. Vou me mudar sozinha. Otvio tem a casa dele.
        - Que maravilha! - exclamou Selena. - Era o que voc sempre quis, no  mesmo?
        E, sim. E hoje, graas a Deus, consegui.
        E seus pais? - indagou Ins. - Concordaram?
        - Que jeito? Mame foi mais flexvel. Papai relutou um pouco, mas, depois que fui
curada no centro esprita, ele passou a aceitar praticamente qualquer coisa.
        - Mame, posso ir? - interrompeu Selma. - Quero conhecer a casa nova de tia
Clarinha.
        - E claro que pode, meu bem - respondeu Clarinha animada, dando-lhe um beijo na
bochecha. - E voc tambm, Carlinhos. No precisa fazer essa carinha de choro.
        O menino, todo feliz, foi grudar-se  perna de Clarinha, que o ergueu no colo e o
beijou.
        - Nossa! Como est ficando pesado!
        Selena sorriu e estendeu os braos para o filho, que passou ao colo da me.
        - Vamos, ento? - tornou Otvio.
        - S um instante, que vou me trocar - respondeu Selena.
        - Sua filha no quis vir?- indagou Ins a Otvio. -Soube que tem uma menina.
        - Aninha foi a uma excurso com o colgio.
        - Ela  uma criana maravilhosa - completou Clarinha. - Conheci-a outro dia, e ns
nos demos muito bem.
        -  verdade. Aninha gostou muito de Clarinha. Perdeu a me muito cedo. Sente falta
dos carinhos maternos.
        - Espero ser uma boa me para ela.
        Pouco depois, Selena reapareceu, e o grupo saiu animado. Todos queriam ver a casa
nova de Clarinha. Uma mulher solteira morando sozinha, efetivamente, era algo digno
        de nota.
        Ins estava sentada  mesa da cozinha, ajudando Bibiana a escolher o feijo para o
jantar, quando Flvia se aproximou.
        Apesar de tudo esclarecido e de ter o filho de volta, sentia-se infeliz, amargurada.
        Notando-lhe o abatimento, Ins terminou de escolher o feijo, entregou a tigela a
Bibiana e saiu com a filha para o quintal.
        Conduziu-a at seu banco preferido, debaixo de umas roseiras, e sentou-se com ela.
        - Ento, minha filha - comeou ela a dizer -, o que a atormenta tanto?
        - Ah, mame! - desatou a chorar, abraada a Ins. - E Paulo, no ? No consegue
esquec-lo. - Apesar de tudo, ele  meu marido, e eu o amo. -Nada mais natural.
        Por que no o procura? -No posso.
        - Podia ao menos atender a seus telefonemas. Ele liga todos os dias.
        - No posso. Ainda no.
        - Por qu? Se o ama como diz, por que no pode perdo-lo? J no conversamos
sobre isso?
        - No sei se consigo perdo-lo.
        - Ora, vamos. Por que ficar sofrendo se seu corao pede que se reconcilie com ele?
Est apenas sendo teimosa.
        - Acha mesmo isso? - Acho, sim.
        -No sei, mame. No sei se  o momento mais adequado. - Por que no pensa no
assunto? Converse com Fabrcio.
        - Com Fabrcio?
        - Ele tambm  interessado. Afinal, Paulo  o pai dele...
        Flvia calou-se pensativa. A me tinha razo. Por mais que no quisesse, reconhecia
que estar separada de Paulo lhe doa muito. Afinal, ele agira conforme suas convices.
       Seria justo cobrar-lhe algo alm daquilo que podia dar? E seu sofrimento? No
deveria levar em conta tambm o que ele estava sentindo?
       Quando Fabrcio chegou, Flvia foi ter com ele. Precisava partilhar suas dvidas e
anseios.
       - Mame, entendo quanto deve estar sofrendo. E entendo o sofrimento de papai
tambm.
       - Entende?
       - Sim. Conversei com vov e ela me fez ver que no amar no  to simples assim.
Talvez ele esteja sofrendo mais que ns.
       - Ah, Fabrcio, o que podemos fazer para remediar tudo isso? - Remediar, no sei.
Mas podemos ao menos tentar nos entender.
       - Acha que seria possvel?
       - Voc mesma disse que papai liga todos os dias. Se  assim,  porque deve estar
sentindo sua falta.
       - Ns no nos separamos nem uma s vez em mais de trinta anos de casados.
       - Pois ento? Papai deve estar muito triste.
       - E voc? No sei o que ele pensa de tudo isso. Ser que est arrependido do que
fez?
       - No sei. Teremos de perguntar a ele.
       - Tenho medo de que ele o destrate novamente. Talvez o esteja acusando pelo fato
de eu o ter abandonado.
       - No vamos nos precipitar. No  direito querermos imaginar o que ele deve estar
pensando ou sentindo. Podemos estar fazendo um julgamento errado.
       - Tem razo. Mas essa situao me angustia. Por outro lado, no quero expor voc a
mais nenhum tipo de constrangimento.
       - Deixe isso por minha conta. Sou adulto e sei cuidar de mim. E, depois, no h
mais nada que papai possa fazer para me magoar. - Calou-se uns instantes e acrescentou:
       - Faamos o seguinte: sexta-feira  noite iremos at em casa. Ns dois.
       - Vai voltar para casa?
       - No. Voc  que vai.
       - Eu?
       -No  isso o que quer?
       Ela hesitou. Ele continuou:
       - No precisa ter medo de me magoar, me. Sei discernir as coisas. O fato de voc
amar papai no exclui o amor que sente por mim. E ento? Quer ou no quer voltar
       para ele?
       Flvia, olhos baixos, apertando a bainha da blusa, deixou desabafar num suspiro:
       - Quero...
       - Pois ento? Vamos at l. Conversaremos com ele. Eu exporei meus sentimentos,
voc expor os seus, e ele, os dele. Quem sabe assim no nos entendemos?
       Ficou combinado que iriam na sexta-feira  noite, quando Fabrcio voltasse do
trabalho.
       No dia marcado, partiram, Fabrcio e Flvia, rumo  sua casa, para terem uma
conversa definitiva com Paulo. Conheceriam seus reais sentimentos, saberiam como estava
       se sentindo, no apenas com relao a Flvia mas, principalmente, a Fabrcio.
       Por volta das oito e meia, o carro de Fabrcio apontou na garagem do prdio onde
moravam, e o porteiro foi abrir o porto. Fabrcio desceu com o automvel, estacionou
       em sua vaga e saltou com a me, tomando o elevador de servio.
       Do lado de fora, algum os espreitava. Cassiano, vendo o carro se aproximar,
escondera-se atrs da rvore e ficara olhando. Viu quando Fabrcio passou com uma mulher
       ao lado, mas percebeu que no se tratava de Selena.
       - Mais essa agora! - pensou em voz alta. - S falta essa dona atrapalhar tudo.
       O elevador parou no segundo andar e eles desceram. Flvia ainda conservava suas
chaves. Ao sair de casa, apanhara mecanicamente o chaveiro e o pusera na bolsa. Colocou
       a chave na fechadura e rodou-a, e Paulo, do lado de dentro, teve um sobressalto.
Estava na sala, fitando o vazio, quando ouviu o barulho da chave. Seu corao disparou.
       Seria Flvia? S podia ser ela.
       Quando a porta se abriu, esforou-se ao mximo para se controlar e no a tomar nos
braos. Apesar de abatida, ela estava mais linda do que nunca. A saudade s fizera
       aumentar a admirao que sentia por ela, e Paulo, controlando ao mximo a
emoo, aproximouse dela e falou sentido:
       - Flvia... At que enfim...
       Ela passou para o lado de dentro e Fabrcio veio logo atrs. Ao v-lo, Paulo sentiu
um estremecimento. No o queria ali. Estava arrependido do que fizera, mas no
       se sentia com foras para enfrent-lo.
       - O que veio fazer aqui? - indagou com visvel m vontade.
       - Se meu filho no pode ficar - respondeu Flvia com rispidez -, ento tambm irei
embora.
       Ouvindo as palavras da mulher, Paulo recuou. No estava disposto a fazer nada que
pudesse contrari-la. Saiu do caminho e deu passagem ao filho. Fabrcio entrou,
       encarou o pai com profunda
       emoo e anunciou:
       - Vim apenas apanhar minhas roupas.
       Foi para o quarto, dando tempo  me para que introduzisse o assunto. Ela se sentou
no sof e ficou imaginando o que dizer, mas Paulo se adiantou:
       - Veio para ficar, Flvia?
       Ela o encarou com ar enigmtico, ergueu as mos e respondeu: - No sei. Ainda no
me decidi.
       - No? E por que veio?
       - Vim acompanhar meu filho.
       Paulo engoliu em seco e sentou-se a seu lado. De onde estava,
       ela podia sentir a emoo que o dominava, mas no disse nada. - O que falta para
voc se decidir? - tornou ele, confuso. - No sei. Vai depender de voc.
       - De mim?
       - De seu comportamento com Fabrcio.
       Ele engoliu em seco novamente e voltou os olhos para o corredor, mas Fabrcio
ainda estava no quarto. Tornou a olhar para a mulher e prosseguiu:
       - Estou sentindo muito sua falta. Por favor, volte para casa. - No sei se  isso o que
quero.
       - Mas por qu? Ns nos amamos...
       - Ser mesmo? Ser que voc me ama?
       -  claro que sim. Como pode duvidar disso?
       - Se me amasse mesmo, no teria feito o que fez. Ele baixou os olhos,
envergonhado, e balbuciou:
        - Perdoe-me... eu... no queria...
        - No queria o qu? Contar a verdade a Fabrcio?
        - No queria mago-la.
        - Mas magoou. Voc me fez uma promessa e no pde cumpri-la. Como espera que
me sinta? Feliz?
        - No... Gostaria apenas que entendesse.
        - Entendesse o qu? Que voc no ama seu filho?
        - Eu tentei, Flvia, juro que tentei. Mas no consegui. No consegui amar Fabrcio.
Deus sabe quanto tentei, mas no pude! No pude! E ser que agora terei de pagar
        por um sentimento que meu corao no conseguiu reconhecer como amor? Amor
no se impe. Voc sabe disso.
        - Todo pai ama seu filho.
        - Fabrcio no  meu filho!
        Ao levantar os olhos midos para ela, Paulo viu, por detrs do sof, a figura esguia
de Fabrcio, que os olhava emocionado, tentando conter o pranto. Ele apertou
        os lbios e desabafou sentido:
        - Durante minha vida inteira, perguntei-me o que lhe havia feito para que no me
amasse. Hoje entendo que a nica coisa que fiz foi entrar em sua vida sem ser convidado.
        - Fabrcio! - cortou Flvia, indignada. -No diga isso.
        - No se importe, me. Digo isso, no com mgoa, mas para tentar entender. - E,
virando-se para o pai: - Por qu, Paulo? Por que no pde me amar?
        Ao ouvir o filho cham-lo pela primeira vez de Paulo, ao invs de pai, Paulo sentiu
um estranho mal-estar. Aquilo o incomodara. Mas por que o incomodara? Se no
        o aceitava mesmo como filho, no devia se importar se o rapaz no o chamava de
pai. Deveria at gostar. No entanto, no gostara. Sentira-se estranho, como se lhe
        faltasse alguma coisa.
        A seu lado, Adriano, Helga e Ismael acompanhavam tudo do invisvel.
        - Por que meu pai se sente assim? - quis saber Adriano.
        - Porque sua alma est buscando l dentro o amor que um dia ele sentiu por Fabrcio
e que sufocou, ao sentir-se trado por ele - esclareceu Ismael.
        - Fabrcio... - Paulo nem sabia mesmo o que dizer. - As coisas no so bem assim.
        -No? E como so? Voc nunca me amou, Paulo, e agora est tendo a chance de
assumir isso.
        Novamente aquele Paulo que tanto o incomodou, e ele se remexeu inquieto.
        - Por que me chama pelo nome?
        - No  isso que voc sempre foi para mim? Paulo? Voc nunca quis ser meu pai.
Sempre quis ser apenas Paulo. Frio e impessoal.
        A dureza de Fabrcio mexia com ele, doa dentro dele. Mas no era uma dor de
agresso ou de violncia. Era a dor de sentir-se descoberto. De ouvir algo que no queria
        ouvir, de ter de aceitar seus prprios sentimentos e ressentimentos. Era a dor do
remorso.
        - Voc est sendo muito duro - queixou-se Paulo.
        - E voc? O que foi comigo quando me contou que no sou seu filho legtimo?
        - Pensei que gostasse de conhecera verdade.
        - Conhecer a verdade  uma coisa. Ser espancado por ela  outra bem diferente.
        Fabrcio, no foi minha inteno mago-lo...
        - Ah, no? E qual foi sua inteno? Esclarecer-me? Muita generosidade de sua
parte. Podia ter me acertado com um basto. Teria dodo menos.
        -No... No quis mago-lo. Quis apenas desabafar...
        - Voc no desabafou, Paulo. Despejou em cima de mim sua frustrao, sua raiva,
seu cime.
        Flvia ouvia tudo sem dizer nada. Encolheu-se no sof e, sem encarar o marido ou o
filho, deixou apenas que as lgrimas escorressem de seu rosto, intimamente pedindo
        a Deus que aliviasse e abrisse o corao dos dois.
        Com os olhos pregados no cho, Paulo chorava baixinho.
        - Voc me odeia, no  mesmo? - indagou ele, evitando que seus olhares se
cruzassem.
        - Odi-lo? No, no o odeio. Quem me odeia  voc. - Eu no o odeio...
        - Mas se foi voc mesmo quem disse! Por que agora mudou de idia? S para
impressionar mame?
        No podendo mais se conter, Paulo ergueu-se na frente do filho e, olhos em fogo,
foi colocando para fora toda a sua dor-:
        - Est bem, Fabrcio. E isso o que quer? Pois ento lhe direi. Quer saber se o odeio?
Sim, odeio-o. Por qu? Nem eu mesmo saberia lhe dizer por qu. S o que sei
         que no consegui acolh-lo em meu corao como fora obrigado a acolh-lo em
minha vida. No pude am-lo... - disse aos prantos. - Parecia-me que voc estava me
        roubando o amor de Flvia. Sentia-o como um traidor. Tinha a sensao de que
voc iria me trair a qualquer momento.
        - Como pde pensar uma coisa dessas? - interrompeu Flvia. - Como uma criana
recm-nascida poderia tra-lo de alguma forma?
        - No sei, no sei. Mas era o que sentia. E, quanto mais sentia, mais o desprezava.
Quando Adriano nasceu, senti-me trado pela vida. Eu achava que no poderia ser
        pai, mas Flvia estava grvida de um filho meu. S que havia voc. Voc, que havia
chegado antes para roubar a afeio de minha Flvia.
        - Isso no  verdade! - indignou-se Flvia. - Amo Fabrcio como qualquer me ama
seu filho, assim como amava Adriano. E amo voc como meu marido, meu companheiro,
        meu amigo. Por que no pde sentir o mesmo?
        - O corao escolhe caminhos que no podemos controlar, Flvia. Pensa que no fiz
o possvel e o impossvel para amar Fabrcio como meu filho? Fiz. Quantas vezes
        no disse a mim mesmo que essa coisa de sangue  besteira? Eu mesmo tenho
amigos que tm filhos adotados. E fui o primeiro a incentiv-los a adotar. Mas comigo,
        no sei... A coisa funcionou de outro jeito.
        - Talvez seja porque o amor no est ligado aos laos de sangue nem de famlia -
acrescentou Fabrcio. - Est ligado aos laos do corao. No sei o que fiz a voc,
        Paulo, mas tenho certeza de que, nesta vida, no cometi nada que pudesse desgost-
lo...
        Apesar do desconforto que sentia toda vez que Fabrcio proferia aquele Paulo, ele
continuou a desabafar:
        - No. Na verdade, Fabrcio, voc no fez nada. Apenas existiu. No pude am-lo,
no o queria, mas tinha de aceit-lo, conviver com voc. Foi muito difcil... Quantas
        vezes no me culpei? Quantas vezes no chorei em silncio minha frustrao?
Ningum nunca soube e, at agora, ainda no tive coragem de contar nada a ningum. Nem
        a meus pais, nem a meus amigos... a ningum. Fico
        repetindo para mim mesmo que voc no tem culpa. Era apenas um beb. Que culpa
teria? Culpa de ter nascido no meio daquela guerra idiota, de ser filho de judeus?
        - Nenhuma - respondeu Fabrcio. - No tive culpa nenhuma. Assim como voc
tambm no  culpado de no me amar. Ns apenas cumprimos nossos destinos, o destino
que
        escolhemos para ns mesmos.
        - Por que diz isso? - retrucou Paulo surpreso.
        Seria impossvel descrever a angstia que assolava o corao de Fabrcio naquele
momento. Uma infinidade de sentimentos se misturava dentro dele: raiva, medo, frustrao,
        desmerecimento, tristeza... Contudo, de uma coisa estava certo: ele e o pai estavam
apenas seguindo o rumo que haviam traado para si mesmos. No sabia dizer ou
        definir o que seria. Mas sua alma tinha a certeza de que aqueles sentimentos haviam
nascido no naquela vida mas em outra, mais remota, da qual no tinha conhecimento
        ou lembrana.
        Ele suspirou com desgosto e retrucou, tentando conter o turbilho de emoes que o
sacudia:
        - Porque temos muitas vidas e, como disse, nesta no fiz nada que pudesse provocar
tanto dio. Contudo, Paulo, se em alguma vida passada eu lhe causei algum mal,
        peo-lhe que me perdoe. Do fundo de meu corao, s o que queria era que voc
pudesse esquecer e me perdoar, porque eu j o perdoei...
        Calou-se emocionado. Nem mesmo ele sabia por que dissera aquilo. Mas o fato era
que sua alma, inconscientemente conhecendo todos os meandros de seu drama, arrependia-
se
        sinceramente da traio que cometera, e Fabrcio, movido por pura emoo, deixara
escapar aquele desabafo.
        Flvia chorava de mansinho, e Paulo olhou para ela, como que buscando uma
explicao. No conhecia nada do mundo espiritual e no entendia bem o que estava se
passando.
        Mas sua alma, assim como a de Fabrcio, imediatamente reconheceu o sentimento
do filho, porque nele encontrou eco, e sua primeira reao, a mais genuna, foi estreitar
        Fabrcio em seus braos e pedir-lhe para cham-lo de pai novamente. Subitamente,
sentiu que no o odiava como pensava. Estava apenas ferido, magoado, sentido. Com
        o qu? No sabia. Mas aquelas palavras, ditas de forma to sincera e amorosa,
haviam
        no tocado bem no fundo, e toda aquela indefinvel sensao de medo e traio,
subitamente, desaparecera.
        Aquela revelao deixou-o desconcertado. Tocado pelas vibraes de amor e perdo
que emanavam de Fabrcio, alm daquelas que os espritos amigos trataram de espalhar
        pelo ambiente, Paulo quase o abraou. Chegou a dar dois passos em sua direo,
estendendo-lhe a mo, que susteve no ar e fechou, deixando o brao cair ao longo do
        corpo.
        - No posso... - gemeu derrotado.
        Com indescritvel tristeza, Fabrcio apanhou a mala que havia deixado no cho e
caminhou para a sada do apartamento. Lentamente, rodou a maaneta, abriu a porta
        e partiu, sem olhar para trs.
        - Fabrcio, volte! -gritou Flvia. -No v assim!
        Fabrcio no lhe deu ouvidos. A passos vagarosos, foi andando pelo corredor e
chamou o elevador. Entrou e apertou o boto da garagem. Sabia que a me iria atrs
        dele, mas no estava disposto a esper-la. Falhara em sua misso. No conseguira
conquistar o amor do pai.
        Depois que a porta do elevador se fechou, Flvia voltou para dentro. Paulo, parado
na janela, olhar perdido, olhava para a espuma branca que rolava pela escurido
        do mar.
        - Como pde fazer isso? - perguntou Flvia, mal contendo a raiva. - Como pde
deixar seu filho partir pela segunda vez?
        Angustiado, Paulo passou a mo pela testa e comeou a se virar para ela, parando a
meio e olhando para a rua. O homem, como sempre, l estava, parado perto da costumeira
        rvore. Ele andava de um lado para o outro e, ao levantar o rosto, a luz do poste o
atingiu por uns momentos, e, numa frao de segundos, Paulo, finalmente, o reconheceu.
        Era o marido daquela Selena... como se chamava mesmo? No se lembrava, mas
isso no tinha a menor importncia. Vira-o apenas uma vez, naquele dia, no frum. Como
        pudera esquecer-se de seu rosto? Mas agora tinha certeza. Era ele mesmo. O que
estaria fazendo ali?
        Subitamente, compreendeu tudo. O homem fora considerado culpado pela separao
e devia saber do envolvimento de Fabrcio com sua ex-mulher. Estava ali para vigi-lo.
        Para qu? Ser que estava pensando em fazer algum mal ao filho?
        O filho... Foi s ento que se deu conta de que no podia permitir que o destino lhe
roubasse o nico filho que ainda lhe restava. Por mais que o houvesse rejeitado,
        Fabrcio era seu filho. Fora registrado com seu nome, herdaria seus bens. Para todos
os efeitos, era seu filho, e o instinto de proteo, por mais estranho que pudesse
        lhe parecer, falou mais alto dentro dele e, sem dar ateno aos protestos da mulher,
saiu correndo porta afora.
        Passavam quinze minutos das dez quando ele alcanou a portaria, no mesmo
instante em que o carro de Fabrcio passava pelo porto da garagem. Fabrcio passou, freou
        o automvel e abriu a porta. quela hora, no havia mais porteiro, e ele precisava
fechar o porto. No mesmo instante, Paulo percebeu que o homem se aproximava e
        viu quando ele levou a mo  cintura, apalpando o que deveria ser uma arma.
        Desesperado, Paulo comeou a correr. Alcanou o filho no momento em que
Cassiano se acercava dele, sacando a pistola da cintura e fazendo pontaria. Foi tudo muito
        rpido. Paulo s teve tempo de gritar:
        - Fabrcio!
        Sem pensar duas vezes, Paulo introduziu o corpo entre Fabrcio e Cassiano no exato
instante em que a arma disparava, atingindo-o pelas costas, bem na altura do corao.
        A bala perfurou seu pulmo e se alojou no peito, perto do corao, e Fabrcio,
apavorado, segurou o corpo do pai, que foi tombando, tombando, at cair no cho, envolto
        em uma poa de sangue.
        Vendo que acertara o homem errado, Cassiano guardou a arma, deu meia volta e
saiu correndo, deixando os dois homens abraados no meio da rua. Alguns transeuntes
        que por ali passavam, assustados, se aproximaram e quedaram estarrecidos. Pai e
filho, abraados, trocavam suas ltimas palavras.
        - Paulo... - balbuciou Fabrcio. - Pai...
        - Fabrcio... - tornou Paulo emocionado. - Meu filho...
        Cerrou os olhos, e sua cabea tombou. Revoltado e coberto de angstia, Fabrcio
pousou a cabea de Paulo no cho e correu atrs de Cassiano, que j havia ganhado
        uma certa distncia dele.
        - Pare! - gritava Fabrcio. - Segurem esse homem!
        Cassiano corria o mais que podia. A rua, quela hora, j estava meio vazia, mas um
carro da polcia vinha fazendo a ronda noturna.
        Ao ver Fabrcio correndo atrs de Cassiano, os policiais desconfiaram de que
alguma coisa havia acontecido. Cercaram-no com a viatura, e ele foi obrigado a parar,
        para no ser atropelado. Fabrcio chegou pouco depois, dizendo ofegante:
        - Esse homem... matou... Matou meu pai...
        Imediatamente, os policiais seguraram Cassiano e o colocaram dentro do carro, ao
lado de um dos guardas. Fabrcio entrou na frente e deu-lhes a direo. Pouco depois,
        a patrulha chegou  porta do prdio em que Paulo vivia.
        Na calada, estirado junto ao jaguar vermelho, o corpo de Paulo jazia, o sangue se
espalhando ao redor, tendo ao lado Flvia, que, corpo dobrado sobre si mesma,
        chorava em silncio.
        Ao despertar na espiritualidade, Paulo no sabia bem o que havia acontecido. Estava
ainda confuso, sentindo uma forte dor no peito. Contudo, no foi difcil convenc-lo
        de que havia morrido. Ao desencarnar, ainda guardava na memria a cena do filho
saltando do carro e daquele malfeitor indo a seu encontro. Lembrava-se do estampido
        seco, da dor aguda no peito, do corpo que sentiu desfalecer e cair no cho. A todo
instante, ouvia suas ltimas palavras, que foram endereadas a Fabrcio:
        - Fabrcio... Meu filho...
        Depois disso, sentiu que perdia a conscincia e, quando acordou, j estava no quarto
do hospital da colnia, entregue s mos dos mdicos do espao. Embora achasse
        tudo aquilo muito estranho, pois passara a vida acreditando que a morte era o fim,
logo se acostumou. No foi resistente. Ao contrrio, aceitou ajuda e pediu para
        ser esclarecido.
        Ao ver Adriano entrar em seu quarto, trazido pelas mos do sogro, que nem chegara
a conhecer, Paulo no conseguiu conter o pranto. O filho aproximou-se dele e estreitou-o
        em seus braos, dizendo com ternura:
        - Papai... Seja bem-vindo. No fique triste. A morte no  o fim.
        Paulo olhou-o com profunda emoo e acrescentou:
        - No. Nem  o comeo. E a continuidade da vida. Hoje percebo quanto fui injusto,
quanto errei...
        - No se culpe, Paulo - objetou Ismael. - A culpa s servir para mant-lo preso aos
erros do passado. Aceite as coisas como so.
        - Mas... Como pude fazer o que fiz a meu prprio filho?
        - Se est se referindo a Fabrcio, quero que se lembre de que salvou sua vida.
        Um sorriso iluminou o rosto de Paulo, que acrescentou:
        - Sim. Ao menos isso. Meu filho vive...
        - Graas a seu amor - esclareceu Ismael. - S quem ama  capaz de se sacrificar do
jeito como voc fez. No por herosmo, nem por culpa, nem por dever. Mas por amor.
        Pura e simplesmente, por amor.
        - Amor? Ser?
        - Diga-me, Paulo - prosseguiu Ismael. - Como se sente ao saber que deu sua vida em
troca da de Fabrcio? Aliviado? Leve? Satisfeito?
        - Feliz...
        - Isso  amor. S a verdadeira renncia, aquela que  feita em nome do amor, traz o
sentimento da felicidade. Quem se sacrifica por medo ou culpa, por exemplo, pode
        sentir alvio e satisfao do dever cumprido. Mas quando se segue o impulso do
corao, apenas por acreditar que o que est fazendo  o certo, sem pesos, sem culpas,
        sem medos, sem obrigaes, est-se agindo em nome do amor genuno. O sacrifcio
no  nenhum fardo pesado para se carregar. Ao contrrio, torna-se leve e livre de
        justificativas ou explicaes. Voc se sacrificou apenas porque, para voc, era o
mais certo a fazer naquele momento. Isso  muito importante. Quando fazemos um
        sacrifcio por algum, precisamos fazer porque  naquilo que acreditamos, no
porque o outro ficar bem ou contente, mas porque ns  que nos sentiremos gratificados
        e felizes com nossa atitude. A, ento, saberemos que fizemos por ns mesmos e que
o bem-estar do prximo foi mera conseqncia.
        Paulo chorava de mansinho. Agarrado a Adriano, desabafou: - Ah, meu Deus!
Como fui tolo! Por que joguei fora a chance
        de ser feliz ao lado de meu filho, do nico filho que me restou? - No tem agora seu
outro filho de volta? Paulo olhou-o confuso e balbuciou:
        - Sim... Mas  diferente... Adriano est bem, no precisa de mim... Mas Fabrcio...
Fabrcio foi rejeitado.
        - Pois saiba que Adriano precisa muito mais de voc do que Fabrcio.
        Ante o olhar atnito de Paulo, Adriano aquiesceu:
        -  verdade, pai. Fabrcio compreende muito mais as coisas do que eu. Pode-se dizer
que somente agora estou comeando a entender e aceitar. Estou engatinhando; ele
        j caminha com as prprias pernas.
        Durante muito tempo, Paulo permaneceu na colnia, estudando, orando, perdido em
palestras elucidativas e edificantes. Rememorou o passado, entristeceu-se com ele,
        mas acabou aceitando e entendendo o que acontecera. Encontrou Helga e Werther, e
foi s ento que ficou conhecendo toda a histria de Fabrcio, desta vida e de outra.
        - Mas por que Fabrcio teve de ser adotado? - perguntou ele a Ismael. - O que ele fez
para sofrer a dor da rejeio? Que eu saiba, ele nunca rejeitou ningum.
        - Apesar de amar Selena, Fabrcio no conseguiu vencer a culpa por hav-lo trado.
Para ele, rejeitou o amor daquele que o acolhera como filho, e isso vivia a atorment-lo.
        Mesmo aps deixar sua casa, naquela vida, no conseguiu se perdoar e jamais pde
ser feliz com Selena, ou Paola, porque achava que a havia tomado de voc. Em seu
        corao, sentia-se ingrato e prfido, acreditando no ter valorizado o amor e a
oportunidade que voc lhe tinha dado, salvando-o da orfandade e da misria.
        Aos poucos, Paulo foi compreendendo tudo. De tempos em tempos, pedia notcias a
Ismael. Foi assim que ficou sabendo que Cassiano fora preso em flagrante e aguardava
        julgamento na cadeia. Seu irmo, Anbal, embora no pudesse ser acusado de
nenhum crime, com medo de ser perseguido e preso, fugiu para o norte e nunca mais deu
        notcias.
        Clarinha vivia sozinha em seu apartamento e se dava muito bem com Otvio,
homem culto, inteligente e bastante avanado para seu tempo.
        Flvia, por sua vez, alugara seu apartamento em Copacabana e se mudara para a
casa da me. No queria mais viver no lugar em que fora feliz durante quase toda a
        sua vida e que, ao mesmo tempo, fora palco de to tristes acontecimentos: a morte
do filho e do marido, a tristeza de Fabrcio. Voltaria a viver com a me, na casa
        que representara toda a sua alegria de infncia. Ela e Ins se davam muito bem e
estavam felizes com a companhia uma da outra.
        - E Fabrcio? - perguntou Paulo certa vez. -No quer descobrir pessoalmente?
        Embora indeciso, Paulo acabou concordando. No dia seguinte, em companhia de
Ismael e Adriano, foi visitar Fabrcio em sua nova casa.
        Logo que chegaram, sentiram um agradvel aroma de flores invadindo toda a casa, e
uma melodia suave, como de uma caixinha de msica, partia de um quarto no fim
        do corredor.
        Em silncio, os trs se encaminharam para l. Entraram vagarosamente. Sentada
numa cadeira de balano, Selena embalava uma criana pequenina, e Fabrcio, a seu lado,
        estendia sobre o bero uma roupinha branca, toda bordada.
        -  esta? - indagou baixinho, para no acordar o beb. Selena aquiesceu sorrindo e
voltou a ateno para a criana, que dormia placidamente em seu colo.
        - Mame- disse Selma, j com seus sete ou oito anos. - Vov Ins telefonou dizendo
para voc no se esquecer de levar a manta branca que ela tricotou. Disse que
        est fazendo muito frio.
        Selena aquiesceu novamente, e Selma saiu correndo com uma boneca na mo. Em
silncio, Selena se levantou e, cuidadosamente, ps-se a vestir a criana. De onde estava,
        Paulo acompanhava tudo. Viu quando ela trocou suas fraldas e notou que era um
menino.
        - E meu neto? - indagou a Ismael.
        - E, sim.
        Ele voltou a ateno para o neto. Selena acabou de troc-lo, vestiu-o com a roupinha
branca, apanhou a manta na gaveta e enrolouo nela.
        - Tudo pronto? - perguntou Fabrcio.
        - Tudo.
        - Ento vamos.
        Ele saiu na frente e foi chamar as crianas. Selma apareceu novamente, e Fabrcio,
com um sorriso amoroso, afagou sua cabecinha e elogiou:
        - Voc est muito linda! Parece uma princesa.
        - Obrigada, papai - respondeu ela, puxando-o para baixo e beijando-o no rosto.
        Paulo voltou os olhos para Ismael e Adriano, e um grito chamou sua ateno:
        - Papai, papai! - era Carlinhos que vinha correndo, trazendo nas mos um carrinho
sem rodas. - Quebrou...
        - No faz mal - consolou Fabrcio. - Quando voltarmos, papai conserta. Agora
vamos.
        Gentilmente, retirou o carrinho das mos do menino e colocou-o sobre o mvel da
sala. Abriu a porta da rua, dando passagem a
        Selena e s crianas, e foram apanhar o carro. Fabrcio e Selena moravam numa
bonita casa, com quintal, jardim e at um pequeno
        pomar. Queriam que os filhos crescessem em liberdade, e um apartamento seria
muito pequeno para comportar trs crianas alegres e saudveis.
        Enquanto eles entravam no carro, Paulo questionou: - Fabrcio adotou os filhos de
Selena?
        - Sim. Cassiano renunciou ao ptrio poder para que Fabrcio pudesse adot-los.
        - Por qu? Por que algum faria uma coisa dessas?
        - Para fugir a suas responsabilidades de pai. Sorte a de Fabrcio. Ele ama os filhos
de Cassiano como se fossem seus. E o so. Em seu
        corao, so mesmo seus filhos, assim como o foram em outra vida, juntamente
com Ins.
        - No diga! - fez Paulo abismado. - Por isso se afinam tanto! - Para voc ver como
nada acontece ao acaso. Emocionado, Paulo tentava conter as lgrimas e desabafou:
        - Foi muito bonita essa atitude de Fabrcio.
        - Sim.  a beleza do amor. Fabrcio ama os trs igualmente, embora os dois
primeiros no sejam seus filhos de verdade.
        Paulo baixou a cabea envergonhado e murmurou: - Exatamente o que eu no soube
fazer.
        - No se culpe, Paulo. Sinta-se feliz em ver que sua experincia serviu para que seu
filho no a repetisse.
        - E verdade, pai - acrescentou Adriano. - E pode estar certo de que aqueles trs se
amaro como verdadeiros irmos, assim como
        Fabrcio e eu deveramos ter nos amado.
        Chegaram  igreja. A famlia toda l estava reunida. Os pais de Paulo, sua irm e o
marido, Flvia e a me, Feliciano e tantos outros.
        Clarinha e Otvio, parados no altar, esperavam que Selena lhes entregasse a criana.
Seriam os padrinhos.
        - Meus pais j sabem? - perguntou Paulo, de repente.
        - Que Fabrcio no  neto deles de verdade? - ele assentiu. - Sabem. - E...?
        - E nada. Ficaram surpresos e confusos, mas aceitaram com naturalidade. Amam
Fabrcio como seu neto e nada ir mudar isso.
        Paulo novamente calou-se emocionado. Somente ele e Adriano no conseguiram
entender.
        - Ns conseguimos entender-respondeu Adriano, lendo-lhe os pensamentos. - S
que custamos um pouco mais. Cada um tem seu tempo.
        Flvia estava sentada logo na primeira fila, e Paulo aproximou-se. Durante alguns
segundos, ficou estudando seu rosto. Era o semblante de uma mulher madura e sofrida,
        porm havia nele uma luminosidade diferente, fruto da serenidade que encontrara.
Ele seguiu a direo do olhar dela e viu que pousava sobre o neto. Flvia estava
        radiante com a criana.
        No conseguindo conter a emoo, Paulo beijou-a suavemente na face, e Flvia
levou a mo ao rosto, como se tivesse sentido a doura daquele beijo. Sorriu para si
        mesma e pensou no marido e em Adriano, e sentiu imensa saudade de ambos. Como
gostaria que estivessem ali, participando daquele momento de alegria!
        Paulo beijou-a novamente e sussurrou em seu ouvido:
        - Eu a amo, Flvia. E a Fabrcio tambm...
        A voz do padre se fez ouvir, e todos voltaram sua ateno para ele.
        - Meus filhos, estamos hoje aqui reunidos para celebrar a cerimnia de batismo
deste filho... - E, no ouvido de Clarinha: - Qual o nome da criana?
        Clarinha olhou para o menino e sorriu. Em seguida, ergueu os olhos para o altar,
onde a imagem de Jesus os fitava com amor, e respondeu emocionada:
        - Paulo... Paulo Adriano.
        Paulo olhou para Adriano com espanto e percebeu, pelo brilho de seu olhar, que ele
j sabia de tudo. Ele estendeu a mo para o pai e, com voz que a emoo embargava,
        convidou:
        - Venha, pai. Venha ver de perto seu neto. Meu sobrinho...
        De mos dadas, caminharam at o altar, onde Paulo Adriano esperneava, cabecinha
erguida sobre a pia batismal. Viram quando o menino abriu os olhos, assustado com
        a friagem da gua que lhe batia em cheio na testa e, diante daqueles cristalinos olhos
azuis, ouviram emocionados as palavras do padre:
        - Eu o batizo, Paulo Adriano...
        Mos estendidas sobre o pequeno, elevaram seus pensamentos a Deus, derramando
sobre ele todo o amor que, agora sabiam, nunca deixara de existir.
